O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Pré-lançamento da coletânea "Jumento com faixa: deboches e antiodes ao fascismo"



Neste sábado, dia 12 de dezembro de 2020, às 20 horas (fuso de Brasília), haverá um evento ao vivo de pré-lançamento de uma obra coletiva, de título muito sugestivo, na qual estou incluído. O poeta Zeh Gustavo, de quem tive a chance de apresentar o livro Pedagogia do suprimido, convidou-me a participar de uma coletânea de poesia com o título enigmático Jumento com faixa: deboches e antiodes ao fascismo, a ser publicada pela editora Viés. Do que trataria o livro? Não ousei indagar naquele momento.
Aceitei o convite, claro, mas perplexo, considerando, de um lado, que numerosos acadêmicos demonstraram que não há fascismo hoje, e sim o mero funcionamento normal das instituições vigentes; e, de outro, que os referenciais filosóficos mais contemporâneos combatem o especismo e que devemos, claro, imaginar que um jumento possa efetivamente ser escolhido (ou até mesmo eleito, por seus pares ou não) para receber faixas, inclusive presidenciais.
No entanto, incapaz de escrever sobre algo tão alheio à realidade brasileira, na qual: a) as instituições em geral não funcionam para os fins a que foram destinadas, e sim para outros; b) vivemos a ameaça de extinção de espécies e biomas, tendo em vista a eficácia das políticas públicas de devastação; resolvi enfim rever, revisar um poema que rascunhei neste blogue e não entendi bem sobre o que era, ou se chegava realmente a possuir algum assunto, ou se o assunto era somente alguma forma espúria de despossessão.
A partir desse material já esboçado, consegui atender à encomenda, ou talvez não tenha logrado fazê-lo, porém, se foi esse o caso, os organizadores (além de Zeh Gustavo, temos Rafael Maieiro) fingiram não notar meu fracasso.
Sei que os outros escritores presentes, que pertencem a diversas gerações, chamarão muito a atenção dos leitores. Eles são Alberto Sobrinho, Alexandre Guarnieri, Amanda Vital, Amora Pêra, André Vallias, Áurea Alves, Bruno Borja, Diego Barboza, Divanize Carbonieri, Eduardo Sinquevisque, Filipe Manzoni, Guilherme Zarvos, Henrique Rodrigues, Ítalo Lima, José Brandão, José Henrique Calazans, Katyuscia Carvalho, Letícia Becker Savastano, Luis Maffei, Manoel Herzog, Manuela Oiticica, Marcelo Reis de Mello, Maria Célia Barbosa Reis da Silva, Mariana Blanc, Mauro Iasi, Nuno Rau, Pedro Rocha, Rubermária Sperandio, Sandro Félix e Thamires Andrade.
O evento ocorrerá na conta de instagram @zeh.gustavo. O lançamento ficará para 2021. Esperemos que haja 2021 para nós.


P.S.: A ligação para pré-venda: https://www.livrariafantasticadoborges.com.br/pre-venda-jumento

terça-feira, 10 de setembro de 2013

"Pedagogia do suprimido", de Zeh Gustavo

O poeta e sambista (membro do Terreiro de Breque) Zeh Gustavo lançou mais um livro de poesia, Pedagogia do suprimido (Verve, 2013). No Algo a dizer, em que escreve regularmente, pode-se ler uma entrevista sobre o livro, dada a Daniel Russell Ribas: http://www.algoadizer.com.br/edicoes/materia.php?MateriaID=1109
O autor havia me pedido uma pequena apresentação para a obra, que compartilho aqui:





Contar o nenhum: o suprimido em Zeh Gustavo




Em Pedagogia do suprimido, a alusão a Paulo Freire, desde o título, anuncia que a formação é um motivo principal desta obra. De fato é, porém no registro da falha, e nisso está uma das originalidades do livro. Zeh Gustavo afirma, no primeiro poema, que “A Pedagogia do Oprimido gostaria/ um homem que gerisse o próprio húmus.” Quem não pôde nascer de tal solo, o “sujeito amplamente espoliado”, o autor chama de suprimido.
Trata-se, pois, de imagens de uma formação fracassada, uma Bildung que não pôde se concretizar perfeitamente, uma filiação que fracassou e nisso encontrou seu triunfo, sua voz particular. O poeta nasce de uma falha da educação... Dessa forma, temos um inventário de dicções do interdito em poemas como “Interdicções”:

letras que não causaram cor
notas riscadas para a sombra dos discursos
horizontes desviados segundo a inapetência do dia
ditos olvidos de uma canção primeira

Trata-se também do fracasso necessário, da aspiração impossível de “O homem que queria ficar menino/ dentro do caderno de rasuras” (“Adultos não existem”). A máquina poética de viagem e lembranças prossegue em “Raia a noite que tudo expõe”: “Eu insisto e me sobrevém um sono fraco,/ sonhos me riem novamente,/ eu sou criança e durmo entre afagos/ dentro de minha casca,/ que teme.” Teme-se o difícil caminho, percorrido “fosso avante”, como se lê no poema dedicado ao ficcionista Marcelo Mirisola, “Da escola”.
Um fracasso necessário para a poesia, talvez: “A casa, toda a casa, logo foi ela/ quem sumiu dentro de alguém.” (“Casa de camas”). Da queda de uma colega de escola nascem, simultaneamente, as experiências com a arte e a morte, em um poema cujo título (“Sabiá sabia já”) invoca um dos símbolos do país, desde Gonçalves Dias.
É o país, portanto, que ensina a queda e conclama, dessa forma, à poesia? No poema “Tia Eulália”, afirma-se esta política inconformista desde a infância:

Tia Eulália não era da xiba,
mas revelava querer
juntar Marx e Freud
pruma teoria-mundo outra,
a Tia Eulália camarada

Formalmente, Zeh Gustavo busca o difícil equilíbrio entre ambos por meio da invenção de palavras e de um uso pessoal do léxico, em poemas escritos com versos livres e brancos. Nos melhores momentos surgem surpresas sintáticas (“A linguagem nos língua.”); nos menores, Manoel de Barros é evocado (“um assobio me entorta”).
O diálogo com a arte é outra das linhas de força do livro. Em “Fernando Toledo e Newton Cavalcanti”, encontramos outra solução para o suprimido: “Por sua vez, mudo que é mudo não cala:/ toca instrumentos inexistidos/ ou parcamente frequentados.”, e  a aposta nas linguagens artísticas que usem o silêncio para dizer o que é recalcado pessoal e socialmente, algo que somente poderia ser dito através da falha: “Meus brônquios falham intervalos musicais”, escreve em “A conta da carne”.
Nessa aventura de dizer a partir do censurado sem calar a censura, na tentativa de torná-la, ela mesma, poética, Zeh Gustavo dá um passo além do livro anterior, A Perspectiva do Quase. Agora, temos algo aquém do quase: “Conto palavras, uma por nenhuma.”


Pádua Fernandes
Autor, entre outras obras, dos livros de poesia Cinco lugares da fúria (São Paulo: Hedra, 2008), Cálcio (Lisboa: Averno, 2012), Código Negro (Desterro: Cultura e barbárie, 2013).