O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Uma ópera que se tornou filme: "La serva padrona", de Pergolesi, por Carla Camuratti (30 dias de ópera: Dia 25)

Há obras-primas do cinema entre os filmes de ópera. Dos que vi, um dos que mais me impressionou foi A flauta mágica, a ópera de Mozart, segundo a visão de Ingmar Bergman. O cineasta adotou o ponto de vista do público, especialmente das crianças, sobre esta obra-prima para todas as idades. Além disso, a execução musical é excelente, com a regência do grande Eric Ericson. Alguns talvez não gostem de o libreto de Schikaneder ter sido traduzido para o sueco, mas é uma língua parente do alemão, as frases parecem estar sempre próximas do original.
Nem sempre os filmes contam com as melhores interpretações musicais. O primeiro que vi, no cinema, foi uma La Traviata (uma das mais conhecidas óperas de Verdi) com um soprano que reclamou ter estragado a voz tentando melhorar sua interpretação. De fato, essa disputa com a difícil partitura é audível, e é perdida no fim do primeiro ato; para piorar, a música foi cortada para o filme ficar mais curto.
Há tanto para escolher, decidi-me por uma obra única: o primeiro filme de ópera brasileiro, que ganhou o prêmio HBO em 1997, La serva padrona, dirigido por Carla Camuratti. A atriz e diretora já havia assumido um papel importante na chamada retomada do cinema brasileiro, com Carlota Joaquina, e ousou inaugurar um gênero cinematográfico no Brasil com seu segunda longa:


Esta é a folha de rosto do libreto, que custou nove reais na época. A ópera bufa, do compositor Giovanni Battista Pergolesi e do libretista Gennaro Antonio Federico, estreou em 1733 e constitui um exemplo notável da commedia dell'arte nos palcos líricos. Serpina é a criada que, criada por Uberto desde criança, resolve casar-se com ele e tornar-se patroa. Há outro criado, Vespone, um personagem mudo, que acaba por auxiliá-la (disfarçando-se de Capitão Tempestade) no plano para conquistar Uberto, que gosta dela, mas não quer reconhecer o afeto.
No filme de Camuratti os cantores são o soprano Sylvia Klein e o baixo-barítono José Carlos Leal, que participaram da montagem no teatro, que ela mesma dirigiu em Minas Gerais em 1996. A Orquestra de Câmara Sesiminas é regida por Sérgio Magnani. O papel de Vespone é interpretado por Thales Pan Chacon, que morreu logo depois e não pôde assistir à estreia. Nos créditos do filme e no libreto, a diretora do filme e ex-esposa do ator e bailarino deixou-lhe uma dedicatória in memoriam. Para suas cenas, o maestro criou uma linha de fagote como uma espécie de voz do personagem.
A ópera, que nasceu como um intermezzo para ser apresentado no intervalo de uma opera seria, tem uma duração curta. A diretora aumenta-a um pouco iniciando o filme com um pesadelo de Uberto com Serpina e, depois, uma divertida descrição das cenas: https://www.youtube.com/watch?v=KNQOO2kvilg
Vejam como a câmera emula a vivacidade da música nesta ária de Serpina, "Stizzoso, mio stizzoso" ("Birrento, meu birrento"): https://www.youtube.com/watch?v=36K7E8i2Zr0. O desembaraço de Sylvia Klein é contagiante.
Achei outro momento do filme, esta ária do personagem de José Carlos Leal, "Sempre incontrasti con te si sta" ("Sempre de picuinha contigo estou"; sigo a tradução do libreto, cujo autor ignoro): https://www.youtube.com/watch?v=SasguCfqqi4
No final, o dueto do martelinho do amor sela a felicidade do casal. Creio que Camuratti supera o desafio de filmar neste cenário único (há o sonho, a fantasia de Uberto sobre Serpina deixando a casa). Sua direção respira com a música, como ela mesma explicou no volume a ela dedicado na importante coleção Aplauso (Luz natural, por Carlos Alberto Mattos), e obedece a uma estruturação de ordem musical, o que não é comum ver nos filmes de ópera:
Uma das codificações básicas que estabeleci, junto com o Breno Silveira [o diretor de fotografia], foi rodar os recitativos com câmera parada, tripé e cortes secos, enquanto nas árias a câmera se deslocava, bailava, na mão ou em carrinhos. As pessoas podem não perceber isso, mas são embaladas por essa pontuação. 
Um filme rodado em oito dias, que contou com a "obediência", segundo a diretora, dos cantores de ópera, que estão acostumados à disciplina dura dos ensaios. No depoimento, ela conta que não é de Chacon a silhueta que rege a lua no fim, pois ele já havia falecido, e que foi um desafio deixar feio um ator que era reconhecidamente belo. Ela também insistiu que os cantores realmente cantassem suas partes nas árias, apesar da dublagem, o que contribui para a naturalidade do resultado. Não consigo ver esses filmes antigos que fazem o cantor apenas entreabrir a boca para notas que exigem muito mais esforço; imaginem cantar algo tão árduo quanto "Sempre libera" com um simples sorriso? Exige-se demais da suspensão de descrença.
Essa ópera gerou, após a morte precoce do compositor, e depois de apresentações na França na década de 1750, toda uma polêmica na música francesa conhecida como a Querelle des Bouffons, histórica disputa entre os defensores da ópera italiana (Rousseau, especialmente, que admirava esta obra cômica de Pergolsei) e os da ópera francesa. Um crítico, na época do lançamento do filme, não só criticou a própria ópera de Pergolesi como simplória e esquemática, opinião que me parece deixar de lado as convenções do gênero, como afirmou que a principal consequência estilística daquela Querela, a opéra comique, "está completamente esquecida".
A esse respeito, lembro da célebre Carta sobre a música francesa, de Rousseau, especialmente a passagem que repete sobre Pergolesi o que Cícero dizia de Homero, "significa ter progredido muito em arte, o fato de ter prazer em sua leitura". O filósofo suíço destaca o dueto "Lo conosco a quegl' occhietti" como "modelo de canto, de unidade, de melodia, de diálogo e de gosto a que nada faltará, quando for bem executado, salvo um público que saiba ouvi-lo". Para o filme de Camuratti, que chegou a oitenta mil espectadores com um número pequeno de cópias, creio que o público não faltou. O encanto da música de Pergolesi permanece.
Sobre a opéra comique, que acabou por colocar a antiga tragédia lírica francesa fora de moda: uma das óperas não exatamente olvidadas que foram compostas nesse formato, que combina números musicais e diálogos falados, é a Carmen de Bizet. Cheguei a pensar em escolher para este tópico a Carmen de Carlos Saura, com Laura del Sol e Antonio Gades, em que a música da ópera chega a aparecer, mas esta obra metalinguística tem mais que ver com o universo da dança. Um dos filmes realizados com base na ópera Carmen é o de Francesco Rossi, com Julia Migenes-Johnson no papel da protagonista e Plácido Domingo interpretando seu assassino. Vejam aqui o final da obra e percebam como foram longe as consequências estilísticas daquela ópera bufa: https://www.youtube.com/watch?v=BJSxleTXnJo.


30 dias de ópera: um desafio político
Primeiro dia: A ópera de hoje (La Bohème de Puccini)
Dia 2: Uma montagem inesperada assistida (Tannhäuser, de Wagner, segundo Werner Herzog)
Dia 3: Uma estreia assistida (Erwartung, de Schönberg)
Dia 4: A primeira ópera assistida (Aida, de Verdi)
Dia 5: O primeiro disco de ópera (La Traviata, de Verdi, com Callas)
Dia 6: Uma despedida presenciada (Leonie Rysanek na Elektra, de Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal)
Dia 7: Uma vaia dada (restos de Don Giovanni, de Mozart)
Dia 8: Um aplauso dado (Davi e Jônatas, de Charpentier, O Anão, de Zemlinsky)
Dia 9: Uma ária favorita ("Casta diva", da Norma, de Bellini)
Dia 10: Uma abertura favorita (de Tristão e Isolda, de Wagner)
Dia 11: Um balé favorito (de Castor et Pollux, de Rameau)
Dia 12: Um recitativo favorito (de O retorno de Ulisses à pátria, de Monteverdi)
Dia 13: Uma risada favorita  (de Platée, de Rameau)
Dia 14: Um coro favorito ("Danças Polovitsianas" de Príncipe Igor, de Borodin)
Dia 15: Um silêncio favorito (Moisés e Arão, de Schönberg)
Dia 16: Ópera e natureza (Lohengrin de Sciarrino)
Dia 17: Ópera e desastre (Idomeneo, de Mozart; Peter Grimes, de Britten)
Dia 18: Ópera e assassinato (Tosca, de Puccini)
Dia 19: Ópera e orgasmo (A coroação de Popeia, de Monteverdi e Busenello)
Dia 20: Ópera e gênero (La Calisto, de Cavalli)
Dia 21: Ópera e negacionismo (O Guarani, de Carlos Gomes)
Dia 22: Ópera e coragem (Der Kaiser von Atlantis, de Viktor Ullmann e Peter Kien)
Dia 23: Uma ópera que se tornou poema (Orfeu, de Monteverdi e Striggio, e Murilo Mendes)
Dia 24: Uma ópera que se tornou livro (A Judia, de Halévy, e Em busca do tempo perdido, de Proust)
Dia 25: Uma ópera que se tornou filme
Dia 26: Uma ópera que se tornou música
Dia 27: Uma ópera que se tornou ópera
Dia 28: Uma ópera que se tornou protesto
Dia 29: Uma ópera que se tornou revolução
Dia 30: Uma ópera de amanhã

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Uma risada favorita: "Platée", de Rameau, e a loucura (30 dias de ópera: dia 13)

No segundo ato de La Bohème de Puccini, o coro precisa fazer dois tipos de risada diferentes consecutivas. Na primeira, a altura das notas e sua duração é escrita; na segundo, quando os homens entram, a altura não é determinada, mas o ritmo foi escrito.
Ao vivo, não é incomum ver imprecisões nesse trecho, e até em gravações de estúdio. Gosto destas duas gravações da década de 1950, esta, regida por Thomas Beecham: https://youtu.be/fUo1rGsCQM4?t=141; e a por Antonino Votto: https://youtu.be/e2hdaAK_kT0?t=2559.
Nos dois casos, a risada está escrita para ser executada de certa forma, não ad libitum.

Logo depois, sem indicação da altura, só de ritmo:


A risada também pode ser prevista sem indicação de ritmo ou de abertura; na mesma Bohème, Um exemplo, no terceiro ato, ocorre enquanto Rodolfo e Marcello socorrem Mimì, está no cabaré e se a ouve Musetta rindo dentro do cabaré de forma espalhafatosa. Marcello corre para ver o que ela está a fazer, e com quem: https://youtu.be/SPodFDQKATY?t=4578

Há também risadas que os intérpretes adicionam ao papel; Musetta entra no segundo ato, segundo a indicação da partitura, sorrindo; daí para os risos, há um passo que várias cantoras não tiveram dificuldade em dar.
Outros risos são mais controversos, como no final do "Credo" do Iago, na ópera Otello de Verdi. não há paralelo para este trecho na peça de Shakespeare (ou na ópera homônima de Rossini). Arrigo Boito escreveu um monólogo para o personagem em que ele explica em que Deus cruel ele acredita. No final, ele diz que "A morte é o nada./ É velha fábula o Céu".
https://youtu.be/1SWYKIN41WQ?t=283
Há quem goste de rir depois disso: https://youtu.be/EBMLJk3ifoI?t=269
Quero, porém, dar outro exemplo, e não deste, tirado de uma tragédia, ou dos primeiros, de uma obra tragicômica. O cômico é muitas vezes diminuído em relação ao trágico, o que é bem injusto. A comédia pode perturbar apenas por existir, sem pedir desculpas a bons sentimentos.
Boulez diminuía Rameau pelos balés próprios do gênero da ópera daquele tempo (em 1975, "Par volonté et par hasard"; não tenho o livro, cito da Diapason de fevereiro de 2016), lembro disso porque escolhi uma cena de Castor et Pollux para o balé favorito; no entanto, Rameau podia chocar o seu tempo, seja pela densidade da música, seja, nesta ópera, pelo cômico sem nenhuma desculpa de virtude redentora: Platée, ópera criada em 1745, apresenta a história da rã que se julga amada por Júpiter, que só está querendo pregar uma peça na esposa, a Deusa Juno, a ciumenta. O libreto foi escrito por Adrien-Joseph Le Valois d'Orville.
Trata-se de algo único na ópera francesa dessa época, uma obra com caráter cômico, e que agradou muito os inimigos da "tragédia lírica" francesa, como Rousseau. Girdlestone, cuja biografia (Jean-Philippe Rameau: His life and work) citei aqui, explica como Platée abriu o caminho para obras como La serva padrona, de Pergolesi, em Paris, e para a futura opéra comique.
Muitas piadas nascem das impressionantes arrogância e feiura da protagonista, e são encarnadas musicalmente por meio de várias estratagemas, como o coaxar de Platée (a língua francesa ajuda nestes momentos, em palavras como "quoi", "crois"). Nessa ópera em que os Deuses se revelam sórdidos, tontos ou pior ainda, surge esta cena genial: a Loucura ("Folie") é uma personagem (quase diríamos que é a mentora de tudo!) e chega quando Platée e Júpiter já estão "juntos", por assim dizer.
A Loucura acabou de roubar a lira de Apolo (talvez fosse o que público estivesse achando da ópera naquele momento) e canta uma ária sobre a infeliz ninfa Dafne ("Aux langueurs d'Apollon, Daphné se refusa"), metamorfoseada em árvore para fugir do assédio de Apolo, mais ou menos o contrário do que está acontecendo em cena.
A coloratura que Rameau emprega para ornamentar o canto da Loucura cai em sílabas inesperadas para gerar o efeito cômico. Quando ela diz que Júpiter a metamorfoseou, "la métamorphosa", o "a" final sofre todos os tipos de abuso até se converter em risada: https://youtu.be/E1EE6CSIo6A?t=144
 "Quando o amor é ultrajado", por exemplo, a cantora tem que ornamentar o "u", gerando estes uivos, ou vaias, não sei, depende de como o público estiver se comportando (isto é, se ele merece ser devorado ou, se se comportar mal, vaiado): https://youtu.be/E1EE6CSIo6A?t=192
Os exemplos que dei aqui vieram da genial produção da Ópera de Paris, com a direção cênica de Laurent Pelly,  regência de Marc Minkowski (que gravou a ópera em disco), o tenor Paul Agnew como Platée e Mireille Delunsch no papel da Loucura, com Les Musiciens du Louvre em 2003. A cantora e o maestro, mesmo em concerto, continuam brilhantes: https://www.youtube.com/watch?v=cpwYjawWCZE. Agnew, há alguns anos, passou a também reger esta música.
Minkowski explicou que, nesta cena, a orquestra começa uma abertura à francesa, um pouco pomposa, quando é interrompida subitamente por um riso: "é toda a orquestra, em verdade, que ri" e a música recomeça. O riso instrumental anuncia a entrada da personagem. No mesmo vídeo sobre a produção de 2003, Pelly sustenta que a Loucura, na verdade, é Rameau, e ela tem o poder de suspender a ação: "a música é mais forte do que tudo". Até contar esta história.
Ivan A. Alexandre, no ensaio"Aux sources de Platée" que acompanha a gravação de Minkowski, escreveu em sentido parecido, "a verdadeira voz da Loucura é claramente a do músico", e não do libretista. Ela realmente assumiu a lira de Apolo.
A dimensão metalinguística da cena (na verdade, de toda a ópera) é realçada, naquela produção, pelo vestido de partituras, pelo fato de ela entregar as páginas arrancadas do vestido da Loucura aos músicos da orquestra, e por de fato dirigir a orquestra em mais de um momento (o mesmo ocorre no concerto). A Loucura, no fim, rege a retirada de Platée para as profundezas do pântano. No libreto, é ela de fato a última a agir, coordenando a retirada dos que vieram assistir ao falso casamento.
A história continua sendo cruel, como lembrou Anthony Tommasini nesta elogiosa crítica recente de apresentação em concerto do Les Arts Florissants em Nova Iorque. Bestas sadias não apreciam o espetáculo. No entanto, sem a Loucura, como criar?


30 dias de ópera: um desafio político
Primeiro dia: A ópera de hoje (La Bohème de Puccini)
Dia 2: Uma montagem inesperada assistida (Tannhäuser, de Wagner, segundo Werner Herzog)
Dia 3: Uma estreia assistida (Erwartung, de Schönberg)
Dia 4: A primeira ópera assistida (Aida, de Verdi)
Dia 5: O primeiro disco de ópera (La Traviata, de Verdi, com Callas)
Dia 6: Uma despedida presenciada (Leonie Rysanek na Elektra, de Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal)
Dia 7: Uma vaia dada (restos de Don Giovanni, de Mozart)
Dia 8: Um aplauso dado (Davi e Jônatas, de Charpentier, O Anão, de Zemlinsky)
Dia 9: Uma ária favorita ("Casta diva", da Norma, de Bellini)
Dia 10: Uma abertura favorita (de Tristão e Isolda, de Wagner)
Dia 11: Um balé favorito (de Castor et Pollux, de Rameau)
Dia 12: Um recitativo favorito (de O retorno de Ulisses à pátria, de Monteverdi)
Dia 13: Uma risada favorita
Dia 14: Um coro favorito
Dia 15: Um silêncio favorito
Dia 16: Ópera e natureza
Dia 17: Ópera e desastre
Dia 18: Ópera e assassinato
Dia 19: Ópera e orgasmo
Dia 20: Ópera e gênero
Dia 21: Ópera e negacionismo
Dia 22: Ópera e coragem
Dia 23: Uma ópera que se tornou poema
Dia 24: Uma ópera que se tornou livro
Dia 25: Uma ópera que se tornou filme
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Filosofia política e robôs na internet: uma nota sobre democracia, notícias falsas, ilusões e políticas grosseiras

O filósofo Milton Meira do Nascimento foi homenageado na IV Jornada de Filosofia Política na Universidade de Brasília, coordenada por Cecília Almeida, professora da Faculdade de Filosofia da UnB. Sua conferência, "A opinião pública na era da pós-verdade", partiu da questão da opinião pública em Rousseau para chegar a dilemas políticos atuais. Ela foi gravada e pode ser vista através desta ligação: https://www.facebook.com/jornadafilosofiapoliticaunb/videos/1685300514875527/
Sobre a pretendida reforma da previdência no Brasil, ele afirma: "se houvesse uma democracia, o povo seria convidado a tomar uma decisão". Ele deixou bem claro que não estamos em uma democracia, e o público presente não discordou; creio que uma boa parte era da própria UnB, que é um dos alvos de sucateamento do governo de Temer. A Jornada reuniu pesquisadores de vários Estados e também estrangeiros.
Sobre a tendência de as pessoas só falarem com semelhantes em redes sociais, Milton Meira do Nascimento considerou que "o espaço público não pode ser um espaço de bolhas" e indagou: "por que não sentar-se à mesa e discutir?"; depois de falar dos efeitos nefastos da privatização e do "descaso generalizado" com o que é público, considerou que "a invasão das bolhas no espaço público impede que haja uma percepção do espaço público, pois, quando você entra como bolha, você entra defendendo seus interesses até a morte".
O filósofo estipulou pontos para a reforma política, no sentido de fortalecer a soberania popular, bem no sentido oposto do que indica o Congresso Nacional; "nós estamos caminhando a largos passos para uma ditadura", advertiu.
Boa parte da discussão que se seguiu, e não foi gravada, teve como objeto esta questão: é possível conversar com os "coxinhas"; e com os fascistas? Alguns se opuseram a essa abertura proposta por Milton Meira do Nascimento. No último dia da Jornada, houve duas mesas simultâneas à tarde, que acompanhei parcialmente, que eram basicamente opostas: de um lado, os filósofos da guerra querendo o confronto e o enfrentamento; do outro, os psicanalistas falando de escuta clínica e de atendimento de não importa quem no espaço público.
Perguntei-me, então, com quem se pode falar? Todos que estão a proferir discursos são, realmente, cidadãos? O espaço da discussão, creio, fecha-se com a presença de milhões de identidades falsas na internet, que não foram criadas para discussão, mas para fins de guerra ou de disputa (de mercados, de cargos), seja de governos, de partidos ou de empresas. Não correspondem a membros da comunidade política.
Essa questão não foi abordada naquele instante, mas, depois do evento, fiquei a observar mais detidamente essas identidades talvez falsas. Alguém que entendesse da internet poderia escrever algo interessante sobre isso; não é meu caso, apenas escreverei uma nota lembrando de Hannah Arendt sobre o descarte dos homens no mundo da produção: eles poderiam tornar-se inúteis até para serem explorados - e isso seria o pior que poderia acontecer. No artigo "Sobre a violência", de Crises da república, em que explica a diferença entre violência e poder, ela imagina outra possibilidade de descarte do humano: "Somente o desenvolvimento de soldados robôs que eliminassem [...] o fator humano por completo e permitissem a um só homem com um botão de comando destruir a quem lhe aprouvesse, poderia mudar esta supremacia fundamental do poder sobre a violência." (cito a tradução de José Volkamnn, publicada pela Perspectiva).
E os robôs no discurso, no mundo da ação, substituindo os homens? O robô sempre será, imagino, a voz de quem o produziu, seja o mercado, seja o Estado. Não teremos um contrato social com ele. Arendt não chegou a pensar nisso, mas creio que, nos termos dela, esse seria o final da política.
Na minha pequena experiência, creio, pelas centenas de spams que recebo em outro blogue, creio que a maior parte da internet é composta por robôs, entes automáticos ou semiautomáticos. Além do uso para golpes e outros tipos de negócios, eles estão na política. Matéria do El País (de Javier Salas, "Robôs e ‘trolls’, as armas que Governos usam para envenenar a política nas redes", em 24 de novembro de 2017) indica apenas trinta Estados em que os governos empregam perfis falsos para distorcer o debate público, com referências aos milhões de contas falsas russas comandadas pelo que chamam de "mais famosa fazenda de trolls do planeta: a Internet Research Agency (IRA)", tão significativas para a vitória do atual presidente dos EUA. As contas no Twitter não foram apagadas para não prejudicar "o crescimento da companhia"; em outubro deste ano, a empresa reconheceu que superestimou seu número de usuários (vejam a matéria de The New York Times). O Twitter tem verificado contas, e uma das razões para perder a verificação é a de enganar as pessoas intencionalmente ao alterar nome ou biografia, bem como promover a violência (segundo este texto, que, aparentemente, não tem sido aplicado a governantes).
Foi chamada de efeito de "comportamento de manada" a possibilidade de perfis falsos direcionarem comportamentos. Eles estão sendo "incorporados" às Forças Armadas dos Estados para "modelar comportamentos por meio de narrativas dinâmicas", "shaping behaviours through the use of dynamic narratives", como anunciou o Ministério da Defesa do Reino Unido em 2015: trata-se da guerra na era da informação. É significativo que funcionários do Facebook, que tem "Big Data" de seus usuários e sabem como direcionar anúncios por meio dos algoritmos, tenham sido consultores da campanha de Donald Trump.
Além de perfis falsos, há quem veja malefícios na própria dinâmica das redes sociais. Leio que um ex-diretor no Facebook, Chamath Palihapitiya (outra matéria de El País), pensa estar ocorrendo uma limitação nas "interações humanas", bem como um défice no "discurso civil", o que envolve as informações falsas; outros nomes que trabalharam nessa rede afastaram-se dela completamente e a criticam como "ferramenta de manipulação em massa".
Talvez a dinâmica de redes sociais como o facebook suscita seja favorável ao fascismo na medida que a polarização política permite mais venda de anúncios e mais lucros, apontam outros (The Verge, "How Facebook rewards plarizing political ads", por Casey Newton):
“Facebook’s profits depend on people coming back, clicking and sharing things,” said Alex Howard, deputy director of the Sunlight Foundation, which advocates for transparency in political advertising. “It’s not based on, ‘did we arrive at a resonated discourse on this policy proposal?’ or ‘did the best questions get asked at this town hall?’ or ‘did this politician get fact-checked on the lies that he or she was propagating?’”
Não se trata de uma situação ideal de fala... E como poderia sê-lo, se se trata de empresas, e que fazem da desinformação seu negócio? O próprio número de perfis falsos e o tráfego que geram são favoráveis ao lucro.
Há perfis automatizados, programados para disseminar certos tópicos ou mensagens de determinada contas, mas há também aqueles, humanos, pagos para determinada campanha, legenda política ou produto (tudo, enfim, é um produto). Esta sequência de tweets mostra como os "bots" conversam: https://twitter.com/RedIsDead/status/939480257073004544. Um deles foi apagado pela rede social.
Transcrevo o curioso diálogo:"Trump is Protecting America! He is our president!", "yeah he sure is", "I ordered 2 of them", "oh great i am also going to order", "That would be great" "We Love our President". Ele todo segue a lógica da mercadoria; a inusitada frase de que encomendou ou comprou 2 deles, embora aparente quebrar o contexto, revela-o plenamente, pois não estávamos diante de uma discussão política, e sim apenas de propaganda do plutocrata em questão.
Os ciborgues são comandados em parte por computadores, em parte por humanos e imitam de maneira mais eficaz o comportamento de uma pessoa real. Esta matéria de Juliana Gragnani estabelece uma taxonomia desses perfis, ("Como identificar os diferentes tipos de fakes e robôs que atuam nas redes", BBC Brasil, 16 dez. 2017) destinada a ficar obsoleta mais adiante, com os novos produtos do mercado da desinformação.
Como identificar um "bot"? Kyle Murray deu algumas dicas analisando este perfil de admiradora de Trump e Putin: https://medium.com/@TheKyleMurray/fight-on-line-the-curious-case-of-proud-trojan-jenifer-stevens-c6bf35b12f7. No Twitter, ela não tinha fotos pessoais, não identificava a empresa de que seria CEO; no Facebook, usava a mesma foto para diferentes postagens, e as fotos do perfil não eram da mesma pessoa.
Muitos simplesmente repetem a mesma mensagem: https://twitter.com/KaizerGabriel/status/943552159664230402
Esses eram da Igreja Universal, combatendo a reportagem portuguesa sobre o tráfico de crianças que seria promovido por essa Igreja. No Brasil, curiosamente, muitos desses perfis são seguidores de J. Bolsonaro, político mencionado por Milton Meira do Nascimento, naquela palestra, como alguém que deve ser enfrentado no debate público. No entanto, uma das formas de ele (e seus filhos) evitarem esse debate é justamente cercar-se desse exército virtual, pronto a realizar ações de massa contra eventuais adversários. Por algum motivo que me escapa, há uma série de perfis duvidosos nesse entorno. Imaginem uma suposta página de feministas com aquele político que não só responde como se fosse um sujeito masculino como faz piadas contra as mulheres? Vejam aqui: https://twitter.com/AnarcoFino/status/921568357681389568
Fernando Marés de Souza apontou, já em 2014, a falsidade da maior parte desses apoiadores virtuais. Ele escreveu que o "Brasil tem 140.646.446 eleitores. Destes, 140.647.451 assinaram petição a favor de Bolsonaro": https://twitter.com/roteirodecinema/status/450298497359970304.
Como ele poderia ter mais apoiadores do que o Brasil tem eleitores? Fenômenos como esse podem explicar-se como o fruto milionário do uso de robôs. A "inundação de perfis reacionários" na internet deve-se a isso.
A possibilidade de um pequeno grupo parecer uma multidão (cito Jake Laperruque: "Essentially, the software allows a small group of individuals to pose as an extremely large group of people online") tem implicações no direito eleitoral, tendo em vista a possibilidade de manipulação do debate público. Tendo em vista a propensão desses perfis de propagar notícias falsas, o desafio é grande. Gilmar Mendes, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, previu dificuldades no combate às notícias falsas.
Na verdade, o Judiciário não quer atacar a questão: "Os ministros não devem proibir definitivamente o uso de robôs em campanhas para divulgação de agenda e plataformas de governo". É necessário, no entanto, distinguir os robôs que fingem ser humanos, e não tratar a questão como qualquer outro tipo de propaganda: quem tem mais dinheiro, compra mais panfletos, por exemplos. Proibir, para efeitos eleitorais, notícias falsas e não perfis falsos parece-me um contrassenso, pois esse tipo de perfil é, em si mesmo, uma informação não verdadeira: a informação de que existe aquele eleitor e ele apóia ou combate determinado partido ou candidato.

Fenômenos curiosos ocorrem na internet. Por que um apoiador de Bolsonaro que utiliza a pobre bandeira brasileira no plano de fundo e que, ademais, nunca escreveu nada na rede social, seria tão interessante para ser seguido por um perfil em inglês em prol do Partido Republicano dos EUA, que chama, com a sutileza típica, Clinton de corrupta e exige isto: "build the wall"?

Além da barreira linguística, mais pronunciada para cidadãos daquele Estado, há o fato de o perfil nunca ter escrito nada e ter poucos seguidores (doze), todos, aparentemente, na mesma situação de militância política.
Claro que não digo que esse perfil é um bot, mas apenas que se parece com um, neste momento em que tantos humanos se assemelham a robôs e vice-versa, inclusive no nível de domínio das estruturas linguísticas.
Pode-se até pensar que aqueles dois perfis vieram da mesma origem.
Alguns desses perfis querem dados alheios e apresentam mensagens do tipo "Quer ganhar dinheiro? Cadastre-se no link". Deve funcionar, há ingênuos que têm algum dinheiro...
Pode ser um sinal de identidade falsa o nome do avatar e da arroba não coincidirem, e o da arroba parecer uma combinação aleatória de algarismos e letras.
Outro elemento a se considerar é o fato de terem poucos seguidores (alguns deles, no entanto, têm centenas de milhares, como se fossem latifúndios de robozinhos), e, desses, muitos com perfis em inglês, em geral com referências a Jesus, e/ou a Trump e o Partido Republicano, e/ou a serviços sexuais.
Acho que verificar quem são os seguidores é decisivo. Esses perfis de apoio a Bolsonaro que não se aparentam a pessoas reais são, em geral, seguidos por perfis em várias línguas, inclusive asiáticas, embora só escrevam em português, o que é estranhíssimo. Alguns não têm foto, muitos apresentam a bandeira brasileira (às vezes com um olho, talvez numa alusão a sua atividade de vigilância), afinal "Existe um povo que a bandeira empresta/ P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...". Muitos dos mais violentos apresentam-se com referências a times de futebol e/ou ao Cristianismo e pedem "intervenção militar", isto é, golpe de Estado. É possível que os criadores desses perfis esperem encontrar no futebol e nessa religião o exército de reserva do fascismo.
Muitos desses perfis apresentam fotos daquele juiz em Curitiba cuja imagem mais célebre mostra-o  rindo com o senador da frase "um que a gente mata ele". Margaret Thatcher e Ronald Reagan aparecem também. Mas, principalmente, Trump. É curioso notar que outros perfis, embora apresentem frases para atrair indecisos, como "não possuo político de estimação", expõem fotos de políticos fascistas e retransmitam suas mensagens... Muitos são perfis que prometem retribuir todos os que os seguirem, ou prometem o impacto do Twitter para os negócios.

Existem perfis militantes que tuitam centenas de vezes por dia; em geral, repassam mensagens de outrem. Mas há também perfis automatizados que o fazem. Vejam, ao lado, esse, que não identifico, que repassa mensagens de Bolsonaro e de pessoas da direita (no caso, este senhor Moura Brasil). Na parte inferior, à direita, pode-se ver o horário de cada um dos três quadros. A cada minuto, sessenta tweets novos. Um por segundo; poderia ser ação humana?
Diversos perfis militantes do monarquismo fazem campanha por Bolsonaro, o que não deve surpreender, pois eles se encontram politicamente no campo do antirrepublicanismo.
É curioso, no entanto, que políticos (em geral de partidos de direita, como o PSDB) e militares sigam perfis obscuros dessa natureza, que estão em campanha por aquele político (campanha ilegal, ademais, pois ainda não chegou a época no calendário eleitoral).

Talvez esses políticos e militares o façam em uma atividade de vigilância, em vez de adesão ao projeto político? Pode-se indagar. Veja-se este general, comandante militar da Amazônia, que segue diversas contas de pequena expressão que defendem o golpe militar e/ou Bolsonaro.
Este artigo de Robert Gowa, "Computational Propaganda in Poland: False Amplifiers and the Digital Public Sphere", realizado no âmbito do Computational Propaganda Project, da Universidade de Oxford, analisa os bots, os trolls e os perfis e notícias falsas na Polônia, e confirma que um "muito pequeno número de contas suspeitas de serem bots" é extremamente ativo nos tópicos políticos e pertence, a maioria, à direita. Suspeita-se da influência russa; jornalistas que escrevem artigos críticos sobre esse país recebem ameaças: "This seems to have become particularly common for journalists and other civil society members, with one interviewee noting that although he had gotten used to the spam and harassment that he would receive after he published articles critical to Russia, it became particularly worrisome when he began receiving private Facebook messages from anonymous accounts that threatened his wife and children by name."
Muitos dessas ameaças vêm dos trolls, os bots sendo menos comuns na Polônia; eles, no entanto, estão espalhando discursos altamente xenofóbicos e incitadores do ódio.
Há muitos desses perfis no Brasil; gostaria de ver um estudo como esse aqui. Como sou leigo na questão, imagino três questões vinculadas ao problema:
a) A quimérica autorregulação não funcionará. As redes sociais, em seu modo de produção, já mostraram que não controlarão o fenômeno, não apenas porque é uma fonte de lucro, mas porque a dignidade não faz parte daquela produção. Vejam que o pessoal que cuida de verificar o que está sendo escrito no Facebook ganha salário mínimo por jornada de oito horas diárias. Não se trata de uma atividade que a empresa valorize.
b) Um possível fim da neutralidade da internet assegurará um aumento da grande desigualdade no espaço público em prol do capital e do Estado, certamente acentuando e fortalecendo as contas e notícias falsas.
c) Parece-me, enfim, que o problema das notícias falsas talvez encontre um terreno mais fértil nos aplicativos de mensagens, mais ainda do que nas redes: com o iletramento estrutural e militante (a ruína da educação é dos projetos políticos mais tradicionais na sociedade brasileira, galhardamente acelerado por Temer), o fenômeno de pessoas se informarem antes por mensagens (com "memes" ou não) do que por periódicos se multiplicará. A impossibilidade de análise e de contextualização nesses meios infensos ao texto não impede, muito pelo contrário, insultos, conspirações e mentiras.
Levando em conta os grupos familiares, de amigos e de colegas, em que se divulgam essas coisas, trata-se de mais um fenômeno de privatização da discussão pública, cuja estupidez fundamental é diretamente proporcional às paixões de ódio e ressentimento que as mensagens suscitam. Daí ideias estúpidas como "nazismo de esquerda" se espalhem nesses meios em que a inteligência e a decência são estrangeiras (decência, pois penso na leviandade intelectual de criar ou divulgar informações sem fonte ou contrárias às fontes).
Lembrando de Milton Meira do Nascimento, especialista em Rousseau, termino esta nota com uma citação de A nova Heloísa. Na carta XXIII da segunda parte do livro, temos uma discussão sobre a Ópera de Paris e dos efeitos desse espetáculo sobre o público, que tem dificuldade em separar o ator do personagem (no teatro da internet, somos ambos, e está difícil separar o que é falso do verdadeiro), pois parece que os espíritos armam-se mais contra ilusões razoáveis do que contra as que são absurdas e grosseiras: "Il semble que les esprits se roidissent contre une illusion raisonnable, et ne s'y prêtent qu'autant qu'elle est absurde et grossière.". Que tipo de político é favorecido pelo desarmamento intelectual contra o absurdo?