Morreu hoje, dia 22 de novembro de 2017, o barítono russo, siberiano, Dmitri Hovrostovsky (1962-2017), que lutava desde junho de 2015 contra um câncer no cérebro. Sua voz era tão impactante que lembro bem da primeira vez que o ouvi: era um disco da RCA de trechos de ópera que uma tia me havia dado, com árias eu já conhecia, como "Caro nome" (na voz de Anna Moffo), mas uma que eu ignorava completamente: a ária do Príncipe Yeletsky, da ópera A Dama de Espadas, uma das que Tchaikóvski escreveu a partir de Púshkin.
Trata-se de uma das mais bonitas declarações de amor que o compositor russo escreveu, delicada e apaixonada. Para fazer justiça a essa música, é necessário um grande controle do legato e um fôlego sem falha. O barítono tinha tudo isso e um excepcional veludo no timbre que não se desfazia mesmo quando o cantor usava mais força. A última frase do personagem para sua amada (Lisa, que preferiria o tenor...), ele a cantava em um fôlego só, com um belo crescendo.
Era Hvorostovsky, ainda bem jovem, e a faixa vinha da gravação da ópera completa, regida por Seiji Ozawa. O papel lhe serviu de estreia no Metropolitan Opera House em 1995. Antes disso, ele cantou a ária na competição de canto que o tornou conhecido de um dia para o outro, "Singer of the World", em Cardiff, 1989. Por sorte, o vídeo está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ywb492BL4iM (para vê-lo em 2003, com o timbre mais escuro e o mesmo legato, sugiro esta apresentação, também ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=W8zKkvGB7Rw).
Naquela competição que o revelou, ele enfrentou, entre outros candidatos, o baixo barítono galês Bryn Terfel, que também fez (continua a fazer) uma grande carreira. Li uma entrevista de Terfel, que perdeu o primeiro lugar para Hvorostovsky, em que comentou ter notado que o russo o venceria depois de ouvi-lo em "Ombra mai fu", da ópera Serse, de Händel; era uma escolha estranha para uma competição de canto (esta peça é batida demais, toca até em igrejas, e não é das mais exigentes vocalmente), mas perfeita se o cantor tem um legato como este: https://www.youtube.com/watch?v=PoAhxAlW6QY
Nessas apresentações do jovem barítono, além do timbre lindíssimo e do seguro apoio (que lhe permitia realizar todas as expressivas nuances de crescendo e decrescendo), note-se a abertura para o agudo; ele chegou, durante os estudos de canto, a julgar que era tenor, mas isso não durou muito. Era uma voz bem diferente de Terfel, que foi para papéis mais graves e canta muito do repertório germânico. Hvorostovsky concentrou-se nos papéis de barítono lírico do repertório russo, em que ele nunca teve realmente rival, na ópera italiana do século XIX e na canção russa.
Na primeira categoria, destaca-se Eugen Oneguin, outra ópera que Tchaikóvsky escreveu a partir de Púshkin. O papel título foi escrito para barítono, e ele o cantou desde jovem. Só neste século, apesar da idade do personagem (ele termina a peça com apenas 26 anos), Hvorostovsky disse sentir-se ter chegado à idade ideal para interpretá-lo. Aqui, pode-se vê-lo na ária do fim do primeiro ato, no Metropolitan Opera House, em Nova Iorque, cena em que o personagem desdenha da declaração de amor feita pela jovem Tatiana, interpretada por Renée Fleming, com regência de Valery Gergiev: https://www.youtube.com/watch?v=qa_13xMhjkg
Oneguin mata, em duelo, seu melhor amigo, um poeta, por questões de honra (ele o provoca dançando com a amada do poeta em um baile), viaja para longe, retorna anos depois e descobre Tatiana casada com um nobre bem mais velho. Decide que está apaixonado por ela, marca um encontro. Ela confessa que ainda o ama, mas o rechaça neste dueto final: https://www.youtube.com/watch?v=i8mJsowhByo
Em disco, ele a gravou a ópera completa na regência de Bychkov; antes disso, escolheu os dois solos para seu primeiro disco solo, de 1990, gravado pela extinta Philips, regido por Gergiev. Para seu primeiro solo, escolheu apenas árias de óperas de Tchaikóvsky e Verdi. A gravação apontava os caminhos que o barítono seguiria, e ele aprofundou as interpretações dessas árias, quando a elas retornou. Compare-se a ária da Iolanta com a gravação completa, regida por, mais um vez, Gergiev; ou a da morte de Rodrigo com o que ele fez na gravação de Don Carlo regida por Bernard Haitink, que se destaca, em termos vocais, somente pelo barítono e pelo grande meio soprano Olga Borodina, russa como Hvorostovsky, e uma de suas companheiras de palco e de geração. Com ela, além de óperas completas, gravou "Olga & Dmitri", com repertório italiano (Rossini e Donizetti), francês (Saint-Saëns) e russo (Rimsky-Korsakov).
Em relação à segunda categoria, a ópera italiana, ele se dedicou ao bel canto nos anos 1990: Rossini, Bellini, Donizetti. Nesse momento, alguns o comparavam aos grandes barítonos italianos da "época de ouro" (início do século XX). "Bel Canto Arias" (que também recebeu o título ridículo de "Songs of love and desire"), regido por Ion Marin, testemunha a agilidade vocal e o agudo fácil (a famosíssima ária do Barbeiro de Sevilha), o legato (ária de I Puritani) e o investimento dramático de que o barítono já era capaz (na cena da ópera Lucia di Lammermoor).
Aos poucos ele foi deixando esses papéis do bel canto porque, segundo suas palavras, precisava de "mais ação", e foi direcionando sua carreira para Verdi. Giorgio Germont, personagem de La Traviata, foi um dos papéis que lhe permitiu fazer essa transição; ele o gravou com Zubin Mehta, fazendo este papel de pai para um tenor que tinha quase o dobro de sua idade, o impressionante Alfredo Kraus, e com um soprano também de outra geração, Kiri Te Kanawa (registro a diferença etária porque alguns críticos julgaram-na um problema dessa gravação; não sou da mesma opinião).
Na terceira categoria, ele gravou na primeira fase da carreira, que a Philips registrou, tanto a canção clássica russa quanto a tradicional e a popular. "Olhos negros", evidentemente, no disco homônimo, o "Kalinka", com coro, que é uma maravilha, mas também canções de Rachmaninov, Tchaikóvsky, de Sviridov (que ainda estava vivo, e escreveria para Hvorostovsky e o pianista Mikhail Arkadiev "Petersburgo, um poema vocal"). Ele gravou pela primeira vez "Canções e Danças da Morte", de Mussorgsky, nessa época, porém sua gravação posterior é bem mais interessante.
Na regravação, ele já não estaria na Philips; a gravadora, que usava estratégias para explorar a beleza física dele, especialmente para o mercado dos Estados Unidos, queria que ele gravasse mais crossover, isto é, mais música popular, e não do repertório russo. Neste século, ele foi para a Delos, o que significou uma série de projetos mais pessoais, mas também elencos menos estelares (no entanto, certo vídeo em que ele canta música brega sem camisa é de 2009).
O barítono gravou a ária e outras de Verdi, inclusive os solos de Rigoletto no "Verdi Arias", de 2002, regido por Mario Bernardi. Ele ainda estava vivo quando saiu a gravação da ópera completa, realizada em 2016: https://twitter.com/Hvorostovsky/status/929017529774886912.
No dia 17 último, divulguei uma crítica publicada no Washington Post, que fazia notar que ele tinha cancelado todas suas apresentações públicas e seu prognóstico ainda era incerto. No primeiro semestre deste ano, ele ainda foi capaz de dar concertos (algumas imagens estão no twitter dele); e ainda pôde fazer uma aparição surpresa na apresentação de gala do Metropolitan com "Cortiggiani". O câncer, porém, lhe havia tirado o equilíbrio, e ele não se sentia mais seguro para andar no palco (é possível notar isso quando ele sai do palco no Met); em um dessas últimas apresentações, um dos braços está numa tipoia, pois ele havia caído em casa.
Nessa fase, seu maestro mais constante nos estúdios foi Constantine Orbelian, que o dirigiu em sua última gravação de ópera, que saiu há poucos dias, o Rigoletto, de Verdi. Hvorostovsky gravou esse difícil papel, para o qual esperou anos, em 2016, quando já sabia estar doente.
Dessa ópera, eu o vi cantar a ária "Cortiggiani, vil razza dannata" ao vivo. Ele se apresentou algumas vezes em Buenos Aires, mas acho que a única vez que se cantou no Brasil foi em um recital em 8 de setembro de 1997 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ele já tinha gravado vários discos e era uma estrela em ascensão. Anunciou-se que faria um programa de canções russas com o pianista Mikhail Arkadiev, com quem já tinha feito algumas gravações.
No entanto, o programa apresentado foi bem diferente: era praticamente todo composto de árias (a maioria, de óperas), como se vê ao lado. Em um longo arco temporal, ele foi do barroco ao verismo, passando pelo classicismo e pelo romantismo. O programa escreve incorretamente o nome de Bellini, de quem ele cantava uma ária de I Puritani. Como faltam outras informações, lembro que as árias de Händel sem indicação de origem vieram da Brockes Passion e de Orlando; o Gounod pertence ao Faust, a de Leoncavallo, a I Pagliacci, e as de Verdi, a Un ballo in maschera e Don Carlo.
O teatro estava praticamente vazio. Comprei ingresso para a galeria, mas o pessoal do Teatro pediu para que o público presente descesse à plateia, onde não havia praticamente ninguém. Assisti a tudo bem perto, talvez na quarta fila, não lembro mais.
A primeira parte do programa, exceto Mozart, e a foto usada provinham do disco que gravou com Neville Marriner e a Academy of St Martin in the Fields, "Arie Antiche". Ele não era um cantor do barroco e ouve-se, em algumas faixas, certa incongruência entre a interpretação do cantor, praticamente romântica, e o acompanhamento sóbrio de Marriner.
No disco como no palco, sua capacidade de sustentar frases longas causava admiração, assim como espantava sua maneira de respirar, que era bem audível. Tenho uma queda pela ária "O del mio dolce ardor"; o original é cantado geralmente por mezzos, mas não desdenho ouvi-la com um barítono como este, e a facilidade da subida ao agudo em "le più liete speranze" impressionou. Na famosa ária do Orfeo de Gluck, a interpretação tão emocional e com vibrato de Hvorostovsky talvez pudesse ser chamada de antiquada, mas era sincera e vocalmente esplêndida.
Das árias de Mozart, lembro da facilidade com que cantou a conclusão do "Vedrò mentr'io sospiro", que pode pegar o cantor no contrapé. Na segunda parte do programa, ele estava completamente em seu elemento; quase pulei para trás com o sol agudo que ele, seguindo certa tradição, emitiu perto do fim do Prólogo da ópera Os Palhaços.
Nunca tinha ouvido uma voz tão impressionante. O final do programa confirmou que aquele canto estava sempre ligado a um propósito dramático, especialmente na ária da morte de Rodrigo em Don Carlo. O marquês leva um tiro, em execução extrajudicial determinada pelo rei e exigida pelo grande inquisidor, durante visita ao príncipe, encarcerado por ordem real. Pouco tempo depois do concerto, ele gravaria a ópera completa sob a regência de Haitink.
Neste século, ele manteve seu repertório principalmente em duas línguas, a italiana e a russa. Gravou canções napolitanas para a Delos, explorou os papéis mais pesados de Verdi e chegou até a Rigoletto, com uma voz que era essencialmente lírica. No campo russo, fez de tudo: ópera, canção clássica e popular, música religiosa (ele já tinha gravado para a Philips o belo "Credo"); em 2004, foi o primeiro cantor lírico a fazer um concerto na Praça Vermelha de Moscou, com músicas russas da II Guerra Mundial, que ele gravou para a Delos ("Wait for me"). Era um herói nacional. Lamento não saber russo e não poder ler as matérias de seu país. Este obituário da CBC News pareceu-me bom, mas a seção do The New York Times inclui vídeos de suas apresentações, tanto em ópera quanto em recital.
Eu o vi uma segunda vez ao vivo, em 2015, pouco tempo antes de ele descobrir ou revelar para o público que estava doente. Era a ópera Un ballo in maschera, de Verdi, no Metropolitan Opera House, com a regência do grande James Levine. Nenhum dos papéis principais era cantado por um italiano, e não se sentia falta disso. O tenor polonês Piotr Beczala estava audivelmente doente e seria substituído na matinê transmitida pelo rádio pelo tenor brasileiro Ricardo Tamura), as americanas Sondra Radvanosky, Dolora Zajick (desafiando poderosamente os anos, ela é sexagenária) e Heidi Stober.
Hvorostovsky, o russo, estava muito bem, e na ária "Eri tu", ele realizava o contraste entre o início, em que ele está dominado pelo desejo de vingança, e a nostalgia de "dolcezze perdute", até a exclamação "non siede che l'odio/ E la morte nel vedovo cor!". Sua vitoriosa carreira confirmou o predomínio dos cantores eslavos no campo da ópera italiana; ele e Borodina, claro, mas também cantores que vieram depois, como Beczala, Anna Netrebko e Ildar Abdrazakov.
Não é comum cantores encontrarem êxito artístico ao mesmo tempo na ópera e na canção, tendo em vista as diferentes exigências vocais e de temperamento (a canção, em geral, exige muito mais intimismo), mas Hvorostovsky foi um desses exemplos, tanto em razão da técnica respiratória quando da excelente articulação: mesmo que não se conheça o idioma do texto que ele canta, as palavras são perfeitamente distinguíveis, algo não muito comum entre os cantores líricos, e tão necessário para a canção. Neste campo, os discos de Tchaikóvsky (algumas das canções do cd duplo de 2009 "Tchaikovsky Romances" podem ser vistas neste vídeo), Rachamaninov ("Rachmaninov Romances", gravado em 2011, incluiu esta peça) e de canções a partir de poemas de Púshkin, de 2010, gravados com o pianista Ivari Ilja para a Delos são preciosos.
Em 2011, gravou com o excelente Ivari Ilja um disco que recebeu em inglês o título"In this moonlit night" com canções de Tchaikóvsky, Taneyev e o ciclo "Canções e Danças de Morte" de Mussorgsky. Desta vez, não na versão orquestral, mas apenas com o piano, seguindo o original do compositor.
Os poemas foram escritos por Arseny Arkadyevich Golenischchev-Kutuzov. A famosa canção final descreve um campo de batalha: finda a luta, a Morte, o "Marechal de campo" (título da canção) aparece para declarar-se vitoriosa, decretar que os soldados agora estão reconciliados e contar suas tropas, formadas por todos os corpos: pede para que se levantem, mas depois ela irá enterrá-los: "Ano após ano passará/ E até a memória de vocês se extinguirá".
Trata-se de versos que Hvorostovsky cantou com toda eloquência necessária para encarnar o poderoso personagem, mas que nunca se dirigiriam a este cantor, nem mesmo hoje.
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.
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quarta-feira, 22 de novembro de 2017
sábado, 25 de março de 2017
30 dias de canções: "A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo": Hoje, Taiguara
30 dias de canções
Dia 30: Uma canção que faz lembrar o mundo
"Hoje", de Taiguara. O compositor gravou-a pela primeira vez em 1969 no disco que levou o mesmo título. Como escrevi no comentário sobre o filme "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, "Em seu último disco, Brasil Afri (infelizmente, não está mais em catálogo) que prova que ele não havia declinado como compositor, Taiguara regravou uma canção antiga, justamente "Hoje", em novo arranjo. Era 1994, ele morreria dois anos depois.
Estamos em 2016, e o ontem governa. Precisamos ouvir".
Taiguara a continuou cantando até o fim da vida. Aqui, pode-se vê-lo se acompanhando ao piano no Rio de Janeiro, não sei em que data, mas depois de voltar do exílio. Ele anuncia a canção: "Naquele mesmo momento, essa filhinha nascia da angústia. Composição": https://www.youtube.com/watch?v=Bk_4PPyDxaM.
Para ouvi-la em voz feminina, aconselho Fernanda Porto, também acompanhando a si mesma e, no final, comentando a sofisticação da música de Taiguara: https://www.youtube.com/watch?v=dc8-4tRxopY.
1969 foi um ano filho do AI-5, e nele o Brasil acabaria sendo governado, durante alguns meses, entre a incapacidade de Costa e Silva e escolha de Médici, por um triunvirato militar que deu um golpe dentro do golpe, afastando o vide Costa e Silva. Dotado de toda ilegitimidade e com o Congresso fechado, lançou uma série de decretos-leis, incluindo de banimento e pena de morte, e mudou a Constituição (os parlamentares foram convocados a dizer amém para essa mudança).
Como HOJE, os governos mais ilegítimos são os que trazem os maiores retrocessos legislativos e sociais (como a destruição do Funai por Temer), e enlameiam a imagem internacional do país (por exemplo, Temer contra o Conselho de Direitos Humanos da ONU).
A letra de Taiguara é interessante: a primeira estrofe traz um verso meio drummondiano, "a fossa, a fome, a flor, o fim do mundo".
Estive num almoço no fim de 2016 e vi uma pessoa ligada à docência de Letras, que não conhecia bem a letra, dizer que não havia negatividade nessa canção. No entanto, os primeiros versos já a deixam clara: "Hoje/ trago em meu corpo as marcas de meu tempo/ meu desespero, a vida num momento". Apesar da repetição da primeira pessoa, esse tempo é social, como vemos na referência à "juventude assim perdida".
Creio que a impressão daquela pessoa, provavelmente compartilhada por outros ouvintes distraídos, decorria de uma estratégia do compositor, que teve tantos sucessos com canções de amor (como "Universo no teu corpo", que viria pouco depois, em que não está ausente a dimensão social).
"Hoje" tem referências de música de amor, mas creio (um palpite bem pessoal) que Taiguara escreveu assim para que a censura não a proibisse, o que faria se a letra fosse abertamente política. Taiguara, por fim, foi impedido de continuar a carreira no Brasil; ele teve 83 canções proibidas, segundo Os outubros de Taiguara, de Janes Rocha, publicado pela Kuarup em 2014.
"Sorte", nessa canção, é um vocativo, é a ela a que se refere em "como eu te amei". Porém, com o "Hoje", com o tempo presente desses frios "homens de aço", é um amor desesperado: "eu desespero e abraço a tua ausência/ que é o que me resta vivo em minha sorte".
Trata-se de um tempo de "fim de mundo", mas também da flor. O movimento da melodia, até os agudos sustentados no final (na última gravação, apesar do estado de saúde, ele mantém a nota por mais tempo), parecem indicar, no entanto, que ele não vai se entregar à morte em vida e que pode encontrar a sorte novamente.
Fecho os 30 dias de canção com outra canção brasileira e espero que sua mensagem de resistência esteja hoje presente contra o desastre que tomou o país.
quarta-feira, 22 de março de 2017
30 dias de canções: Ilse Weber e o silêncio do mundo
30 dias de canções
Dia 29: Uma canção improvavelmente composta
"Wiegala", de Ilse Weber. Aqui, na voz de Anne Sofie von Otter, que a gravou no disco "Terezín": https://www.youtube.com/watch?v=cAN5qjcAn8w.
Ilse Weber era uma judia tcheca germanófona, como Kafka. O escritor morreu em 1924, não viu as políticas de invasão, conquista e extermínio que a Alemanha implantaria, que acabaram afetando sua família.
Weber foi assassinada em 1944 no campo de Auschwitz.
O campo de concentração de Terezín, a 60 km de Praga, serviu de propaganda para os nazistas: parte da elite cultural judaica foi levada à força para lá e o campo foi chamado de "assentamento judeu". Representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha foram levados para verificar suas condições e não perceberam nada de errado.
No entanto, os prisioneiros viviam sob ameaça de deportação para campos de extermínio, o que ocorreu a quase todos, e tinham que realizar exaustivos trabalhos forçados.
Nem todos artistas foram para lá: Schulhoff, por exemplo, foi morto no campo de Wülzburg.
Não era provável conseguir criar arte em um campo de concentração, no entanto em alguns lugares isso era possível. O pianista italiano Francesco Lotoro já conseguiu gravar parte dessa música.
Em Terezín, Viktor Ullmann criou a ópera que parodiava o próprio ditador alemão, O Imperador de Atlantis, que é uma obra-prima que lhe custou a vida.
Ilse Weber escreveu poemas no campo de concentração e musicou alguns deles, usando o violão.
"Wiegala" é uma canção de ninar. Quando as crianças de Terezín foram transferidas para Auschwitz, para serem mortas em massa, Weber quis ir com elas, e cantaram a canção na câmara de gás.
A doce letra apresenta três estrofes: na primeira, o vento brinca com a lira e toca suavemente, e o rouxinol canta. Na segunda, a lua é uma lanterna e olha para o mundo. No fim, comenta-se o silêncio do mundo: "Nenhum som perturba a adorável paz./ Durma, minha criança, durma também."; "Como o mundo está silencioso".
No fim, seria o silêncio dos mortos. Por isso, quase escolhi esta música para o trigésimo dia do desafio, a canção que lembra o mundo. Seria, porém, injusto com Ilse Weber e sua coragem.
Weber foi assassinada em 1944 no campo de Auschwitz.
O campo de concentração de Terezín, a 60 km de Praga, serviu de propaganda para os nazistas: parte da elite cultural judaica foi levada à força para lá e o campo foi chamado de "assentamento judeu". Representantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha foram levados para verificar suas condições e não perceberam nada de errado.
No entanto, os prisioneiros viviam sob ameaça de deportação para campos de extermínio, o que ocorreu a quase todos, e tinham que realizar exaustivos trabalhos forçados.
Nem todos artistas foram para lá: Schulhoff, por exemplo, foi morto no campo de Wülzburg.
Não era provável conseguir criar arte em um campo de concentração, no entanto em alguns lugares isso era possível. O pianista italiano Francesco Lotoro já conseguiu gravar parte dessa música.
Em Terezín, Viktor Ullmann criou a ópera que parodiava o próprio ditador alemão, O Imperador de Atlantis, que é uma obra-prima que lhe custou a vida.
Ilse Weber escreveu poemas no campo de concentração e musicou alguns deles, usando o violão.
"Wiegala" é uma canção de ninar. Quando as crianças de Terezín foram transferidas para Auschwitz, para serem mortas em massa, Weber quis ir com elas, e cantaram a canção na câmara de gás.
A doce letra apresenta três estrofes: na primeira, o vento brinca com a lira e toca suavemente, e o rouxinol canta. Na segunda, a lua é uma lanterna e olha para o mundo. No fim, comenta-se o silêncio do mundo: "Nenhum som perturba a adorável paz./ Durma, minha criança, durma também."; "Como o mundo está silencioso".
No fim, seria o silêncio dos mortos. Por isso, quase escolhi esta música para o trigésimo dia do desafio, a canção que lembra o mundo. Seria, porém, injusto com Ilse Weber e sua coragem.
segunda-feira, 20 de março de 2017
30 dias de canções: Shajarian, o grito contra as chamas, o cantor contra o Estado
30 dias de canções
Dia 28: Uma canção de um artista cuja voz você ama
"Faryad" ("O grito"), de Mohammad Reza Shajarian, sobre poema de Akhavan Saless. Shajarian gravou-a em 2003, porém ignoro se ela é mais antiga.
Para mim, Mohammad Reza Shajarian é o maior cantor do mundo. Tinha, portanto, de escolher alguma música dele, embora eu não entenda nada de sua língua. Vejam-no aqui com seu filho, Homayoun Shajarian, que possui um timbre idêntico ao do pai: https://www.youtube.com/watch?v=Jxt8RuZWRaA.
Neste caso, ele não escolheu um poema da era clássica, mas um poeta moderno, uma dos pioneiros da poesia moderna persa, que morreu em 1990.
Olhando as versões em francês e em inglês do disco "Faryad: Masters of Persian Music", faço esta versão fuleira:
Minha casa está em chamas. Eles queimam furiosamente o que eu construí, cada folha que plantei, enquanto corro de um ponto a outro em vão e grito, grito.
Do alto de seu teto, meus inimigos se regozijam e gargalham com o espetáculo da destruição e, testemunha desta injustiça, grito, grito.
Com minhas mãos cobertas de bolhas, apago uma chama porém outra se acende. Meus vizinhos despertarão de seu sono profundo para me oferecer uma mão amiga?
E eu grito, grito.
Sua voz é muito impressionante pela capacidade de sustentar frases longas e pela agilidade, além da beleza do timbre. No vídeo, acima, ele tinha mais de sessenta anos (nasceu em 1940). Este outro, em Nova Iorque, foi filmado em 2013 e é sensacional: https://www.youtube.com/watch?v=GnI4R9Bdl3g.
Mohammad Reza Shajarian interessou-se pelas canções clássicas persas apesar de, em seu ambiente familiar islâmico, elas serem encaradas como algo proibido: http://www.npr.org/2010/09/27/130047062/mohammad-reza-shajarian-protest-through-poetry.
Sua filha, Mojgan Shajarian, cantou em seu conjunto, o que é muito mal visto no Irã: uma voz de mulher poderia excitar os homens... Aí ele também desafia interditos.
Como desafiou em 2009, depois dos protestos violentamente reprimidos contra a reeleição de Ahmadinejad, ele juntou sua voz à do povo. O político chamou as multidões de cinza e lama.
Shajarian declarou que a voz dele era da cinza e da lama, e seguiria sempre assim. E lançou uma música de protesto, "Língua do fogo". Em consequência, suas canções foram proibidas e ele não pode mais apresentar-se no Irã.
Foi filmado um documentário, Voice of Dust and Ash, que nunca vi, sobre o incidente. O trailer tem narração e legenda em inglês.
Sobre o banimento, cito a matéria de Shima Sharabi, "Mohammad Reza shajarian: Iran's Most Beloved Banned Singer", publicada dia 18 de janeiro de 2017 no Iran Wire:
It has now been seven years since the Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB) first banned Shajarian’s voice, photograph and even his name from being broadcast on state-run radio and television. The ban was a punishment for his support for the “wrong” side in 2009’s disputed presidential election. When millions of Iranian people went out on the streets to protest against the official results of the election — which gave Mahmoud Ahmadinejad a second term in office — Shajarian joined them. He released a song entitled Language of Fire to support protesters, posting it online. “Lay down your gun,” the song begins. “I hate this weird shedding of blood. The gun in your hand speaks the language of fire and iron.”
A matéria também conta que, no fim do ano passado, ele descobriu que está com um câncer. As últimas notícias que vi eram a de que estava reagindo bem ao tratamento, felizmente.
Coincidentemente, escrevo esta pequena nota no ano novo persa: #nowruzmobarak. Esperemos que não se repita por mais um ano, a vergonha, imposta pela teocracia, de a maior voz do Irã não poder apresentar-se em seu próprio país.
E que ele cante, cante.
domingo, 19 de março de 2017
30 dias de canções: Schubert e o duplo
30 dias de canções
Dia 27: Uma canção que cancela as canções
"Der Doppelgänger" ("O duplo"), uma das consequências de Franz Schubert ter lido Heinrich Heine. Pena que o compositor morreria pouco depois.
O editor Haslinger, após a morte do compositor em 1828, reuniu postumamente as últimas canções (com exceção de "Der Hirt auf dem Felsen") sob o título Schwanengesang ("Canto do cisne"). Não se trata, portanto, de um ciclo como Viagem de inverno e A bela moleira, concebidos pelo compositor.
Nesse conjunto, está a célebre "Serenata", sobre poema de Ludwig Rellstab (vejam o tenor Peter Schreier e o pianista Rudolf Buchbinder), que os cantores populares também interpretam, se tem voz para tanto (por exemplo, a rainha do rádio Ângela Maria e, da geração mais nova de cantores brasileiros, Lívia Nestrovski).
No entanto, os poemas de Heine que estão nesse conjunto póstumo destacam-se por uma sonoridade própria e estão entre as obras máximas de Schubert e da canção em geral.
Entre elas, "Der Doppelgänger" talvez seja a mais desconcertante. Sugiro ouvi-la na voz de contralto da cantora e maestrina Nathalie Stutzmann, acompanhada por Inger Södergren. https://www.youtube.com/watch?v=vCv9i-1IRFA.
A primeira estrofe do poema de Heine descreve o ambiente: noite quieta, ruas silenciosas. O amor do narrador ali morava; ela deixou a cidade, mas a casa ainda está no mesmo lugar...
Na segunda estrofe, ele vê outro homem, que está atormentado pela dor. Ele se horroriza quando vê a face dele, iluminada pela lua: é a sua própria forma... A declamação chega ao desespero em "meine eigne Gestalt" (minha própria forma): https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m15s; vejam a expressão de Stutzmann nesse momento: ela exprime o desgosto do narrador em deparar-se com o duplo.
Na terceira e última estrofe, ele se dirige a seu "pálido companheiro" e indaga por que ele "macaqueia" a dor de amor que o torturou naquele lugar, tantas noites, em um tempo antigo.
Depois do forte em "so manche Nacht": https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m48s, vem o melisma em alter (velho, antigo) e a música vai desaparecendo no piano.
Nesse conjunto, está a célebre "Serenata", sobre poema de Ludwig Rellstab (vejam o tenor Peter Schreier e o pianista Rudolf Buchbinder), que os cantores populares também interpretam, se tem voz para tanto (por exemplo, a rainha do rádio Ângela Maria e, da geração mais nova de cantores brasileiros, Lívia Nestrovski).
No entanto, os poemas de Heine que estão nesse conjunto póstumo destacam-se por uma sonoridade própria e estão entre as obras máximas de Schubert e da canção em geral.
Entre elas, "Der Doppelgänger" talvez seja a mais desconcertante. Sugiro ouvi-la na voz de contralto da cantora e maestrina Nathalie Stutzmann, acompanhada por Inger Södergren. https://www.youtube.com/watch?v=vCv9i-1IRFA.
A primeira estrofe do poema de Heine descreve o ambiente: noite quieta, ruas silenciosas. O amor do narrador ali morava; ela deixou a cidade, mas a casa ainda está no mesmo lugar...
Na segunda estrofe, ele vê outro homem, que está atormentado pela dor. Ele se horroriza quando vê a face dele, iluminada pela lua: é a sua própria forma... A declamação chega ao desespero em "meine eigne Gestalt" (minha própria forma): https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m15s; vejam a expressão de Stutzmann nesse momento: ela exprime o desgosto do narrador em deparar-se com o duplo.
Na terceira e última estrofe, ele se dirige a seu "pálido companheiro" e indaga por que ele "macaqueia" a dor de amor que o torturou naquele lugar, tantas noites, em um tempo antigo.
Depois do forte em "so manche Nacht": https://youtu.be/vCv9i-1IRFA?t=2m48s, vem o melisma em alter (velho, antigo) e a música vai desaparecendo no piano.
Ian Bostridge, conhecido tenor e intérprete de Schubert, em A Singer's Notebook, destacou a "terrível simplicidade e severidade", a "subversão radical do impulso melódico" das canções sobre poemas de Heine em O canto do cisne, que "ainda chocam e parecem ir muito além dos poemas de amor perdido em que se baseiam".
De fato. Esta não foi a última canção de Schubert, mas poderia ter sido. Principalmente, ela aponta para o fim de um estilo de canção mais próximo da popular (que continuaria, mas pareceria cada vez mais anacrônico). Pode-se ver "na paralisação da linha vocal - o que expressa o estado mental patológico do narrador - apenas o melisma final tem algo que lembra a forma da canção", conforme lembra Helene Wanske na apresentação da gravação que o barítono Bo Skhovus fez do ciclo Schwanengesang.
No "alter Zeit", isto é, no tempo antigo é que aparece na linha vocal um perfil mais cantabile... Aqui, Schubert parece dar adeus a uma forma de canção.
Brigitte Fassbaender, em nota à própria gravação com o compositor e pianista Aribert Reimann, vê nessa canção uma ruptura "em direção a um novo mundo".
Seria o desgosto de deparar-se consigo mesmo, com o duplo, uma exasperação com os limites da forma? Não sei, e precisaríamos que Schubert tivesse vivido mais para que soubéssemos aonde ele iria, que formas novas ele inventaria.
De qualquer forma, Der Doppelgänger aponta novos desafios para os compositores de canções e, nesse terreno, Schubert nunca seria ultrapassado.
De fato. Esta não foi a última canção de Schubert, mas poderia ter sido. Principalmente, ela aponta para o fim de um estilo de canção mais próximo da popular (que continuaria, mas pareceria cada vez mais anacrônico). Pode-se ver "na paralisação da linha vocal - o que expressa o estado mental patológico do narrador - apenas o melisma final tem algo que lembra a forma da canção", conforme lembra Helene Wanske na apresentação da gravação que o barítono Bo Skhovus fez do ciclo Schwanengesang.
No "alter Zeit", isto é, no tempo antigo é que aparece na linha vocal um perfil mais cantabile... Aqui, Schubert parece dar adeus a uma forma de canção.
Brigitte Fassbaender, em nota à própria gravação com o compositor e pianista Aribert Reimann, vê nessa canção uma ruptura "em direção a um novo mundo".
Seria o desgosto de deparar-se consigo mesmo, com o duplo, uma exasperação com os limites da forma? Não sei, e precisaríamos que Schubert tivesse vivido mais para que soubéssemos aonde ele iria, que formas novas ele inventaria.
De qualquer forma, Der Doppelgänger aponta novos desafios para os compositores de canções e, nesse terreno, Schubert nunca seria ultrapassado.
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