A música está incluída no Cancionero del Palacio e apresenta as pesadas marcas do catolicismo ibérico: comamos e bebamos hoje, até rebentarmos, pois amanhã jejuaremos! A alegria, pois, dá-se em um contexto de conformidade à religião. Para quem não a conhece, uma gravação do Hespèrion XX regida por Jordi Savall pode ser ouvida aqui, já que o disco de 1991 (Juan del Enzina: Romances & villancicos) que ele gravou para a Auvidis não está mais disponível:
http://www.youtube.com/watch?v=PvxyzV87stk
É alegre e tem um caráter popular: trata-se de um villancico, forma típica dos séculos XIV e XV na península ibérica. A música não tem grandes dificuldades técnicas, e a tessitura requerida é restrita para todas as vozes. No entanto, um verso desafiava a compreensão literária: "Comamos a calca porra". "A", e não "la", o que parecia indicar que "calca", seja lá o que fosse, não era um adjetivo.
Como fui apresentar um trabalho sobre as leis de anistia brasileira e argentinas na Espanha, aproveitei e fiz uma pequena pesquisa in loco. Descobri que os espanhóis, pelo menos aqueles com que falei, não entendem o verso, pois não sabem o que é "calca". A "porra", eles a comem com café.

Não é doce, nem salgada, explicaram-me (não a provei). Parece com churros, porém não possui recheio. As fotos mostram seu preço e como os espanhóis a consomem; a segunda imagem mostra um prato cheio da iguaria. Tirei as duas em Madri, no Café Santander.

Seria a "porra" do século XVI a mesma que é consumida no século XXI? Por ser uma comida tão simples, teria atravessado quase sem alterações os séculos? Não consegui ainda averiguar. De qualquer forma, trata-se de algo a ser comido.
E a "calca", que nada significa para os espanhóis de hoje, que, porém, continuam a empregar o verbo "calcar"? Consegui descobrir em um dicionário que se trata de um vocabulário popular, um jargão de "ciganos, rufiães e ladrões": um caminho de terra (aberto pelas pisadas dos caminhantes: daí, a relação com o verbo "calcar").
Parece, portanto (deixo para quem ler isto trazer soluções melhores para a interpretação do verso), que, na música, as pessoas vão comer por esse caminho a "porra".
Note-se que estamos cantando essa música em um contexto de expulsão dos ciganos na França: não deixa de ser um manifesto político!