O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

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sábado, 16 de novembro de 2019

Na Unicamp, a inexistência de Alberto Pimenta, revisitada




Com sorte, darei no dia 19 de novembro de 2019 uma aula sobre o poeta, prosador, dramaturgo, crítico, performer, artista plástico, ensaísta e tradutor Alberto Pimenta no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp). Ele é uma figura tão vasta e de tão diversos talentos nas literaturas de língua portuguesa que é impossível fazer-lhe justiça, mas tentarei sugerir sua grandeza.
A fala se dará no âmbito do ciclo No meio o mar profundo: poetas portugueses lidos por poetas brasileiros, organizado pelo professor, poeta, dramaturgo e crítico Eduardo Sterzi, que me convidou, e a quem agradeço. O título completo do que farei será "Senti-me também pisado, condição para a capacidade de escrita": A inexistência de Alberto Pimenta revisitada.
Escrevi um ensaio sobre a inexistência deste autor para a extinta revista digital portuguesa Ciberkiosk. É um dos poucos textos que escrevi que é realmente citado, e primeiro por ninguém menos do que Maria Irene Ramalho, em Século de ouro, a antologia da poesia do século XX que Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra organizaram para a antiga editora Angelus Novus há mais de quinze anos.
Publiquei-o aqui faz tempo. Nele, depois de constatar que em certos locais ou publicações, em Portugal ou no Brasil, agia-se como se Pimenta não existisse, quis entender que a inexistência também estava presente na obra como forma de estratégia poética do autor.
Expandi o texto para o posfácio da antologia de Pimenta que organizei em 2004, A encomenda do silêncio, publicado pela Odradek. Entre outros sinais inquietantes, a própria editora deixou de existir, e a citação "Senti-me também pisado, condição para a capacidade de escrita" vem de uma entrevista que sairia em um periódico do governo federal que foi extinto antes de poder fazê-lo. Acabei publicando-a aqui mesmo.
De 2004 para cá, creio, aquela estratégia ganhou outro sentido, antes como imagem ou como objeto do que como procedimento. Será esse meu tema no dia, espero, conduzido por aquela frase que indica o teor de combate desta poética.
Na primeira e única reunião que fez de sua poesia, Obra quase incompleta, em 1990, hoje incompletíssima, faltou o parágrafo final do artigo "Liberdade e aceitabilidade da obra literária", que publicou na Colóquio Letras em julho de 1976. Nunca entendi a razão, pois o julgava importante e necessário. Certa vez, perguntei-lhe e ele me contou que simplesmente não cabia na página e o livro já estava volumoso demais (quatrocentas e quatro páginas), por isso o editor cortou-o.



A liberdade da obra literária pode implicar a inaceitabilidade pelo público, pelo poder estabelecido e pelo sistema literário? Deixo este final aqui como indicativo desta poética de combate, que escritores e críticos oficiais ou oficiosos preferem pretender que não haja, ou preceituam que não deveria existir.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Do Bolso ignaro à boca de Parmênides: Alberto Pimenta zomba



Festa para a poesia: Alberto Pimenta publicou mês passado seu livro novo, Zombo (Lisboa: Edições do Saguão, 2019). O título anuncia cantigas de escárnio, tão frequentes na obra do autor. Elas estão presentes e às vezes evocam os livros dos anos 1970, mas com a gravidade dos últimos volumes, como se Pimenta tivesse reunido diferentes tempos de sua obra em Zombo.
Neste livro, recorre com mais frequência a trocadilhos e piadas, como "cara... oh honte!" referindo-se a Caronte, as explicações para SMS (por exemplo, "Se a Merda Soubesse") em "Doces musas", todo o poema "Palhinha", uma ópera dos grandes negócios, o "Bolso ignaro" ("LOVE TONIGHT"), zombo e zambo [SETE PANFLATOS E UM PROVÉRBIO COLOMBIANO]. Trata-se do autor de al-Face book, não esqueçamos.
Um poema como "Boa vizinhança", com sua sátira às relações sociais, poderia estar em Os entes e os contraentes, livro de 1971, bem como o poema visual "muito influenciado por Boulez"; mesmo este, no entanto, termina com esta nota séria: "chegou ao fim, amigo, acabou". Em "MEMO RIA ou", há riso, memória e também trechos como este:

das minhas águas-furtadas,
furtadas à imaginada chaminé
sigo sendo fumo
e sucessor de fumo: nada

Há anos Alberto Pimenta apresenta seu livro mais recente como o último ou algo parecido. Volta a fazê-lo, em mais de uma passagem e nas duas hipógrafes, uma delas, do próprio autor. Em 1990, quando compilou sua obra, deu ao volume o título Obra quase incompleta. Atualmente, esse volume não chega nem a metade de tudo que já publicou. Na foto abaixo, alguns (não tenho todos) desses vários títulos, à esquerda as publicações até 1990.



Como nos últimos livros, as intempéries do corpo e da história conjugam-se:

sexo, nó, nós, natalidade incluída,
passa o nó para outro, o nó do tempo sai
daqui para entrar ali,
ou natalidade excluída, parece
que o tempo pára, minutos
que se lhe ganharam, mas é só
aí até a nona vez, fora nada, e
depois o tempo desforra-se,
ata, desata, torna a atar,
é todo o nexo que há, óbvio,
uma hérnia do corpo todo, inchaço [NÓS, QUE NEXO]

A passagem do tempo, em uma das passagens mais impressionantes do livro, é comparada à urina entre as pernas, que seca (em recriação impressionante do "riverrun" de Joyce). O poema sobre prólogos chama-se nada menos do que "PROLAPSO" e trata dos prólogos:

a história da torrada que cai
sempre do lado da manteiga
eu uma vez que ainda
tenho conhecimentos para isso
ponho manteiga dos dois lados
pão no meio manteiga daqui manteiga dali
assim sempre dá certo
mas não me digam que o texto o corpo do texto
tem de levar
dois prólogos um de cada lado
e depois até podem trocar
ou até que os prólogos são um bem tão valioso
que untam e dão gosto como a manteiga
e o corpo do texto serve só
para eles terem razão de existir

Nesse ponto, Pimenta volta a fazer suas zombarias com a dialética, como a história do jovem que engole o centro de gravidade de uma garrafa e fica com dois centros, que recolhi em A encomenda do silêncio. Neste livro, temos um cacto com duas cabeças ("PÊPÊPÊ"), e a dialética é explicada, como em outras passagens, com a fisiologia: "a natureza dual do homem/ comer e cagar penso eu".
Outro tema recorrente, o passado islâmico de Portugal, revisitado pelo autor de Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta:

acho que isto está sempre
a prometer o começo,
mas verdadeiramente
ainda não começou.
porém dizem que agora
ali para os altos da Ajuda
para junto da Al Medina
há de novo um Al Berg [HARPÍLOGO]

O livro mostra a imaginação de Pimenta em pleno vigor, com versos ora subversivos: "e a terra, que é redonda" ("QUE É ISTO?"), ora pungentes: 

vale também para o Minotauro,
que de humano teve a vida, [SETE PANFLATOS E UM PROVÉRBIO COLOMBIANO]

ou eu estou morto
ou muito ferido...
vamos tirar as dúvidas:
revisor! ah, perdão, Revisor,
Senhor Revisor!

nada.

morreram todos, o revisor também.
e eu? não sei, a certidão é que dirá. ["QUE É ISTO?"]

Termino com esta citação do "RETRATO", que é algo como um "What then?", de Yeats, porém melhor. O papel que o fantasma de Platão (que não é um filósofo muito apreciado por Pimenta...) desempenha para o poeta irlandês é aqui assumido por ninguém menos do que Parmênides:

ou seja, o tempo 
por dentro deixa tudo como está;
ou é por fora?
não era isto, por dentro, ou por fora?
mas é isto, é, é isto:
já Parménides dizia aquela boca:
ora bem, vou falar! e tu escuta
e guarda bem as minhas palavras;
pouco dá onde começo,
porque lá vou voltar sempre.

domingo, 16 de dezembro de 2018

O roteiro da humanidade segundo Alberto Pimenta: Pensar depois No caminho


Quando um escritor da dimensão de Alberto Pimenta lança livro novo, sobram motivos de júbilo não apenas para o meio literário português, ou para o lusófono, mas para todos os falantes da língua: pois ele, o autor, a amplia, a renova, quando renova a si mesmo. E é o que continua a fazer, depois de ter completado oitenta anos de vida, ao lançar o volume Pensar depois No caminho (Lisboa: Edições do Saguão, 2018).
Neste ano, foi lançado o genial filme de Edgar Pêra, "O Homem-Pykante - Diálogos com Alberto Pimenta" (em Portugal, em maio; no Brasil, foi exibido em outubro), que trata do performer, artista plástico, professor, escritor, todas essas atividades de Pimenta. Este livro não entrou no filme, mas ouso dizer que ainda ampliaria o retrato cinematográfico do autor, se tivesse havido tempo para tratar desta nova publicação.
Hugo Pinto Santos, para O Público, escreveu a resenha "A épica do presente contínuo", destacando os traços surpreendentes das configurações que o épico encontra nesse livro: "nem seria improvável encontrar no poema de Alberto Pimenta um plano dos deuses, um plano da História, da viagem, e do poeta." O crítico afirma, com razão, que "todo o trabalho de Pimenta é risco e imoderação. A sua actuação é de uma permanente imponderabilidade. O poema, este poema, é uma imparável máquina produtora (e revolucionária) de sentidos."
Hugo Pinto Santos destaca que ele fez algo parecido com Autocataclismos, livro de 2014, em que duplas de tercetos, postas lado a lado na mesma página, podiam ser lida separadamente ou em conjunto, uma após a outra ou juntando os versos da mesma linha dos tercetos diferentes (como neste).
A capa, de Rui Miguel Ribeiro a partir de uma ideia do próprio poeta, anuncia a curiosa estrutura do livro: no começo, temos apenas Pensar depois; na página 63, irrompe No caminho que, impresso com uma fonte diferente, passa a ocupar as páginas ímpares. Os livros podem ser lidos separadamente ou como uma unidade. Pimenta experimenta a forma do livro, que, ademais, não termina quando seria previsível: vejam a página do colofão, ele continua. Talvez não tenha terminado ainda, assim como o próprio caminho.
Pensar depois começa com uma cosmogonia satírica, que parte dos deuses greco-romanos e do deus e do diabo cristãos. O tempo é algo mascado por deus, um chiclete

com que o velho senhor
por falta de melhor
ensaliva as suas velhas gengivas
estica a sua infinita língua
ao longo do espaço sem fim
depois encolhe outra vez
é o fio a encolher
e quando adormece e o chiclé cai
é uma estrela cadente
ou se arrota é um vulcão
serve só para o acordar
o diabo coça a orelha
é de facto uma pastilha

o tempo
é uma grande pastilha

a esta imagem do tempo universal
feita do chiclé do velho
o diabo e os homens
criaram a economia
as reservas esticam e encolhem
depois caem
são um longo arroto [p. 53]

Chegam as transações mercantis, a moeda, depois o capitalismo e o uso dos combustíveis fósseis. Nesse momento, No caminho surge: "rumo a este mundo n ovo", com "o verbo f eito verba" e uma assembleia geral de acionistas, recheado de textos estatutários de sociedades anônimas. Ele é mais abertamente experimental do que o outro livro, em razão dos procedimentos de colagem e da espacialização dos versos e das palavras.
Os dois livros, separados ou juntos formando um terceiro, marcam-se, evidentemente, pelo anticapitalismo. Neste volume, o capital explodirá, mas não contaremos como.
A devastação ambiental e a divisão de classes voltam a ser objeto da poesia de Pimenta; cito este trecho de Pensar depois:

ora
composto  mundo de agora
em essência e substância
de pessoas comuns
mais o lixo que lhes pertence
que ainda não é comum
mas vai ser
os que tossem
quando mexem nele
consideram-no tóxico
mas saber isto ao certo
vai no fim depender
de serena composta
interdisciplinar reflexão governamental
a realizar na primeira sessão do ano
porque é este
o mundo que está
e em que todos estão
o lixo comum mais
as suas pessoas [p. 110]

Aqui temos uma crítica ao "O AN  T    R AP          O C        E NO" (p. 196), que, após a explosão que acontece perto do fim do volume, vai transformando-se em trapos, "ant      a trapo  sem   o". Este é o guião ou roteiro da humanidade que Pimenta ousa apresentar neste volume.

  Tróia      já   passou
   ficou       o   rasto   cresc   eu
  aqui ainda    é     o resto
   acabou-se
a história é histo
     a festa        acabou
     ficou     a louça   para  lavar

venceram os heróis
   não    eram    ainda
                    accionistas
          mas  já  se  adivinhava
que  viriam  a  ser [p. 79]

Se lemos isoladamente No caminho, o livro das páginas ímpares, esta passagem da página 81 tem como sujeito os acionistas, mencionados na página 79:

-----------simplesmente
enquanto ----eles
---fizeram -o -deles- para
--ganhar -------para si ---e para nós
---noite e dia
para dia
nós
---fizemos -para -nós
-----------e --os nossos
os- nossos -filhos
---e netos  ---muitos são --
--------------grandes-- influencers
com-- incontáveis--- milhares
---de followers

No entanto, se lemos os dois livros como se fossem um só, esta passagem da página 81 tem como sujeito deus e diabo, referidos ao fim da 80: "como deus gosta/ e o diabo também".
Nesse ponto, como em outros do volume, Pimenta parece sugerir que esses termos, não propriamente da economia ou campo da administração, e sim para chegarmos à degradação teórica que rege o imaginário de hoje, do marketing digital (e Pimenta já havia tratado das consequências funestas dessa degradação do imaginário no al-Face book, livro de 2012), são (parodio Carl Schmitt aqui) conceitos teológicos secularizados. Ou talvez sugira que a fé típica do capitalismo, para empregar um trocadilho de Heine, seja o crédito... A cosmogonia satírica de Pensar depois encontra seu lugar como crítica desse imaginário.
A sátira é elevada ao nível formal: havendo dois livros que realizam um terceiro (pensando depois no caminho da leitura...), Pimenta adotou a santíssima trindade como estrutura...  A dimensão escatológica do livro, adequada à dimensão do fim do mundo própria do capitalismo e do antropoceno, encontra a forma propícia.
Por sinal, pode-se entender que os sujeitos possíveis da página 81 são iguais, e que deus e o diabo são os acionistas majoritários de uma grande empresa de guerra e destruição, e que é "mais difícil resolver/ sem ser por morte esfaimada/ a sorte dos estropiados de guerra" (p. 148).
Neste longo roteiro que Pimenta traça da humanidade, passam o nazismo e seus fãs atuais, ainda com seus fãs em Portugal (nem preciso lembrar do Brasil, onde as eleições os deixaram animados), tentando sequestrar a cultura para a glorificação do extermínio:

mas houve quem
por esse tempo escrevesse
um braço no papel e o outro erguido
que sem as Fugas de Bach
a Marcha Hohenfriedeberg
a gloriosa Marcha dos batalhões nazis
perdia o seu sentido
assim como o Fausto
se tornava mero jogo no vazio
sem o som das
botas prussianas a marchar

não experimentei
tenho ali o texto
falta-me o disco
com a marcha da Prússia
e aqui fica mais este conselho às
lusas habilidosas
bibliosas indústrias
talvez a marcha
devesse acompanhar
o heróico uivo
do Adolfkampf
que tantos fãs e afãs congrega
neste país onde ainda cantam galos
e cresce a uva colhão deles um só
como parece que era o caso [p. 160]

Perto do final de um dos grandes livros de teoria literária da segunda metade do século XX, O silêncio dos poetas, publicado pela primeira vez em italiano pela Feltrinelli há 40 anos (uma efeméride), Pimenta fez algo que somente um poeta ousaria fazer: um poema antes do epílogo, "Terceiro excurso" (na edição de 2003, o "Epílogo a modo de epílogo" seria substituído por outro poema, e assim o livro passou a acabar com dois poemas), que representa um caminho para o silêncio. Ele começa com "Já reparaste que tens o mundo inteiro/ dentro da tua cabeça".
Esses dois versos retornam, transformados, nesta obra de 2018 perto do fim do volume: "já reparaste como tiveste o mundo inteiro" como nota final de Pensar depois, e "dentro da tua cabeça", que exerce a mesma função em No caminho.
Ao roteiro da humanidade que Pimenta audaciosamente traça neste volume, o poeta dá esse final melancólico, já anunciado no decorrer do(s) poema(s), especialmente depois de referir-se à descoberta da radioatividade e à Madame Curie. Pimenta confisca a ópera de Manuel de Falla para seus fins:

logo passado um ano
Manuel de Falla
compôs para tanto avanço
A Vida Breve
tão pouco dia para tanto ocaso
tanto sol e tanta sombra
durante todo
o rápido solfejo da vida
sustenida progressão
até ao bemol final
tanta satisfação da riqueza
até à penúria final [p. 118]

sábado, 31 de dezembro de 2016

Nota para 2017: Sá-Carneiro, "em mira o grande salto"

2016, para mim, ficou marcado, entre outros episódios, pelo centenário da morte do escritor português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916). "Vencer às vezes é o mesmo que tombar", escreveu, e escolheu a dispersão de si mesmo em Paris, num quarto de hotel, dia 26 de abril, aos 25 anos.
No epistolário que manteve com Pessoa (cujas cartas infelizmente se perderam), gostaria de lembrar
da carta de 24 de agosto de 1915. Nela, Sá-Carneiro comparou-se ao amigo, afirmando-o superior, e se definiu como artista:
É assim, meu querido Fernando Pessoa, que se estivéssemos em 1830 e eu fosse Honoré de Balzac lhe dedicaria uma livro da minha COMÉDIA HUMANA onde você surgiria como o Homem-Nação [...] E é meditando em páginas como as que hoje recebi procurando rasgar véus ainda para além delas  que eu verifico a nossa grandeza, mas, perante você, a minha inferioridade. Sim, meu querido amigo  é você a Nação, a Civilização  e eu serei a grande Sala Real, atapetada e multicor [...] Amigo, confia-me, na crise em que ora se debate de se haver enganado: pois para si criar beleza não é tudo, é muito pouco  que "beleza" a ferro e fogo eu juro que você criou. A meus olhos pois o seu medo pode unicamente ser o de haver "criado beleza errada" (Estou certo que não, mesmo assim  é mera hipótese a minha suposição: um dia breve você encontrará a linha que ajustará tudo quanto volteia antagônico no seu espírito e tirará a prova rela de sua "razão"). Mas o meu caso é bem mais terrível a certas horas: Para mim basta-me a beleza  e mesmo errada, fundamentalmente errada. Mas beleza: beleza retumbante de destaque e brilho, infinita de espelhos, convulsa de mil cores  muito verniz e muito ouro: teatro de mágicas e apoteoses com rodas de fogo e corpos nus.
A impressão que apenas Sá-Carneiro tinha naquela época, e que para quase todos seria motivo de escárnio, confirmou-se décadas depois. Nos 50 anos da morte de Pessoa, o amigo já tinha sido sido considerado um dos nomes maiores da "nação", como Camões e Vasco da Gama.
O mesmo nunca ocorreu com Sá-Carneiro, embora reconhecido postumamente na condição de "um dos pais fundadores do século" (Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, Século de ouro: antologia crítica da poesia portuguesa do século XX) e um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos. Ele, de fato, não tinha o objetivo de escrever um livro que pudesse ter como título "Portugal", muito menos uma obra cuja Mensagem, em certo sentido, fosse a nação. Jamais o criticaria por isso...
Creio ser muito necessário desconfiar da civilização, da nação e da beleza, e que o artista pode tratar todas elas à base da implosão. Dito isso, cito parte do "Escala", de Sá-Carneiro, em que ele trata daquela beleza que procurava:
Eh-lá! mistura os sons com os perfumes,
disparata de cor, guincha de luz!
Amontoa no palco os corpos nus,
Tudo alvoroça em malabares de lumes!
Recama-te de Anil e destempero,
Tem coragem  em mira o grande salto!
Ascende! Tomba! Que te importa? Falto
Eu, acaso?... Ânimo! Lá te espero.
Que nada mais te importe. Ah! segue em frente
Ó meu Rei-lua o teu destino dúbio:
E sê o timbre, sê o oiro, o eflúvio,
O arco, a zona – o Sinal de Oriente!
A escala dos corpos nus, das cores, perfumes, do palco  e do (grande) salto com outros. Ânimo. Lá, em 2017, seremos algo disto, ouro, eflúvio, arco... Espero.

sábado, 21 de maio de 2016

Alberto Pimenta a toda voz




Quais poetas conseguiram se renovar depois dos setenta anos? Ou chegar a um novo clímax? E ainda a ponto de completarem oitenta? No Brasil, nenhum dos vivos pode reivindicar algo parecido. No entanto, é o que Alberto Pimenta (Porto, 1937) tem feito, sem holofotes, apenas com a dignidade de quem sobreviveu ao exílio, ao boicote, à ignorância, a estes tempos.
A intensidade participante de De nada (Lisboa: Boca, 2012), o experimentalismo de Autocataclismos (Lisboa: Pianola, 2014) revelavam que o poeta,d e fato, continua sem se acomodar e seguia incomodando. No entanto, eles não preparavam para de novo falo, a meia voz/ nove fabulo, o mea vox (Lisboa: Pianola, 2016), mais um ponto alto desta obra que chegou a dezenas de títulos.

O tom da meia voz, raro em Pimenta, predomina neste livro; Vários poemas adotam a forma de um diálogo, com travessão, mas são sempre solilóquios: ele conversa consigo, geralmente em voz baixa. Lemos em "Gong":
Passo
tão silenciosamente quanto posso.
Nem sempre
foi assim,
mas agora,
que ainda passo,
passo silenciosamente, tanto quanto posso.
Esse tom decorre de um desconforto do corpo: "Acorde ou não acorde,/ é o mesmo:/ no meio da noite/ viro-me na cama,/ decerto à procura de outro sonho,/ vindo do outro lado." ("O que é? O que é?). Mais do que isso, trata-se de um tempo do corpo e também do mundo. Ambos estão enredados neste livro e compõem a mesma paisagem desolada, como no poema de título irônico "Beau Monde":
Vejo as flores,
não sei o nome,
não figura nas pétalas,
vejo dentro da minha cabeça
onde passeia o aroma nocturno
de Verão,
mas já não o respiro.

O que neste momento respiro
pertence à temporada petrolífera.
Até os gatos se foram embora.

Tanto abandono
à minha volta.

O livro começa, apropriadamente, com um "Antelogium", dirigido a quem o livro é dedicado, Teresa Negrão, e a todo leitor, na verdade:

terça-feira, 12 de abril de 2016

Transfobia e Literatura: Gisberta Salce e Alberto Pimenta



No dia 14 de abril, na Casa do Povo, em São Paulo (Rua Três Rios, 252), às 20h, ocorrerá uma mesa-redonda com o tema "Transfobia e Literatura", organizada por mim e Fabio Weintraub. A editora Chão da Feira lançou no fim de 2015 um volume que reúne dois livros recentes de Alberto Pimenta, "Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta", com poemas sobre a invasão do Iraque pelos Estados Unidos da América, e "Indulgência Plenária", poema longo sobre o assassinato da transexual brasileira Gisberta Salce na cidade do Porto.
A ativista transfeminista Daniela Andrade e o poeta e professor de literatura portuguesa Leonardo Gandolfi estarão lá, e eles certamente tornarão o evento muito interessante.
Neste ano, o assassinato completou uma década; tratou-se de um crime (e de um julgamento tão bárbaro quanto o crime) que chocou a sociedade portuguesa, e suscitou reações contrárias à transfobia, inclusive artísticas (além do livro de Pimenta, posso mencionar, de Armando Silva Carvalho, o Auto do Branco de Neve e os Sete Machões, que Gandolfi me enviou, e a peça Gisberta, de Eduardo Gaspar, peça que critiquei em outra nota).
Para o extinto K Jornal de Literatura, em outubro de 2007, escrevi uma breve resenha sobre Indulgência Plenária. Talvez seja útil para quem não conhece o livro.





“Extravagante e viajado estrangeiro daqui e de todo lugar”: Indulgência Plenária de Alberto Pimenta


Pádua Fernandes

Na cidade do Porto, em fevereiro de 2006, após três dias de tortura e violência sexual, um grupo de treze adolescentes (muitos deles sob a guarda de uma instituição católica, Oficinas de São José) ponderou se o fogo não seria a melhor maneira de se livrar do corpo. Contudo, decidiu por outro elemento: a vítima foi lançada em um poço de mais de 10 metros de profundidade, onde morreu afogada. O Poder Judiciário considerou o caso como uma simples brincadeira, não como homicídio. Segundo a tese aceita pelo Ministério Público português, a morte só ocorreu por culpa do poço, eis que ela ainda vivia ao ser lá atirada.
A vítima, Gisberta Salce Júnior, era brasileira, transexual, imigrante em situação ilegal, soropositiva para HIV e sem-teto. Ou seja, segundo a tradição fascista portuguesa, uma não-pessoa. Sobre o bárbaro caso, Alberto Pimenta escreveu um importante poema longo: Indulgência Plenária (Lisboa: &etc, 2007).[1] A capa da obra sugere um rasgão sob o quadro (parte de um tríptico de Emil Nolde), que mostra uma mulher de seios nus diante de três homens aparentemente embriagados.
Após todo um livro sobre um crime internacional (Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta, resenhado em K 3), Pimenta voltou seus olhos para esse delito português (revelador do tratamento que a União Européia dedica aos “extracomunitários”) e escreveu uma elegia em cinco partes.[2] Como anterior, temos aqui um texto de intervenção. Bem escreveu Manuel de Freitas em resenha, "Não fosse um livro como este, com o seu raro poder de corrosão e de denúncia, e Gisberta Salce esperaria a sua segunda e definitiva morte – o esquecimento – tão indefesa como esteve perante o horror da primeira."[3]
Na primeira parte do poema, lemos o encontro do poeta com Gisberta em um mictório, mediado por um animal psicompopo (intermediário entre os vivos e os mortos), a mosca. A cirurgia de mudança de sexo é referida. A invocação anímica se dá em um ambiente não edificante – não se trata da emulação do modelo da elegia clássica, ao contrário de Antinous de Fernando Pessoa.
A segunda parte aborda a prostituição e apresenta o nome de Gisberta. A terceira faz-nos conhecer o sobrenome – que levará ao belo final – e menciona os assassinos, sem realmente os caracterizar: o autor não tenta descrever o crime e o julgamento. O poema não é dramático, e sim reflexivo, com meditações sobre o corpo e a finitude. Nisso, ele tem muito em comum com Imitação de Ovídio, o penúltimo livro de Pimenta (também resenhado em K 3).
A quarta parte alude à doença e à situação ilegal em Portugal. Na última, temos a retomada dos motivos anteriores – a mosca, a doença, a ilegalidade, o assassinato, num movimento cada vez mais intertextual: a voz de Pimenta busca dar lugar à de Gisberta – mas não a pode mais encontrar: “tira-me daqui não sei se foste tu que disseste/ não mexeste os lábios// nem sei se poderias continuar/ as tuas trocas/ os teus desejos/ entre os habitantes dos mundos invisíveis” (p. 54). Pimenta vai-se substituindo por outras vozes, o que inclui excertos de ópera (na página 49, o Judiciário é comparado aos cortesãos, segundo a furiosa ária de Rigoletto na ópera homônima de Verdi) e culmina no trecho final, que é a reprodução de um trecho do Otelo de Shakespeare: a Canção do Salgueiro (Salce, em italiano), que antecede o assassinato de Desdêmona. A quarta parte já terminava com o seu apelo desesperado para que Otelo somente a matasse no dia seguinte. Avançando no livro, e recuando na peça, optou-se não pelo grito, mas pela canção que a personagem entoa para silenciar o pressentimento da morte: “If I court moe women, you’ll couch with moe men.” E assim é, no silêncio de Pimenta, reencenada a morte de Gisberta.
Indulgência plenária realiza uma espécie de monumentalização da figura de Gisberta Salce, que se torna um “monumento aos tempos presentes” (p. 17), caído, portanto, e comparado a uma estátua de “braço decepado” em Toulouse, “de que nenhum funcionário sabe ou pode/ dizer nada” (p. 18). Gisberta se torna uma sacerdotisa da lua (a ária Casta diva, da ópera Norma, de Bellini, é citada na página 53), de quem se diz: “rodava o universo/ preso entre a Alavanca das tuas pernas” (p. 13).
Como de se esperar num livro de Pimenta, o poema é contrário ao Cristianismo (“Mas por que não tinhas tu um cão da raça trifauce/ que trespassasse as outras trindades”, p. 15), à hipocrisia (sobre Porto lemos: “uma Terra de melómanos/ com casas de putas e de música/ não perdoa”, p. 42) e ao fascismo (“mas não conhecias as muralhas/ que te encarceravam/ nem os graffiti suásticos/ que as cobriam”, p. 32).
No percurso do poema, do encontro de Pimenta com Gisberta até o silêncio de ambos, encontramos pedras-de-toque, como esta revisão de Platão: “Não tinhas uma direcção fixa/ porque isso são olhos dentro duma Cela/ Sempre a espreitar pelo buraco/ à procura da luz oficial que é autorizada a entrar” (p. 24). Dessa luz oficial foge um estrangeiro como Gisberta, estrangeira lá, mas também no Brasil – o que remete ao verso de Shakespeare citado no título. O preconceito racial, que seguiu Otelo (ele também é vítima na peça), no caso da brasileira foi substituído pelo sexual, que a tornou estrangeira em mais de um sentido e a levou à clandestinidade.
Essa morte, de caráter social, preparou o caminho da morte física: “Nesse inóspito lugar/ com essa entretanto nova Rica e desleal cidade/ não há relação possível” (p. 48).


[1] Note-se a ironia do título: indulgência plenária é o nome de um perdão a penas temporais, uma vez que os pecados já foram remitidos, concedido pela Igreja Católica.
[2] A aproximação entre os dois livros foi feita pelo próprio poeta, que, em 26 de maio de 2007, no Teatro Acadêmico Gil Vicente, leu ambos em um espetáculo a que deu o nome “Pequenos Estragos”. A leitura foi precedida de uma fala sobre “Poesia e violência”, por ele assim anunciada: “Alberto Pimenta é um daqueles poetas que levam muito a sério e agradecem a tolerância que Aristóteles lhes concede através da permissão de desvios da norma que ele normativamente fixa na Retórica e na Poética. Assim, considera-se um ‘tolerado’, no mesmíssimo sentido do termo administrativo com que eram designadas as prostitutas em Portugal até cerca de meados do século XX. Continuando o raciocínio, e da mesma maneira que não há mestres ou políticos iguais, separa os poetas em duas categorias: os tolerantes e os tolerados.
Na 1a Parte do serão, A.P. vai tratar o tema «Poesia e Violência», a partir da sua perspectiva de tolerado, portanto sem a mais mínima espécie de tolerância.” (http://dupond.ci.uc.pt/tagv/evento.asp?evtid=993)
[3] Casta morte. O Público, Lisboa, 16 de junho de 2007.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O maior poeta da língua volta ao Brasil: livros contra a invasão do Iraque e o assassinato de transexuais


Uma grande notícia editorial, depois de tantos infortúnios que o ano trouxe também para este campo. Aquele que é, para mim e outros, o maior poeta vivo que escreve em nossa língua, o português Alberto Pimenta, tem no Brasil mais um volume de poesia publicado. A Chão da Feira reuniu dois de seus livros: Marthiya de Abdel Hamid segundo Alberto Pimenta e Indulgência plenária, ambos publicados originalmente pela & etc, editora de Lisboa.
Pimenta possuía apenas um livro de poesia no Brasil, a antologia A encomenda do silêncio, que organizei em 2004. Os livros agora reunidos, que não têm paralelo na poesia contemporânea em nossa língua, são posteriores à antologia.
Tive a honra de escrever um prefácio para esta edição. Transcrevo breves trechos, que devem servir para apresentá-lo:
Alberto Pimenta nunca se acomodou. Poeta, performer e linguista nascido no Porto em 1937, seu primeiro livro, entre as dezenas que escreveu, foi O labirintodonte, de 1970, publicado enquanto ainda estava no exílio na Alemanha. Em 1960, assumiu cargo de Leitor de português, mantido pelo governo de Portugal na Universidade de Heidelberg. Por recusar-se a apoiar a criminosa guerra colonialista que a ditadura salazarista movia em África, foi demitido em 1963 – a Universidade alemã, porém, o contratou.
Ele já havia requerido cidadania alemã quando ocorreu a Revolução dos Cravos em 1974. Quando finalmente pôde voltar a Portugal, em 1977, lançou um dos grandes livros de poesia do século XX, Ascensão de dez gostos à boca (voltado contra, entre outros, os desgostos da guerra), realizou performances, programas de televisão e diversas outras atividades.
Eduardo Lourenço já chamou Pimenta de herdeiro de uma tradição contestatória; Rosa Maria Martelo vê que em sua obra a “sabotagem dos discursos dominantes é uma estratégia fundamental, já não tanto em função de um hermetismo que torne a poesia resistente em si mesma, mas pelo desvio, pela derivação crítica”. De fato, o caráter político de sua obra é bastante pronunciado, e os dois livros aqui publicados bem o exemplificam.
Em Pimenta temos uma poesia cuja matéria é a insubmissão em uma forma igualmente insubmissa. Podemos lembrar, rapidamente, da guerra colonialista (que quase não deixou marcas na poesia portuguesa) atacada desde O labirintodonte; as críticas à União Europeia (“IV REICH/ também conhecido cabalisticamente por/ EUROPA”), o combate ao imperialismo (como no premonitório poema que começa “sonhei/ que um fogo vindo do céu/ devastava a América.”), a oposição à pena de morte etc.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Antologia mural de viagem: Portugal, 2014

Passei duas semanas em Portugal em julho e fiquei quase todo o tempo em Lisboa. Fotografei algo do que avistei e escrevi algumas coisas.

Lá, escutei e vi o discurso da crise, que muitos atribuem àquilo que Alberto Pimenta, há mais de 10 anos, chamou de "IV Reich", e é a União Europeia.
"Já vi estas ruas cheias Agora são só memórias vazias" foi uma das inscrições que vi. Vi ruas cheias, porém de estrangeiros como eu, ou bem mais do que eu, pois a maior parte não era lusófona.

Nas fotos ao lado, creio que se trata de frases escritas por portugueses, devido à ortografia errada ("depotation", "peublo"), ou, ao menos, não falantes dessas línguas. O fato de elas estarem em paredes de Lisboa me perturbou: a revolta teria que falar outra língua? Em Portugal, ela teria que ser importada e, talvez, mal assimilada? Não sei.

Sei que a consciência da crise estava presente: no metrô e, também, nos trens.
Enquanto lá estive, tribunais foram extintos, o que causara protestos dos advogados, que teriam que se deslocar mais para trabalhar.












Vi algumas inscrições de "Revolta-te", alguns rastros anarquistas.























Esta pintura pelo direito à cidade abria portas na parede.


Enquanto estive lá, ocorreu uma passeata dos professores, de que não consegui participar. Vi, porém, suas marcas pelo meio urbano, e fixas como a que fotografei, "PROFESSORES DE LUTO E EM LUTA Pela profissão, Em defesa da Escola Pública".
Lembremos que o inefável Passos Coelho convidou em 2011 os professores portugueses a deixar o país; um momento vergonhoso em que o governo desejava, com efeito, apagar as luzes da nação.
É necessário que essas luzes cresçam com(o) o fogo? Talvez ainda falte que a cidade arda, como diz Alberto Pimenta no poema 50 do seu último livro, Autocataclismos (Lisboa: Pianola, 2014):

a cidade está a arder--------o aperto é grande
desde há vários dias---------escasseiam os mantimentos
mas o que arde cura---------mas o que aperta segura

Manuel de Freitas, no número 2 da revista Cão Celeste (2013), escreveu "Que a poesia interessa a quase ninguém, é um dado adquirido. Provam-no, de maneira drástica, as tiragens cada vez menores com que grandes e médias editoras apostam (?) nesse gênero escandaloso, para não dizer nefasto."
De fato, hoje, são as editoras menores que continuam a sustentar esse gênero. Mais adiante, no mesmo texto, "As coordenadas líricas" acrescentou este contraponto: "Por ironia, e embora já ninguém se aperceba disso, a poesia (que não vende, não interessa, etc.) continua a ser a mais forte e intensa afirmação da literatura portuguesa. Talvez por lhe faltar aquilo que nunca teve: esse gosto pela prostituição em que tantos ficcionistas e prosadores se comprazem."
Também no ano passado, a propósito do livro De nada de Alberto Pimenta, eu havia escrito, fazendo um comentário a Eduardo Pitta, que havia notado esse problema em boa parte da ficção portuguesa, e a poesia não merecia essa ressalva.
Descobri, depois, um vídeo, de 2009, com programa de tevê com Diogo Vaz Pinto e Luís Quintais reclamando da crise e da falta de leitores para a poesia. Deve ser verdade. No entanto, creio que há outra coisa em questão, talvez mais importante do que essa falta: a poesia, ela mesma, pode ter como ambiente mais adequado a crise, ou pelo menos a de uma certa espécie, nos discursos.
Ou melhor: ela pode ser essa própria crise e, com isso, inventar os seus leitores e recriar o silêncio. Trata-se de uma tarefa para os poetas.
"Paredes brancas povo mudo", outra das inscrições que vi em Lisboa. Que a poesia também seja uma pichação sobre a cidade e os discursos.