O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Ditadura e golpe, Dmitri Hvorostovsky, Ogum, Angélica Freitas, Alberto Pimenta e outros na retrospectiva de 2024 à luz dos leitores

Sempre faço uma retrospectiva anual neste blogue: o exercício de memória do passado recente permite compreender melhor o presente. De alguns tempos para cá, sempre espero que os doze meses terminem, que é o que faz sentido, ao contrário do que estipula a temporalidade jornalística. Imaginem que no jornalismo cultural há até veículos que pedem que se escolha em outubro as melhores produções do ano!

Ademais, em certo sentido, nunca sabemos quando um ano realmente termina. Alguns ferem a cronologia e demoram mais para terminar, o que deve ser a razão pela qual o governo Lula não mencionou no primeiro de abril passado os sessenta anos do golpe de 1964.

Sempre mudo o critério da retrospectiva. Em 2017, quando ainda fazia essas coisas no último dia do ano, resolvi escolher  textos interessantes dos blogues que seguia. Entre eles, dois caíram.

Os blogues perderam audiência para as redes de fotos e as de vídeos que duram alguns segundos. No entanto, de 2023 para cá, vejo pessoas que afirmam desejar ler textos na internet, e não ver esses flashes que não convidam exatamente à reflexão. Notei também que blogues novos foram criados, o que é um movimento interessante.

Eu mantive este porque ele serve como um grande rascunhão de textos. Resolvi, então adotar o procedimento que muitos seguem: simplesmente listar as doze entradas mais lidas no blogue durante 2024, a começar da que teve mais visualizações. Eu não tinha a ideia de quais eram, surpreendi-me porque algumas são antigas, chegando a 2010. Imagino, portanto, que o interessante desta lista seja indicar temas que alguns leitores em português na internet acharam sensíveis.

Não que O palco e o mundo tenha sido muito lido: ele teve 45 mil e oitocentas visualizações no ano, o que não é muito para um blogue; ademais, pelo menos metade desse público deve ter chegado aqui por acaso e não por causa dos textos. No entanto, mesmo reduzindo a, talvez, dez por cento das visualizações, trata-se certamente de mais gente do que leu meus livros no mesmo período.

Curiosamente, os dois primeiros textos têm relação com música. Sou tenor e canto na Associação Coral de São Paulo, porém não tenho formação alguma nessa área, em que sou apenas um amador anônimo, apesar de participar de produções profissionais. Imagino que o assunto dos textos tenha sido o que chamou a atenção das pessoas ao ponto de lerem até mesmo algo que escrevi.



Dmitri Hvorostovsky (1962-2017), o cantor do mundo, a voz da Rússia e da Itália (22 de novembro de 2017). O texto conta minha experiência, apesar de limitada, com o célebre cantor russo, que morreu depois de uma batalha contra o câncer quando ainda estava senhor de sua voz e a carreira continuava a se desenvolver nos grandes palcos do mundo.

Tive a sorte de vê-lo duas vezes. Reproduzi no texto o programa de seu concerto no Rio de Janeiro (vazio de público, para a vergonha dos cariocas), falei de algumas gravações e lembrei da última vez que o vi, no ano em que descobriu a doença.

Escrevi um texto bem simples; o fato de ele ser lido mostra como Hvorostovsky continua a ser ouvido e amado graças às gravações e à memória que deixou no público. Imagino que continue criando memórias, pois leio nos comentários sobre as pessoas que o descobriram depois que morreu. De certa forma, um grande artista não morre.


30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda (31 de janeiro de 2017). Ousei, no início de 2017, produzir trechos para essa série, que outros blogues adotaram. Modifiquei algumas entradas, que não faziam sentido para mim, porém mantive a estrutura dos trinta dias. Comecei dia 28 de janeiro e só consegui encerrá-la no 25 de março, pois não consegui (nem imaginei que o faria) escrever um texto por dia. Em 2024, no entanto, publiquei aqui menos de trinta textos em um ano!

Na série, escolhi música de Guiraut de Borneilh a Tiganá Santana, passando por Beth Amin e Schumann. Também selecionei um ponto de Ogum que me foi ensinado por minha madrasta (por sinal, ela morreu há pouco mais de um mês; talvez tivesse gostado de saber disto).

"Se o céu é lindo" foi o tema do despretensioso texto que, sete anos depois, continua sendo lido, não sei por que razão. Talvez isso aconteça por causa da continuidade dos ataques racistas de terroristas cristãos às religiões afro-brasileiras, bem como dos chamados narcocrentes: lembro aqui do famigerado Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, região em que os traficantes evangélicos expulsaram os terreiros, o que é outro dos crimes (além da venda de drogas) que são cometidos sistematicamente naquele Estado, tendo em vista a inoperância das forças de segurança e do Judiciário.


Desarquivando o Brasil CCVI: Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros militares (25 de novembro de 2024). Trata-se do mais lido entre os textos que escrevi neste ano, provavelmente por causa da urgência do tema: a descoberta do plano militar de assassinato de pelo menos Lula, Alckmin, Alexandre de Morais em 2022. 

Nele, lembrei dos trechos de meu livro mais novo, Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, sobre a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Quis contrastar o texto com a  aparente leveza ou até leviandade de certos meios de comunicação no tratamento do assunto, que diz respeito diretamente à continuidade da democracia no Brasil. O mais curioso foi ver bolsonaristas reagindo assumindo tudo ou quase tudo do que foi investigado pela Polícia Federal e alegando, mesmo assim, perseguição política: a impunidade é seu lar e, por isso, estranham quando algo diferente ameaça surgir no horizonte. 


Angélica Freitas e o tamanho da insurgência (10 de outubro de 2012). Aqui, além de reproduzir um texto que publiquei em 2007 sobre a estreia em livro da autor, Rilke Shake, em um extinto jornal impresso de crítica literária, o K., escrevi minhas impressões sobre Um útero é do tamanho de um punho, que comprei e li antes do lançamento em São Paulo. 

Publiquei-o em 2012 justamente para fazer propaganda da poeta, que (devo dizer aqui, por causa da maledicência desse meio) não é minha amiga pessoal. Simplesmente entendi que o livro era importante. Destaquei nele o caráter de contestação à ordem patriarcal, bem como a insurgência do feminino. Cheguei na época a discutir com uma professora de literatura que afirmou que ele não era poético porque "um útero é realmente do tamanho de um punho". Ai.

Creio que ainda é a melhor obra de Angélica Freitas. Poucos anos depois, vi uma jovem com veleidades críticas escrever que nunca viu os homens destacaram essas mesmas qualidades desse livro. É triste que os jovens tantas vezes usem na internet sua própria ignorância (nunca viram nem leram nem ouviram...) como argumento de autoridade. A poeta é muito maior do que isso.


Desarquivando o Brasil CXCVII: "O intento golpista e, portanto, criminoso": minutas de golpes e atos institucionais (21 de fevereiro de 2024). Escrevi este sobre as minutas de golpe encontradas pela Polícia Federal com Anderson Torres. Resolvi elaborar um paralelo, do tipo que costumo fazer neste blogue na série Desarquivando o Brasil, com os antigos atos institucionais da ditadura militar.

O golpe, felizmente mal sucedido, era retrô também nesse aspecto. Ademais, sua base teórica era péssima (foi um caso de inteligência militar como deux mots qui hurlent de se trouver ensemble), precário até mesmo para os juristas que o inspiraram, conforme destaquei.


Desarquivando o Brasil CCIII: Onde está o relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" (16 de setembro de 2024). Eu estava há muito tempo para escrever esse texto. O que finalmente me moveu foi ter lido um livro cheio de equívocos que venceu a primeira edição do Jabuti Acadêmico; entre os erros, estavam afirmações sobre o relatório mencionado. 

A Comissão "Rubens Paiva", criada pelo Legislativo estadual por iniciativa de Adriano Diogo, foi interessante já pelo fato de ela ter surgido antes da Nacional e, com isso, ter despertado a fundação das outras: estaduais, municipais, sindicais, universitárias, a Camponesa etc. 

Era uma pena que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo não estivesse tratando bem do relatório, que jamais foi impresso e só existe on-line. Não sei se o meu texto teve alguma influência nisto, mas algumas semanas depois, não tive mais problema para acessá-lo.


Alberto Pimenta e o Discurso sobre o filho-da-puta de volta, em tempos muito apropriados, ao Brasil (16 de dezembro de 2020). O maior poeta vivo da língua portuguesa, Alberto Pimenta, é uma das principais razões por que as pessoas vêm parar neste blogue. Quatro anos depois, o texto de 2020 sobre a publicação na Serrote do célebre Discurso, que é seu livro mais traduzido, foi o mais lido dos vários que já escrevi sobre ele.

Evidentemente, além da genialidade de Pimenta, o assunto de que ele trata é sempre atual, o que deve ter chamado a atenção de quem leu o meu texto.


Subterrâneo do anjo e aniversário do Walter Benjamin (15 de julho de 2024). Este foi uma surpresa porque é um poema meu, ainda não recolhido em livro, publicado em um periódico de poesia, Ouriço, que o pediu. Eu o li com Fabio Weintraub no lançamento paulista da revista. Achei que a reação foi meio gélida, com exceção de Matheus Guménin, que foi a pessoa que estava lá e disse que gostou do poema. Acho que o problema foi tê-lo escrito com um tema (poesia e história), que foi alterado depois, o que me deixou meio fora do lugar naquele contexto. No blogue, porém, algumas pessoas talvez o tenham lido porque nele viro Walter Benjamin de pernas para o ar, o que não é tão comum.


Desarquivando o Brasil LXVII: Polícia e direito de manifestação (23 de agosto de 2013). Aqui tratei de alguma falas minhas no ano difícil de 2013, com destaque para a que fiz em uma iniciativa de esquerda de que morreu logo depois. Luka França também lá estava para tratar do caso Carandiru.

O vídeo caiu, mas os textos que apontei estão aqui: https://web.archive.org/web/20130811025608/http://vandaleando.laboratorio.us/. Como sempre, fiz o exercício de comparar o presente e o passado, dessa vez desde os anos 1950. 

Por que esse texto continua a ser lido, mais do que outros bem mais recentes? Imagino que a persistência do problema, com os casos diários de arbitrariedade policial, seja a razão.


Impressões europeias: a sombra do continente (21 de setembro de 2010). Trata-se de 355 caracteres (com espaços) e uma foto, que eu tirei, de xenofobia e racismo no Aeroporto de Madri. Zapatero e Sarkozy ainda estavam no poder.


Ele cala: a poesia de Nuno Ramos (20 de setembro de 2010). É o mais antigo dos textos, publicado na véspera do anterior. Trata-se de um dos artigos que escrevi sobre a obra literária de Nuno Ramos; este saiu na extinta revista Rodapé, que não foi publicada na internet.


Desarquivando o Brasil CCIV: Ciclo no SESC-SP de pesquisas acadêmicas e jornalísticas sobre a ditadura (16 de setembro de 2024). Eu não iria ficar, como o governo federal (já que habito em São Paulo, digo o mesmo do estadual e do municipal), calado sobre os sessenta anos do golpe de 1964. Uma das ocasiões em que falei em público sobre a triste efeméride foi nesse ciclo do Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP, para o qual fui chamado em razão de meu livro de 2023,  Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura.

Também no livro não me calei sobre a problemática da ditadura, por sinal. Para quem ainda não o leu, aqui está a introdução: https://www.editorapatua.com.br/ilicito-absoluto-a-familia-almeida-teles-o-coronel-c-a-brilhante-ustra-e-a-tortura-ensaios-de-padua-fernandes/p


segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Desarquivando o Brasil CCVI: Jair Bolsonaro, Carlos Alberto Brilhante Ustra e outros militares

Esboço esta nota por causa da trama recentemente descoberta de militares que conspiraram em 2022 para matar Lula e Alckmin, depois de eleitos em 2022, e o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes.

Quando resolvi escrever um livro sobre o processo em que a família Almeida Teles conseguiu o reconhecimento judicial, o Ilícito absoluto, não imaginava o quanto teria mencionar Jair Bolsonaro. São mais de noventa menções no texto. É claro que eu sabia que citaria o voto que ele proferiu em 2016, humilhando o país diante do mundo por homenagear um torturador no parlamento contra a presidenta eleita, Dilma Rousseff. 

Esse voto ignominioso, lido no plenário sem que nenhum deputado lembrasse que Carlos Alberto Brilhante Ustra já tinha sido declarado torturador pelo Judiciário brasileiro, aparece na introdução do livro; chamei-o de "elogio fúnebre" que "veio atrasado", pois o outro militar havia sido enterrado meses antes após uma longa doença (não, ele não foi assassinado).

Ele apareceu em parte por causa de Olavo de Carvalho, admirado tanto por Brilhante Ustra quanto por Bolsonaro; ele representou uma conexão entre ambos no soi-disant pensamento da extrema-direita brasileira, embora aquele ideólogo concedesse que a família Almeida Teles poderia ter razão no processo contra o coronel reformado.

Bolsonaro, quando subiu à presidência da república, chamou o falecido militar de herói nacional e convidou a viúva, Joseíta Brilhante Ustra, para trabalhar em sua equipe; ela recusou, mas ele a recebeu no Planalto algumas vezes.

Bolsonaro cortejou a extrema-direita militar e louvou os crimes de lesa-humanidade da ditadura mais de uma vez durante sua carreira política. Depois de Brilhante Ustra ter sido citado judicialmente pela família Almeida Teles, aconteceu um tumulto nos meios militares, que chegou ao governo federal e, em 2007, o Clube Militar no Rio de Janeiro fez um evento em defesa da extensão dos efeitos da Lei de Anistia aos agentes da repressão.

Militantes contra a violência do Estado e por memória, verdade e justiça protestaram; Brilhante Ustra saiu pela porta dos fundos e Bolsonaro soltou uma de suas frases emblemática: o "erro foi torturar e não matar", como se a ditadura não tivesse também matado. É um dos eventos em que os dois se cruzaram e que menciono no Ilícito absoluto:



Os dois se cruzaram no âmbito da extrema-direita militar e sua indisposição com o regime democrático. Não à toa, Bolsonaro passou a citar como seu livro de cabeceira A verdade sufocada, o compêndio de inverdades históricas de defesa da ditadura e ataque à esquerda e à democracia (nele, Vladimir Herzog é considerado suicida) que Brilhante Ustra publicou na época da propositura da ação pela família Almeida Teles.

Citei no livro trabalhos de Piero Leirner e de Marcelo Pimentel sobre como Bolsonaro foi escolhido informalmente como o candidato das Forças Armadas depois da reeleição de Dilma Rousseff em 2014. Na minha pesquisa, achei mais uma coisa: o apoio de Brilhante Ustra desde 2005 (uma carta aberta de Joseíta) a Bolsonaro como único representante das Forças Armadas no Congresso Nacional:




Aparentemente, Bolsonaro foi grato a esse apoio em uma época em que ele não detinha tanto prestígio, e em que outros colegas provavelmente não partiriam para o banditismo político para protegê-lo.
Anos depois, Amelinha e Janaína Teles gravaram depoimentos sobre a tortura no DOI-Codi chefiado por Carlos Alberto Brilhante Ustra para o programa eleitoral de Fernando Haddad em 2018; o programa gerou repercussão e logo foi tirado do ar pela Justiça Eleitoral a pedido da campanha de Bolsonaro. Ambas receberam ameaças anônimas.
O governo de Bolsonaro repetiu várias características da ditadura militar, algumas das quais listei no trecho abaixo, e marcou-se pelo negacionismo da ciência e da história.




Não por acaso, também dois órgãos que se ocupavam da justiça de transição, tentando remediar graves violações de direitos humanos da ditadura, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos e a Comissão de Anistia, foram extintos pelo governo de Bolsonaro. Escrevei que isso parecia dizer algo sobre as Forças Armadas de hoje; copio o trecho, pois já disse isto tantas vezes:

[...] o engavetamento das recomendações da CNV, o golpe de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018 parecem indicar algo além disso: a batalha continua, e as Forças Armadas mantêm seu ativismo pelo negacionismo histórico, isto é, pela negação dos crimes de lesa-humanidade da ditadura que comandaram.

Exatamente por isso, Bolsonaro continuava a ser uma ameaça à democracia. Francisco Assis, em 2018, na crônica para o jornal português O Público "Um canalha à porta do planalto", falou do caso da família Almeida Teles e do escândalo (ao menos para pessoas não fascistas) de o ídolo de Bolsonaro ser um torturador, um torcionário. Quatro anos depois, na campanha de 2022, Antonio Prata fez algo parecido lembrando de Janaína e Edson Teles, crianças diante dos pais torturados, em crônica publicada na Folha de S.Paulo. Escrevi no Ilícito absoluto que a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 parecia indicar que o "risco era muito real":




A tentativa de golpe de 2023 foi precedida pelo malogro em 2022 dos atentados planejados, agora sabemos. Os preparativos e a tentativa de assassinar o presidente e o vice presidente eleitos, Lula e Alckmin, e o Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, seriam evidentemente apenas o começo: não é verossímil que o banditismo golpista parasse aí, pois já começaria em um patamar acima do primeiro de abril de 1964, que não buscou inicialmente assassinar João Goulart.
Viria enfim o trabalho "que a ditadura não fez", de matar trinta mil, segundo as palavras do Bolsonaro mais jovem, e provavelmente enganosas, pois o assassinato de indígenas bem pode ter chegado a essa cifra? 
É hora de tratar essa gente e os seus aliados, eleitos ou não, financiadores e/ou propagandistas como os inimigos da democracia que são. Falta saber se o país já possui instituições para isso, o que seria, de fato, uma novidade histórica, ao contrário de golpes de Estado, tentados ou efetivados.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Pequena retrospectiva de 2023 à luz (ou às trevas) do ano de 2019

Vi, na véspera do final de 2023, que alguns perfis no Twitter criticaram o deputado federal filho do ex-ocupante da presidência por ele ter desafixado um tweet com índices econômicos de 31 de dezembro de 2022  isto é, do final da gestão anterior, dia em que o próprio Jair Bolsonaro não estava mais no país, pois se evadiu para os Estados Unidos: aparentemente, nem ele mesmo suportava a própria presidência.

O governo Lula melhorou todos aqueles números, porém aquele parlamentar, que não é renomado pela capacidade de análise econômica, certamente retirou a informação não para ocultar aqueles dados de seus eleitores (o que seria, é claro, um procedimento indigno para um homem público), mas para poder meditar melhor sobre o assunto.

No entanto, creio que a direita tem suas razões para julgar que o primeiro ano de mandato do presidente Lula foi pior do que o de Jair Bolsonaro. Afinal, o país melhorou. Para entendê-las, esbocei esta breve comparação. Nem sempre as datas são paralelas; busco sugerir para cada acontecimento um choque ou até mesmo uma convergência, digamos, de espírito no intervalo de quatro anos.



1º de janeiro de 2023: Lula, por meio de decretos, reativou o Fundo Amazônia, revogou a possibilidade de segregação educacional de crianças, jovens e adultos com deficiência criada pela chamada "Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida" de Bolsonaro; estabeleceu diretrizes mais severas para o controle de armas (o registro de armas cairia 79% até o fim do ano), ampliou a composição do Conselho Deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente; extinguiu o programa de Bolsonaro que poderia levar ao estímulo do garimpo ilegal, o "Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Mineração Artesanal e em Pequena Escala"; por medida provisória, criou auxílio complementar para os beneficiários do Auxílio Brasil e do Auxílio Gás, entre outras medidas, que incluíram a revogação dos processos de privatização de estatais como a Petrobras e os Correios.

1º de janeiro de 2019: O primeiro decreto de Jair Bolsonaro foi estrategicamente direcionado contra os trabalhadores: ele reduziu o valor previsto para o salário mínimo (Temer havia fixado em mil e seis reais para 2019, Bolsonaro baixou para 998 reais). Ele acabou com a política de valorização do salário mínimo, retomada apenas com a volta do presidente Lula. A medida provisória de reorganização dos ministérios jogava a competência para a demarcação das terras indígenas e dos quilombolas para uma órgão sem expertise nem simpatia pelo tema, o Ministério da Agricultura (pressionado, o governo teve de voltar atrás e devolver essas competências para o Ministério da Justiça, embora o Ministro da pasta, Sérgio Moro, dissesse que não tinha "interesse" nesses assuntos: de fato, sua gestão seria considerada "péssima" pelas lideranças indígenas), e acabava com as políticas de diversidade no recém-criado ministério heteróclito da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. 


8 de janeiro de 2023: Tentativa malograda de golpe de bolsonaristas que ficaram acampados semanas em Brasília diante do quartel sobre a amabilidade do Exército, e puderam vandalizar as sedes dos três Poderes sob a leniência das forças de segurança, cuja imagem mais emblemática é a da bunda golpista defecando no Supremo Tribunal Federal. Já há condenados pelos atos criminosos. A CPI sobre o tema concluiu pela responsabilidade de Jair Bolsonaro, mas o Judiciário não decidiu ainda sobre o ex-presidente, hoje inelegível por causa da prática de ilícitos eleitorais.

8 de janeiro de 2019: Golpe efetuado do governo bolsonarista, aliado do secular latifúndio (hoje apelidado de "agronegócio"), contra os quilombolas e os trabalhadores do campo: foi determinada a paralisação da reforma agrária e da demarcação das terras de quilombolas, em evidente descumprimento da Constituição da República: vejam os artigos 184 a 191 e o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Um exemplo de inconstitucionalidade alçada ao patamar de política de governo.


10 de janeiro de 2023: A Polícia Federal encontrou o que chamou de "minuta de golpe" na casa de Anderson Torres, ex-ministro da justiça de Jair Bolsonaro e secretário de segurança pública do Distrito Federal - segurança que falhou ostensivamente no 8 de janeiro.  A minuta previa a declaração de "estado de defesa" no Tribunal Superior Eleitoral para reverter os resultados das eleições de 2022.

10 de janeiro de 2019: Matéria do G1: "Flávio Bolsonaro não comparece ao MP-RJ para depor sobre relatório do Coaf", caso que trata da "movimentação financeira atípica de funcionários do seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj)".


14 de janeiro de 2023: Prisão do ex-ministro da justiça de Jair Bolsonaro e ex-secretário de segurança do Distrito Federal Anderson Torres, em razão das investigações da tentativa de golpe em 8 de janeiro. Ele ficaria 117 dias preso.

14 de janeiro de 2019: O governo italiano telefonou para Jair Bolsonaro para agradecer pela entrega de Cesare Battisti à Itália, onde ele passou a cumprir pena de prisão perpétua. O governo Lula havia negado sua extradição, considerando-o refugiado político.


16 de janeiro de 2023: A Ministra dos Povos Originários, Sonia Guajajara, anunciou a revogação da instrução normativa que autorizava (inconstitucionalmente, aliás) a exploração de madeira em terras indígenas, editada pelo governo de Jair Bolsonaro. A criação do Ministério dos Povos Originários, inédito no Brasil, foi uma promessa de campanha do presidente Lula.

16 de janeiro de 2019: O movimento indígena da Paraíba entregou representação ao Ministério Público Federal denunciando ações anti-indígenas do governo de Jair Bolsonaro, notadamente o esvaziamento da competência da Funai e a atribuição das demarcações indígenas à pasta da ruralista Tereza Cristina (reeleita senadora pelo Mato Grosso do Sul em 2022), o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. No Maranhão, fazendeiros invadiram terras do povo Awa Guajá, desrespeitando decisão judicial contra os invasores.


24 de janeiro de 2023: 1777 dias da execução da vereadora da cidade do Rio de Janeiro Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes.

24 de janeiro de 2019: O deputado federal reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ) anunciou que não tomaria posse na Câmara para seu novo mandato em razão das ameaças de morte que sua família estava sofrendo. Ele partiu para o exterior e só voltou ao país com o novo governo Lula. Cito sua carta da época, em que mencionou o silêncio da Polícia Federal mesmo depois de ele ter apelado à Organização dos Estados Americanos pedindo proteção:

mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, não chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma invenção minha. Da polícia federal brasileira, para os inúmeros protocolos de denúncias que fiz, recebi o silêncio.


27 de março de 2023: Começou o especial na TV Brasil sobre o golpe de 1964.

27 de março de 2019: O Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou perante a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados que não houve golpe em 1964. Era um homem sensível, a dizer coisas doces nos locais mais apropriados: como se sabe, o Congresso Nacional chegou a ser fechado durante a ditadura militar e vários parlamentares foram cassados.


30 de março de 2023: Reconstituição da Comissão de Anistia, que havia sido extinta em dezembro de 2022 pelo governo de Jair Bolsonaro.

30 de março de 2019: Ato unificado Ditadura Nunca Mais, em São Paulo, contra as políticas pró-ditadura do governo Bolsonaro e pela transformação do antigo DOI-Codi de São Paulo em local de memória. Cito Adriano Diogo, que foi presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva": “Não é admissível uma delegacia de polícia funcionar num prédio que abrigou o DOI-Codi. É como se uma usina de gás alemã funcionasse até hoje em um campo de concentração”.


31 de março de 2023: As Forças Armadas, sob a determinação do presidente Lula, não celebram mais o golpe de Estado (de 1º de abril de 1964).

31 de março de 2019: Com autorização de Jair Bolsonaro, as Forças Armadas celebraram a ditadura militar, libertando a nostalgia autoritária represada da direita brasileira

Em São Paulo, a sociedade civil realizou no Parque Ibirapuera a I Caminhada do Silêncio, em memória dos desaparecidos da ditadura e dos da democracia. Eu fiz o cartaz abaixo de Olavo Hanssen, torturado e assassinado pelo DOPS/SP em 1970. Na ligação, pode-se ler a narrativa que escrevi sobre o ato.



7 de abril de 2023:  Fechamento do espaço aéreo pela Força Aérea Brasileira sobre a terra indígena dos Yanomâmi por causa dos garimpeiros ilegais que invadiram  envenenaram com mercúrio e devastaram a região. A medida foi antecipada: ela só ocorreria em março. Meses depois, os militares deixariam a região e os garimpeiros voltariam.

7 de abril de 2019: O músico Evaldo Rosa dos Santos foi executado com 257 tiros por soldados do Exército quando passava com seu carro pela Estrada do Camboatá para ir a um chá de bebê. Seu sogro, Sérgio Araújo, foi atingido também. O catador Luciano Macedo, ao tentar ajudá-lo, foi alvejado e morreu dias depois. No mesmo dia, o Comando Militar do Leste emite nota chamando as vítimas de "assaltantes".


4 de abril de 2023: Suspensão, por meio de portaria do Ministro da Educação, Camilo Santana, do cronograma nacional de implementação do novo ensino médio.

8 de abril de 2019: Demissão, por inapetência administrativa, do ministro da educação Ricardo Vélez, colombiano naturalizado brasileiro, que havia chamado os brasileiros de "canibais" e louvado a ditadura militar. O filho vereador do então ocupante da presidência havia tentado negar o óbvio da crise da pasta, mesmo para os modestos padrões administrativos do bolsonarismo, mas os fatos desmentiram-no rapidamente:



30 de abril de 2019: O ministro da educação, Abraham Weintraub, um caso raro de professor da Unifesp sem doutorado, depois de ter arbitrariamente dito que bloquearia 30% do orçamento da UnB, da UFF e da UFBA devido a alguma "balbúrdia", determinou sem aviso às instituições o contingenciamento de 30% do orçamento de TODOS os institutos e universidades federais.


23 a 28 de abril de 2023: Realização do Acampamento Terra Livre, ocupação dos povos indígenas brasileiros em Brasília, que ocorre anualmente para que possam apresentar suas reivindicações às sedes dos Poderes. Pela primeira vez na história, um presidente da república apareceu no ATL: Lula foi ao encerramento no dia 28 e assinou a demarcação de seis Terras Indígenas.

11 de abril de 2019: Jair Bolsonaro assinou mais um decreto de ataque à democracia participativa, de número 9759, com a ementa eufêmica "Extingue e estabelece diretrizes, regras e limitações para colegiados da administração pública federal.", que acabou com colegiados, inclusive o Grupo de Trabalho Araguaia e o Grupo de Trabalho de Perus, que buscou identificar ossadas de desaparecidos políticos ocultadas no Cemitério de Perus, em São Paulo. Nesses casos, ele teve que recuar.


3 de maio de 2023: Prisão do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, o tenente-coronel Mauro Cid. Segundo a Polícia Federal, ele teria buscado suporte legal para que o então ocupante da presidência, derrotado nas eleições, desse um golpe de Estado.

3 de maio de 2019: O Ministério Público Federal propôs ação para a nulidade da Portaria do Ministério de Direitos Humanos que descaracterizou a Comissão de Anistia, nomeando membros contrários à anistia política: "vê-se que 07 membros nomeados para a nova composição do Conselho da Comissão de Anistia são agentes de carreiras ou têm histórico e postura públicos que são INCOMPATÍVEIS com a função do órgão, seja por manifesta contrariedade à política pública de reparação das vítimas de Estado ou devido à atuação judicial contrária à política de reparação, ou ainda por se posicionarem contrários à instauração da Comissão Nacional da Verdade, seja porque integram as forças coercitivas do Estado".


8 de maio de 2023: O educador Daniel Cara, em mais uma manifestação contra o Novo Ensino Médio, afirma ao Instituto Humanitas Usininos que: 

Ninguém que entende verdadeiramente de educação, que conhece a realidade escolar, defende a reforma do Ensino Médio, que estabeleceu o NEM. Portanto, professores, formadores de professores, pesquisadores, estudantes e suas entidades e movimentos querem a revogação do NEM. 

Do outro lado, há fundações e associações empresariais, secretarias estaduais de educação e, infelizmente, o Ministério da Educação do governo Lula.

Em 16 de maio, publicou-se Nota Técnica assinada por ABECS (Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais), Campanha Nacional pelo Direito à Educação, CEDES (Centro de Estudos Educação e Sociedade) e REPU (Rede Escola Pública e Universidade) sobre a consulta "homologatória" que o ministério da educação abriu sobre o NEM. Outras entidades somar-se-iam à oposição ao NEM, cuja discussão no Congresso Nacional acabou sendo postergada para 2024.

7 de maio de 2019: O ministro da educação de Bolsonaro, Abraham Weintraub teria diversas brigas com a ortografia durante o mandato ("paralização", "suspenção", "imprecionante" viraram destaques no léxico bolsonarista). Não era apenas essa a característica que o qualificava como intelectual bolsonarista, contudo. Em audiência pública no Senador, o professor da Unifesp revelou certa ignorância literária confundindo Kafka com cafta. A Livraria Leonardo da Vinci, do Rio de Janeiro, dias depois, mandou-lhe um "pedaço" da novela A metamorfose, de Kafka, para que o ministro pudesse apreciá-la. Aparentemente, em 22 de julho do mesmo ano, ele ainda não havia apreciado a iguaria, irritando-se porque, no Pará, tentaram lhe explicar a diferença entre o escritor e o prato culinário.

9 de maio de 2019: Suspensão de bolsas de pesquisa da Capes. Em ataque nunca antes visto à ciência e à educação brasileiras, até o final do mandato de Bolsonaro seriam milhares de bolsas suspensas: ainda não vi um levantamento detalhado das perdas sofridas nesse período.

Maio de 2019: O grande Alberto Pimenta lançou pelas Edições do Saguão, de Lisboa, o livro Zombo, com o gentil poema sobre o "Bolso ignaro". Ele não mencionou o ministro brasileiro da educação, porém.


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10 de junho de 2023: "Homem negro amarrado por PMs em São Paulo tem liberdade negada: Tribunal de Justiça de SP negou o pedido de habeas corpus ao homem negro que foi carregado com as mãos e pés amarrados por policiais militares paulistas".

10 de junho de 2019: Decreto presidencial de enfraquecimento do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, ligado ao ministério ocupado por Damares Alves (hoje senadora), acabando com os cargos dos peritos. Esse imenso retrocesso capitaneado por Bolsonaro e Damares levou o Ministério Público Federal a publicar a seguinte nota pública: no dia 13 seguinte, assinada pelo Subprocurador-geral da República Domingos Sávio Dresch da Silveira:

O desmonte do Sistema Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, por meio de alterações em sua composição e funcionamento - as quais, na prática, destroem as condições de desenvolver as atividades essenciais para a prevenção e o combate à tortura, com a exoneração dos onze peritos do Mecanismo Nacional, o remanejamento de cargos e a transformação do trabalho dos peritos em "prestação de serviço público relevante, não remunerada" -, constitui dramático retrocesso no processo de afirmação e efetivação dos direitos humanos no Brasil. A existência de um órgão autônomo com atribuição legal para realizar a fiscalização das condições de privação de liberdade, composto por peritos tecnicamente qualificados, com perfil interdisciplinar, tal qual a composição do Mecanismo, concretiza a promessa constitucional de recusa e vedação à tortura e alinha o Brasil aos países com política pública relevante de defesa e promoção dos direitos humanos.

Em 28 de março de 2022 o Supremo Tribunal Federal julgaria essas medidas inconstitucionais.


30 de junho de 2023: O Tribunal Superior Eleitoral julgou Jair Bolsonaro inelegível por 8 anos em razão de abuso de poder, em razão de ter chamado embaixadores estrangeiros no Brasil, em 2022, para proferir um insólito discurso de ataque ao sistema eleitoral brasileiro. O episódio representou não só um embaraço diplomático, mas um momento inquietante do processo eleitoral, ensombrecido pela interferência dos militares em 2018 e 2022.

30 de junho de 2019: Carlos Bolsonaro, vereador da cidade do Rio de Janeiro e filho do então presidente, criticou o general Augusto Heleno, então chefe do Grupo de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República, por causa da "prisão na Espanha do sargento Manoel Silva Rodrigues, acusado de ter traficado 39 quilos para a Europa em avião da Força Aérea Brasileira (FAB) que fazia parte da comitiva que acompanhava o presidente em viagem rumo ao Japão". Foi o episódio de tráfico de cocaína por militar em avião da comitiva do presidente Jair Bolsonaro, descoberto pelas autoridades espanholas, não por militares brasileiros: outro embaraço diplomático.


28 de julho de 2023: Divulga-se que Jair Bolsonaro recebeu mais de 17 milhões via PIX entre janeiro e julho e, depois, que aportou aproximadamente a mesma quantia para fundos de renda fixa, quando ainda era presidente da república, e os advogados do ex-presidente publicaram nota afirmando que a divulgação "consiste em insólita, inaceitável e criminosa violação de sigilo bancário, espécie, da qual é gênero, o direito à intimidade, protegido pela Constituição Federal no capítulo das garantias individuais do cidadão".

28 de julho de 2019: "Jair Bolsonaro, atacou em 29 de julho de 2019 Felipe Santa Cruz, presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Indignado porque a OAB conseguiu impedir a violação do sigilo profissional dos advogados, necessário para o direito de defesa, ele afirmou que, se Santa Cruz 'quisesse saber como é que o pai dele desapareceu durante o período militar, conto pra ele. ele não vai querer ouvir a verdade. Eu conto para ele.'" O desaparecido político era Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, de quem Bolsonaro já havia dito que ele teria sumido bêbado em acidente de carnaval... 


3 de agosto de 2023. Matéria do Brasil De Fato: "Em 12 meses, desmatamento sobe 16,5% no Cerrado e cai 7,4% na Amazônia, mostra Inpe". O desmatamento no cerrado, em sua maioria, estaria ocorrendo de forma legal por causa da cumplicidade dos governos locais.

2 de agosto de 2019: Demissão do diretor do INPE: Bolsonaro, sem evidentemente nenhuma capacidade técnica para fazê-lo, queria desmentir os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre desmatamento, e Ricardo Galvão negou-se a submeter os dados científicos aos interesses devastadores da extrema-direita. O ocupante da presidência acusou-o sem fundamento de estar a serviço de "alguma ONG" e exonerou-o. O ministro da ciência e tecnologia, Marcos Pontes (hoje senador por São Paulo), ficou contra o cientista e a favor da exoneração. Ricardo Galvão passou a presidir o CNPq no governo Lula.


10 de agosto de 2023: O senador Ciro Nogueira (PP-PI) declarou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, "completamente ultrapassada" por supostamente querer voltar às "cavernas" e pressionou pela saída do governo porque ela, tentando implementar medidas contra o desmatamento ilegal, paralisaria o soi-disant "agronegócio" brasileiro. Certamente o senador equivocava-se, pois um setor econômico que precisasse da ilegalidade para sobreviver deveria ser considerado uma questão de crime organizado e não deveria receber, como recebe, subsídios bilionários governamentais. A Ministra continua no governo.

10 de agosto de 2019: O tristemente inesquecível Dia do Fogo: fazendeiros fizeram queimadas em torno da BR-163, no Pará e, cito o relatório do Centro Indigenista Missionário (Cimi), "os focos de incêndio nas cidades de Novo Progresso e Altamira cresceram 300% e 743%, respectivamente, de um dia para o outro".

O relatório Violência contra os povos indígenas do Brasil - Dados de 2019 acrescentava:

Cinco dias antes, o jornal Folha do Progresso havia publicado uma conversa com um dos produtores que planejavam a ação e sentiam-se, segundo o jornal, “amparadas pelas palavras do presidente Bolsonaro”. “Precisamos mostrar para o presidente que queremos trabalhar e [o] único jeito [é] derrubando. Para formar e limpar nossas pastagens é com fogo”, explicou a liderança não identificada.

O governo Bolsonaro conseguiu intensificar suas políticas na área ambiental e superou a marca do Dia do Fogo em 22 de agosto de 2022, com 3.358 focos de incêndio em 24 horas. Não à toa, seu ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, que já havia sido secretário da mesma área para o governo do Estado de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin (hoje vice-presidente da República), logrou ser eleito em 2022 deputado federal por esse Estado.


11 de agosto de 2023: Operação da Polícia Federal contra a "suposta tentativa, capitaneada por militares ligados a Bolsonaro de vender ilegalmente presentes dados ao governo por delegações estrangeiras", envolvendo o advogado Frederico Wassef e os militares Mauro Cid, ex-ajudante de Ordens de Jair Bolsonaro, e o pai dele, o general Mauro Cesar Lorena Cid. Tratava-se da apuração de "venda ilegal de joias dadas de presente por delegações internacionais". O caso foi revelado por André Borges, que estava no Estado de S.Paulo e foi depois demitido do jornal. As joias presenteadas pela Arábia Saudita a Jair e Michelle Bolsonaro e não declaradas na alfândega chegavam ao valor de 16 milhões e meio.

11 de agosto de 2019: O deputado federal pelo Estado de São Paulo Carlos Bolsonaro (reeleito em 2022, hoje, como o pai, no PL) fez esta importante advertência: "As [sic] vezes tem-se a errada impressão que terrorismo é apenas quando ocorre algum ataque. Brasil tem que abrir seus olhos para grupos que lavem dinheiro aqui, que aqui tenham livre trânsito, fáceis maneiras de conseguir passaporte brasileiro e etc."



14 de agosto de 2023: Matéria do Congresso em Foco: "Abin acha ligação entre garimpo ilegal no Pará e atos golpistas de 8 de janeiro": "De acordo com o documento, os empresários Roberto Katsuda e Enric Lauriano estão diretamente associados ao garimpo ilegal no estado. Também têm vínculos com políticos e com uma rede de apoiadores da prática ilícita e do ex-presidente Jair Bolsonaro na região.".

4 de outubro de 2019Demissão de Bruno Pereira da coordenação-geral de índios isolados, depois de ter atuado com muito êxito na maior destruição de equipamentos do garimpo ilegal naquele ano. O indigenista falou na ameaça de "aniquilamento dos povos indígenas, da nossa diversidade. São mais de 200, mais de 300 povos indígenas e 400 terras indígenas que terão seus territórios disputados. Eu não vejo um cenário positivo".  A Funai, com Bolsonaro, passou a ser presidida por Marcelo Xavier, nome indicado pela bancada do latifúndio. Bruno Pereira acabaria sendo assassinado por sua atuação em prol dos indígenas, fora da Funai, em 5 de junho de 2022 com o jornalista Dom Phillips.


17 de setembro de 2023: Estreia da peça "A Casa", na Ocupação Mulheres Mirabal, em Porto Alegre. O espetáculo foi feito a partir da dramaturgia de Angélica Freitas, em parceria com a diretora Nina Picoli e a atriz Janaína Kremer. A peça discute "questões sociais e direito à moradia". É despiciendo lembrar que essas questões aparecem também na conhecida obra poética de Angélica, que é completamente incompatível com o bolsonarismo. O compositor e cantor Vitor Ramil (além de escritor), em seu espetáculo musical "Avenida Angélica", que estreou em 2019, ressaltou as questões da cidade na poesia da autora.

17 de setembro de 2019: Um dos deputados estaduais bolsonaristas de Santa Catarina, não interessado em questões sociais e direito à moradia (aparentemente já resolvidos naquele Estado que o reelegeu em 2022), mas em visões alternativas sobre racismo (alternativas em relação ao direito brasileiro), bem como sobre diversidade e violência doméstica, propôs moção de repúdio (não votada) contra a poesia de Angélica Freitas, que estaria "ferindo os valores cristãos"


18 de setembro de 2023: Primeiro réu condenado, por 17 anos, pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. O Supremo Tribunal Federal julgou-o. As notícias destacam o "histórico de violência" do bolsonarista Aécio Lucio Costa Pereira.

25 de setembro de 2019: O Superior Tribunal de Justiça manteve o trancamento da ação penal do Riocentro (a tentativa de atentado terrorista do Exército em uma festividade do Primeiro de Maio durante o governo de Figueiredo, que seria atribuída à esquerda e justificaria o fim da abertura política). O relator, Ministro Rogerio Schietti Cruz, votou pela reabertura, mas sua posição, e do Ministério Público Federal, foi derrotada


21 de setembro de 2023: O Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional a tese legitimadora de genocídio e de remoções forçadas contra os povos indígenas, o marco temporal. Os ministros indicados por Jair Bolsonaro, Nunes Marques e André Mendonça, foram votos felizmente vencidos: afinal, eram apenas dois, já que Lula venceu em 2022. 

21 de setembro de 2019: Raoni, a histórica liderança Caiapó, criticou Jair Bolsonaro e afirmou que ele não tinha um "coração bom" e queria "destruir os indígenas".


17 de outubro de 2023: Relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Atos de 8 de Janeiro de 2023, presidida pelo deputado federal Arthur Maia e relatada pela senadora Eliziane Gama. Ela foi instaurada a partir de requerimento de certo deputado federal bolsonarista que apoiou os manifestantes contra o resultado das eleições, mas se revelou prejudicial para os golpistas. Nas conclusões, lemos:

O Oito de Janeiro foi limitado. Não eram milhares os seguidores radicalizados. A violência das invasões provocou revolta. A chama do evento cedo se apagou. Não conseguiu se propagar para além da Praça dos Três Poderes. Não durou mais do que três horas.
De pouco adiantou a omissão premeditada e deliberada da cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal.
De pouco valeram a conivência e a leniência de setores das  Forças Armadas.
Pouco acrescentou o treinamento, a preparação, a articulação dos manifestantes, de seus instigadores e financiadores.
O Oito de Janeiro não deu certo.
E o feitiço se virou contra o feiticeiro.
Em lugar de extrair, da insurreição, um salvo-conduto, Jair Bolsonaro nela evidenciou a sua culpa e o seu dolo. Suas estratégias, antes difusas, ganharam visibilidade e coerência; seus instrumentos tornaram-se evidentes; sua participação — como principal autor intelectual da longa obra, em vários capítulos urdida — saiu do silêncio e das sombras e veio para a luz esclarecedora do dia.

13 de outubro de 2019: Matéria do Fantástico: "Exclusivo: mensagens mostram a fúria de garimpeiros por fechamento de garimpo ilegal". Cito Daniel Camargos no Repórter Brasil sobre o contexto político da ascensão do garimpo ilegal: "Articulados e organizados, a pressão realizada pelos garimpeiros é ouvida pelo governo e encontra eco no discurso do presidente Jair Bolsonaro."


31 de outubro de 2023: Nova condenação de Jair Bolsonaro pelo TSE, com oito anos de inelegibilidade e multa, por, entre outros ilícitos, usar o ato cívico do 7 de setembro para sua campanha eleitoral. O candidato a vice-presidente, general Braga Neto, também foi condenado.

31 de outubro de 2019: O deputado federal Eduardo Bolsonaro defendeu, em entrevista a um canal do youtube de um dos jornalistas apoiadores do governo do pai dele, Leda Nagle, a edição de um novo AI-5 contra a esquerda, se ela agisse como a do Chile daquele momento (isto é, indo às ruas e sendo baleada e torturada).


1º de novembro de 2023: Depois de Lula ter dito que não editaria a medida, ele assinou o decreto de Garantia de Lei e Ordem nos seguintes portos e aeroportos: "Porto do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro; Porto de Santos, Estado de São Paulo;  Porto de Itaguaí, Estado do Rio de Janeiro; Aeroporto Internacional Tom Jobim, Estado do Rio de Janeiro; e Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos, Estado de São Paulo". A medida teria a finalidade de "fortalecimento do combate ao tráfico de drogas e de armas e a outras condutas ilícitas", com duração até 3 de maio de 2024.

1º de novembro de 2019: Assassinato de Paulo Paulino Guajajara. Ele pertencia ao grupo dos Guardiões da Floresta e foi alvejado por invasores da Terra Indígena Arariboia, no sul do Maranhão. Laércio Guajajara estava com ele, foi alvejado, porém sobreviveu.


13 de novembro de 2023: Depois de Israel ter deixado os cidadãos brasileiros de fora de várias listas de repatriação, apesar da pressão do Itamaraty, finalmente os brasileiros que estavam na Faixa de Gaza conseguiram chegar ao Brasil. Lula recebeu-os com estas palavras: "se o Hamas cometeu um ato de terrorismo e fez o que fez, o estado de Israel também está cometendo vários atos de terrorismo ao não levar em conta que as crianças não estão em guerra, as mulheres não estão em guerra” (cito a matéria de Gabriel Andrade para a Carta Capital). Contando com os brasileiros em Israel e na Cisjordânia, foi a maior repatriação da história brasileira, com aproximadamente 1.400 pessoas.

13 de novembro de 2019: Jair Bolsonaro reuniu-se com o presidente da China, Xi Jinping, e, em breve discurso que acenava com a abertura do mercado e dos recursos brasileiros para os chineses (em contraste com seus discursos eleitoreiros de 2018), afirmou alucinatoriamente que "O Brasil é exemplo mundial ao conciliar preservação do meio ambiente e produção agropecuária".

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30 de novembro de 2013: O Superior Tribunal de Justiça decide, no caso de Luiz Eduardo Merlino, assassinado no DOI-Codi em 1971, que os herdeiros do coronel Brilhante Ustra (antigo comandante do centro de repressão) não devem indenizar a família do jornalista. Com isso, o STJ deixou de aplicar a própria jurisprudência, bem como feriu as obrigações internacionais do Estado brasileiro determinadas pela sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Gomes Lund e Outros vs. Brasil (Guerrilha do Araguaia).

26 de novembro de 2019:Matéria de Felipe Betim em El País: "Paulo Guedes repete ameaça de AI-5 e reforça investida radical do Governo Bolsonaro: Num momento em que presidente insiste em aumentar excludente de ilicitude para proteger excessos de agentes militares, ministro da Economia traz de volta fantasma de decreto da ditadura".


12 de dezembro de 2023: Data da Lei Orgânica Nacional das Polícias Militares e dos Corpos de Bombeiros Militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios. Ela foi aprovada sem debates, em acordo entre petistas e bolsonaristas. Escreveram Adilson Paes de Souza e Gabriel Feltran, a partir do projeto aprovado, que a lei está muito próxima do decreto-lei 667 de 2 de julho de 1969 e "mimetiza a organização policial do período mais pesado da repressão militar" e as torna "Livres de controle, interno ou externo" (mesmo das secretarias estaduais de segurança; as ouvidorias perderam qualquer ilusão de autonomia), permitindo-lhes criar "órgãos semelhantes ao Dops". O presidente Lula fez vários vetos, o que melhorou o monstrengo legislativo, mas não resolve a questão, pois o que deveria estar sendo discutido é a desmilitarização da polícia, como recomendou, por exemplo, a Comissão Nacional da Verdade. E os vetos: serão mantidos ou derrubados pelo Congresso? A tramitação segue. Dois dias depois, vetos de Lula à lei do marco temporal foram derrubados com auxílio (ou sabotagem, para quem considerar que o governo era realmente contrário à lei) do próprio Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro.

16 de dezembro de 2019: O  Subcomitê das Nações Unidas para a Prevenção da Tortura, em razão do enfraquecimento do Mecanismo Nacional feito por Bolsonaro e Damares, condenou as políticas do governo. Cito o relatório do Subcomitê (SPT):

o SPT considera que as reformas atuais são contrárias ao OPCAT [ Protocolo Facultativo à Convenção Contra a Tortura] e não fortalecem o Sistema Nacional de Prevenção do Estado-Parte, como alegado pelas autoridades nacionais; pelo contrário, enfraquecem o papel do Mecanismo Preventivo Nacional a um ponto em que se corre o risco de que o mesmo se torne praticamente inoperante, devido aos muitos obstáculos que enfrenta agora. Antes da reforma, a política de prevenção da tortura era insatisfatória no sentido de que o sistema de MNPs [Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura] não havia sido estabelecido em todas as partes do país, algo que deveria ter sido alcançado até 2008. Além disso, as mudanças atuais significam que os MNPs ainda não estabelecidos em muitos dos estados do Brasil podem seguir um modelo - o proposto pela atual reforma - que os tornaria incapazes de operar de acordo com o OPCAT, colocando o Brasil em grave violação de suas obrigações internacionais.


20 de dezembro de 2023: "CGU abre processo contra Weintraub por abandono de cargo em universidade". O ex-ministro da educação de Jair Bolsonaro e candidato não eleito à Câmara dos Deputados em 2022 não teria mais aparecido na Unifesp para exercer a docência.

11 de dezembro de 2019: "Ministro da Educação reafirma que há plantações de maconha nas universidades: Oposição acusa ministro de sensacionalismo e de falta de projeto; Weintraub disse que está promovendo uma revolução no ensino". A declaração absurda ocorreu na Câmara dos Deputados.  O então ministro colheu o ensejo para repetir a fake news bolsonarista, homofóbica e transfóbica do kit gay


21 de dezembro de 2023: Publicação da Emenda Constitucional nº 132, a da reforma tributária. Há décadas uma iniciativa dessa magnitude era discutida, mas foi este governo, com Fernando Haddad à frente do Ministério da Fazenda, que logrou fazê-la, apesar (ou por causa) de várias e severas críticas, deve-se lembrar, de economistas de esquerda. 

Dezembro de 2019: Conforme informou a Revista Piauí em matéria de Thais Bilenky e Marcella Ramos, "A offshore aberta por Guedes [Ministro da Economia de Bolsonaro] tinha em dezembro de 2019 38,5 milhões de reais – ou 50 milhões de reais em dezembro de 2020, considerando apenas a valorização cambial." O governo Bolsonaro e o presidente da Câmara, que já era Arthur Lira, acabaram desistindo, em 2021, de cobrar o imposto por lucros obtidos por donos de offshores. A matéria, "Uma economia milionária (para o ministro)" referia-se aos célebres Pandora Papers, que suscitaram um consórcio internacional de jornalismo investigativo para analisar esses documentos vazados de paraísos fiscais, que incluíam Paulo Guedes e vários outros nomes, como o presidente Macri, da Argentina.


22 de dezembro de 2023Decreto de regras para indulto natalino que exclui do benefício, entre outros casos, os condenados pela tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro. De fato, é perigoso para todo o país deixar soltos por aí pessoas que tentaram acabar com a democracia e enforcar ministros em praça pública.

24 de dezembro de 2019: Publicação do decreto presidencial de indulto de natal com previsões especiais "aos agentes públicos que compõem o sistema nacional de segurança pública" e "aos militares das Forças Armadas, em operações de Garantia da Lei e da Ordem, conforme o disposto no art. 142 da Constituição e na Lei Complementar nº 97, de 9 de junho de 1999, que tenham sido condenados por crime na hipótese de excesso culposo". Leonel Radde, policial e hoje deputado estadual pelo PT-RS, foi um dos que considerou a medida um "estímulo ao mau policial". Curiosamente, Bolsonaro havia declarado durante a campanha, marcado pelo populismo punitivista, que acabaria com o indulto.


28 de dezembro de 2023: O Congresso Nacional promulgou a lei inconstitucional e anticonvencional do marco temporal, que havia sido vetada parcialmente pelo presidente Lula, e cujo conteúdo havia sido declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. O marco temporal, como já expliquei, é uma tese de legitimação de genocídio e de remoções forçadas, que o Congresso Nacional passa a homenagear, em afronta aos padrões mais elementares de direitos humanos. 

28 de dezembro de 2019: Nenhuma terra indígena havia sido demarcada pelo governo de Jair Bolsonaro. Ele terminaria o governo da mesma forma, em frontal violação ao artigo 232 da Constituição da República.


31 de dezembro de 2023: Sobre o direito à memória e à verdade: o ano terminou sem a recriação da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, extinta por Jair Bolsonaro em 15 de dezembro de 2022.


terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O bolsonarismo como golpe de Estado permanente: Uma retrospectiva de 2022 no Twitter

O bolsonarismo elegeu-se ameaçando a democracia: em 2018, no Twitter e em outras redes, os eleitores de outros candidatos (em geral, do PT) criaram o slogan "seu voto me põe em risco", que foi, no entanto, bem recebido pelos bolsonaristas, que desejavam realmente "isso mesmo". Logo depois da vitória no segundo turno, eles cunharam "votei nele pra isso mesmo", comemorando cada medida anunciada do futuro governo e, durante o mandato, as poucas façanhas hercúleas, como esta: 


Somente este tweet teve mais de seis mil "curtidas". As centenas de milhares de mortos durante a pandemia também receberam, não raro, a confirmação do voto "pra isso mesmo", o que seria de esperar em um país que vê na chacina uma técnica de governo e, no genocídio, um mecanismo eficaz de ampliação da fronteira agrícola. Nesse sentido, o bolsonarismo funcionou em regime de golpe de Estado permanente, no que certamente cumpriu os objetivos do Partido Militar: manter a tutela fardada sobre a república brasileira.

Tentou-se dar um golpe de Estado mais uma vez no Brasil; formulo a frase com sujeito indeterminado porque as investigações prosseguem. Em 18 de novembro, matéria de Rodrigo Rangel indicou a existência de um "QG do Golpe" no comitê de Bolsonaro em Brasília. Em 12 de dezembro, tentaram invadir a Polícia Federal em Brasília e incendiaram carros. Em 30 de dezembro, a Operação Nero, da Polícia Federal, prendeu suspeitos de participar de atos antidemocráticos. Em oito de janeiro de 2023, os bolsoterroristas, cumprindo o que tinham anunciado e planejavam abertamente, invadiram, saquearam e danificaram imóveis dos três Poderes em Brasília.

Essas movimentações eram muito visíveis no Twitter, uma rede social em que os perfis participantes escreviam mensagens breves, que continua a existir no momento em que escrevo, apesar de sua sobrevivência ter sido colocada em questão por causa da sua compra por Elon Musk. Por meio dos tópicos ou palavras mais discutidas ou repetidas (hashtags), essa rede mostra ou influencia com muito dinamismo a agenda de debates: um político como Trump usava-a como instrumento de poder.

Por causa desse dinamismo e de sua repercussão na discussão pública, grassam nela perfis automatizados e os perfis falsos, para os mais variados fins: de pesquisa acadêmica, de apoio político e  até de supostos fãs de times de futebol e participantes de reality show. Eles são usados, não raro, para direcionar o debate para seus fins particulares e praticar assédios de toda sorte. Serviram também para replicar nas redes os ataques a opositores e à imprensa. Jair Bolsonaro teve um surto misógino em debate presidencial durante o primeiro turno e atacou uma jornalista da TV Cultura, Vera Magalhães, que, em debate posterior, ainda foi assediada por um deputado estadual bolsonarista que não lograria reeleger-se em São Paulo. Nas duas ocasiões, milhares de tweets atacaram-na.

Por vezes, o uso dos tópicos tinha finalidade diversionista: aparecia uma denúncia contra o governo de Bolsonaro, os perfis requentavam os mesmos temas contra o PT ou Lula. Nesses momentos, podia-se ver perfis mais identificados com a esquerda reverberando o alcance desses tópicos, simplesmente comentando-os, o que é um erro estratégico neste mundo de algoritmos:


Também aí ocorre uma reprodução de táticas usadas por Trump nos Estados Unidos. Quando o bolsonarista Roberto Jefferson atirou em agentes da Polícia Federal em 23 de outubro de 2022, resistindo a uma ordem de prisão, houve quem falasse em "Capitólio Tabajara" (cito a revista Fórum). Piero Leirner usou a mesma expressão para os atentados de 8 de janeiro de 2023, acentuando a responsabilidade dos militares no emprego da guerra híbrida, que se trava marcadamente no campo da contrainformação:


Faço a nota de que a expressão, certamente inadequada, como lembra este tweet, foi usada no sentido de cópia brasileira de original estrangeiro:


O original vem dos EUA. O 8 de janeiro de 2023 em Brasília é cópia do 6 de janeiro de 2021 em Washington, ocasião em que apoiadores de Trump tentaram impedir a posse do governo vitorioso. A diferença é que os brasileiros golpistas vieram depois da posse: certamente os organizadores imaginavam que não fariam frente ao esquema de segurança e à multidão, muito superior em termos numéricos, de pessoas que foram assistir à posse de Lula.

O Twitter foi um campo importante para a "guerra híbrida". Dito isso, os perfis de esquerda, ou simplesmente do campo democrático, várias vezes conseguiram emplacar tópicos críticos a Bolsonaro. No 7 de setembro, a comemoração dos duzentos anos da Independência virou um ato de campanha de Bolsonaro que, com todo o ridículo de sua oratória claudicante, tentou puxar um coro de que era "imbrochável" (contudo, ele não conseguiu realmente levantar as vozes). No Twitter, prevaleceram as mensagens que tratavam da suposta impotência do presidente da república.

Em junho de 2022, em razão de matéria que afirmava que Bolsonaro teria pedido ajuda dos presidente dos EUA contra Lula, o tópico BOLSONARO LESA PÁTRIA ficou em primeiro lugar entre as mensagens da rede social no Brasil:


Com efeito, em 2022, os perfis bolsonaristas passaram a ficar cada vez mais isolados no Twitter, falando apenas entre si. Não obstante esse isolamento gradativo, eles tentaram arduamente fazer campanha ameaçando gople caso seu candidato não saísse vitorioso. Como aconteceu a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, resolvi escrever esta minirretrospectiva tendo a tuitosfera bolsonarista como guia, bem como as reações a ela.

Em janeiro de 2022, publicaram-se tweets exigindo a repetição da tática, vitoriosa em 2018, de prender o candidato líder das pesquisas com o fim de de eleger novamente a extrema-direita:


Eu avistei diversos desta natureza, mas preferi separar este por ser uma resposta ao Instituto Lula, talvez confundido com o próprio presidenciável.

Dando o tom da violência política da campanha, em fevereiro o então presidente da república sugeriu que "não ficaria tão difícil acertar" "um gordinho", em resposta a um perfil que comentou zombeteiramente um vídeo que mostrou Bolsonaro com muita dificuldade em fazer uma arma funcionar. Bem de acordo com o decoro do cargo para os padrões da direita.


Além da violência, que gerou assassinatos políticos também em 2022 e uso de drones para lançar fezes e veneno em eventos da oposição, grassaram as informações falsas de toda sorte: bolsonaristas quiseram até ver em um velho senhor em iate a figura de Lula. Em fevereiro, outra inverdade desse tipo surgiu: um perfil que assumiu a imagem do Anonymous publicou que Adélio bispo teria dado novo depoimento à Polícia Federal, o que era falso, mas descambou para perfis bolsonaristas publicarem que Adélio teria confessado que agiu a mando do PT; Jair Bolsonaro soltou pequeno vídeo relembrando o evento em 2018. A Polícia Federal ignorou a princípio os pedidos de esclarecimento, o que enseja a propagação da notícia mais tempo. Finalmente, Rubens Valente conseguiu o desmentido da Polícia. O jornalista Paulo Motoryn sintetizou o mecanismo das informações falsas desta forma:


No entanto, a notícia existiu por tempo suficiente para ser repassada em vários grupos de mensagem e o desmentido, tantas vezes, gera efeito de convencimento menor do que a calúnia.

Lula, consistentemente, esteve na frente das pesquisas eleitorais para a presidência. Além de incontáveis tweets exigindo nova prisão do político, bem como a miríade de insultos que lhe eram feitos (não os reproduzo aqui), a tática de atacar a Justiça Eleitoral pareceu ser usada de forma regular, como se quisessem justificar um golpe em caso de derrota.


A derrota só poderia, para esses perfis, derivar da suposta fraude eleitoral comandada por aqueles Ministros do STF, Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso (atacados por esses perfis ao longo de quase todo o governo de Bolsonaro), o que justificaria o que alguns chamaram de "contra-golpe" (é óbvio que se escreve "contragolpe", mas reproduzo a curiosa ortografia desses bolsonaristas). Veja-se que, neste tweet de março que selecionei, a invocação do fantasma do comunismo, inexistente porém muito eficiente para mobilizar os mais loucos e fanáticos, ou seja, aqueles que irão questionar menos as ordens do líder.

O fantasma voltou não como o espectro do famoso Manifesto, mas em um texto muito menos bem escrito: a celebração antidemocrática do golpe de 1964 pelo governo federal, que parecia desejar a instalação de uma atmosfera de golpismo festivo.


Os militares comemoram esse ataque à democracia no país com antecipação, no fim de março, em vez do primeiro de abril do golpe. Por isso o tweet do Ministério da Defesa é de 30 de março, bem como a crítica do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais: ódio e nojo é uma citação de Ulysses Guimarães, referindo-se à ditadura militar.

Em abril, o deputado federal filho do presidente da república resolveu retomar uma tática do pai para projetar-se ainda mais no cenário político: Bolsonaro, na votação do golpe de 2016 na Câmara, fez uma apologia à tortura e à ditadura contra a presidenta Dilma Rousseff. O filho fez o mesmo, porém com ainda menor eloquência, usando um emoji contra uma jornalista, Míriam Leitão, que foi presa política durante a ditadura militar e era crítica contumaz do então governo. Não reproduzo o tweet aqui, mas a reação de Guilherme Boulos, que seria, meses depois, o deputado federal eleito com o maior número de votos em São Paulo:


É claro que ele não foi cassado. Imagine se a defesa da tortura fosse incompatível com a efetiva ética parlamentar brasileira; difícil conceber algo assim, tão divorciado dos costumes nacionais.

Os bolsonaristas ameaçavam repetidamente a Justiça Eleitoral, embora não tivessem tantas razões para isso. Neste tweet de abril, vemos o então presidente fazendo propaganda eleitoral meses antes do prazo determinado pela legislação. A tática da motociata parecia flagrantemente copiada de Mussolini (um dos modelos políticos do agora ex-presidente). Ela permitia aproveitar o máximo de espaço com um número menor de gente do que seria necessário se estivessem a pé, além de causar mais transtorno ao trânsito do que causariam os pedestres.


Esses eventos geraram muito mais tweets do que motos nas ruas, muitas vezes no tom mais ou menos velado de ameaça à Justiça Eleitoral: bolsonaristas só aceitariam o resultado das eleições se ele andasse em duas rodas. Aproveito e registro que, não raro, nestas exibições públicas sobre duas rodas, Bolsonaro exibia seu desapego não só em relação ao direito eleitoral mas também às normas de trânsito, andando sem capacete:



O tweet evoca Genivaldo de Jesus Santos, assassinado por agentes da Polícia Rodoviária Federal em Sergipe, que usaram a viatura como câmara de gás. Ele foi abordado porque estava sem capacete. O atual Ministro da Justiça, Flávio Dino, determinou em 6 de janeiro de 2023 que a família fosse indenizada.
Rodrigo Haidar comentou a evidente inconsistência do Judiciário no trato destas propagandas antecipadas de Bolsonaro. 


A cantora referida é Pabllo Vitar, que levantou a toalha com o rosto de Lula em um festival de música; por essa razão, o partido de Bolsonaro conseguiu a proibição de manifestações políticas no evento. Quando ela, em primeiro de janeiro de 2023, encerrou as apresentações musicais da posse do presidente Lula, relembrou o incidente.
Um dos juristas diletos do bolsonarismo é Ives Gandra da Silva Martins. Seu nome virou tópico no Twitter algumas vezes. Em abril, ele voltou a declarar que as Forças Armadas estariam acima dos três Poderes constitucionais, gerando um aluvião de tweets bolsonaristas. Cito as ponderações contrárias de Wellington Saraiva, com as quais concordo:


De fato, somada à reverberação múltipla dos bolsonaristas no Twitter e em outras redes sociais, a declaração contrária à Constituição parecia soar como ameaça ao Supremo Tribunal Federal. Como, em geral, os bolsonaristas não tinham passado pela formação jurídica, tiveram a inteligência suficiente para perceber logo que a desleitura constitucional de Ives Gandra, pretendendo achar um "árbitro" entre os Poderes fora do sistema de freios e contrapesos e escolhendo-o entre os militares, favorecia evidentemente o militar Bolsonaro:



Não apenas Ives Gandra da Silva Martins apresentou concepções inovadoras (em relação à Constituição; em si, eram posições arcaicas) sobre o papel dos militares. O Ministro Barroso teve a ideia, estranha para alguém que é por tantos considerado como um constitucionalista, de chamar as Forças Armadas para o processo eleitoral. Sem a mínima condição técnica de colaborar efetivamente, elas passaram o ano com relatório desta qualidade, em meio, como diz esta notícia, da "pressão de Bolsonaro e do ministro da Defesa":


Milhares de tweets bolsonaristas, que não reproduzo aqui, atacaram a Justiça Eleitoral em cada um desses momentos de tensão institucional.
Ao longo de todo ano, mas, na verdade, desde pelo menos desde 2017, como já escrevi aqui, os perfis bolsonaristas fazem analogias com o processo eleitoral dos EUA adotando as posições do Partido Republicano e de Trump. Selecionei este tweet do fim de maio como amostra dos que já faziam questão de deslegitimar uma vitória da esquerda: ela seria tão fruto de fraude quanto a de Biden em 2020...


Era previsível que tentariam repetir o atentado do Capitólio aqui. Adriana Carranca, no fim de junho, fez comentário semelhante porque o filho senador de Bolsonaro recusou-se a responder se o pai aceitaria a derrota para Lula (que continuava à frente nas pesquisas eleitorais), mas afirmou que a reação dos apoiadores seria imprevisível:



A posição parecia-se com a terceirização do golpe, com a tentativa de elidir a responsabilidade, que é um dos objetivos de toda terceirização: deixa-se que os apoiadores façam o trabalho sujo pelo líder. 

Em 10 de julho, em Foz do Iguaçu, o policial federal bolsonarista Jorge José da Rocha Guaranho invadiu a festa de aniversário do guarda municipal e tesoureiro do PT Marcelo Arruda. Assassinou-o, mas Arruda ainda logrou atirar nele, tentando defender a si e aos seus. A polícia prendeu-o e divulgou, em um primeiro momento, que ele teria morrido. Parte da imprensa, fiel à teoria dos dois demônios, que certamente deve constar em manuais de redação ocultos, logo partiu para igualar agressor e vítima. Até mesmo a imprensa especializada:

Marcelo Arruda teria gostado de ver, certamente, que Lula e seus apoiadores conseguiram superar o ódio e a violência bolsonaristas, bem como a teoria dos dois demônios cultivada pela imprensa burguesa.

Li diversos tweets de pessoas que não ousam usar, por exemplo, broches ou adesivos de candidatos não bolsonaristas (não só de Lula ou do PT) com medo de serem atacadas na rua. O bolsonarismo, com seu uso eficaz da violência política, teve certo sucesso em constranger os eleitores de outros partidos. 

Outra fonte de constrangimento eleitoral que surgiria se fosse aprovada foi a proposta do Ministério da Defesa de criar uma votação paralela em papel:



Esta recebeu também vários tweets de apoio, como se viessem de um Estado paralelo. No dia 18, pouco depois, Bolsonaro atacaria o sistema eleitoral brasileiro em uma exposição para a qual foram convidados embaixadores estrangeiros, o que gerou tanto a reação da sociedade civil quanto a inação do presidente do Congresso Nacional e do procurador-geral da república. Os perfis bolsonaristas apoiaram massivamente o então presidente, porém cito aqui a jornalista Flávia Oliveira mencionando a atuação do "Pacto pela Democracia":


No mesmo dia 19, a Embaixada dos EUA no Brasil declarou que as eleições no Brasil são um "modelo" para o mundo.
O lançamento da candidatura de Bolsonaro seguiu a  estratégia de comunicação ambígua adotada pelo bolsonarismo, dando sinais tanto de institucionalidade quanto de golpismo. 


Nesse momento, irromperam tweets sobre as comemorações de 7 de setembro na linha de que, em 2021 o golpe não havia sido dado, mas em 2022 ocorreria, porque "a corda" tinha sido "esticada demais", os "generais melancias" seriam presos (melancia, por ser verde por fora e vermelha por dentro, virou metáfora para comunistas dissimulados), assim como Lula, o MST, Anitta, o STF e Pabllo Vitar, e o "reino de Cristo" venceria junto com o "agro" e o Neymar, garantindo a permanência de Gusttavo Lima no Brasil, talvez (esta parte não me ficou clara) participando das novelas de Glória Perez. Parece confuso, mas tentei resumir a linha de pensamento bolsonarista no Twitter.
Reproduzi antes um tweet de Leonardo Sakamoto; na imprensa, ele fazia apreciações muito críticas de Bolsonaro e seu governo, o que gerou diversos ataques na rede social; em algumas vezes, pelo efeito de rebanho típico das redes sociais, esses perfis conseguiam suspender do Twitter algum jornalista. Os políticos de oposição sofreram e sofrem ataques coletivos semelhantes (alguns chegaram a fechar seus perfis, salvo para seguidores, como o presidente do Senado); contra as mulheres, os insultos eram em geral mais duros, tendo em vista que a misoginia é um dos fundamentos do bolsonarismo. Os bons jornalistas e estas mulheres na oposição sofreram muitos obstáculos em seu trabalho. Aqui reproduzo um tweet de agosto da deputada federal, reeleita, Sâmia Bomfim que indicava matéria do Metrópoles sobre empresários bolsonaristas que teriam defendido golpe de Estado para impedir a posse de Lula:


Não reproduzo os diversos xingamentos e ameaças à deputada e ao jornal, contribuição típica do bolsonarismo à esfera pública. Outros perfis replicaram a matéria, como JairMeArrependi e o Sleeping Giants Brasil que, replicando seu modelo nos EUA, buscou combater os discursos de ódio por meio do ativismo digital:



No STF, em geral não eram atacados os dois Ministros indicados por Bolsonaro e aprovados pelo Senado Federal. Os perfis bolsonaristas em geral atuavam como se os dois não fossem magistrados, e sim advogados do então presidente da república no Tribunal (o que, claro, se correspondesse à verdade e fosse aprovado, seria atentatório ao Estado de direito e deveria gerar o impeachment de ambos), e nesses termos os defendiam. Também por essa razão, atacavam os outros Ministros.


O professor Conrado Hübner Mendes já escreveu diversas vezes sobre a estratégia de magistrados em tribunais superiores paralisarem o julgamento por meio de pedido de vista quando a posição contrária vai prevalecer. Os novos Ministros do STF não representaram novidade alguma nessa questão. No caso dos decretos de Bolsonaro de descontrole do uso das armas, que poderiam ensejar mais violência política (ou depois: imaginem os golpistas de 8 de janeiro todos armados), o pedido de vista de Kassio Nunes Marques interrompeu um julgamento que já estava definido contra o governo federal: 


André Mendonça fez o mesmo em outro julgamento importante, o da Pauta Verde, o mais importante julgamento de Direito Ambiental no ano; com isso, também evitou uma derrota do governo que fazia reuniões com criminosos ambientais. Mauricio Guetta, um dos advogados do Instituto Socio-Ambiental (ISA), fez notar a identidade de táticas nos dois julgamentos e chamou-a de "tônica atual":



Lembro deste caso porque a erosão ou implosão das instituições democráticas promovida pelo bolsonarismo foi mais efetiva no campo da "Pauta Verde", com a explosão de desmatamento, de assassinato de indígenas, camponeses e ambientalistas. Aqui também temos o golpismo e o uso das instituições contra o chamado Estado de Direito.

Os debates na televisão geraram muita movimentação no Twitter. Não vou reproduzi-los, tampouco os que gritavam fraude eleitoral quando os resultados confirmaram que haveria segundo turno, e com Lula na frente. Salvo por este tweet dos Judeus pela Democracia, com o qual concordo:


A campanha do candidato do Partido Liberal tinha resolvido incorporar, zombeteiramente, a referência que Lula fez a esse grupo racista de extrema-direita dos Estados Unidos. Virou até tópico bolsonarista no Twitter, mas não sem razão: já em 2018, David Duke, da Ku Klux Klan, elogiou Bolsonaro afirmando "ele soa como um de nós". É claro que o racismo é um dos núcleos do bolsonarismo, e a apropriação jocosa do grupo promovedor de linchamentos de negros nos EUA deve ter dado ao candidato um ar ainda mais simpático para o eleitor de extrema-direita.

Muito ódio, pois, inclusive religioso - dimensão fundamental do bolsonarismo, que contou com o auxílio providencial do discurso de ódio tanto de pastores famosos quanto de obscuros contra a esquerda e as minorias. Houve vários tweets de demonização de Janja, a esposa de Lula, com o racismo religioso que ataca os cultos afro-brasileiros. Não reproduzo os criminosos racistas aqui. Eles não odeiam apenas o Candomblé e a Umbanda, resalto. 
Como o bolsonarismo é um movimento predominantemente neopentecostal, não me surpreendeu que, em 12 de outubro, os bolsonaristas xingassem o Arcebispo durante a missa e atacassem fiéis durante a celebração de Nossa Senhora da Aparecida. Bolsonaro, batizado há poucos anos pelo pastor Silas Malafaia, foi fazer campanha explorando a festividade católica, porém ao menos teve a decência de não comungar, tampouco rezar.
O assassinato de indígenas não teve trégua durante a campanha. Para os povos originários, que viram o eleitorado brasileiro eleger em 2018 um candidato que prometeu descumprir o capítulo da Constituição da República sobre os indígenas (e cumpriu a promessa!), o resultado da eleição era literalmente uma questão de vida ou morte. Lula, por sua vez, havia prometido criar o Ministério dos Povos Indígenas, inédito no Brasil. Ele também cumpriu a promessa, com a nomeação de Sônia Guajajara, que havia sido eleita deputada federal. Assim é a vida: em 2021, intimada pela polícia de um governo anti-indígena:


Em 2023, já escolhida como Ministra do governo democrático, com a posse adiada por causa da tentativa de golpe dos apoiadores do governo anti-indígena passado:


Precisamos que ela assuma, como Joênia Wapichana já conseguiu na presidência da Funai. Reproduzo um tweet de Beto Marubo sobre o assassinato de mais um Yanomami, em outubro de 2022; notícia típica do governo passado:


A campanha no Twitter retomou as mentiras contra Lula e as ameaças de execução deste candidato.  A rede social tinha passado a etiquetar as mensagens que eram informações falsas; muitas delas foram produzidas por causa dos números do primeiro turno, que não agradaram os bolsonaristas: 



O candidato Bolsonaro, usando o patrimônio público em sua candidatura, mobilizou o genro de Sílvio Santos e então Ministro das Comunicações para anunciar que sua chapa do PL teria tido tempo de propaganda subtraído por veículos de comunicação e pela Justiça Eleitoral. Mas não havia provas. Tampouco subtração.


Os tópicos bolsonaristas de fraude eleitoral foram sobrepujados por "cadê as provas gigolô", que tomou o Twitter no Brasil, um apelido afetivamente dado pelo deputado (reeleito) André Janones ao genro de Sílvio Santos.


Para entender esse tipo de disputa, lembro, neste momento, da matéria de Breno Pires, "'O show de Jair': Como o PT enfrentou a milícia bolsonarista", publicada na revista Piauí em dezembro de 2022. O bolsonarismo criou um "ecossistema de desinformação" que o PT conseguiu enfrentar graças a suas estratégias nos campos digital e jurídico, que incomodaram "algumas das vozes mais influentes do show do Jair", como Eduardo Bolsonaro, que teve de apagar posts, Bernardo Küstler e outros nomes que tiveram suas contas banidas no Brasil. 

O sucesso judicial do PT, bem como a atuação do TSE incomodaram os governistas. A Procuradoria-Geral da República, que se manteve virtualmente inerte diante de denúncias contra Jair Bolsonaro (Vladimir Aras, o Procurador-Geral da República, por alguma razão, é quase tão admirado pelos perfis bolsonaristas quanto Ives Gandra da Silva Martins), resolveu propor ação direta de inconstitucionalidade questionado a resolução do TSE contrária à desinformação no processo eleitoral.

A resolução, cito o texto da Comunicação do STF, "proíbe a divulgação ou o compartilhamento de fatos inverídicos ou gravemente descontextualizados que atinjam a integridade do processo eleitoral e autoriza o TSE a determinar às plataformas digitais a remoção imediata (em até duas horas) do conteúdo, sob pena de multa de R$ 100 mil a R$ 150 mil por hora de descumprimento." Ela permite também suspender perfis em redes sociais, o que muito incomodou os bolsonaristas. A argumentação de Aras não convenceu e ela foi mantida pelo STF em 25 de outubro com apenas dois votos vencidos: os Ministros indicados por Bolsonaro.

A violência nas ruas continuou, alimentando o clima golpista. No último dia de campanha, 29 de novembro, a deputada bolsonarista Carla Zambelli, reeleita, saiu correndo, com arma na mão e auxiliares ao redor, atrás de um apoiador do PT que a xingou.

A perseguição armada ocorreu em São Paulo, à revelia da proibição legal de porte de arma nas 24 horas que antecedem a eleição. É claro que a possível prática de crime eleitoral não muda o voto de um bolsonarista, porém. Nesse momento, os tweets de apoio à deputada não lograram dominar a rede.

A Polícia Rodoviária Federal, cujo diretor era bolsonarista, descumpriu ordem do Supremo Tribunal Federal no dia do segundo turno da eleição, 30 de outubro, e fez blitze bloqueando estradas e parando ônibus nos Estados em que, coincidentemente, Lula estava na frente nas pesquisas. A tuitosfera bolsonarista apoiou intensamente a medida nesse dia, afirmando que se tratava de ação contra a "fraude eleitoral". 

Mesmo assim, apesar dessas ações, da compra de votos legitimada por emenda constitucional, de pressões oficiais e oficiosas, da campanha  massiva de informações falsas etc., o candidato deles foi derrotado.

A impressionante vitória de Lula contra toda essa rede acabou por ressaltar o caráter antidemocrático do bolsonarismo. O Senado dos Estados Unidos, em medida certamente facilitada pela política intervencionista daquele país, aprovou resolução no sentido de cortar relações se Bolsonaro desse um golpe de Estado. O youtuber Felipe Neto fez um comentário ironizando tanto os EUA quanto os bolsonaristas, que não gostaram do tweet (eles detestam Felipe Neto, que foi antipetista e defendeu o golpe de 2016, mas depois arrependeu-se e apoiou Lula). Entre as ameaças que recebeu, destaco esta por sua iconografia:


Bolsonaristas odeiam o meio ambiente e os ambientalistas; quando recorrem a animais, fazem-no em geral para usá-los como ameaça: "a onça vai beber água", "a cobra vai fumar" etc. Fossem mais francos, diriam: "as onças e as cobras morrerão vítimas do agrobanditismo, da mineração ilegal e de outra atividades criminosas que vicejam no governo que apoiamos".

Os neonazistas no Twitter, faziam campanha para Bolsonaro ao menos desde 2017; por algum motivo, viam nele alguém simpático às suas aspirações. O professor Michel Gherman já explicou diversas vezes que o bolsonarismo "apresenta tendências nazistas e fascistas". Autoridades do governo federal, com efeito, emularam gestos ou símbolos dos fascismos, no estilo "apito de cachorro": a população em geral não perceberá, mas os cães ouvirão e entenderão o chamado. 

Após a derrota eleitoral, o mimetismo nazista abandonou a relativa sutileza e tornou-se mais evidente, como notou este perfil:


O Instituto Brasil-Israel acusou, no 2 de novembro, a "normalização de símbolos fascistas e nazistas ao longo dos últimos anos":


Corroborando essas "tendências", nos dias 9 e 10 de janeiro de 2023, os defensores dos bolsoterroristas compararam a prisão dos golpistas em estádios e com acesso a celular (eles filmam de lá e postam nas redes sociais, é impressionante) com "Auschwitz", que virou tópico no Twitter junto com "Holocausto". "Lula vai cair", também. 


É preciso ter muito ódio aos judeus para ousar comparar essa detenção com telefone celular e acesso à internet aos campos de concentração nazistas. O "morre" como tópico se deve a uma notícia falsa de morte no "campo de concentração" de suposta idosa bolsonarista, que um pastor evangélico, Ricardo Martins (por sinal, ele fez recentemente live com Osvaldo Eustáquio, blogueiro bolsonarista que teve prisão decretada pelo Ministro Alexandre de Moraes) resolveu divulgar, embora a imagem da senhora venha de um banco de dados. O nome dele está no alto à esquerda da foto; Raull Santiago divulgou-a corretamente, com o carimbo de "FAKE":


Além do ódio aos judeus e a outras minorias, os neonazistas e alguns milhões de brasileiros compartilham o fato de que o candidato em que votaram foi derrotado em 2022. Busquem os estudiosos outras similitudes. Estaria entre elas a violência como arma política? Em novembro, bolsonaristas foram presos em Mato Grosso acusados de atear fogo em carros que tentavam passar por bloqueios nas estradas. Representantes do informal Partido Militar Brasileiro, à revelia da legislação da corporação, publicaram tweets que foram interpretados por bolsonaristas, por alguma razão, como incitação ao golpe: 


Além da derrota eleitoral e do STF, a então recentíssima condenação a 10 anos de prisão de Jeanine Añez, que tomou o poder na Bolívia depois do golpe contra Evo Morales, também parecia preocupar Bolsonaro, que havia chegado a oferecer asilo político para a golpista.

No Twitter, o que sugeria que se preparavam reações contra o resultado das eleições foi a criação de diversos perfis explicitamente bolsonaristas em novembro. Vários surgiram em outubro, o que fazia sentido, tendo em vista o segundo turno. No entanto, por que eles apareceram, com o número eleitoral de Bolsonaro ou com a imagem do derrotado, depois que as eleições terminaram?? Evidentemente, não as consideravam um assunto terminado: o golpismo multiplicava-se em perfis.



Novembro também foi o mês em que o adquirente da rede social, Elon Musk (muito admirado por bolsonaristas), começou a intervir mais fortemente no Twitter, demitindo várias pessoas (especialmente do Brasil, ferindo a moderação das mensagens), reabilitando perfis que foram banidos por discurso de ódio (Donald Trump, por exemplo, retornou) e eliminando, acrescento, a previsão explícita sobre covid-19 entre as hipóteses de denúncia por informação falsa.

Nesse mês, perfis bolsonaristas esperaram que o estranho, sem previsão legal, relatório do Ministério da Defesa sobre as eleições autorizasse o fechamento do STF e do TSE, o que garantiria a permanência de Bolsonaro no poder. Perfis apócrifos de homenagem a nomes admirados pelo bolsonarismo postaram até o suposto resultado do documento. 


Em verdade, ele não concluiu por nada disso, o que não dissuadiu perfis bolsonaristas de repetirem que teria havido fraude. Diversos tópicos surgiram para esse fim, inclusive este em inglês: BrazilWasStolen. A resposta do Twitter, em reação às denúncias que os outros usuários faziam (a precária segurança dessa rede social depende basicamente da fiscalização deles), continuou a mesma: etiquetar as mensagens com "Informe-se. Entenda por que especialistas em eleições afirmam que os processos eleitorais são seguros e protegidos. Saiba mais." 


Outra informação falsa era a da internação ou do falecimento de Lula com sua substituição por suposto sósia. Em muitas versões, ele teria morrido no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A causa mortis variava de acordo com o perfil, que geralmente dizia possuir conexões privilegiadas com a instituição hospitalar.


Vejam no primeiro desse par de tweets o neologismo cunhado para servir de eufemismo para golpe: pretendia-se "deseleger" Lula, chamado doravante de "deseleito". A desonestidade política manifestava-se também na pobre criação lexical.

O PL ainda tentou contestar judicialmente a eleição alegando genericamente fraude nas urnas eletrônicas no segundo turno. Depois de ser obrigado a aditar a inicial para incluir as do primeiro turno (o que poderia levar à anulação da vitória de diversos candidatos bem-sucedidos do partido), o Partido acabou multado em mais de 22 milhões por litigância de má-fé:


Isto foi em 23 de novembro. O tópico no Twitter para zombar os bolsonaristas e o Partido Liberal foi "Faz o 22", que, coincidentemente, era o número do partido:

Imagino que essas movimentações do partido tenham mantida acesa a disposição dos manifestantes golpistas de bloquearem estradas ou acamparem diante de quartéis, que incluiu oração cristã para pneus e envio de sinais luminosos com os telefones celulares para os céus. No início do mês, um manifestante que tentou impedir a passagem de um caminhão e e foi transportado por quilômetros acabou virando meme.


Em 28 de novembro, outro revés: vários perfis bolsonaristas lamentaram a divulgação da notícia de que Eduardo Bolsonaro estava no Catar vendo jogos da Copa do Mundo com a esposa em área VIP com bufês de luxo. Depois, o deputado reeleito pelo Estado de São Paulo mostraria pen drives para explicar que estaria levando ao exterior denúncias sobre o Brasil, o que, até mesmo para a capacidade de percepção de bolsonaristas, pareceu um pouco inverossímil. Este perfil crítico ao bolsonarismo, Jairmearrependi, foi um dos que aproveitou para expor que os próprios Bolsonaros colocavam os bolsonaristas em papel ridículo:


O deputado federal filho do presidente derrotado não estava sozinho nessa atitude; além dos jornalistas que moravam nos Estados Unidos, havia outros apoiadores dos manifestantes golpistas que não queriam, certamente com muitas razões, com eles se misturar, como este pastor evangélico:


The Washington Post publicou em 23 de novembro que Eduardo Bolsonaro viajou aos Estados Unidos para aconselhar-se com Steve Bannon sobre as eleições, e que ele o orientou a contestar os resultados. O fato de os golpistas acampados usarem lemas em inglês (Brazil was stolen, que virou um tópico no Twitter) seria outra prova, segundo a matéria, da proximidade entre os movimentos de direita no Brasil e naquele país.

Em 29 de novembro, foi veiculado no Instagram vídeo da deputada federal (apesar de sua conta ter sido retida judicialmente), reeleita por São Paulo, Carla Zambelli pedindo golpe de Estado aos "generais quatro estrelas", que seriam os "guardiões da nossa Constituição". A mensagem antidemocrática chegou ao Twitter, mas não a reproduzo aqui.

Os golpes da realidade não cessaram, porém, para os golpistas. Em 2 de dezembro, o então vice-presidente conclamou-os a deixarem as manifestações, tendo em vista a eleição de Lula. Os tweets bolsonaristas, em geral, acusaram-no de traidor. Já este representante do monarquismo (entende-se que a ideia de "passar a faixa" lhe seja hereditariamente estranha), reeleito deputado pelo avançadíssimo Estado de São Paulo, foi um dos políticos que tuitou mensagens que foram entendidas pelos outros bolsonaristas como incitação ao golpe de Estado e ao insulto ao presidente eleito:


Reanimando os boatos golpistas de fraude eleitoral, um argentino amigo da família Bolsonaro fez alguns vídeos sem realmente sentido tentando alegar que havia falhas nas urnas eletrônicas, pelo menos as mais antigas. Houve uma intensa veiculação desses boatos, que não repito aqui, e o Ministro Alexandre de Moraes chegou a bloquear, em cinco de dezembro, a conta de uma deputada federal bolsonarista, Bia Kicis, por tê-los reiterado.

O Supremo Tribunal Federal, naturalmente, foi um alvo incessante das microvociferações golpistas no Twitter. Este perfil, que não existe mais, foi um dos que apostou que a Polícia Federal em novembro desobedeceria, criminosamente, a Corte e apoiaria os bloqueios das rodovias pelos caminhoneiros que, descontentes com a derrota de Bolsonaro nas eleições, resolveram tentar bloquear a democracia.



Corria entre os bolsonaristas a notícia de que Bolsonaro estava com medo, o que aparentemente gerou defecções, pelo menos no Twitter. Alguns tentavam consolar-se com a ideia de que ele poderia ainda dar um "golpe constitucionalizado" (ou seja lá o que for o que os bolsonaristas pretendem com a sua interpretação desvairada do artigo 142 da Constituição da República). Mas a bravata misturava-se a sinais de impotência, como neste pedido de socorro às Forças Armadas:



A referência era à recente deposição forçada de Pedro Castillo, presidente do Peru, de esquerda. O curioso deste tweet, além da mistura de bravata com impotência, tão típica dos personagens em questão, foi a escolha de uma foto do 7 de setembro de 2021, ocasião em que Bolsonaro tinha voltado a ameaçar o Supremo Tribunal Federal e a acenar com o golpe de Estado, procedimentos normais vindos de um representante do informal Partido Militar Brasileiro e que, portanto, não levariam a um processo de impeachment, uma vez que as regras democráticas não valem para a direita, muito menos para a extrema-direita. Em 2021, Bolsonaro já tinha encolhido. Em 2022, lembre-se, o 7 de setembro serviu como evento para discutir a supostamente declinante potência sexual do chefe de governo: o país tinha encolhido, talvez na mesma proporção.

A mistura de bravata e impotência, em verdade tão comum, voltou a aparecer por causa da diplomação de Lula: vários tweets asseguravam que ela não ocorreria. Como o desejo não se transformou em realidade, surgiu uma nova versão, visivelmente inspirada no que um blogueiro foragido falou em 2020 para alimentar a fantasia de que Trump teria vencido Biden: só teria havido a diplomação de Lula para que o "crime" se consumasse e, dessa forma, ele e o Ministro Alexandre de Moraes pudessem ser presos!


O "tic tac" é a onomatopeia favorita pelos golpistas: uma espécie de contagem regressiva para a tomada à força do poder, detenções ilegais e outros crimes porventura desejados pelos que a leem: um significante vazio, tão importante para a constituição e a aglutinação das redes da extrema-direita. No caso, ocorreu apenas a contagem regressiva para o fim de direito do mandato, que Bolsonaro acabou abandonando aos poucos; afinal, ele deixou o país antes de o governo acabar oficialmente, em gesto por muitos interpretado como uma fuga.

O bolsonarismo teria sido muito mais fraco sem o engajamento da imprensa. Em 30 de dezembro, três comentaristas da Jovem Pan, Rodrigo Constantino, Paulo Figueiredo e Fernando Conrado, tiveram suas contas em redes sociais retidas por determinação do Ministro Alexandre de Moraes. Antes disso, porém, provocações como a deste morador dos Estados Unidos não eram incomuns e incitavam os admiradores de Bolsonaro a resistirem ao resultados das eleições:


Jornalistas tentavam manter o ânimo desses coletivos declinantes, mas como animar os golpistas diante da ausência do líder? O filho vereador tentava de vez em quando, apesar de suas dificuldades com as palavras, a sintaxe e a lógica, que para alguns correspondia a um estilo literário muito pessoal. Em 13 de dezembro, ele renunciou à difícil linguagem verbal para oferecer o que os bolsonaristas viram como um sinal de esperança de que tudo, como dizem os paranoicos, está planejado e orquestrado. Um então participante do governo federal logo aderiu entusiasticamente à eloquência carluxiana no mesmo diapasão, com um emoji:


O ridículo do tweet acentua-se pelo fato de mostrar uma orquestra, formação pela qual Bolsonaro não demonstrou interesse artístico e à qual não deu atenção em matéria de políticas públicas; e de ser a Orquestra Cubatão Sinfonia, um projeto de educação musical. A foto foi capturada da divulgação do grupo no Projeto Orquestras Locomotiva. Além de se tratar de orquestra e educação, havia outro fator a desagradar bolsonaristas: ela não seguia o negacionismo científico; pelo contrário, adotava precauções contra a covid-19. Cito a matéria:

Vale lembrar que a apresentação da Orquestra cubatense contará com todos os protocolos sanitários de combate à covid-19: cada artista utilizará seu próprio instrumento musical, as cadeiras e as estantes (utilizadas para acomodar as partituras) serão higienizadas antes e após o concerto. Os músicos e musicistas contarão com placas de acrílico instaladas, garantindo uma importante proteção entre as pessoas, principalmente por conta dos instrumentos de sopro.

Para quem quiser assistir à apresentação de primeiro de setembro, regida por André Farias, sugiro vê-la por meio desta ligação: https://youtu.be/fNSQRNQN1zc?t=3214

Em 18 de dezembro de 2022, o general Augusto Heleno viu-se obrigado, diante da repercussão, a desdizer um insulto ao presidente eleito e uma ameaça golpista proferidos diante de um punhado de pessoas que queriam ouvir as indignidades. Lázaro Rosa foi um dos que notou a preocupante falibilidade da memória recente do militar idoso:


Em 2018, lembre-se, um tweet do General Villas Bôas, então comandante do Exército serviu para ameaçar de golpe de Estado o Supremo Tribunal Federal caso libertasse Lula, como confirmou Fabio Victor em seu "Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro" (São Paulo: Companhia das Letras, 2022). Outros tempos, apenas quatro anos antes.

Um momento particularmente revelador de autodecepção foi o dia em que perfis resolveram divulgar que a segunda posse de Bolsonaro foi colocada por alguém como um dos eventos do Google; portanto, ela ocorreria, no pensamento tipicamente infantil "se está na internet, é verdade".


Esse perfil homenageava o autor preferido de Bolsonaro, um dos 377 agentes de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar segundo a Comissão Nacional da Verdade, que morreu sob a declaração judicial de torturador. Ele desapareceu do Twitter pouco depois e mudou de nome para algo mais ameno, ligado a carros. Terá o novo governo Lula um impacto tão forte no campo da justiça de transição, fazer essa gente voltar para o esgoto?

No dia 30 de dezembro, em sua última teletransmissão aos fãs na condição de presidente da república, Bolsonaro chorou novamente, gerando mais decepções não por causa do péssimo governo, mas pela falta de... golpismo! Vejam este curioso comentário sobre as "quatro linhas":


Trata-se de como os bolsonaristas, inspirados pelo líder, passaram a se referir à "moldura constitucional" dentro da qual os atos do presidente da república deveriam se dar. O bolsonarismo alimentou-se ideologicamente da ética antideontológica de que os fins (golpistas, antidemocráticos etc.) são superiores aos meios (legais) e glorificou a violência e a ruptura institucional como novas virtudes cívicas. Ademais, é exasperante ver que uma administração que parecia tantas vezes avizinhar-se de atos ilícitos (se realmente isso aconteceu, talvez o saibamos durante o novo governo Lula) ser acusada de restringir-se aos parâmetros constitucionais!

Nem todos se desanimaram, no entanto. Como se sabe, manifestantes continuaram usando banheiros unissex diante de quartéis. Nesse momento, os bolsonaristas já tinham se convertido em uma seita messiânica a buscar sinais da Vinda do escatológico Golpe. Os sinais poderiam estar na roupa, no cenário, ou em uma palavra dita no final:


Agudo contraste entre a palavra e o semblante. Para alguns, a chorosa fala ao vivo de Jair Bolsonaro, se entendida com uma série de indícios imaginários, seria não o sinal de que o Golpe viria, mas de que ele já tinha dado certo:


Nada faz sentido; como os perfis desta natureza em geral mostram um conhecimento limitado da língua, não se saberá se era realmente "porque acredito" ou se as duas listas correspondiam aos motivos "por que" o perfil acreditava, ou acredita até hoje. 

Um candidato eleito a deputado federal tinha vivido um momento de otimismo quando o ainda presidente da república saiu do mutismo no início de dezembro e, em breve exibição de virtudes bélicas e coragem cívica, chorou diante de um bando de admiradores:


Dias depois, o deputado eleito desanimou-se diante da perspectiva da fala de fim de ano de Mourão, o vice-presidente eleito senador pelo Estado do Rio Grande do Sul. No entanto, um perfil censurou-o por adotar a atitude supostamente derrotista:



A ação aconteceu. Cito agora o livro antes referido de Fabio Victor: 

Especulava-se que, insufladas por seu líder, as milícias bolsonaristas seriam capazes de tentar sua própria invasão do Capitólio, ou um golpe à Bolívia de 2019 [...] ou mesmo uma atualização da Marcha sobre  Roma dos fascistas em 1922.

A maioria dos militares nunca levou nenhuma dessas possibilidades muito a sério. Quando o assunto vinha à tona, um general gostava de dizer que "nosso Capitólio" (o Congresso Nacional) já fora invadido em protestos de Sem-Terra, de indígenas e de movimentos, sem que houvesse comoção.

Ora, se temos ainda democracia, é justamente por causa dos povos indígenas e dos movimentos sociais, que resistem aos massacres cotidianos. Quanto a direita se mexe, temos outras coisas, como o Di Cavalcanti esfaqueado, o Victor Brecheret roubado, o relógio do século XVIII destruído entre outros danos, continuando o trabalho de destruição que o líder dela havia começado. A biblioteca do Senado Federal ficou incólume provavelmente porque os bolsonaristas, com toda sua cultura, não sabiam do que se tratava.

Jair Bolsonaro declarou não ter apoiado os golpistas de 8 de janeiro. No entanto, ele continua no Twitter a se apresentar como presidente da república e candidato à reeleição, e tem listado suas "realizações" durante o mandato, como se as eleições não tivessem ocorrido. Eis como está o perfil dele em 9 de janeiro de 2023, com o último tweet mencionando o número de escolas de doutrinação militar:


Isto envia uma mensagem de três palavras para os bolsonaristas que foram roubar, espancar, depredar e defecar em Brasília, mas também para os outros, que apoiaram, financiaram, torceram ou ficaram só assistindo os atos terroristas: golpe de Estado. Os mecanismos de justiça de transição, evitados para e pelos golpistas de 1964, não podem ser deixados de lado agora.