A ópera barroca, especialmente durante o século XVII, suscita questões interessantes em termos de gênero. Uma delas eram os intérpretes e seus corpos, em razão dos castrati: meninos que tinham seus testículos cortados antes da muda vocal e, por isso, cresciam (e muito, costumavam ficar maiores do que os homens com testosterona) com a voz aguda. O último deles, Alessandro Moreschi, cantor da Capela Sistina, chegou a fazer gravações no início do século XX.
A mutilação correspondia a um costume cristão, seguindo o preceito bíblico de Paulo de que as mulheres deveriam ficar caladas na igreja. Depois da Revolução Francesa e de outras revoltas, começou a parecer que a castração feria, mesmo para os padrões morais do cristianismo, a dignidade humana. Esses cantores lentamente desapareceram, portanto, e seus papéis foram assumidos por cantoras ou por contratenores. Provavelmente o som daquelas vozes diferia tanto delas quanto destes.
Temos um dos vários exemplos no romano Júlio César personagem principal de Giulio Cesare in Egitto, uma das obras-primas de Händel. Ele pode ser encarnado por uma mulher, em geral um meio-soprano (jamais um soprano, é grave demais). Temos aqui Sarah Connolly cantando a primeira parte da grande ária "Va tacito": https://www.youtube.com/watch?v=fieBT98DCLc.
Um grande contratenor, como Lawrence Zazzo, pode encarnar o mesmo personagem: https://www.youtube.com/watch?v=m1VQGpevAbM.
Passou-se o tempo de transpor a partitura uma oitava abaixo para ouvir um barítono cantando o César, ou um baixo-barítono, como o grande Hans Hotter nesta gravação dos anos 1950.
A ambiguidade dos castrati continua a lançar perplexidades de gênero sobre os palcos e os públicos e a obrigar os diretores a escolhas sobre quem os sucederá nos papéis.
Há papéis escritos originalmente para cantores travestidos: um exemplo clássico é o jovem Cherubino, de As bodas de Fígaro, de Mozart e Lorenzo da Ponte. Ele foi concebido para um soprano; hoje, na maioria das vezes, interpreta-o um meio-soprano (vejam Maria Ewing tentando seduzir a Condessa, interpretada por Kiri te Kanawa).
Para seguir nostalgicamente essa tradição de personagens adolescentes ou jovens masculinos interpretados por cantoras, Richard Strauss e Hoffmansthal conceberam o Octavian, na virada mozartiana que deram com O cavaleiro da rosa.
O grande meio-soprano, hoje aposentada como cantora, mas ativa como diretora cênica, Brigitte Fassbaender, em entrevista à revista Opera, disse que foi assediada várias vezes quando cantava o papel masculino de Octavian. Fãs a perseguiam, possivelmente motivadas pela ambiguidade de gênero.
Vejam-na entregando a rosa de prata à Sophie de Lucia Popp; regência de Carlos Kleiber: https://www.youtube.com/watch?v=vuYNilYrF3Q
Acrescentou que isso costumava ocorrer com as cantoras que interpretavam o personagem. O periódico fez questão de incluir uma nota afirmando que nunca tinha ouvido falar de nada parecido, colocando em dúvida a palavra da artista (pareceu-me machismo), mas é totalmente verossímil.
O movimento MeToo, de denúncias de assédio sexual, cresceu no cinema, porém logo foi para o universo da ópera, abatendo, com razão ou não (os casos continuam a depender de comprovação), maestros como James Levine, do Metropolitan Opera House, e o cantor de ópera Plácido Domingo, cuja carreira nos EUA foi aparentemente encerrada por causa do escândalo.
Resolvi escolher uma ópera cuja história brinca com as encenações de gênero em razão das fontes clássicas que a inspiraram: La Calisto, de Francesco Cavalli e do libretista Giovanni Faustini, que estreou em 1651.
Júpiter mudou de forma diversas vezes para lograr sucesso em suas conquistas amorosas. Transformou-se em animais, em chuva e... até assumiu o gênero feminino.
Calisto era uma das ninfas do cortejo da Deusa Diana. Esta Deusa não simpatizava com homens (com razão, imagino) e matava aqueles que vinham espiá-la.
Júpiter se apaixona por ela, que recusa os amores do Deus e reafirma sua virgindade: https://youtu.be/024G-XYmD6s?t=1290. Mercúrio lhe dá a ideia de tomar a forma de Diana, Deusa filha do próprio Júpiter: https://youtu.be/024G-XYmD6s?t=1465.
Como poderia Júpiter conquistar a bela ninfa? Ele a enganou, assumindo a forma da Deusa. Pensando que estava com Diana, Calisto fez sexo com o Deus...
Em texto que acompanha sua gravação da ópera, René Jacobs tratou das várias dificuldades de montar esta ópera hoje, algumas delas de caráter vocal, o que inclui Júpiter: o cantor, um barítono, deveria cantar em falsete quando transformado em Diana, chegando ao sol agudo, o que é uma tarefa bem difícil. Ele a gravou com Marcello Lippi, capaz de cantar a partitura.
Não se trata, contudo, de Júpiter como mulher trans: para ele, a forma feminina não passou de disfarce, e não se constituiu em identidade de gênero. Nem sempre esta solução é encontrada; nesta produção regida por Christophe Rousset, opta-se por uma cantora (Vivica Genaux) para interpretar tanto a Diana verdadeira quanto a falsa. Esta solução pode ser considerada autêntica, pois o mesmo ocorreu na estreia da ópera no século XVII. Júpiter (Giovanni Battista Parodi), dessa forma, descobre o quanto a boca de Calisto (Elena Tsallagova) era devotada à Deusa: https://youtu.be/024G-XYmD6s?t=1947.
Pobre Calisto! Quando encontra a Deusa real, ela a acha louca e indecente, e expulsa-a da floresta: https://youtu.be/024G-XYmD6s?t=2773. Outra ninfa, Linfea (Guy de Mey, um tenor travestido), vê tudo e comenta que não gostaria de morrer virgem. Mas ela recusa o Satirino (Vasily Khoroshev; outro papel difícil a distriubir, diz Jacobs, e é mais adequado para um meio-soprano), que vem se oferecer: https://youtu.be/024G-XYmD6s?t=3333. Para complicar, o Deus Pã (Lawrence Olsworth) está apaixonado por Diana, assim como Endimione (aqui, o contratenor Filippo Mineccia).
No segundo ato, a Deusa revela ter um fraco por Endimione: https://youtu.be/Gb_9SBBLxVY?t=388. Já sabemos, pelo mito, que esse amor terminará bem. Juno, sempre ciumenta e com razão, aparece já sabendo que Júpiter assumiu nova forma para seduzir jovens mulheres, e se indigna com a possibilidade de que ele resolva levar uma de suas amantes a viver entre as estrelas.
Pois é justamente o que acontecerá com Calisto, com a constelação de Ursa Maior. Juno (Raffaella Milanesi) encontra Calisto, ouve suas queixas de abandono por Diana e compreende tudo: https://youtu.be/Gb_9SBBLxVY?t=1257.
Depois de todo o quiproquó amoroso, no fim, claro, Calisto é elevada ao firmamento, mais ou menos de acordo com As Metamorfoses de Ovídio: https://youtu.be/dWUpn71dna4?t=2037. Nesta montagem de Mariame Clément, a ação dos deuses é contrastada com a ciência e o sacrifício de uma ursa.
Com a simplificação forçada do gênero humano imposta pelo cristianismo, é possível que esses temas, na na ópera do passado, tenham encontrado mais camadas de complexidade nas fontes clássicas.Valerie Traub, nos seus estudos sobre a negociação da representação do desejo de mulheres por outras na cultura do século XVII (é fácil de achar o artigo The Perversion of Lesbian Desire, que li faz um tempo). Traub vê uma transformação importante nessa época, que é a de Cavalli: de uma "insignificância cultural" do erotismo entre mulheres inspirada pela ideologia da castidade a uma "ansiedade cultural" diante do amor entre elas como um excesso perigoso.
O mito de Calisto foi usado nessa época, explica Traub, como "lugar de negociação cultural sobre os significados amor entre pessoas do gênero feminino", e essa negociação revela uma "construção cultural emergente" de desejos e de suas divisões entre homo e heteroeróticos, entre desejos legítimos e ilegítimos.
A ópera de Cavalli, explica a autora, intensifica o erotismo da trama articulando de forma mais explícita os atrativos do erotismo entre mulheres, criando personagens que não estão em Ovídio e que também possuem desejos, e dando a Calisto um papel ativo no processo de sedução. O final, porém, disciplina com o favor divino os desejos da ninfa.
Na ópera barroca dessa época, porém, a disciplina geralmente parece estar por um fio.
30 dias de ópera: um desafio político
Primeiro dia: A ópera de hoje (La Bohème de Puccini)
Dia 2: Uma montagem inesperada assistida (Tannhäuser, de Wagner, segundo Werner Herzog)
Dia 3: Uma estreia assistida (Erwartung, de Schönberg)
Dia 4: A primeira ópera assistida (Aida, de Verdi)
Dia 5: O primeiro disco de ópera (La Traviata, de Verdi, com Callas)
Dia 6: Uma despedida presenciada (Leonie Rysanek na Elektra, de Richard Strauss e Hugo von Hofmannsthal)
Dia 7: Uma vaia dada (restos de Don Giovanni, de Mozart)
Dia 8: Um aplauso dado (Davi e Jônatas, de Charpentier, O Anão, de Zemlinsky)
Dia 9: Uma ária favorita ("Casta diva", da Norma, de Bellini)
Dia 10: Uma abertura favorita (de Tristão e Isolda, de Wagner)
Dia 11: Um balé favorito (de Castor et Pollux, de Rameau)
Dia 12: Um recitativo favorito (de O retorno de Ulisses à pátria, de Monteverdi)
Dia 13: Uma risada favorita (de Platée, de Rameau)
Dia 14: Um coro favorito ("Danças Polovitsianas" de Príncipe Igor, de Borodin)
Dia 15: Um silêncio favorito (Moisés e Arão, de Schönberg)
Dia 16: Ópera e natureza (Lohengrin de Sciarrino)
Dia 17: Ópera e desastre (Idomeneo, de Mozart; Peter Grimes, de Britten)
Dia 18: Ópera e assassinato (Tosca, de Puccini)
Dia 19: Ópera e orgasmo (A coroação de Popeia, de Monteverdi e Busenello)
Dia 20: Ópera e gênero
Dia 21: Ópera e negacionismo
Dia 22: Ópera e coragem
Dia 23: Uma ópera que se tornou poema
Dia 24: Uma ópera que se tornou livro
Dia 25: Uma ópera que se tornou filme
Dia 26: Uma ópera que se tornou música
Dia 27: Uma ópera que se tornou ópera
Dia 28: Uma ópera que se tornou protesto
Dia 29: Uma ópera que se tornou revolução
Dia 30: Uma ópera de amanhã
O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".
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domingo, 2 de fevereiro de 2020
domingo, 31 de dezembro de 2017
Retrospectiva 2017: palavras alheias e a rede comum
Uma das tiras de André Dahmer mostra alguém
preocupado com o povo sair às ruas por causa do desvio de verbas. Seu
interlocutor prova que a preocupação é infundada: pela janela, veem um cara
solitário com o cartaz "entre no meu blog".
A ironia
de se imaginar alguém na rua com esse tipo de apelo ao virtual, bem como sua
solidão, e a contraposição disso com a mobilização política, encontram paralelo
na tira em que um blogueiro confessa: "escrevo sobre coisas que não
entendo, para pessoas incapazes de aprender" (ambas podem ser vistas nesta
dissertação de Rodrigo Otávio dos Santos, às páginas 228 e 218).
Reconheço minhas limitações em aprender; no
entanto, gosto de ler blogues pela informação e pelo estilo: em alguns casos,
eles cumprem o papel deste gênero literário que está a ser gradativamente
expulso do jornalismo, que é a crônica.
Já organizei retrospectivas por frases da época da ditadura, apresentações musicais, graffiti e cartazes, direitos sabotados e perdidos; desta vez, decidi por textos
de outros blogues, entre os que sigo e estão indicados à direita. Não incluí
aqueles que servem de simples divulgação de artigos (como os do Murilo Duarte e
do Marcelo Ribeiro), ou que se compõem de curtas resenhas, por não atenderem
àquele requisito de gênero que mencionei, bem como aqueles em que assino textos
(o Escamandro).
Escolhi apenas um exemplo de cada blogue. A
lista, como sempre, é estritamente pessoal e não pretende dar conta do ano, do
tempo, do mundo, mas simplesmente estar de acordo com a ideia de rede que
sempre me atraiu na internet, isto é, de que de um texto se possa passar para
outro, como uma espécie de biblioteca de Borges. Correntes em aplicativos de
mensagem e o que chamam de "threads" em redes sociais, claro,
não podem, em razão de sua menor exuberância textual, cumprir esse papel,
embora reconheça sua utilidade em uma sociedade estruturalmente iletrada.
Pensei em fazer uma retrospectiva das imagens "Fora Temer" que vi em diversas ocasiões; no entanto, como a foto acima foi uma das mais esperançosas que encontrei, desisti de fazê-lo.
Janeiro:
Para ler sem olhar: de Diego Viana,
"Imagens que não fizeram história (4): a Brasília estourada".
Viana, que já citei aqui algumas vezes, voltou a fazer um close seeing com far
reaching, desta vez a partir de uma foto de René Burri tirada em Brasília,
de uma "família humilde" com sua "roupa de domingo". A luz
estourada da foto suscita diversas reflexões, até chegar, depois de um paralelo
com Portinari ao rombo de orçamentos públicos. Quanto a mim, que sou da geração
das crianças na foto, cujo nome desconhecemos, noto que elas estão mais nítidas
do que os monumentos do poder, e que talvez fosse uma ação estética e política
emancipadora aumentar a nitidez dos corpos contra aqueles espaços.
Fevereiro:
Seminario de Teoría Constitucional y Filosofía Política: de Roberto Gargarella, "La Corte Suprema y los alcances
de las decisiones de la Corte Interamericana". Ao contrário da maioria dos
constitucionalistas brasileiros, Gargarella preocupa-se com o Direito
Internacional e não é isolacionista. Em 14 de fevereiro deste ano, a Suprema
Corte argentina, a respeito do conhecido caso "Fontevecchia e outros contra a República Argentina", decidiu que seus acórdãos não podem ser "revogados" pela Corte
Interamericana de Direitos Humanos. Houve muita polêmica na época, mas, em dezembro, a Suprema
Corte assentiu que a decisão atacada pela Corte Interamericana fosse declarada incompatível com
a Convenção Americana sobre Direitos Humanos. Faço notar que, no caso
brasileiro da ADPF 153, há uma questão
parecida: o Supremo Tribunal Federal decidiu com base no ordenamento da
ditadura, contra a Constituição de 1988, validar a lei de anistia do tempo do
Figueiredo. Meses depois, a Corte Interamericana decidiu o oposto com base na
Convenção Americana. Ainda não foram julgados pelo STF os embargos de
declaração interpostos na ADPF, e que se referem a essa decisão internacional.
Fux, em mais uma prática de violação do regimento do Tribunal, não leva o
recurso a plenário, impedindo que se aprecie a divergência entre as duas
cortes.
Março:
Gaveta do Ivo: de Ivo Barroso,
"Consoante de apoio - a propósito de um poema de Charles Baudelaire".
É um blogue recente, em que o poeta e tradutor publica textos antigos (por
exemplo, a "Antiga palestra sobre Drummond") e novos, como esta
análise de traduções de um dos mais célebres poemas de todos os
tempos, "Spleen LXXVII", que começa com o verso "Je suis comme le
roi d’un pays pluvieux". Analisa as soluções de Guilherme de
Almeida, Jamil Almansur Haddad e Ivan Junqueira, que ele considera os que se
saíram mais felizes no enfrentamento desse poema, preferindo a de Junqueira.
Questões de métrica, rima, cesura, aliterações e figuras de linguagem são
discutidas, o que é um alívio diante do desleixo com a forma hoje em moda em
certos círculos que se bastam com um verso sem novidade e frouxo, desde que o
poema termine com uma coroa de flores ou qualquer outro efeito lacrimejante ou
de autocomiseração. Barroso inclui a própria tradução e a critica, e faz o
mesmo com a de Wladimir Saldanha, que comentou o texto (uma oportunidade que os
blogues proporcionam) e incluiu a dele para comentários.
Abril:
Desigualdades espaciais: de Hugo Nicolau
Barbosa de Gusmão, "Não vai dar tempo… a morte chega antes que a aposentadoria para a
população negra em São Paulo". São Paulo não é a cidade mais
pobre do Brasil, tampouco a mais desigual. No entanto, nela, como a maioria das
pessoas negras morre antes dos 65 anos, elas não chegariam a aposentar-se
segundo a proposta de reforma da previdência que se discutia (o projeto foi
alterado, e a "discussão" continua a ser liberação de verbas e cargos
para os que votarão contra o povo). O trabalho do geógrafo, decifrando os
distritos da cidade, mostra que os brancos vivem mais que os negros em todos, e
que "Quando olhamos os distritos onde a média é superior a 65 anos anos a
situação se torna mais grave, em apenas 10 distritos o tempo média de vida dos
negros é superior a 65 anos". Um jornal nessa cidade depois usou esses
dados. Ao ver a quantidade de dinheiro que Temer vem gastando para promover
essa reforma, não conseguimos deixar de pensar que o neoliberalismo esconde um
projeto de extermínio.
Site personel de
Didier Eribon: de Didier Eribon, "Demain,
je voterai pour Jean-Luc Melenchon". Macron venceu as eleições de 23 de abril na França. Melenchon, o
conhecido político de esquerda, cresceu eleitoralmente. Destaco o texto não em
razão dele, mas por causa da análise política do sociólogo. Eribon explica sua
opção eleitoral, apesar de não concordar com todas as propostas do candidato,
tendo em vista o "deslizamento espetacular da vida política e intelectual
em direção à direita na Franca ao longo dos últimos trinta anos" ("glissement
spectaculaire de la vie politique et intellectuelle vers la droite en France au
cours des trente dernières années"), operada "principalmente no e
em torno do Partido Socialista". Ele dá uma tremenda indireta a certo
filósofo do consenso: "Qu’on ne se laisse pas abuser par les sermons de
tel philosophe allemand qui a oublié depuis fort longtemps l’héritage de la
théorie critique de l’Ecole de Francfort à laquelle on le rattache encore
abusivement." e afirma que, se Macron ganhar, como aconteceu, e
aplicar seu programa, o Front national, de extrema direita, terá 40% de votos no primeiro turno na
próxima eleição.
Mobilização Nacional Indígena: "O maior Acampamento Terra Livre da História!".
Trata-se de matéria sobre o último ATL. O Acampamento ocorre anualmente, e a
presença dos povos indígenas na capital é estratégica. Vi Ailton Krenak, mais
de uma vez, dizer que cada tiro disparado contra os povos indígenas tem sua
origem no Congresso Nacional. Ademais, agravou-se a conjuntura política, já
desfavorável a esses povos no governo de Rousseff; desta vez, "O ATL
também deu uma aula de democracia ao governo Temer. Na terça (25/4), na
primeira marcha da semana, os indígenas foram recebidos com gás lacrimogêneo e
balas de borracha na frente do Congresso. No dia
seguinte, foram impedidos de entrar no Senado para
assistir a uma audiência pública previamente marcada e foram intimidados pela
polícia no caminho de ida e de volta ao acampamento."
Euterpe: de Frederico Toscano, "Rinaldo em Londres". Não sei se o blogue terminou, seu
último texto é de maio. Eu escrevi mais sobre música do que o Euterpe este ano,
porém, claro, nunca cheguei ao nível do que a equipe desse blogue fazia. Para
chegar a uma das óperas mais conhecidas de Händel, Rinaldo, Toscano
parte de Cavalli e faz um percurso pela ópera barroca, o que inclui a figura
do castrato e as razões do sucesso da "opera
seria" e sua estrutura formal fundamentada na profusão de árias,
solos para os cantores brilharem. Como sempre no Euterpe, há diversos exemplos
musicais, e talvez o mais interessante seja a sequência das três encarnações
que a música de "Lascia ch'io pianga" (uma das árias operísticas mais
conhecidas, gravada até por cantoras populares como Barbra Streisand) teve na
obra de Händel. Minha ária preferida dessa obra, no entanto, é "Cara
sposa"; Toscano escolheu o grande contratenor Philippe Jaroussky, proponho
ouvir também a fenomenal Ewa Podles.
Maio:
Transe: de Moysés Pinto Neto, "Vivemos um momento extraordinário". O jurista trata do
que chama de "um grande bloco no poder — o 'condomínio pemedebista' — cuja
gestão era disputada pelos petistas e tucanos" e das configurações da
plutocracia na última década, de 2013 como catalisador da indignação contra
esses "arranjos", com esta observação ótima sobre o antigo governo:
"O compromisso com a manutenção do governo paralisa a radicalidade do
pensamento, tornando a crítica refém do dogmatismo esquerdista, fazendo com que
as perspectivas radicais fossem engolidas pela defesa do indefensável. A
perspectiva de futuro encurta-se drasticamente — e esse encurtamento mostra-se
bem quanto a questão procedimental começa a tomar a frente dos debates
políticos, numa redução do político ao jurídico." Quanto ao governo atual,
é claro que a única perspectiva do futuro em que se interessa é a manutenção do
passado. Moysés, apesar de tudo, mostra-se otimista e julga o momento extraordinário
porque "ao mesmo tempo em desaba o patrimonialismo, se abre uma janela
histórica para formular novos projetos". Como ele é um dos poucos juristas
brasileiros capazes de pensar politicamente, espero que participe bastante dessas
formulações.
Junho:
El niño rizoma: de Julián Axat,
"Tiempo futuro pos-memoria, poesía
y justicia". O poeta, editor e
jurista publicou originalmente este texto no blogue, que trata dos rituais
judiciais da chamada pós-memória e o testemunho de pessoas como ele, filhos de
desaparecidos. A figura do filho detetive da história, em analogia aos
detetives selvagens de Bolaño, traz diversos relatos, que ele analisa,
classifica, nesta referência a Foucault: "Cierta “enciclopedia china de
la memoria” de las víctimas del terrorismo de Estado argentino, que implica -a
su vez- formas inéditas, exóticas y hasta maneras estandarizadas o normalizadas
de decir la catástrofe." Entre outras referências do artigos, está o
interessante filme “Tierra de los Padres” (Fatherland, 2011) de Nicolás
Prividera, todo filmado no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, e composto de
fragmentos da fala de mortos, numa aposta estética radicalmente benjaminiana. Note-se que a Argentina, com Macri, está num momento adverso para a justiça de transição, ou para a justiça tout court.
Julho:
Índio É Nós: "Michel Temer, a AGU e a legitimação do genocídio dos povos indígenas".
Análise da opção de Temer pelo etnocídio e pelo genocídio dos povos indígenas,
oficializando a "tese do “marco temporal”, "por meio de um
Parecer vinculante da Advocacia Geral da União (Parecer n.
001/2017/GAB/CGU/AGU), com a finalidade de paralisar processos de demarcação de
terras indígenas no Brasil, bem como de anular demarcações já realizadas." Mais um exemplo de
como o Brasil se degrada, e um prenúncio de que 2018 será um ano de ainda mais
crimes e golpes, eis que 2017 mostrou que o crime, mesmo desvelado, não só
compensa como pode governar sem maiores sustos, bastando dividir o saque com
mais instituições, veículos de imprensa e assemelhados.
Agosto:
Rio on Watch: de Lucas Smolcic
Larson, "Três razões pelas quais Charlottesville poderia acontecer no Brasil".
O autor busca fazer um paralelo entre a marcha neonazista naquela cidade dos
Estados Unidos, suscitada pela conjuntura política favorável a esse tipo de
violência, organizada contra a retirada dos monumentos aos racistas e
escravistas, com certos temas no Brasil, como o repúdio indígenas aos
monumentos pelos bandeirantes (ele inclui uma foto desta manifestação de 2013
em São Paulo, com o sangue simbólico escorrendo), bem como aos crimes de
ódio contra as religiões afro-brasileiras e a violência policial; o texto não
se aprofunda, infelizmente, nos esforços de normalização do fascismo realizados
pelos meios de comunicação.
Setembro:
Reinventando Santa Maria: de Leonardo
Bernardes, "Podemos: relato de uma experiência e de um juízo". O
autor, filiado do partido, conheceu membros do Podemos na
Espanha e analisa as virtudes e limitações desse projeto político, bem como a "tendência a trazer a política de volta a la calle", o que é importante para o Brasil também, neste momento em que parte significativa da esquerda quer que Temer fique e faça seus horrores, pois ele é um grande trunfo eleitoral para a oposição. Ele deixa de se referir às questões relativas à
unidade da Espanha como Estado, que há pouco emergiram mais fortemente, porém,
com a declaração de independência da Catalunha, que trouxe as pessoas de volta
para a rua. Seria interessante ele retomar a análise a partir disso.
Outubro:
Twilight Beasts: de Jan Freedman, "Walking on thin ice". Embora o blogue em geral se concentre em espécies extintas, o texto
dedica-se aos ursos polares e uma foto de um desses animais, bastante
emagrecido, andando sobre uma camada de gelo igualmente reduzida. Esses animais
têm sofrido desde as últimas glaciações, mas o aquecimento global, provocado
pela ação humana, tornou a situação mais dramática. Os fanáticos de Trump
(que adoram tweets como este),
presentes também no Brasil, onde se somam a outros grupos, mais ou menos
convergentes, como admiradores das linhas de Olavo de Carvalho e
aldorebelistas, negam esses outros efeitos de extermínio do neoliberalismo. A
bibliografia indicada por Freedman pode ajudar aqueles que, desses grupos,
souberem ler.
Novembro:
EJIL: Talk!: de Philip Leach, "The Continuing Utility of
International Human Rights Mechanisms?". Trata-se de outro
texto sobre as questões envolvidas na internacionalização dos direitos humanos.
O internacionalista analisa pesquisas recentes que apontam para a eficácia dos
mecanismos internacionais, trabalhos de Kathryn Sikkink, Gráinne de Búrca,
Jérémie Gilbert, Ann Skelton. Ele mesmo procura pensar a questão, no âmbito
do European Human Rights Advocacy Centre, e reflete sobre
as possibilidades de fortalecimento daqueles mecanismos, sabendo que o
"contexto local" será o elemento mais importante ("the
domestic context will remain the most significant element"). Para o
Brasil, trata-se de questão vital, especialmente levando em conta o caráter
isolacionista do Judiciário nessas questões, e que tem levado grupos
historicamente discriminados por esse Poder a buscar os mecanismos
internacionais, como os povos indígenas.
Dezembro:
Opinio Juris: de Kevin John
Heller, "The Puzzling US Submission to the
Assembly of States Parties". Os Estados Unidos, na
16a. Assembleia dos Estados Partes do Tribunal Penal Internacional, fez uma
curiosa declaração, analisada pelo internacionalista. Se, do ponto de vista do
Direito Internacional, ela é cheia de erros e absurdos, segundo o prisma do
imperialismo, ela faz todo sentido... Como se sabe, o imperialismo é
fundamentalmente isolacionista, e seu uso do Direito Internacional é sempre
limitado e altamente instrumental. No entanto, o jurista aponta uma passagem
progressista da declaração, em que há um reconhecimento formal do dever de
direito internacional de "investigar e processar crimes de guerra,
genocídio e crimes contra a humanidade". É possível que esse
reconhecimento tenha ocorrido com surpresa para boa parte do governo daquele
Estado, como faz ironicamente notar o internacionalista: "I imagine
that position will come as something of a surprise to the parts of the US
government that were not involved in drafting the submission…"
Eterna Cadencia: "Toda la poesía del 2017". Parece estranho incluir um blogue de uma loja, mas este é tão bem feito, e literário, que não pude resistir a terminar esta retrospectiva com a recolha dos textos sobre poesia que essa livraria de Buenos Aires fez. Note-se a variedade, com a presença de autores tão diferentes como Gabriela Mistral, Fernando Pessoa, Leonard Cohen e Catulo, mas nenhum poeta brasileiro, o que talvez indique uma deficiência do mercado editorial argentino em relação à literatura deste país, ou, talvez, uma relevância limitada da poesia aqui produzida. Deixo os estudiosos pesquisarem a questão, que excede minhas forças.
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