O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
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terça-feira, 28 de maio de 2013
Edição argentina de Cálcio e lançamento de Musulmán o biopoética, de Julián Axat
Lançarei na Argentina, nesta quarta-feira, 29 de maio, às 18:30h, no Salón Auditorio Islas Malvinas (La Plata, calle 19 esq. 50) a tradução para o espanhol de Cálcio, livro de poesia que saiu originalmente pela editora Averno, de Lisboa, a convite de Manuel de Freitas. Agora, ele integra a coleção Los detectives salvajes (da editora Libros de la talita dorada), que congrega obras de autores que foram vítimas do terror de Estado, bem como escritores que abordem temas afins: http://librosdelatalitadorada.blogspot.com.br/2013/04/padua-fernandes-calcio.html
O poeta Aníbal Cristobo, argentino que viveu algum tempo no Brasil, tem bastante experiência com a poesia em português (por sinal, estreou em livro no Brasil, com Teste da Iguana) e hoje está na Espanha, fez a tradução. A capa continua a aproveitar a arte de Cláudio Mubarac.
Os poemas do livro tratam de tais assuntos: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/11/novo-livro-calcio.html. Recentemente, Leonardo D'Ávila escreveu resenha sobre a edição portuguesa para o Sopro: http://culturaebarbarie.org/sopro/resenhas/calcio.html#.UaQ2MpwQNOY
Julián Axat, o editor da coleção, lançará na mesma ocasião o seu próprio Musulmán o biopoética. O título já revela o Agamben que está presente nesta poesia, dedicada aos menores pobres na Argentina, cuja situação, Axat o sabe desde sua experiência como defensor judicial em La Plata, não pode ser descrita apenas como "em conflito com a lei" (como usualmente se diz no direito). E, em analogia aos escrachos, escreveu: "Se não há justiça/ há poesia": http://librosdelatalitadorada.blogspot.com.br/2013/04/julian-axat-musulman-o-biopoetica.html
Creio que os dois livros têm em comum não questões formais (as soluções que encontramos, cada um em sua língua, são diferentes), e sim temas de biopolítica. É uma honra para mim aparecer com Axat, um dos melhores poetas de sua geração em língua espanhola nos dois lados do Atlântico.
Clicando sobre as imagens, as contracapas poderão ser lidas; Axat escreveu a de meu livro; Guido L. Croxatto, a de Musulmán.
Participará do lançamento o jornalista Horacio Cecchi, do Página 12.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Antologia de viagem: Argentina II
Esta nota é uma continuação da anterior. Como antes, escolhi apenas um poema de cada livro, e não se trata de uma seleção dos melhores da poesia argentina de hoje (o que seria pretensioso), mas apenas dos autores que li nesta viagem, que logo acabará.
Jorge Boccanera e Mariel Manrique voltam a aparecer, pois comprei duas obras de cada um.
Jorge Boccanera (Bahía Blanca, 1952), de Sordomuda (3a. ed., Buenos Aires: Ediciones del Dock, 1998).
Galeria de coisas inúteis
Tudo o que não é útero
é intempérie.
(escutado de um vizinho de Bahía Blanca)
Como nasce o poema?
Pense em uma palmeira crescendo dentro de um anão.
(escutando um espectador)
Não é o cachorro que primeiro sente o cheiro de medo no homem.
É a mulher.
(escutado de um paroquiano do bar Paraíso)
Construímos um refúgio antiaéreo
e a bomba estava dentro do nosso.
(escutado de um rock and roll)
Mariel Manrique (Buenos Aires, 1968), de Descartes en Holanda (Buenos Aires: Paradiso, 2010).
A tumba inquieta
II
Meu crânio foi separado de meu corpo.
Bendita dualidade.
Roubou-se, extraviou-se, leiloou-se.
Vendeu-se, comprou-se e revendeu-se
durante séculos.
Como um automóvel,
como um conjunto de móveis,
como uma ação na bolsa.
Manuseado.
Submetido aos gênios do comércio,
às sucessivas assinaturas carimbadas
pela avareza de seus proprietários.
"É meu, meu, meu",
terão dito, urinando
e contabilizando mentalmente
a extensão de seus fluxos
monetários.
Até que o demônio conserve sua cabeça.
É a única coisa que não lhe podem tirar.
Nicolás Prividera (Buenos Aires, 1970), de restos de restos (City Bell: De La Talita Dorada, 2012).
A poesia segundo Auschwitz
Se foi possível a poesia
antes de Auschwitz
Por que não Auschwitz
depois da poesia?
Se foi possível a poesia
em Auschwitz
Por que não Auschwitz
depois da poesia?
Se foi possível a poesia
depois de Auschwitz
Por que não Auschwitz
depois da poesia?
Rosa María Pargas (Gualeguaychú, 1949, desaparecida em 1977), de Hubiera querido (City Bell: De la Talita Dorada, 2011)
Já não te confundes
ao dizer os verbos.
Já não mais tuas mãos,
já não mais teus beijos.
Foi como uma prova
que não logrou,
terminou o ensaio.
Já não mais açúcar
para o teu cavalo.
Santiago Sylvester (Salta, 1942), de La palabra y (Buenos Aires: Ediciones del Dock, 2010)
0000000000000000000000000000000000(a precisão)
Segundo o teólogo James Ussher (de quem
não sei mais nada)
o mundo foi criado no domingo 23 de outubro do ano 4004 a.C.
à noite.
0000000Esta precisão
assegura o fato principal: o restante foi desordem até hoje, inclusive Darwin.
Entretanto, a partir desse teólogo (em crise, como
todo teólogo) é possível acrescentar outro dado: na quinta-feira passada,
00024 de julho do ano 2008 da era cristã,
o mundo terminou surpreendentemente às quatro horas da tarde: uma hora
000bela
para dar algo como terminado.
Desde então vivemos em expectativa
sem saber que estamos em um mundo ausente de que, apesar de seus méritos,
ninguém voltou a sentir falta.
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sexta-feira, 20 de julho de 2012
Antologia de viagem: Argentina
Em viagens, há os livros que levamos e também aqueles que descobrimos. E os livros também podem nos abrir caminhos.
Como estou em Buenos Aires desde segunda-feira, pude encontrar autores cujos livros não estão disponíveis no Brasil. Aqui, nestes esboços de tradução, uma brevíssima amostra.
Jorge Boccanera (Bahía Blanca, 1952), do livro Palma Real (Buenos Aires: Ediciones Continente, 2009).
Emiliano Bustos (Buenos Aires, 1972), do livro gotas de crítica común (City Bell: De la Talita Dorada, 2011).
Alejandro Crotto (Buenos Aires, 1978), do livro Abejas (1a. reimpr., Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).
Mariel Manrique (Buenos Aires, 1968), do livro Cómo nadar estilo mariposa (Buenos Aires: Paradiso, 2011)
Gabriel Reches (Buenos Aires, 1968), do livro es el fin del mundo, tía Berta (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).
Como estou em Buenos Aires desde segunda-feira, pude encontrar autores cujos livros não estão disponíveis no Brasil. Aqui, nestes esboços de tradução, uma brevíssima amostra.
Jorge Boccanera (Bahía Blanca, 1952), do livro Palma Real (Buenos Aires: Ediciones Continente, 2009).
XXX
A prova de que deus existe
é a selva
feita a mão.
A prova de que a mão existe
é a selva.
A prova de que a selva existe
é a ausência de deus.
Emiliano Bustos (Buenos Aires, 1972), do livro gotas de crítica común (City Bell: De la Talita Dorada, 2011).
Montoneros
Quanta distância: do exército Libertador
à igreja. Do exército Libertador
ao exército Libertador. À igreja. Tinha que
ver a pátria de forma flutuante, sobre
os cadáveres e toda a semeadura marcante
de 55. Todos os pais, que odiavam Perón,
fizeram-nos mais peronistas do que qualquer dado
fático. Os anos de restrição e silêncio foram
os anos de mistério infinito, de doutrina. Como
um grande ator submergido nas poderosíssimas
águas da distância, os líder lhes foi desenhando
uma autoestrada moral verdadeiramente de gelo:
a juventude maravilhosa. Talvez grandes colégios
e universidades e famílias quebrassem seus cofrinhos
derramando o melhor, mas é impossível que tantas
ovelhas negras saíssem de um só rebanho. Há ovelhas
negras em toda parte, porém baixam das colinas
com diferentes estilos e dialetos. O exército
Libertador esperou-as abaixo e subiram juntos;
em todas as revoluções em todas as épocas.
Mas talvez isso fosse simplesmente uma rebelião
de pais contra filhos. Isso e muito mais. Porque
o movimento tinha desenhado tantos círculos que
em pistas diversas dançavam as classes como planetas
beneficamente instalados na consciência agrária
das coisas justas. A juventude maravilhosa.
Entre o 55 e o 70 o molde do peronismo
futuro, presente passado. Que peronismo?
Em qual dos peronismos foram
amadurecendo esses quadros? Por ordem de ninguém
embora tacitamente combinados se reuniram ao grande
exército Libertador, e acreditaram, secretamente, na
igreja, nos militares e em seu líder, furiosamente
obsequiado. A juventude maravilhosa. Morreram
pobres todos os que morreram, os que caíram
caíram, mas intrigam ainda as traições
de dentro e de fora formando uma coluna
que ainda não foi expulsa da Praça.
Alejandro Crotto (Buenos Aires, 1978), do livro Abejas (1a. reimpr., Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).
Carregada
Inteiramente grávida avança na primeira luz do dia.
De repente para
e tensa agarra-se com as mãos, olha o céu,
bufa várias vezes.
Forte, carregada,
retoma decidida seu caminho
e no qual passa sua iminente queda.
Mariel Manrique (Buenos Aires, 1968), do livro Cómo nadar estilo mariposa (Buenos Aires: Paradiso, 2011)
O salto
XL
"... segundo o perito médico forense que intervém na causa, os trabalhos de identificação avançam lentamente, dado o tempo de transcorrido entre a data provável do óbito (devido à asfixia por imersão) e a descoberta do corpo entre as pedras da costa, assim como o ataque do corpo pelas distintas espécies de peixes que costumam estar na mencionada zona marítima ... fontes confiáveis indicam que corresponderia a uma mulher de meia-idade e estatura mediana ... encontraram-se restos de uma calça jeans e uma camisa brança aderidos à estrutura óssea ... assim como grossas mechas de cabelo escuro ... e um anel de prata com as iniciais apagadas ..."
nado nua.
tenho a cabeça raspada e uma comprida cauda animal.
não sou essa mulher de que falam.
Gabriel Reches (Buenos Aires, 1968), do livro es el fin del mundo, tía Berta (Buenos Aires: Bajo la Luna, 2012).
Chegamos até aqui e foi demais
devemos agradecer pela emoção
de molhar a palha do ninho
não chores, tia Berta
no incêndio do campo o fogo é nosso
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quinta-feira, 6 de outubro de 2011
30 dias de leituras: Desaparecimento em Piñera
30 livros em um mês
Dias 20 e 21: Último livro que você leu & Melhor livro que você leu neste ano.
Por coincidência, estes dois tópicos acabaram se referindo à mesma obra. Na verdade, isso ocorreu por pura falta de tempo: como tive, nas duas últimas semanas, que preparar um artigo, 24 provas e duas palestras diferentes, a minha última leitura completa foi uma revisita aos Contos frios de Virgilio Piñera, em uma edição (que não acabei de ler) dos Cuentos completos. É claro que pouquíssimos livros poderiam concorrer com esse...
Piñera é um fenômeno: genial na prosa, no teatro e na poesia, teve que viver em uma revolução, a cubana, em que foi um maldito e marginal por sua literatura e sua homossexualidade (há paralelos entre ele e seu contemporâneo Lezama Lima - mas a literatura deles é muito diferente). Na Argentina, vivendo em condições modestas, conheceu Borges (que o publicou) e Gombrowicz (Piñera ajudou a traduzir o genial Ferdydurke do escritor polonês); mas não conseguiu viver longe de Cuba. Na ilha, foi preso, impedido de publicar e teve seus escritos confiscados. Na novela Presiones y diamantes, busca-se um diamante, Delphi, muito admirado, mas que se revela falso...
O livro foi proibido, evidentemente. Tenho essa primeira edição, de 1967, que meu pai encontrou em Cuba (um livro usado) nos anos 1980, ainda antes de Sarney reatar relações diplomáticas com aquele país. E outra mais recente, de 2002, com Pequeñas maniobras - o escritor voltou a ser editado naquele país.
Cuentos fríos, de 1956, é pouco anterior à Revolução. Ele foi publicado pela Iluminuras; não tenho essa edição, e não encontro, no portal da editora, o nome de quem o traduziu.
O livro começa com uma vertigem: "La caída"; dois alpinistas, quando começam a descer uma montanha, caem e, enquanto vão perdendo órgãos pelo caminho, tentam proteger-se - de um, os olhos; de outro, a barba. Até que...
O motivo do corpo a despedaçar-se, da carne debandada, aparece em diversos momentos e ganha cores abertamente políticas desde o segundo conto, "La carne": a população, com falta de carne, descobre a autofagia e começa a cortar filés de si mesma. Vejam a ironia do escritor:
Enquanto o povo não dirigir sua fome para outros alvos, as sublevações serão inofensivas.
Nesse livro encontramos algumas das formulações literárias mais geniais da questão dos desaparecimentos - na América Latina, certamente, mas em qualquer lugar, com efeito. No entanto, creio que ser latino-americano predispõe a tratar desse tipo de crime. Já fiz uma nota sobre a questão dos desaparecimentos em nosso continente, o que levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a criar uma jurisprudência muito inovadora nesse campo (no meu livrinho Para que servem os direitos humanos?, mencionei esse pioneirismo da Corte no direito internacional).
A grande literatura de nosso continente, pelo menos no século XX, também não deixou de abordar o problema. Um caso recente foi o de Bolaño - o monumental 2666 é apenas o exemplo mais largo na obra do escritor chileno. Cem anos de solidão, outro monumento, de García Márquez, tem o episódio impressionante - e nada de fantástico, é realista tout court - do massacre de todo um povoado, com exceção do sobrevivente único, tomado por todos como louco. Entre os vivos, Julián Axat, como poeta e como editor, ocupa-se do tema.
Creio que se pode ler nessa chave contos como "En el insomnio", em que o insone morre mas não pode descansar - como os desaparecidos.
Os contos curtos do livro apresentam alguns paralelos com Kafka - Gombrowicz, em resenha do livro, escreveu que "Por cierto, Piñera se parece al checo y a ciertos autores surrealistas. Pero es también distinto. Y posee un singular talento narrativo." (não sei onde a resenha foi publicada; cito da biografia Virgilio Piñera en persona, de Carlos Espinosa, publicada em 2003 pela Ediciones Unión, que não dá muitas referências bibliográficas).
"La condecoración" lembra O veredito, "Cómo viví y cómo morí" parece condensar A metamorfose com "Diante da lei", o que é impressionante:
Em Piñera, ao contrário de Kafka, é a justiça que tem que abrir a porta; ela o faz, porém...
Outros momentos latino-americanos: "Lo fusilarían en la semana venidera.", a primeira frase de "El conflicto"; em "El gran Baro", lemos "Que vulgar expediente ese de fusilar y fusilar... Como si un estado de payasos tuviese que echar mano necesariamente a procedimientos gastadísimos." (uma passagem tão ferozmente irônica quanto os escritos sobre fuzilamentos de Julio Torri).
No longo conto final, "El muñeco", temos algo à altura e semelhança do Kleist de Sobre o teatro das marionetes. Também temos a imagem do boneco, que vai tomando o mundo humano, e o final em que temos o fim daquela sociedade. Em Piñera, no entanto, o final vem de uma sublevação (autêntica - das mãos de uma criança), não da escatologia.
Na época, Piñera responde em entrevista que "Son fríos estos cuentos porque se limitan a exponer los puros hechos." De fato, logo a revolução seria um fato, de que o próprio escritor se tornaria vítima.
Aproveito e deixo-os com uma tradução que fiz de poema de Piñera:
O poema foi publicado em La Gaceta de Cuba, n. 5, septiembre-octubre 1999, com outros inéditos.
Dias 20 e 21: Último livro que você leu & Melhor livro que você leu neste ano.
Por coincidência, estes dois tópicos acabaram se referindo à mesma obra. Na verdade, isso ocorreu por pura falta de tempo: como tive, nas duas últimas semanas, que preparar um artigo, 24 provas e duas palestras diferentes, a minha última leitura completa foi uma revisita aos Contos frios de Virgilio Piñera, em uma edição (que não acabei de ler) dos Cuentos completos. É claro que pouquíssimos livros poderiam concorrer com esse...
Piñera é um fenômeno: genial na prosa, no teatro e na poesia, teve que viver em uma revolução, a cubana, em que foi um maldito e marginal por sua literatura e sua homossexualidade (há paralelos entre ele e seu contemporâneo Lezama Lima - mas a literatura deles é muito diferente). Na Argentina, vivendo em condições modestas, conheceu Borges (que o publicou) e Gombrowicz (Piñera ajudou a traduzir o genial Ferdydurke do escritor polonês); mas não conseguiu viver longe de Cuba. Na ilha, foi preso, impedido de publicar e teve seus escritos confiscados. Na novela Presiones y diamantes, busca-se um diamante, Delphi, muito admirado, mas que se revela falso...
O livro foi proibido, evidentemente. Tenho essa primeira edição, de 1967, que meu pai encontrou em Cuba (um livro usado) nos anos 1980, ainda antes de Sarney reatar relações diplomáticas com aquele país. E outra mais recente, de 2002, com Pequeñas maniobras - o escritor voltou a ser editado naquele país.
Cuentos fríos, de 1956, é pouco anterior à Revolução. Ele foi publicado pela Iluminuras; não tenho essa edição, e não encontro, no portal da editora, o nome de quem o traduziu.
O livro começa com uma vertigem: "La caída"; dois alpinistas, quando começam a descer uma montanha, caem e, enquanto vão perdendo órgãos pelo caminho, tentam proteger-se - de um, os olhos; de outro, a barba. Até que...
O motivo do corpo a despedaçar-se, da carne debandada, aparece em diversos momentos e ganha cores abertamente políticas desde o segundo conto, "La carne": a população, com falta de carne, descobre a autofagia e começa a cortar filés de si mesma. Vejam a ironia do escritor:
Hubo hasta pequeñas sublevaciones. El sindicato de obreros de ajustadores femeninos elevó su más formal protesta ante la autoridad correspondiente, y ésta contestó que no era posible slogan alguno para animar a las señoras a usarlos de nuevo. Pero eran sublevaciones inocentes que no interrumpían de ningun modo la consumición, por parte del pueblo, de su propria carne.
Enquanto o povo não dirigir sua fome para outros alvos, as sublevações serão inofensivas.
Nesse livro encontramos algumas das formulações literárias mais geniais da questão dos desaparecimentos - na América Latina, certamente, mas em qualquer lugar, com efeito. No entanto, creio que ser latino-americano predispõe a tratar desse tipo de crime. Já fiz uma nota sobre a questão dos desaparecimentos em nosso continente, o que levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a criar uma jurisprudência muito inovadora nesse campo (no meu livrinho Para que servem os direitos humanos?, mencionei esse pioneirismo da Corte no direito internacional).
A grande literatura de nosso continente, pelo menos no século XX, também não deixou de abordar o problema. Um caso recente foi o de Bolaño - o monumental 2666 é apenas o exemplo mais largo na obra do escritor chileno. Cem anos de solidão, outro monumento, de García Márquez, tem o episódio impressionante - e nada de fantástico, é realista tout court - do massacre de todo um povoado, com exceção do sobrevivente único, tomado por todos como louco. Entre os vivos, Julián Axat, como poeta e como editor, ocupa-se do tema.
Creio que se pode ler nessa chave contos como "En el insomnio", em que o insone morre mas não pode descansar - como os desaparecidos.
Os contos curtos do livro apresentam alguns paralelos com Kafka - Gombrowicz, em resenha do livro, escreveu que "Por cierto, Piñera se parece al checo y a ciertos autores surrealistas. Pero es también distinto. Y posee un singular talento narrativo." (não sei onde a resenha foi publicada; cito da biografia Virgilio Piñera en persona, de Carlos Espinosa, publicada em 2003 pela Ediciones Unión, que não dá muitas referências bibliográficas).
"La condecoración" lembra O veredito, "Cómo viví y cómo morí" parece condensar A metamorfose com "Diante da lei", o que é impressionante:
[...] las cucarachas prosiguieron fielmente yendo y viniendo, revoloteando, despidiendo su olor nauseabundo, haciendo ese ruido horrendo con sus alas [...] y, en una breve iluminación de mis sentidos, percibí su peso tremendo, como una armadura encima de mis huesos. ¿Será aventurado pensar que la justicia, echando abajo mi puerta, lanza un grito de asombro al contemplar a la cucaracha más grande sobre la faz de la tierra?
Em Piñera, ao contrário de Kafka, é a justiça que tem que abrir a porta; ela o faz, porém...
Outros momentos latino-americanos: "Lo fusilarían en la semana venidera.", a primeira frase de "El conflicto"; em "El gran Baro", lemos "Que vulgar expediente ese de fusilar y fusilar... Como si un estado de payasos tuviese que echar mano necesariamente a procedimientos gastadísimos." (uma passagem tão ferozmente irônica quanto os escritos sobre fuzilamentos de Julio Torri).
No longo conto final, "El muñeco", temos algo à altura e semelhança do Kleist de Sobre o teatro das marionetes. Também temos a imagem do boneco, que vai tomando o mundo humano, e o final em que temos o fim daquela sociedade. Em Piñera, no entanto, o final vem de uma sublevação (autêntica - das mãos de uma criança), não da escatologia.
Na época, Piñera responde em entrevista que "Son fríos estos cuentos porque se limitan a exponer los puros hechos." De fato, logo a revolução seria um fato, de que o próprio escritor se tornaria vítima.
Aproveito e deixo-os com uma tradução que fiz de poema de Piñera:
Se nada vai salvar-me,
para que escrever
que nada se salvará...
Nesta manhã chuvosa
do dia 25 de outubro de 1962
tendo feito os acordos pertinentes
a humanidade está a ponto de
declarar-se demente.
Eu, um cidadão qualquer do mundo,
que habito na casa em N
número 3784, Havana, Cuba,
sentado na cama
em plena possessão de minhas faculdades mentais
tenho por bem declarar
que me tornei louco.
E, como tal,
e no uso de minha insânia
declaro
estar pronto para o holocausto.
O poema foi publicado em La Gaceta de Cuba, n. 5, septiembre-octubre 1999, com outros inéditos.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Leandro Rafael Perez e longos com máscaras
Esta é a apresentação que fiz para o livro de estreia do poeta Leandro Rafael Perez, Lança além do real só, lançado pela editora Patuá no mês passado.
Cartilagem e poesia
Pádua Fernandes
“Se a sereia gritar por socorro/ nem por isso deixa de matar o marinheiro”, escreve Leandro Rafael Perez; ao menos desde Homero, o canto das sereias é uma das vozes possíveis da poesia; ao menos desde Mallarmé, é necessário saber que elas dizem o nada – e o autor deste livro tem consciência disso: “a vastidão me espera em vão gorada nas orlas/ e de uma crueza triste junto ao cerne mofado./ Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.”
No entanto, a que nada se destina a lança além do real só? O livro propõe para si uma série de desafios, com risco de dispersão. Aquele que encontra mais êxito é o da voz que nasce das águas (“Quando chove em vários sentidos” é o verso mais retomado), busca singrar novas vias no corpo (“Gosto de fazer braços eloquentes:/ Não o exagero oceânico pianista/ que até as bailarinas têm, tufões,/ quero-os capazes de fist-fucking”) e questiona os gêneros: “trabalhar é homem ter bigodes fartos/ trabalhar é mulher ter os seios que quiser/ travesti bigodudo não tem cliente?/ Vem que a gente constrói um lar junto, meu bem.”; nesta singela oração, lemos “Que todo pai seja padre de um filho travesti.”
Ana Cristina Cesar releu a sereia e as águas pela via do corpo. Leandro Rafael Perez busca também fazê-lo, por paisagens noturnas: “procuro quais holofotes fizeram pélvis,/ pernas, triângulo escaleno, descalça, os seios oculares.”
Com isso, demonstra uma sensibilidade às vezes parente de Mário de Sá-Carneiro (em versos como “Se eu fosse mulher,/ iria a festas longos/ com máscara entre os cabelos”) e de Lúcio Cardoso (testemunha-o “Evite desperdiçar lares toda/ vez que tacar fogo numa casa”).
Quando lemos “cartilagem por sobre o furo perfeito só me esperando voltar a usar brinco cumprido de mulher.”, e o brinco não é comprido, mas algo que se propõe cumprir, uma promessa que se deseja realizar, passa-se a esperar o mesmo desta poesia. Esperar que ela possa tomar posse do corpo e, assim, cantar de acordo com o desejo:
Cartilagem e poesia
Pádua Fernandes
“Se a sereia gritar por socorro/ nem por isso deixa de matar o marinheiro”, escreve Leandro Rafael Perez; ao menos desde Homero, o canto das sereias é uma das vozes possíveis da poesia; ao menos desde Mallarmé, é necessário saber que elas dizem o nada – e o autor deste livro tem consciência disso: “a vastidão me espera em vão gorada nas orlas/ e de uma crueza triste junto ao cerne mofado./ Eu sempre soube que odiaria as gaivotas.”
No entanto, a que nada se destina a lança além do real só? O livro propõe para si uma série de desafios, com risco de dispersão. Aquele que encontra mais êxito é o da voz que nasce das águas (“Quando chove em vários sentidos” é o verso mais retomado), busca singrar novas vias no corpo (“Gosto de fazer braços eloquentes:/ Não o exagero oceânico pianista/ que até as bailarinas têm, tufões,/ quero-os capazes de fist-fucking”) e questiona os gêneros: “trabalhar é homem ter bigodes fartos/ trabalhar é mulher ter os seios que quiser/ travesti bigodudo não tem cliente?/ Vem que a gente constrói um lar junto, meu bem.”; nesta singela oração, lemos “Que todo pai seja padre de um filho travesti.”
Ana Cristina Cesar releu a sereia e as águas pela via do corpo. Leandro Rafael Perez busca também fazê-lo, por paisagens noturnas: “procuro quais holofotes fizeram pélvis,/ pernas, triângulo escaleno, descalça, os seios oculares.”
Com isso, demonstra uma sensibilidade às vezes parente de Mário de Sá-Carneiro (em versos como “Se eu fosse mulher,/ iria a festas longos/ com máscara entre os cabelos”) e de Lúcio Cardoso (testemunha-o “Evite desperdiçar lares toda/ vez que tacar fogo numa casa”).
Quando lemos “cartilagem por sobre o furo perfeito só me esperando voltar a usar brinco cumprido de mulher.”, e o brinco não é comprido, mas algo que se propõe cumprir, uma promessa que se deseja realizar, passa-se a esperar o mesmo desta poesia. Esperar que ela possa tomar posse do corpo e, assim, cantar de acordo com o desejo:
os meus braços quero tê-los assim gêmeos
como os teve minha vó ou meu tio bêbado,
eloquente e eloquente,
quero tê-los inteiros:
palma e dorso, axilas, cada detalhe,
pois não há cotovelo que sozinho baste
ante minha solidão eloquente, eloquente.
sábado, 18 de junho de 2011
Desbloqueando a cidade II: Marchando com Ana C.
Neste sábado haverá uma Marcha Nacional pela Liberdade em várias cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Fortaleza, Belo Horizonte, São Paulo, São Carlos... Trata-se de um processo desde a proibição (em algumas cidades) da Marcha da Maconha e a repressão policial em São Paulo em 21 de maio, com a subsequente realização da Marcha da Liberdade, sobre que escrevi há poucos dias.
Talvez eu não tenha ressaltado devidamente o caráter multifacetado da manifestação. Abaixo, vê-se cartaz no metrô de Santa Cecília, em que se anunciava a "Marcha das marchas", uma espécie de direito à política.


Participei da Marcha, assim como Fabio Weintraub, com o símbolo do #desarquivandoBR. Na nota que escrevi na ocasião, destaquei a questão dos crimes da ditadura militar. Muitas outras demandas, porém, estavam presentes, como o protesto contra o assassinato dos castanheiros e defensores da Floresta Amazônica José Cláudio e Maria do Espírito Santo. A Marcha fez um minuto de silêncio diante do Cemitério da Consolação em homenagem aos mortos. Abaixo, cartaz pela liberdade de expressão e contra a criminalização dos movimentos sociais. Um rapaz segura um cartaz "Planet Hemp".
A Marcha desceu, alcançou o Teatro Municipal de São Paulo (teria sido interessante que os corpos artísticos do Teatro, ainda antes da reinauguração, tivessem preparado algo para celebrar a Marcha, mas nada foi feito nesse sentido). Entrou na Barão de Itapetininga, sempre acompanhada por um grande efetivo policial, até chegar à Praça da República, onde se dissolveu sob a noite. Veja a bicicleta na Praça - os ciclistas também compareceram com suas demandas por uma outra cidade.









Algumas das demandas eram as de caráter especificamente feminino, como os chamados direitos reprodutivos. Depois, em junho, contra o machismo, veio a Marcha das Vadias. Não pude vê-la, mas, talvez inspirado por ela e por outras manifestações, aqui, no Marrocos, na Síria, na Espanha, falei de certa marcha em um dos poemas políticos mais surpreendentes da literatura brasileira: "21 de fevereiro" (leiam-no) de Cenas de Abril (livro recolhido a A teus pés) de Ana Cristina Cesar.
Quando estive no Voz do Autor no último dia 14, Fábio de Souza Andrade fez uma pergunta complexa a mim e a Eduardo Sterzi sobre o eu lírico. Respondi com Murilo Mendes ("A marcha das constelações me segue até no lodo") e Ana Cristina Cesar, a quem atribuí a qualificação de "poeta política", talvez para o escândalo de alguns presentes.
Esse poema, a que já me referi neste blogue - mas somente em sua dimensão lírica, da poeta dirigindo-se à sua "querida" - também apresenta uma marcha pública. Não é difícil perceber do que se trata, embora várias análises prefiram ignorá-lo, cedendo à heteronormatividade: ela entra na "sapataria popular", procura "na vitrina um modelo brutal"; antes, ela "era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente". Trata-se do estigma da sapatão, desafiado aqui: "As alemãs marchando que nem homem."
A poeta desafia o estigma popular e confronta valentemente também seus companheiros de ofício, de quem criticou, mais de uma vez, as representações femininas. Baudelaire ("Abomino Baudelaire querido") tem poemas sobre lésbicas, em que as mulheres que amam mulheres não se podem reconhecer. Ana Cristina apodera-se do grande soneto "Recueillement", que começa com "Sois sage, ô ma Douleur"; esse primeiro trecho torna-se "Fica boazinha, dor; sábia como deve ser", pois é da dor que se fala. Entra Bandeira, com sua visão patriarcal da mulher (que ela critica em outros poemas, como o do Irene no céu), que ela revira ao avesso: em vez de "Belo belo belo,/ Tenho tudo quanto quero", lemos em Ana Cristina "Belo belo. Tenho tudo que fere".
O que ela quer é o que a fere, sob os estigmas populares e os da alta cultura. Um amor que reivindica participar da esfera pública, ser reconhecido como tal: "As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar."
Nessa briga pela palavra pública, o poema ainda apresenta mais uma genial intertextualidade. De Bandeira, "Bandeira do Brasil" segundo Drummond, passa-se para um outro símbolo nacional: há algo que possa ser mais oficial do que um Hino à Bandeira? E um Hino cuja letra foi escrita pelo antigo Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac? Ana Cristina Cesar subverteu o oficialismo transformando "Recebe o afeto que se encerra no meu peito." em uma fala de amor para outra mulher - o peito "varonil", que rima com "Brasil" no oficialismo bilaquiano, é cortado.
Ela quer, portanto, construir outro país, onde esse amor seja possível. Essa tarefa é política. Novamente, aqui, a apropriação que ela faz de Baudelaire é subversiva.
No dia da palestra, a professora Viviana Bosi, que muito escreveu sobre a poeta e organizou o Antigos e Soltos para o IMS, insistiu no soneto. Eu não estava com ele nessa ocasião. Reli-o e pensei em várias coisas; o trecho "Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,/ Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années," e o final "Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche." também são parodiados por Ana Cristina Cesar e transformados para outros fins: "Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso." As alegorias do poeta francês são substituídas por algo mais carnal e próximo. A marcha desta noite é também a das alemãs, que querem abrir espaço com seus próprios pés, e esse desbravamento é escrito com o pulso da poeta, enquanto ela se dirige para a sua "querida".
Talvez o mais irônico, porém, seja o fato de que o soneto de Baudelaire tem por título "Recolhimento". Ele foi subvertido para se transformar em parte da argamassa que celebra uma marcha de lésbicas.
O que dizer para uma poeta como essa? O mesmo que ela diz para sua dor: "Não me deixa agora, fera."
Talvez eu não tenha ressaltado devidamente o caráter multifacetado da manifestação. Abaixo, vê-se cartaz no metrô de Santa Cecília, em que se anunciava a "Marcha das marchas", uma espécie de direito à política.


Participei da Marcha, assim como Fabio Weintraub, com o símbolo do #desarquivandoBR. Na nota que escrevi na ocasião, destaquei a questão dos crimes da ditadura militar. Muitas outras demandas, porém, estavam presentes, como o protesto contra o assassinato dos castanheiros e defensores da Floresta Amazônica José Cláudio e Maria do Espírito Santo. A Marcha fez um minuto de silêncio diante do Cemitério da Consolação em homenagem aos mortos. Abaixo, cartaz pela liberdade de expressão e contra a criminalização dos movimentos sociais. Um rapaz segura um cartaz "Planet Hemp".
A Marcha desceu, alcançou o Teatro Municipal de São Paulo (teria sido interessante que os corpos artísticos do Teatro, ainda antes da reinauguração, tivessem preparado algo para celebrar a Marcha, mas nada foi feito nesse sentido). Entrou na Barão de Itapetininga, sempre acompanhada por um grande efetivo policial, até chegar à Praça da República, onde se dissolveu sob a noite. Veja a bicicleta na Praça - os ciclistas também compareceram com suas demandas por uma outra cidade.









Algumas das demandas eram as de caráter especificamente feminino, como os chamados direitos reprodutivos. Depois, em junho, contra o machismo, veio a Marcha das Vadias. Não pude vê-la, mas, talvez inspirado por ela e por outras manifestações, aqui, no Marrocos, na Síria, na Espanha, falei de certa marcha em um dos poemas políticos mais surpreendentes da literatura brasileira: "21 de fevereiro" (leiam-no) de Cenas de Abril (livro recolhido a A teus pés) de Ana Cristina Cesar.
Quando estive no Voz do Autor no último dia 14, Fábio de Souza Andrade fez uma pergunta complexa a mim e a Eduardo Sterzi sobre o eu lírico. Respondi com Murilo Mendes ("A marcha das constelações me segue até no lodo") e Ana Cristina Cesar, a quem atribuí a qualificação de "poeta política", talvez para o escândalo de alguns presentes.
Esse poema, a que já me referi neste blogue - mas somente em sua dimensão lírica, da poeta dirigindo-se à sua "querida" - também apresenta uma marcha pública. Não é difícil perceber do que se trata, embora várias análises prefiram ignorá-lo, cedendo à heteronormatividade: ela entra na "sapataria popular", procura "na vitrina um modelo brutal"; antes, ela "era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno polegar, pagar na caixa, receber na frente". Trata-se do estigma da sapatão, desafiado aqui: "As alemãs marchando que nem homem."
A poeta desafia o estigma popular e confronta valentemente também seus companheiros de ofício, de quem criticou, mais de uma vez, as representações femininas. Baudelaire ("Abomino Baudelaire querido") tem poemas sobre lésbicas, em que as mulheres que amam mulheres não se podem reconhecer. Ana Cristina apodera-se do grande soneto "Recueillement", que começa com "Sois sage, ô ma Douleur"; esse primeiro trecho torna-se "Fica boazinha, dor; sábia como deve ser", pois é da dor que se fala. Entra Bandeira, com sua visão patriarcal da mulher (que ela critica em outros poemas, como o do Irene no céu), que ela revira ao avesso: em vez de "Belo belo belo,/ Tenho tudo quanto quero", lemos em Ana Cristina "Belo belo. Tenho tudo que fere".
O que ela quer é o que a fere, sob os estigmas populares e os da alta cultura. Um amor que reivindica participar da esfera pública, ser reconhecido como tal: "As cenas mais belas do romance o autor não soube comentar."
Nessa briga pela palavra pública, o poema ainda apresenta mais uma genial intertextualidade. De Bandeira, "Bandeira do Brasil" segundo Drummond, passa-se para um outro símbolo nacional: há algo que possa ser mais oficial do que um Hino à Bandeira? E um Hino cuja letra foi escrita pelo antigo Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac? Ana Cristina Cesar subverteu o oficialismo transformando "Recebe o afeto que se encerra no meu peito." em uma fala de amor para outra mulher - o peito "varonil", que rima com "Brasil" no oficialismo bilaquiano, é cortado.
Ela quer, portanto, construir outro país, onde esse amor seja possível. Essa tarefa é política. Novamente, aqui, a apropriação que ela faz de Baudelaire é subversiva.
No dia da palestra, a professora Viviana Bosi, que muito escreveu sobre a poeta e organizou o Antigos e Soltos para o IMS, insistiu no soneto. Eu não estava com ele nessa ocasião. Reli-o e pensei em várias coisas; o trecho "Ma Douleur, donne-moi la main; viens par ici,/ Loin d'eux. Vois se pencher les défuntes Années," e o final "Entends, ma chère, entends la douce Nuit qui marche." também são parodiados por Ana Cristina Cesar e transformados para outros fins: "Minha dor. Me dá a mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso." As alegorias do poeta francês são substituídas por algo mais carnal e próximo. A marcha desta noite é também a das alemãs, que querem abrir espaço com seus próprios pés, e esse desbravamento é escrito com o pulso da poeta, enquanto ela se dirige para a sua "querida".
Talvez o mais irônico, porém, seja o fato de que o soneto de Baudelaire tem por título "Recolhimento". Ele foi subvertido para se transformar em parte da argamassa que celebra uma marcha de lésbicas.
O que dizer para uma poeta como essa? O mesmo que ela diz para sua dor: "Não me deixa agora, fera."
domingo, 12 de junho de 2011
1964 e a Voz do Autor: Eduardo Sterzi e Desarquivando o Brasil X
Meu amigo Eduardo Sterzi vai falar no ciclo Voz do Escritor, organizado há vários anos pelo Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo. O evento ocorrerá no Auditório da História, dia 14 de junho de 2011, terça-feira, às 19:30h. Já pude ver vários autores nesse ciclo, como Francisco Alvim, João Gilberto Noll, Ricardo Aleixo, Waldo Motta, Cristóvão Tezza, Chacal. Estarei lá também.
Conheci Eduardo Sterzi quando eu estava a organizar um dossiê sobre Murilo Mendes para o finado periódico cultural Ciberkiosk. Já havia lido alguns poemas seus na revista Cult, quando Manuel da Costa Pinto a editava, e tinha notícia de que ele havia escrito uma dissertação sobre Murilo.
Li, então, a dissertação "Figuras do sublime: a retórica da catástrofe em Murilo Mendes", que ganhou o prêmio da ANPOLL em 2004 de melhor dissertação na área de Literatura no Brasil.
O monumental trabalho (infelizmente, ainda inédito) está à altura do poeta: Murilo, em sua obra, circula da Antiguidade até a ONU, passando pelos profetas, santos, Mozart e Kafka. O trabalho de Sterzi (em cada página, literalmente) faz jus a essa envergadura.
Penso que os melhores trabalhos dele sejam aqueles em que enfrenta poetas que querem ser tão largos quanto o mundo, como Dante e Drummond - leiam antes a análise de Fabio Weintraub sobre "Drummond e a poética da interrupção", ensaio desbravador de Sterzi.
É muito raro que ensaístas com esse fôlego tenham talento para poesia. Seu primeiro livro de poesia, Prosa, não faz jus a seu talento como crítico. Acho que essas duas facetas vão se encontrar no mesmo nível em Aleijão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).
Lembro de entrevista que concedeu a Leonardo Gandolfi:
Normalmente desconfio muito do que os poetas afirmam sobre o próprio trabalho (geralmente escasseia a lucidez onde a autopromoção viceja), mas concordo plenamente com que Sterzi diz sobre esse livro. O Aleijão é, principalmente, antitriunfalista e antimonumental desde o tom. Os usos que faz da memória, pessoal e coletiva, assemelham-se a sussurros de subversão - como os dos ratos que roem o edifício do século no poema de Drummond.
Quero aqui lembrar do poema que fez sobre os quarenta anos do golpe militar, "País" - e por isso incluo esta nota na série Desarquivando o Brasil, de que participo a partir de convite da jornalista Niara de Oliveira.
O leitor desavisado perceberá aquilo de que o poeta fala apenas no fim: após o último verso, temos a data "31 de março - 1º. abril 2004". Esse recurso, da data indicar o tema, foi empregado por ele outras vezes, como em "(Plano 100)", e ressalta o papel da memória nesta poética.
Assim a primeira parte do poema começa (a primeira palavra é recuada, mas, idiotamente, não consigo reproduzir a diagramação no blogue):
Esse repuxo é pelo menos duplo: são as vagas da memória, onde os mortos submergem e desaparecem mais uma vez (os "amigos"), porém também é dos desaparecidos na ditadura que foram jogados no mar. Chico Buarque, na linda canção Angélica, do genial disco Almanaque, também se referiu a essa prática a propósito do assassinato de Stuart Angel.
Essa parte termina com o desfazimento de "isso", "sombra/ que a luz/ do farol atravessa." Esse farol é o marinnho, e não o semáforo paulistano. A luz dos faróis, que serve para localização, é inútil neste contexto: os corpos estão perdidos "onde morrem os peixes".
Na segunda parte, dois versos de uma só palavra também estão recuados, "Isso" e "náufragos":
Nós, que nos recordamos dos desaparecidos, também somos náufragos e agarramo-nos à memória para não afundar. É terrível ler que essa tábua flutuante, obviamente incapaz de substituir a terra, "é quase um país".
Pode esse frágil substituto para a terra servir de pátria? A memória também não seria antes afirmação do que negação do desastre e do exílio? Eduardo Sterzi não cultiva ilusões sobre eventuais poderes redentores da memória e conclui a segunda parte e o poema de forma implacavelmente lúcida:
A repetição de "esse país" é bastante eloquente e sublinha o solo que falta a "isso", sua negatividade. A criação de um solo comum talvez seja uma tarefa da poesia, como é um trabalho da língua - mas quanto de desfazer há nessa tarefa. Os melhores momentos de Aleijão, penso, são os de um discurso que tenta afirmar ao (se) desfazer.
Esse trabalho formal é o da arte e difere do texto do historiador. A convergência (para usar uma palavra muriliana) de ambos talvez esteja (creio) no trabalho com as ruínas e os restos, que devem gerar e/ou recuperar discursos. Vozes extraviadas de seus autores.
P.S.: Fiz aqui uma lista dos vídeos de Eduardo Sterzi no programa da USP Voz do Escritor, em que se o pode ver falando da própria poesia e de Drummond, Borges, Mallarmé...
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/01/videos-da-voz-do-escritor-com-eduardo.html
Conheci Eduardo Sterzi quando eu estava a organizar um dossiê sobre Murilo Mendes para o finado periódico cultural Ciberkiosk. Já havia lido alguns poemas seus na revista Cult, quando Manuel da Costa Pinto a editava, e tinha notícia de que ele havia escrito uma dissertação sobre Murilo.
Li, então, a dissertação "Figuras do sublime: a retórica da catástrofe em Murilo Mendes", que ganhou o prêmio da ANPOLL em 2004 de melhor dissertação na área de Literatura no Brasil.
O monumental trabalho (infelizmente, ainda inédito) está à altura do poeta: Murilo, em sua obra, circula da Antiguidade até a ONU, passando pelos profetas, santos, Mozart e Kafka. O trabalho de Sterzi (em cada página, literalmente) faz jus a essa envergadura.
Penso que os melhores trabalhos dele sejam aqueles em que enfrenta poetas que querem ser tão largos quanto o mundo, como Dante e Drummond - leiam antes a análise de Fabio Weintraub sobre "Drummond e a poética da interrupção", ensaio desbravador de Sterzi.
É muito raro que ensaístas com esse fôlego tenham talento para poesia. Seu primeiro livro de poesia, Prosa, não faz jus a seu talento como crítico. Acho que essas duas facetas vão se encontrar no mesmo nível em Aleijão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).
Lembro de entrevista que concedeu a Leonardo Gandolfi:
[...] se você me perguntar se a minha poesia (e não a poesia em geral) nasce da fusão drummondiana de tempo e poeta sob o signo da pobreza, a resposta é sim, principalmente se levarmos em consideração este livro que estou lançando, Aleijão, concebido desde o princípio como uma espécie de intermitente reflexão poética sobre uma época que me parece singularmente catastrófica, tanto no plano brasileiro quanto no plano mundial. Digo “singularmente” porque a nossa catástrofe atual não apenas se esconde sob um manto resplandecente de triunfalismo e espetáculo, mas parece se confundir ponto a ponto com este manto. Contra as imagens triunfais que tentam se apossar de nós – o “Brasil Grande” do pré-sal e das Olimpíadas do Rio, a Democracia Universal da Pax Americana (cujo cerne problemático permanece o mesmo de Bush a Obama) –, prefiro acreditar que a escassez continua a definir os nossos sonhos, que construímos com restos, com o que sobra das imponentes construções ideológicas. Mais uma vez Drummond tem de ser lembrado aqui, pois o que é o seu poema “O elefante” senão uma figuração genial desse trabalho de resistência? O “pobre elefante” que as pessoas na rua não querem ver nem mesmo para zombar de sua fragilidade e muito menos para reter a sua “fugitiva imagem”, no fim se desmancha. Ao poeta só cabe dizer: “Amanhã recomeço”. Cada poema deste meu novo livro parece tomar a forma de uma tentativa de recomeçar de novo e de novo e de novo... – depois da destruição, sem esquecer a destruição.
Normalmente desconfio muito do que os poetas afirmam sobre o próprio trabalho (geralmente escasseia a lucidez onde a autopromoção viceja), mas concordo plenamente com que Sterzi diz sobre esse livro. O Aleijão é, principalmente, antitriunfalista e antimonumental desde o tom. Os usos que faz da memória, pessoal e coletiva, assemelham-se a sussurros de subversão - como os dos ratos que roem o edifício do século no poema de Drummond.
Quero aqui lembrar do poema que fez sobre os quarenta anos do golpe militar, "País" - e por isso incluo esta nota na série Desarquivando o Brasil, de que participo a partir de convite da jornalista Niara de Oliveira.
O leitor desavisado perceberá aquilo de que o poeta fala apenas no fim: após o último verso, temos a data "31 de março - 1º. abril 2004". Esse recurso, da data indicar o tema, foi empregado por ele outras vezes, como em "(Plano 100)", e ressalta o papel da memória nesta poética.
Assim a primeira parte do poema começa (a primeira palavra é recuada, mas, idiotamente, não consigo reproduzir a diagramação no blogue):
Isso
que chamamos "amigos"
e às vezes perdemos
porque o repuxo os carrega
sempre mais para o fundo:
para antes das ondas,
onde morrem os peixes;
para depois da memória,
onde morrem duas vezes
Esse repuxo é pelo menos duplo: são as vagas da memória, onde os mortos submergem e desaparecem mais uma vez (os "amigos"), porém também é dos desaparecidos na ditadura que foram jogados no mar. Chico Buarque, na linda canção Angélica, do genial disco Almanaque, também se referiu a essa prática a propósito do assassinato de Stuart Angel.
Essa parte termina com o desfazimento de "isso", "sombra/ que a luz/ do farol atravessa." Esse farol é o marinnho, e não o semáforo paulistano. A luz dos faróis, que serve para localização, é inútil neste contexto: os corpos estão perdidos "onde morrem os peixes".
Na segunda parte, dois versos de uma só palavra também estão recuados, "Isso" e "náufragos":
Isso
que é tábua
de solidão
a que nos
agarramos
quando falta o
chão e,
náufragos,
sonhamos com terra
- isso é quase um país.
Nós, que nos recordamos dos desaparecidos, também somos náufragos e agarramo-nos à memória para não afundar. É terrível ler que essa tábua flutuante, obviamente incapaz de substituir a terra, "é quase um país".
Pode esse frágil substituto para a terra servir de pátria? A memória também não seria antes afirmação do que negação do desastre e do exílio? Eduardo Sterzi não cultiva ilusões sobre eventuais poderes redentores da memória e conclui a segunda parte e o poema de forma implacavelmente lúcida:
Mas esse país
não existe. Esse país
não presta.
A repetição de "esse país" é bastante eloquente e sublinha o solo que falta a "isso", sua negatividade. A criação de um solo comum talvez seja uma tarefa da poesia, como é um trabalho da língua - mas quanto de desfazer há nessa tarefa. Os melhores momentos de Aleijão, penso, são os de um discurso que tenta afirmar ao (se) desfazer.
Esse trabalho formal é o da arte e difere do texto do historiador. A convergência (para usar uma palavra muriliana) de ambos talvez esteja (creio) no trabalho com as ruínas e os restos, que devem gerar e/ou recuperar discursos. Vozes extraviadas de seus autores.
P.S.: Fiz aqui uma lista dos vídeos de Eduardo Sterzi no programa da USP Voz do Escritor, em que se o pode ver falando da própria poesia e de Drummond, Borges, Mallarmé...
http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/01/videos-da-voz-do-escritor-com-eduardo.html
sábado, 16 de abril de 2011
Fabio Weintraub na Virada Cultural

Hoje, 16 de abril de 2011, fala na Casa das Rosas o poeta Fabio Weintraub. Frederico Barbosa vai entrevistá-lo, bem como a João Bandeira. Trata-se de mais um evento da Virada Cultural em São Paulo.
Eu descobri sua poesia, antes de conhecê-lo pessoalmente, com Novo endereço (São Paulo: Nankin, 2002), que em 2004 receberia uma edição bilíngue português/espanhol devido ao prêmio Casa de las Américas (que recebeu em 2003). A tradutora foi a cubana Lourdes Arencibia Rodriguez.
Nesse livro, é impressionante o cruzamento que foi alcançado entre as esferas pública e privada. A intimidade está presente nessa poesia lírica, mas o poeta não finge que está fora do mundo. "Pai", por exemplo, começa assim:
Desempregado há três anos
no país do futuro
Batendo perna nas ruas
com o mostruário de meias
Adivinhando
o signo da morena
o ascendente da loira
O antiufanismo é indissociável desse retrato familiar.
Nesses cruzamentos do privado e do público, vemos retratos urbanos de uma carga emocional intensa. O jantar estava posto, mas o familiar não voltou: o taxista que rodava à noite foi assaltado e morto no poema "Por trás". O título designa a trajetória da bala:
Alguém disse que no caixão
ele tava bonito
Tava não
Repuxando o rosto
o tiro na cervical
varou a jugular
o esvaziou pela boca
Essa trajetória da bala também representa uma poética: o tiro que faz a boca confessar toda a vida.
Baque, de 2007, me parece radicalizar esse projeto. As deformidades do corpo relacionam-se diretamente aos bloqueios no espaço público (em outro poeta contemporâneo, Eduardo Sterzi, esse problema também renderia um livro: Aleijão, de 2009). Vejam esta passagem de "Estirpe":
os que entrevados fogem
com grande velocidade
os que amarram sobre os olhos
lenços ensanguentados
os que em frente às igrejas
espojam-se nus
os que afirmam ter sido roubados
os que pedem apenas o necessário
para inteirar a passagem
Estes são os personagens desta poesia, que a todo momento podem ser objetos de violência:
É fustigado nos albergues
nos hospitais públicos
e posto na rua a pontapés
quando o amor recupera a visão
O livro termina com o notável "Transplante", que possui o tema do transplante de rosto - provavelmente singular na poesia brasileira, mas próprio desta poesia que se dedica a uma estirpe dos sem-linhagem, cuja identidade parece a todo momento ameaçada, seja pela violência e pela loucura, seja por se terem rendido ao capital, como ocorre no engraçadíssimo "Pessoas jurídicas não odeiam":
Contraditório, e daí?
As pessoas mudam
os tempos mudam
Não sou neurótico de guerra
pra ficar defendendo
territórios já anexados
O ostracismo cansa:
se voltei ao mainstream
é porque estou vivo
Tenho 50 anos
não vou posar de herói
Quero que se foda
a coerência do criador
é a obra que importa
Não vou bancar o mártir
O Brasil está desse jeito
por ser católico, culpado e de esquerda
Vamos ser ricos, não coitados
Não sei se tem jabá:
cale a boca
ouça a música
No discurso do músico que aos 50 anos volta ao mainstream, ouvimos os urros violentos do capital, que exigem a atenção escrava da surdez.
É tarefa deste poeta quebrar tais correntes (por isso escolhi a foto acima, que dele tirei em viagem recente que fizemos).
Hoje, na Avenida Paulista, n. 37, um dos endereços da poesia em São Paulo, às 22 horas, poderemos ver Fabio Weintraub falar dessas questões ao vivo.
P.S. Para quem não está em São Paulo, pode-se vê-lo em alguns vídeos.
Filmei-o dizendo "Mais magro", de Novo endereço: http://www.youtube.com/watch?v=V4-oKfjQETU
Esta é a interessante entrevista que concedeu a Ivan Marques no programa Entrelinhas da TV Cultura, depois do lançamento de Baque: http://www.youtube.com/watch?v=ptDhmbqSy8M
Aqui, ele fala de literatura infantil, com que ele trabalha como editor: http://www.youtube.com/watch?v=8Tidg2bE9cs
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Julián Axat e a pele viva da voz

O poeta e jurista Julián Axat nasceu em 1976, ano do último golpe militar na Argentina. Quando tinha sete meses de idade, seus pais foram sequestrados por agentes da repressão e nunca foram encontrados. Esse fato marca sua literatura e sua ação política: além de escrever e editar literatura relativa ao terror de Estado, ele integra a organização HIJOS, que reúne os descendentes dos desaparecidos políticos.
Desde 2008, trabalha como Defensor Público em La Plata, onde se ocupa do direito da infância e da adolescência. Na condição de editor, coordena um projeto de recuperação de documentos literários chamada Los detectives salvajes da editora de la Talita Dorada, de City Bell. Nela, foram publicados autores desaparecidos como Carlos Aiub (Versos aparecidos, 2007) e Joaquín Areta (siempre tu palabra cerca, 2010), o assassinado pela Triple A (o equivalente argentino do Comando de Caça aos Comunistas) Jorge Money (En la exacta mitad de tu ombligo, 2009). Também poetas contemporâneos foram incluídos, entre eles o próprio Axat e seu último livro, ylumynaria (2008).
Tirei esta foto enquanto Axat falava em São Paulo sobre essa experiência no Seminário Internacional Exílio e Migrações Forçadas: América Latina e Europa, em mesa com as professoras e historiadoras Priscila Ferreira Perazzo e Maria Luiza Tucci Carneiro (organizadora do evento, que ocorreu em abril de 2010 na ECA/USP).
Descobri a poesia de Axat em viagem à Argentina, vasculhando as estantes de poesia das livrarias. No número 22 de K Jornal de Crítica, publiquei resenha sobre os dois últimos livros desse autor ylumynarya e médium (Poética belli). Além desses, Axat lançou Los albañiles (La Plata, 1994), Peso formidable (Buenos Aires: Zama, 2003) e servarios (Buenos Aires: Zama, 2005).
Com a resenha, saiu a minha tradução deste poema de médium:
diário de viagem v.
às vezes
me meto no cemitério
e mergulho nos ossários
desesperado
navego
nado o nada
me afogo
me afogo entre fêmures e mandíbulas
armo puzzles impossíveis
dentes com metacarpos
omoplatas com espinhas
e assim passo a noite
escondido
cansado
de tanta originalidade
para armar elos perdidos
porém antes de converter-me
na fracassada “equipe-de-mim-mesmo-legista”
deixo os ossos de lado
e escrevo um poema
que me devolve
a pele viva de sua voz
Aqui pode-se ler o blogue da coleção Los detectives salvajes:
http://www.coleccionlosdetectivessalvajes.blogspot.com/
A resenha que escrevi ainda pode ser lida na Weblivros, no número 22 do K:
http://www.weblivros.com.br/k-jornal-de-cr-tica/index.php
Realizei com o poeta a entrevista Julián Axat: Poesia e desaparição, editada por Fabio Weintraub, que pode ser vista no YouTube. Ele trata da memória, desaparecimento e poesia, testesmunho, luto e impunidade. Trata-se de uma literatura que dialoga com a justiça de transição, portanto, mas também com a biopolítica, pois o direito à memória e à verdade é configurado como a recuperação e a reconstrução dos corpos desfigurados pelo terror do Estado. Apresentei um trabalho sobre isto na UFSC, e logo que estiver disponível, deixo aqui a ligação. Por enquanto, fica apenas mais esta, a da entrevista:
http://www.youtube.com/watch?v=_suAfSOzr3U
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