O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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terça-feira, 25 de outubro de 2022

Fazer o L com Livros

A cadeia do livro envolve diversos trabalhadores. A ascensão da extrema-direita ao poder no Brasil prejudicou-a bastante, seja diminuindo as compras governamentais, seja arrasando os investimentos em cultura e educação, seja perseguindo os profissionais envolvidos.

Lembrem-se, por exemplo, dos ataques sofridos por Julián Fuks neste ano, que incluíram ameaça de morte (que faz parte do repertório de ação usual da direita no poder), por conta de uma de suas poéticas crônicas no Uol. Elogio o Uol, por sinal, por não ter abandonado o escritor, ao contrário da Deutsche Welle, que, em episódio semelhante sofrido por João Paulo Cuenca em 2020, cedeu às pressões bolsonaristas e rompeu o vínculo com o ficcionista, que depois sofreu assédio judicial.

Livros, já os carreguei, escrevi, revisei, traduzi, organizei, vendi. Um certo tipo de escória começou a falar mal dos trabalhadores de livro por conta de autores que resolveram "fazer o L" com suas obras, ou seja, anunciar o voto em Lula. Faz sentido que se declare voto no Partido dos Trabalhadores com seus instrumentos e/ou produtos de trabalho.

O próprio presidente Lula tem reforçado esta pauta na campanha:

Lembremos também que a extrema-direita brasileira, em seus esforços cognitivos, só tem conseguido identificar a cor da capa dos livros de seus autores preferidos, mas sem lograr decifrar ou lembrar dos títulos das obras. É verdade que nunca defenderam o direito à literatura.

Por essa razão, é interessante que as pessoas envolvidas com a produção de livros posicionem-se. No sábado, 22 de outubro de 2022, estive com Fabio Weintraub para ver uma feira de livros na Biblioteca Mário de Andrade; Cida Moreira apresentou-se no âmbito do evento com um repertório de mais de um século de música brasileira, incluindo modinhas imperiais. Fomos lá também porque a Editora Nós havia chamado para um ato de apoio a Lula do lado de fora da Biblioteca.


Não havia muita gente, de fato; falei com Fuks e Maria Rita Kehl. Fora de lá, no centro de São Paulo, no entanto, vi muito mais gente com adesivos ou bonés ou camisetas do PT do que em qualquer outro dia, afora os atos de campanha. Achei muito bom, pois continua bem vivo o medo de ser agredido ou morto por apoiar a oposição no Brasil. Trata-se do efeito da estratégia Sturmabteilung (a milícia nazi) que a extrema-direita brasileira copiou, na descentralização das funções de assédio e censura, que não precisam necessariamente ser assumidas pelas instituições do Estado pois os militantes do "líder" (traduzo do alemão) assumem-nas, seja com seus telefones celulares, seja com seus fuzis.

Todos os livros que escrevi e publiquei "fazem o L", gesto que significa não exatamente um compromisso com um partido específico ou com o presidente Lula, mas o necessário apoio à democracia no Brasil. Digo isso também das obras que não consegui publicar neste país, como este ensaio de 2009, "Para que servem os direitos humanos?". Gostaria de lembrar deste trecho:

Como sempre, cliquem na imagem para ampliá-la. Trata-se de uma das poucas referências no livro ao Brasil; eu a fiz como exemplo de uma cultura jurídica isolacionista (que me deu uma rasteira na semana passada, aliás) e contrária à dignidade humana que se fecha ao Direito Internacional dos Direitos Humanos, seja o ignorando, seja distorcendo sua aplicação. No caso, mencionei o papel do Poder Judiciário e do Ministério Público na violação da Convenção contra a tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. 

As duas instituições colaboraram ativamente na geração da atual crise no país. Esse tipo de provincianismo jurídico em prol dos crimes de lesa-humanidade foi eleito em 2018, logrou conferir mandatos políticos em 2022, porém deve perder no segundo turno das eleições de 2022.

O meu próximo livro, "Assassinato e ascensão do grande escritor (seguidos de antologia completa)" (nos dois últimos dias de campanha de financiamento coletivo), também "faz o L":


quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Desarquivando o Brasil CLVIII: Literatura, pesquisa e catástrofe: Seminário no IEL-Unicamp e artigo na ELBC

Agora que sabemos que a investigação do assassinato de Marielle Franco e de Anderson Gomes foi barrada na portaria do condomínio de J. e C. Bolsonaro, e que a investigação está com uma promotora bolsonarista do Ministério Público do Rio de Janeiro, seria previsível que E. Bolsonaro, sinalizando tanto o acuamento quanto a esperança dessa família, evocasse a ditadura militar e o AI-5 para uma das jornalistas preferidas da extrema-direita. Continuamos atolados no terreno da apologia ao crime político e de sua impunidade.
Faz parte da catástrofe explícita que está no poder, situação em que o ocupante da presidência da república anuncia abertamente que estimulou o crime ambiental e a destruição da Amazônia ("Bolsonaro diz que 'potencializou' queimadas por nova política para Amazônia"), que o imaginário e os instrumentos da ditadura seja a todo o tempo convocados para a legitimação da plutocracia tornada em escatocracia (proponho esta palavra agora, pensando em escatologia).
Faz parte da catástrofe no poder o ataque à pesquisa e à universidade - outra floresta que a escatocracia que tomou o poder deseja ver reduzida a cinzas.
Fiz uma pesquisa de pós-doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas sob a supervisão de Eduardo Sterzi sobre justiça de transição e literatura brasileira contemporânea. Por essa razão, participarei do I Seminário dos Pesquisadores de Pós-Doutorado em Teoria e História Literária do IEL-Unicamp, que ocorrerá em 11 e 12 de novembro de 2019. Vejam a programação:


Um dos resultados da minha pesquisa foi este artigo publicado pela revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, "Poéticas da migrância e ditadura: exílio e diáspora nas obras de Julián Fuks e Francisco Maciel". Transcrevo o resumo:
O artigo trata da questão dos exílios e das migrações, em relação à ditadura militar, em dois autores da literatura brasileira contemporânea: Julián Fuks e Francisco Maciel. O romance A resistência (Fuks, 2015) é analisado segundo os conceitos de pós-memória (Hirsch, 2008) e privatização do trauma (Seligmann-Silva, 2014). Este romance, em sua tentativa de construir a memória da família relacionada ao exílio de pais argentinos e à adoção de um filho, retrata, nas dificuldades formais de escrever o livro, os problemas políticos do processo de justiça de transição no Brasil, em comparação com a Argentina. Na obra de Francisco Maciel, a discriminação racial contra a população negra é um tema central. A repressão política considerava que o movimento negro representava ameaça contra a segurança nacional. O artigo analisa a questão das migrações dos negros na obra de Maciel em termos de diáspora (Hall, 2003), e explica como ela não se torna apenas tema, mas também forma literária, no romance Não adianta morrer (Maciel, 2018). 
Interessaram-me as articulações entre a forma literária e o processo de transição política no Brasil, bem como as continuidades do imaginário autoritário, que agora assumiram o poder. Pretendo tratar ao menos desses autores e de Micheliny Verunschk no dia 11 de novembro. Espero ver como estarão o país e a progressão da catástrofe até lá; fato é que a situação não poderá ser sustentada nos atuais termos; precisa mudar para manter-se, ou então será erradicada.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desarquivando o Brasil CVIII: A Resistência, de Julián Fuks, e a transição política no Brasil e na Argentina

Em obras de Julián Fuks, não raro a narrativa se deflagra a partir de uma descoberta, ou da busca, de um espaço privado até então desconhecido: é o caso do apartamento em Buenos Aires (e o "trouxeste a chave" drummondiano, em espanhol, também abre a literatura) em Procura do romance (Rio de Janeiro: Record, 2011); o baú escondido em casa (que guarda simultaneamente a vida e a literatura) de seu livro infantil Menina de papel (São Paulo: Iluminuras, 2013, com ilustrações de Thiago Lopes); o João Cabral confinado pela cegueira em Histórias de literatura e cegueira (Rio de Janeiro: Record, 2007); o muro que um personagem resolve construir para isolar-se e morrer dentro de um sótão em Fragmentos de  Alberto,Ulisses, Carolina e eu (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004), sua estreia.
No romance lançado há pouco, A resistência (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), temos algo de parecido, porém claramente vinculado à história política do continente. O personagem e narrador Sebastián é brasileiro, mas seus pais são argentinos e ele tem um irmão adotivo que nasceu naquele país. Há problemas de relacionamento desse irmão com a família; o protagonista resolve escrever sobre isso e vai fazer a viagem que o irmão não fez, para a Argentina; um dos impasses a que chega é o de entrar na sede das Mães da Praça de Maio (p. 19); seu irmão seria filho biológico de desaparecidos?
Essa questão, bem como o da fuga dos pais, militantes de esquerda, da Argentina para se estabelecerem no Brasil, enquadra esta história na história recente do Cone Sul, das ditaduras militares e da transição política.
É a primeira vez que Fuks, cuja foto vocês podem encontrar neste blogue em passeata do Cordão da Mentira, vestindo a camiseta das Mães de Maio argentinas, em protesto contra a herança da ditadura militar, escreve um romance com tema vinculado à justiça de transição, numa perspectiva em que Argentina e Brasil são comparados, o que já foi objeto, por exemplo, do muito diferente Duas praças, de Ricardo Lísias.
Já no capítulo 7 do livro de Fuks, põem-se em tensão explícita história e memória. A memória que ele detém, no entanto, não é a dos pais, nem mesmo da Argentina, onde ele não nasceu: "Tenho a idade que meu pai tinha aquela época o bastante para saber que as armas dele não são as minhas" (p. 38). Relembra das conversas entreouvidas sobre o passado militante. Esta memória dos sussurros e dos detalhes incompletos e contraditórios ("Sei e não sei que meu pai fez treinamento em Cuba, sei e não sei que jamais desferiu um tiro com alvo certo", p. 40) que ele não viveu é bem a questão do testemunho do filho.
No livro A literatura e a vida: por que pesquisar literatura?, organizado por Vitor Cei, João Guilherme Dayrell, Michel Mingote e Ferreira de Azara, que deverá sair este ano pela Praia Editora, haverá um artigo meu, "Literatura e Justiça: Julián Axat e os desaparecidos na Argentina", que escrevi a partir de palestra que proferi na UFMG no II SPLIT – Seminário de Pesquisa Discente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (Pós-Lit). O livro recolhe as comunicações do Seminário. Nele, trato brevemente da questão da memória de Julián Axat, membro da organização HIJOS, que congrega filhos de desaparecidos e de mortos pela última ditadura. Um hijo, como Axat, como Emiliano Bustos, que tipo de memória tem da ditadura, visto que muitos nasceram após o golpe, ou eram muito pequenos quando ele ocorreu? Cito uma passagem de meu texto:
Sarlo critica o conceito de pós-memória, afirmando que o que existem são “formas de memória que não podem ser atribuídas diretamente a uma divisão simples entre memória dos que viveram os fatos e memórias do que são seus filhos”. Se se reservasse o termo para a memória da “primeira geração depois dos fatos”, “a pós-memória é tanto um efeito do discurso como uma relação particular com os materiais da reconstituição; com os mesmos materiais se fazem relatos decepcionantes e cheios de furos ou reconstituições precárias que, no entanto, sustentam algumas certezas”.
No entanto, a obra de Julián Axat é, realmente, um exercício de pós-memória? Ele está realmente a fazer esse tipo de reconstituição da história dos pais, a tornar as difíceis e fragmentárias reconstituições do passado em poesia? Parece-me que não.
[...]
De um lado, a experiência dos hijos permite-lhes dizer que apresentam suas próprias memórias sobre o terror de Estado: o fato de terem perdido os pais e outros parentes, de terem tido, muitas vezes, sua identidade negada ou subtraída marcou-lhes a infância e representa a marca do terror de Estado em sua história pessoal, inscrita nessa história coletiva. Nesse sentido, suas subjetividades também foram configuradas pelo terror, e isso os autoriza a falar como testemunhas diretas da ditadura.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Desarquivando o Brasil XXXI: mais do Cordão da Mentira

Na nota que escrevi às pressas para participar da blogagem coletiva, "Desarquivando o Brasil XXX: Comissão da Inverdade, Cordão da Mentira e os juristas", incluí um panfleto de 1979, apreendido pela polícia em São Paulo, da campanha pela Anistia.
No ano passado, usei esse panfleto numa atividade na disciplina Filosofia jurídica. O poeta, cientista político, diplomata e especialista em Milton Nascimento (entre outros talentos) Ricardo Rizzo, meu amigo, perguntou por que não lembrei de que o título vinha de canção de Milton e Ronaldo Bastos, "Menino", escrita em resposta ao assassinato do estudante Édson Luís pela polícia no Rio de Janeiro em 1968. "Quem cala sobre o teu corpo consente na tua morte", na voz do compositor.
Eu sempre tinha de lembrar da canção com os alunos, que em geral não tinham conhecimento nem interesse por música brasileira e não identificavam a referência, que continuava atual na época.
Nesse ano de 1979, Elis Regina interpetava a canção no espetáculo Saudades do Brasil, com arranjo de Cesar Camargo Mariano. Ela chegou a combiná-la com uma canção de Fátima Guedes, "Onze fitas". http://www.blogger.com/img/blank.gif
Elis lançou tanto Milton quanto Fátima Guedes. Aqui, se pode ouvir a compositora. A combinação que a poderosa cantora fez foi lançada em disco e pode ser ouvida nesta ligação, com a intuição da cantora em ver o liame entre os dois assassinatos, entre as duas violências.
Talvez algo de correlato estivesse presente no Cordão da Mentira; ou na carta que as Mães de Maio brasileiras escreveram para as Mães da Praça de Maio argentinas.



Ainda na concentração da passeata, podem-se ver duas formas de representação dos desaparecidos da ditadura: o cartaz com diversos rostos de desaparecidos, que pode ser visto também na nota anterior que fiz sobre o Cordão da Mentira, e as lindas efígies coloridas, que permitiam a visão dos dois lados. Os que sofreram a mesma violência na democracia estavam igualmente representados.
Os desaparecidos e mortos da ditadura foram homenageados também nas placas que foram afixadas em locais estratégicos. Mostrei algumas na nota anterior.



Ativistas dos direitos indígenas estavam presentes na manifestação - ao lado, camiseta com mensagem contra o genocídio dos índios Guaranis, em marcha judiciosa e executiva no Mato Grosso do Sul. Participaram do Cordão também os membros das bicicletadas, que por vezes caem vítimas do desastre urbanístico e administrativo que São Paulo continua a ser.



Escritores na passeata: Fabio Weintraub, em foto tirada ainda na concentração do evento, em frente ao Cemitério da Consolação. Logo abaixo, Julián Fuks na Rua Fortunato, com a camiseta azul dos 33 anos das Mães da Praça de Maio.





Na Rua Maria Antônia, vemos novamente a comissão de frente da passeata, composta pelas Mães de Maio. Desta vez deste ângulo, para se ver a mensagem da camiseta: "Um mundo melhor é possível: Quando o Estado não mais discriminar, não excluir o pobre e negros. Exigimos dignidade, igualdade, justiça e liberdade!".
A mensagem pressupõe outro valor: a diversidade, que se manifestou na passeata.

Ainda na mesma rua, de verde, Raphael Tsavkko, the angry Brazilian, jornalista que escreveu no seu blogue sobre o Cordão, incluindo fotos bem melhores do que as minhas e vídeos. Pode-se vê-lo com uma camiseta de apoio aos bascos.




Presente na manifestação, estavam setores da Academia. Os estudantes de Psicologia apareceram, sem divã, para afirmar que nem Freud entende a impunidade dos torturadores. De fato, o fundamento teórico deve ser outro, precisa ser buscado no lugar onde se encontram certas derivas de uma criminologia que se pretende crítica com a extrema direita menos disfarçada. Na foto seguinte, não conheço os outros, mas, no centro, com a camiseta branca inscrita com "Juicio y castigo", estava o mestre em Relações Internacionais pela Universidade de São Paulo Renan Quinalha, orientando de Deisy Ventura. Sua dissertação tinha como tema a justiça de transição.


Caminhando para o Minhocão, ainda passando pelo Largo de Santa Cecília. Apesar da faixa da Companhia de Teatro Kiwi sobre a impossibilidade da felicidade, creio que ela foi desmentida, pois a manifestação tinha um sentido de júbilo.



Em frente ao Teatro do Folias d'Arte, foi realizada nova pausa. Soltaram-se balões vermelhos, imagem simples de júbilo.




Na nota anterior, incluí foto de Lino Bocchini, jornalista da Falha de S.Paulo, censurado judicialmente pelo jornal quase homônimo. Ele escreveu também sobre o Cordão da Mentira. Agora, insiro outra foto. Na árvore em frente ao prédio da Folha de S.Paulo, vejam, que foi amarrada uma placa em homenagem às vítimas do urbanismo higienista de São Paulo. Essas placas foram ignoradas na modesta cobertura da passeata feito pelo Estado de S.Paulo, e na modestíssima pela Folha, e tal silêncio ecoa o silêncio dessas vítimas.

Na última foto,http://www.blogger.com/img/blank.gif vê-se o pouso final da passeata. É possível ver a Universidade Livre de Música, enquanto músicos sobre o caminhão de som reclamavam que se ensinasse música popular. Não fazia sentido a queixa (que tinha um fundo de intolerância, repetido em outra fala, contra a música "clássica", e desafinava a ideia de diversidade), pois lá também se ensina esse tipo de música. Ela não silencia: "Quem grita vive contigo".

P.S.: Contei, em outra nota, que o professor Ítalo Moriconi falou do manifestante no Rio de Janeiro que teve o braço quebrado pela polícia na recente manifestação contra a comemoração do golpe militar. Eis aqui a história dele.