O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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domingo, 24 de março de 2013

Desarquivando o Brasil LIII: Blogagem coletiva e Dia Internacional do Direito à Verdade

Hoje, Dia Internacional do Direito à Verdade, ocorreram várias manifestações. Em Buenos Aires, marcha contra a "impunidad de ayer y de hoy" (http://seminariogargarella.blogspot.com.br/2013/03/marcha.html).
O Brasil começou neste ano a oficialmente festejar a data, criada pela ONU em 2010, em homenagem ao arcebispo de El Salvar Óscar Romero, assassinado em 1980. No Rio de Janeiro e em São Paulo, artistas organizaram eventos para a comemoração. Nos dois lugares, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, que é um dos membros da Comissão Nacional da Verdade, apresentou os trabalhos.
O dia também foi aproveitado para o lançamento da VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR. A jornalista Niara de Oliveira escreveu a chamada, esperando que outros blogueiros, como este, juntem-se à campanha: http://pimentacomlimao.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/
Quem não tiver um blogue próprio, poderá enviar um texto, que ele será publicado aqui: http://desarquivandobr.wordpress.com/
Pude apenas comparecer ao evento de São Paulo, que ocorreu na frente do Centro Universitário Maria Antônia, da USP, onde ficava a faculdade de filosofia dessa Universidade, e palco da conhecida batalha, em 1968, entre os seus estudantes, majoritariamente de esquerda, e os da Universidade Mackenzie, do outro lado da rua Maria Antônia. Nesta instituição, a direita dava as cartas; entre seus estudantes incluíam-se membros do Comando de Caça aos Comunistas, responsáveis pela morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães (http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=23).

Maria Rita Kehl abriu os trabalhos e chamou José Miguel Wisnik e Celso Sim, cuja participação havia sido anunciada na coluna de Monica Bergamo (o sítio da CNV não os mencionava).
Wisnik (o músico, ensaísta, professor aposentado e ex-aluno da FFLCH) fez o discurso mais interessante do evento, contando suas memórias da antiga Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. Explicou que ela dialogava com o mundo e preparava para ele, ao contrário de instituições de hoje que só preparam para o mercado. Tinha saudades do nome Maria Antônia, uma "potência feminina", tão diferente da sigla FFLCH, que lembrava FHC...

Ele relembrou nomes da USP que se engajaram na luta armada e morreram: Iara Iavelberg, Helenira Rezende e Suely Yumiko Kanayama. As duas últimas foram ao Araguaia e continuam desaparecidas, pois o Estado brasileiro segue descumprindo a sentença da OEA no caso Gomes Lund (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/12/cumpra-se-ato-pelo-cumprimento-da.html).
 
Wisnik relembrou a despedida de Kanayama, que não chegou a lhe revelar abertamente que iria para a clandestinidade. Mas ele disse ter sentido o que aconteceria. Apesar de ele ter destacado o caso dela, na matéria da Rede Brasil Atual sobre o evento a militante e desaparecida não foi mencionada: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2013/03/dia-internacional-pelo-direito-a-verdade-reune-ativistas-e-artistas-em-sao-paulo
Ele fez ainda uma afirmação muito curiosa: os torturadores seriam um tipo de "desaparecido político", o "desaparecido covarde", pois não quer aparecer... Nessa categoria, incluir-se-iam os empresários que financiaram a repressão política.

Em seguida, ele e Celso Sim declamaram, a capella, composição de Wisnik e Jorge Mautner: "A liberdade é bonita/ Mas não é infinita/ Eu quero que você me acredite/ A liberdade é consciência do limite".

A Companhia do Latão, importante grupo, dirigido por Sérgio de Carvalho, assumiu então a frente do evento. Nesta página na internet, temos a ficha técnica da apresentação: https://www.facebook.com/Companhiadolatao. Ela se estruturou a partir do texto "As cinco dificuldades de dizer a verdade", de Brecht, escrito em 1934 contra os nazistas. Elas eram coragem, inteligência, arte (de manejá-la), discernimento (de escolher nas mãos de quem ela pode ser proveitosa), astúcia.
Tratava-se  de como instrumentalizar a verdade em favor da revolução. Poetas, só os engajados: os lamentosos não eram nem aliados nem inimigos.
Enfim, temos assim, novamente, a expulsão dos poetas de uma república, não agora a de Platão, mas desta outra república comunista, a de Brecht.

Não admira que o Latão tenha escolhido Brecht, muito pelo contrário. Trechos da Ópera dos Vivos e de Augusto Boal foram também cantados, com os mesmos problemas da interessante Ópera (ao lado, Adriana Mendonça, que cantou): um elogio sem nuances da luta armada (esse espetáculo é, teoricamente, uma aplicação cênica do questionável texto de Roberto Schwarz "Cultura e política, 1964-1969") e um didatismo marxista.
Dessa forma, ouvimos canções sobre a forma universal da mercadoria e sobre o conceito de valor de troca (cantada com sensibilidade por Ana Luiza). Foram também problemáticos a falta de humor e o tom panfletário do texto do Brecht, em mais um de seus momentos autoritários de pregação ao mundo e aos poetas.
Enfim, havia muita habilidade e experiência cênicas em conseguir apresentar aquele texto, que, em mãos menos talentosas, serviria apenas a uma leitura enfadonha. A direção musical e o piano de Martin Eikmeier contaram para o sucesso da ocasião.










Musicalmente, porém, o melhor foi a seção de canções latinoamericanas de protesto, com destaque a Violeta Parra. Não sei o nome da cantora, que foi esplêndida. Se alguém puder informar... Agradeço.




Juçara Marçal cantou, acompanhada do violão de Walter Garcia, e também foi muito aplaudida.






Outro momento forte foi a apresentação da rapper Roberta Estrela d'Alva, que eu não conhecia; ela iniciou com as  estatísticas de mortos e torturados na ditadura militar (incluindo uma referência aos processos do Ustra) e nos dias de hoje. Foram exemplos as vítimas da violência policial em São Paulo, no mês de maio de 2006, e a entrega de três jovens pelo Exército ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro.
Nesse momento, no nível das escadarias, havia sido desfraldada a reprodução da imagem de várias mulheres que foram assassinadas pela ditadura militar.



Como na comemoração argentina, que era contra a impunidade de ontem e de hoje, Maria Rita Kehl chamou para falar Débora Maria, do Movimento Mães de Maio, que congrega os familiares das vítimas da violência policial em São Paulo (http://maesdemaio.blogspot.com.br/).




Essa  fala não estava programada, mas foi breve e eficaz, numa espécie de resumo do que ela discursou no lançamento do Periferia grita: Mães de Maio Mães do Cárcere (nesta nota, tratei do evento: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/12/desarquivando-o-brasil-xlv-perseguidos.html). A bandeira das Mães foi exposta: "Justiça e liberdade/ Memória e verdade/ Contra o terrorismo do Estado".

O bloco do Ilú Obá De Min, com muita energia, encerrou o evento, que durou aproximadamente duas horas. Ao lado, vê-se um manifestante que, desde o início, segurava o cartaz contra o senador Renan Calheiros e o deputado-pastor Marco Feliciano. 




O deputado estadual Adriano Diogo (PT/SP), presidente da Comissão da Verdade "Rubens Paiva", assistiu a todo evento, bem como Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política (ele pode ser visto à direita, na penúltima foto). O público não era numeroso, mas nele pude identificar o estudioso de justiça de transição Renan Quinalha, que colabora com a Comissão "Rubens Paiva", participou da campanha para a aprovação da Comissão da USP e integra o IDEJUST.

Vi escritores e amigos presentes: além de Fabio Weintraub, estavam lá Donizete Galvão, Mario Rui Feliciani, Priscila Figueiredo, Renan Nuernberger e Ruy Proença.
O pesquisador da justiça de transição, Renan Quinalha, lá também estava.
Para terminar, relembro a chamada para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, que durará até 3 de abril, com tuitaços nos dias 31 de março e 1º de abril a partir das 21 horas: http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/



segunda-feira, 23 de maio de 2011

A cidade bloqueada: a paralisação da política e Adoniran segundo Salmaso

Como deve ser o canto da cidade bloqueada? Evidentemente, há diversas possibilidades formais para expressar tal bloqueio, e é evidente que São Paulo é um exemplo dessa cidade.
Mesmo que se restrinja o bloqueio à simples questão da circulação, não se poderá deixar de ver as raízes políticas do problema. Veja-se como o governo estadual persiste na ilegalidade no tocante às obras do metrô, metrô que serve de objeto para investigações da justiça suíça, por conta de alegada corrupção da Alstom. Essa questão, no Brasil, chegou ao Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.
O bloqueio da cidade é o bloqueio da política, em um Estado que não tem encontrado ou apostado em alternativas novas, mesmo depois do fracasso monumental do governo em maio 2006, quando o crime organizado paralisou parte do Estado. Essa paralisação foi seguida de várias mortes cometidas por agentes de segurança, ainda sem explicação.
A circulação é multifatorial, como, de resto, são todos os fatos sociais. A política de segurança, obviamente, a influencia, e apenas a aposta de São Paulo no fracasso pode explicar que o governador de então tenha voltado a esse cargo.
A Clínica Internacional de Direitos Humanos da Universidade de Harvard e a ONG Justiça Global, lançaram há pouco o importante São Paulo sob achaque, que investiga como desavenças entre o crime organizado fora do Estado e o crime mais ou menos organizado dentro dos aparelhos estatais de segurança teriam dado origem à paralisação de São Paulo naquele mês. Os pesquisadores apontam que a situação de impunidade e de corrupção hoje são as mesmas, senão piores, das vésperas daquele acontecimento: "Agentes públicos, e toda a sociedade paulista, continuam vulneráveis a novos ataques." [p. 3]
Também por causa dos cinco anos desse acontecimento, publicou-se (ainda não o li) Do luto à luta: Mães de maio, também lançado recentemente, que trata justamente da resposta policial àquela paralisação, com a morte de 493 pessoas. Uma das líderes do movimento das Mães de Maio, Débora Maria, enfatizou, no lançamento, que o Estado não apenas deixou os crimes impunes, mas elogiou a polícia. As mudanças que combateriam essa situação estão oficialmente bloqueadas.
Como se poderia cantar o bloqueio da cidade? Adoniran Barbosa não chegou vivo aos dias de hoje, mas suas canções, sim. Os Demônios da Garoa davam um tom esfuziante para o que ele compôs: Saudosa maloca é um exemplo. Quando Elis Regina a gravou, intepretou genialmente a gravidade da situação: trata-se de uma reivindicação de posse, em que uma família é expulsa de sua maloca e resigna-se em nome de Deus e do Código Civil. Eis o gênio dessa cantora.
Lembro de uma entrevista que ela deu ao Vox Populi, com perguntas do público, que estava fora do estúdio. Uma jovem reclama da intepretação dela, que seria "arrastada". Elis sorri e simplesmente responde que gostava assim. Quem aparece depois? Adoniran, que elogia a forma como ela cantava essa mesma canção: "Você não pode calcular como eu gostei. Eu e todos meus amigos." A cantora comenta: morar naquelas condições já era um desrespeito, ser enxotado em 24 horas é mais ainda. E ela, inteligentemente, acusa como as pessoas confundiam o personagem de Adoniran (engraçado) com a obra musical dele.
Pois bem; "Trem das onze" é outro clássico do Adoniran. Já virou até propaganda inofensiva de brinquedo. Ela tem um fundo edipiano, do filho que não pode ficar com o seu amor pois tem que voltar para a mãe? Depende da interpretação.
Mas há outro bloqueio aí: ele mora no Jaçanã (na canção, "em Jaçanã", pois Adoniran não conhecia nem o lugar nem como a ele as pessoas se referiam) e, se perder a condução, não tem como voltar para casa.
Fabio Weintraub sempre me falou de estudo de José Miguel Wisnik sobre a canção paulista, publicado em Sem receita: ensaios e canções, em que essa canção é analisada como um exemplo - já que Adoniran referiu-se a um lugar que desconhecia, o que seria impensável em Noel Rosa - de "o quanto a experiência da cidade, aqui, impõe-se de saída como construção ficcional de um todo que escapa."
Mas a leitura de Wisnik parece-me excessivamente otimista, por assim dizer: não se trata apenas de a cidade ultrapassar o indivíduo, o que se sabe desde os tempos da pólis. Trata-se de uma cidade que divide, em vez de unir.
Quase três décadas depois da morte de Elis Regina, com o agravamento das condições de moradia nas grande metrópoles, Mônica Salmaso, outra intérprete comprometida com a música brasileira, volta a Adoniran para extrair esse canto do bloqueio.
"Alma lírica brasileira", disco de três mentes musicais, ela, Nelson Ayres e Teco Cardoso, é fechado com este canto: Trem das onze é interpretado de forma lenta, arrastada, e a sonoridade do sax barítono contribui para o quadro noturno, soturno, quase um pequeno réquiem para cidade que deixou de ser (em um verso, a cantora lembra que ela e Teco Cardoso, seu marido, têm um filho único - e precisam voltar...)
Conseguirá se chegar até a casa? Em que condições? A casa precisa ser olhada: a insegurança (outro fator de bloqueio da cidade), mais do que o Édipo, preside esta interpretação.
O disco todo é muito bom, mas esse desfecho é genial e, ademais, inesperado no trabalho de uma cantora que não é associada normalmente à política. Mas ela é uma cidadã, evidentemente, e essa condição significa participar da política.

P.S.: Alguém me disse que reduzi a tese de Wisnik, mas na verdade nem apresentei a ideia dele de que São Paulo só seria abarcável pelo imaginário, daí a diferença entre Adoniran e Noel. Mas repito que o ensaio de Wisnik preocupa-se com o esforço de integrar, e não com os bloqueios - de classe, de circulação etc. - o que gera uma leitura parcial da canção, que inicia justamente dizendo: "Não posso ficar nem mais um minuto com você". Essa impossibilidade é gerada pelas condições concretas da cidade, que não eram o problema de Wisnik - e sim de Adoniran.