O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras e instauram a desordem entre os dois campos.
Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem"; próximas, sempre.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Resenha do Século de Ouro, antologia da poesia portuguesa do século XX

Escrevi esta resenha há mais de sete anos para a antiga revista de poesia Cacto (São Paulo, n. 3, primavera 2003, p. 198-204), que era editada por Eduardo Sterzi e Tarso de Melo. Uma versão menor apareceu anteriormente em um revista de estudantes da graduação em Letras da USP, Metamorfose, editada pelos escritores, nessa época graduandos, Eduardo Lacerda e Andréa Catrópa.
Como as revistas não estão mais disponíveis, e a antologia continua sendo notável, resolvi incluir o textinho aqui.


O ouro do século: Apreciação da antologia da poesia portuguesa do século XX Século de Ouro

Pádua Fernandes

Um bom crítico, todavia, deve julgar os autores não por suas omissões, mas por seus relatos, e se achar qualquer inverdade nestes pode concluir que as omissões são devidas à ignorância; entretanto, se tudo que o autor diz é verídico o crítico deve admitir que o seu silêncio em relação a tais assuntos é deliberado e não decorrente da ignorância.
Políbio (História, Livro VI, parágrafo 11, tradução de Mário da Gama Kury)



Histórica, inafastável, antológica – e neste adjetivo, aparentemente tautológico, poder-se-iam resumir as qualidades de Século de Ouro: Antologia crítica da poesia portuguesa do século XX, organizada por Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra (Braga/Coimbra/Lisboa: Angelus Novus; Cotovia, 2002).
O que torna tão especial esta antologia? Em primeiro lugar, a sua estrutura: a cada poema corresponde um ensaio, explicitando que, por trás de toda antologia, existe (ou deveria existir) pensamento crítico.[1] Em segundo lugar, os antologistas sabem que uma antologia é um livro de história.
Devo, porém, precisar o que digo: na medida em que uma antologia corresponde a uma leitura de um período histórico, ela é um livro de história. Nos casos de antologias de literatura contemporânea, podemos comparar os seus riscos (sempre maiores) aos estudos de história contemporânea.
E a ignorância ou o menosprezo desse componente histórico presente em qualquer antologia explica o constrangimento de certos esforços, como o da Antologia de Poesia Portuguesa Contemporânea: Um panorama, organizada por Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno (Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 1999).
Essa antologia feita no Brasil, embora apresente (mal) 72 poetas, é menos representativa do que Século de Ouro. O critério de contemporaneidade correspondeu a simplesmente escolher autores que tivessem nascido a partir do último ano do século XIX, 1900 - isto é, substituiu-se a história pelo calendário. Tal corte levou a exclusão de poetas como Fernando Pessoa, que, todavia, lançou sua sombra sobre toda poesia portuguesa do século XX - ele só passou a intervir na esfera pública com força após a sua morte. Poetas nascidos no século XX, mas não afinados com o tradicional lirismo português, como Alberto Pimenta,[2] também foram cortados – novamente, creio, por um repúdio à história, eis que ela é uma constante interlocutora do autor de Ode pós-moderna.
Posição oposta, deve-se lembrar, teve a histórica antologia organizada por Cecília Meireles, Poetas Novos de Portugal (Rio de Janeiro: Dois Mundos Editora, 1944). Ela foi o primeiro autor no Brasil a escrever sobre Fernando Pessoa. Viajou a Portugal para conhecer “o caso mais extraordinário das letras portuguesas” (p. 38), mas ele, simplesmente, não apareceu ao encontro marcado. Deixou, porém, um exemplar de Mensagem autografado. Esse grande desencontro da literatura de língua portuguesa por vezes é atribuído a incompatibilidades astrológicas entre os dois autores; mas talvez seja explicado pela solidão imensa que Pessoa havia conquistado nos seus últimos momentos de morte adiada.
Cecília estava plenamente consciente das questões do tempo na poesia e explicou, na antologia, que não escolheu poetas contemporâneos, e sim novos: “Pelos nomes incluídos, ver-se-á que são considerados “novos” ou seus precursores muitos poetas já não contemporâneos.” (p. 18). Dessa forma, Ângelo de Lima e Camilo Pessanha incluíram-se na antologia e contemporâneos “não novos” foram excluídos, coerentemente com um critério que não se resume à consulta do calendário.
Retornando ao Século de Ouro: não se trata – é preciso ressaltar – de um história da poesia portuguesa do século XX, nem de uma coletânea de micro-histórias, como os próprios antologistas deixam claro (p. 45 e 57). No formidável estudo que introduz a antologia, “Desaprender (com) a História”, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra demonstram que, em primeiro lugar, o recorte temporal do século XX exige uma determinada concepção historiográfica: discutem Hobsbawn e o seu “curto século” e acabam por adotar um lapso temporal maior. Em segundo lugar, afirmam que uma antologia normalmente envolve a concepção de “história monumental”, no sentido dado por Nietzsche – e dessa vontade monumentalizante, normalmente implícita em todas as obras deste tipo, é que os antologistas buscaram fugir.
A estratégia de fuga à história monumental para se criar uma antologia verdadeiramente crítica está presente em várias táticas: uma delas é a ausência de uma autoridade interpretativa única: o livro compõe-se de 73 poemas escolhidos por 73 ensaístas (número a que se chegou por acaso, eis que 87 era a quantidade original de escritores) representando 47 poetas. Cada ensaísta escolheu uma lista tríplice de poemas; o trabalho dos antologistas foi o de escolher um poema dessa lista para cada um dos ensaístas. Daí a constelação de diferenças críticas: frankfurtianos, fractais, estudos culturais, marxismo, por vezes em luta direta.
Não seria o caso de comentar os ensaios neste breve texto, embora eu não me furte a destacar o estudo "arqueológico" de Miguel Tamen sobre "Soneto já antigo" de Álvaro de Campos. ("um crítico é alguém que lembra dolorosamente a terceiros que um casaco que viram de passagem numa montra e por que se apaixonaram [...] é afinal feito de um material pouco nobre", p. 156) e o de Pedro Serra sobre as metamorfoses galináceas de "Os ovos d'oiro" de Armando Silva Carvalho ("Um dos mijados pelo cão do tempo é a Poesia, com uma história de resto muito cara aos voos", p. 313).
Além da heterogeneidade crítica, outro fator que faz o livro escapar à tentação totalizante e tradicionalista própria das antologias é a ordem dos poemas: completamente casual, foi escolhida por um programa de computador!
A originalidade de Século de Ouro, pois, decorreu da consciência de que “a prática antológica não é possível fora de um horizonte crítico” (p. 39) e da adoção de uma perspectiva pós-histórica de sincronização de diversas contemporaneidades do século passado.
Não por acaso, a epígrafe da obra veio de Drummond: os ratos roendo o edifício do século. Assim termina a introdução: “Não somos os pósteros do século XX, não somos os executores testamentários do século XX, que, mais uma vez, no caso da poesia portuguesa, não acabou: Século de Ouro é meramente o nome de mais um dos seus recomeços.” (p. 65).
Lamentavelmente, a recepção crítica em Portugal tem muitas vezes ignorado o estudo introdutório – que, por sinal, responde às objeções levantadas por essa mesma crítica – e limitou a dedicar-se a lamentar a ausência deste ou daquele poeta. E, numa demonstração da trans-histórica estupidez da retórica dos políticos, deputados do Partido Socialista eleitos por Coimbra decidiram protestar publicamente contra a exclusão de Miguel Torga e Manuel Alegre (autores ligados aos socialistas)!
Não por outra razão, pois, escolhi Políbio para epígrafe desta resenha sobre uma antologia que tem como referência teórica autores como Derrida e Nietzsche: as ausências da antologia também possuem um sentido, pois compõem um perfil possível para o que a poesia portuguesa do século XX significou.
Mas Século de Ouro cria mesmo um perfil? Atrevo-me a dizer que sim; conquanto os antologistas tenham rejeitado, em nome de uma concepção pós-histórica, a busca da verdade da poesia portuguesa, parece-me defensável dizer que, no seu estudo introdutório, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra tentaram fixar uma verdade sobre essa antologia. E é certo que buscaram fixar um método a todos os ensaístas: o modelo da close reading. Além do método, os organizadores fizeram a escolha a partir das listas tríplices - e não se deve diminuir a influência disso. Senão, o governo brasileiro não faria questão de intervir nas universidades públicas reservando-se o direito de escolher o reitor a partir dessas listas, não raramente o candidato menos votado!
Talvez mais importante do que a opção por essa leitura imanentista, os organizadores escolheram os ensaístas – e seria de esperar que Robert Bréchon, por exemplo, autor da bela biografia de Pessoa, Étrange étranger, escolhesse poemas do biografado. De fato, seu ensaio sobre “Magnificat”, de Álvaro de Campos, é um dos mais belos da antologia – e repete a história do gato materializado pela leitura, contada na biografia.
Creio apropriado, portanto, tentar interpretar o perfil da antologia e considerá-la um trabalho autoral, já que “nenhum poeta, nenhum poema ou nenhum leitor pode chegar a ter uma absoluta consciência de si” (p. 26). Ademais, a própria ordem casual deve ser interpretada, pois o acaso (já se sabe muito antes de Mallarmé) produz significado – para o confirmar, basta recorrer a um livro milenar como I Ching.
Gostaria de referir-me tão-somente a três pontos de leitura: o título; que conduz para o segundo, que é Pessoa; o terceiro, que é a esfera pública, que reconduzirá para o segundo.
O ruído do título: Século de Ouro é um título de ouro? E, se for, não desmentiria o intento pós-histórico dos antologistas? Trata-se de uma direta referência ao Siglo d’oro espanhol, sim, mas essa referência é positiva? Servirá para a confissão de um “atraso” da literatura portuguesa, já que foi no século XX que “tudo” em Portugal “começou” (p. 47), e que Portugal foi, como no soneto de Quevedo, “Avaro y rico, y pobre en el tesoro”?
O caso Pessoa: a “metáfora” século de ouro sustenta-se, bem dizem os antologistas, porque houve Fernando Pessoa (p. 37); no entanto, é de notar-se a ausência de Alberto Caeiro, justamente um dos heterônimos mais populares, e mestre dos demais.
É verdade que o século em Portugal começou ignorando Pessoa (autor por excelência póstumo); depois de morto, depois de o mundo tê-lo descoberto (e foi natural que a primeira edição “completa” – tanto se achou depois - tivesse sido lançada no Brasil), Portugal dedicou-se a glorificar Pessoa; e o século terminou, e o XXI se inicia, na tentativa de repudiá-lo. Nesse sentido, é interessante que o fim da antologia, que se dá com o poema “Elegia do amor”, de Teixeira de Pascoaes, comentado por António Cândido Franco, haja uma defesa de Pascoaes como o verdadeiro centro da poesia portuguesa do século,[3] e não Pessoa.
Não menos sintomático é o ensaio de Peter Sanmartinho, julgando irônico que a poesia de Pessoa, que já nada mais teria a dizer desde os anos setenta para a moderna crítica (!), esteja sendo recuperada por estudiosos ligados aos estudos culturais, tendo em vista os poemas de temática homossexual que estão sendo resgatados do fundo da arca.
Outro ponto é o da esfera pública e o lirismo. É interessante notar que os poemas de teor mais explicitamente político foram escolhidos por ensaístas estrangeiros, isto é, por não portugueses – como “Em Creta, com o Minotauro”, de Jorge de Sena, comentado por K. David Jackson; “You are welcome to Elsinore”, de Mário Cesariny, comentado por Perfecto E. Cuadrado Fernández; “As cinzas de Lenine”, de Fernando Guerreiro, comentado por Peter Sanmartinho; “Um adeus português”, de Alexandre O’Neill, por Luciana Stegagno Picchio; “Quase 3 discursos quase veementes” de António José Fortes, por Ruy Duarte de Carvalho.[4]
Como se sabe, a tradição democrática em Portugal, assim como no Brasil, é recente demais para ser chamada de tradição. E os longos anos de salazarismo levaram inevitavelmente a uma sensível degradação da esfera pública, marcando poetas como Jorge de Sena com o signo do exílio.
Nada menos natural, pois, que Eduardo Pitta afirme que "a guerra colonial praticamente não tem projecção ao nível da melhor poesia portuguesa" (p. 234). Os próprios antologistas, com a repercussão do livros, verificaram a não existência de "crítica pública" portuguesa.[5] Deve-se, porém, dizer mais: a própria antologia é um sintoma não só da falta de crítica pública, como da precariedade do espaço público. Não por acaso, convocou-se o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, e não um autor português, para definir o século na epígrafe do estudo introdutório. Afinal, a poesia portuguesa, mostra-nos esta antologia, em boa parte viveu um imaginário século dourado, e não o século XX.
Cabral, quando diplomata brasileiro na Espanha, costumava menosprezar a poesia lírica espanhola que podia ser publicada abertamente durante o franquismo por condescendência com o regime político. Estou longe de possuir os (inconsistentes) furores antilíricos de João Cabral de Melo Neto; muito menos acusaria o lirismo de inevitável complacência com o autoritarismo. Mas não me furto a notar que a poesia comentada pela maioria dos ensaístas portugueses representa antes de tudo um grande cancioneiro com crítica,[6] apesar da heterogeneidade – motivo por que se entende a exclusão de Alberto Caeiro, o mais antilírico dos heterônimos de Pessoa.
Na verdade Caeiro, com sua antimetafísica e sua recusa à mistificação, como lembra Sérgio Alcides, é a antítese de grande parte da poesia portuguesa contemporânea, inclusive Herberto Helder. Nesse quadro, Alberto Pimenta é uma das exceções, bem como António Franco Alexandre.
A ausência de Caeiro talvez seja um sinal de que a presença de Pessoa e, mais ainda, do seu “lirismo crítico”, crítico não só do lirismo como também do sujeito, ainda é perturbadora em Portugal - e, por isso, continua atual, como o ouro do século.


Notas
[1] Deve-se lembrar que recente dossiê sobre Drummond publicado pela Inimigo Rumor em 2002, elaborado por autores portugueses, entre eles Silvestre e Serra, adotou a mesma estrutura da antologia que nascia.
[2] Sua "Canção cuneiforme (antes e depois de dar o bicho)" é analisada por Maria Irene Ramalho em Século de Ouro.
[3] Defesa, é de lembrar, não criada pelo ensaísta, e sim por Cesariny.
[4] Uma exceção foi Vítor Manuel de Aguiar e Silva, que escolheu "Morte ao meio dia", poema político de Ruy Belo, e afirmou: "A naturalização da morte 'no meu país' exclui a ordem da violência" (p. 255). Note-se, por outro lado, que "O preto no branco", de Rui Knopli (que nasceu, deve-se lembrar, em Moçambique, e também foi marcado pelo exílio), embora sua imagética relacione-se com a guerra, pode, paradoxalmente, ser lido como um poema de amor: "Da granada deflagrada no meio/ de nós" (p. 233).
[5] Após uma falsa partida ou para reiniciar o debate sobre Século de Ouro, Inimigo Rumor, n. 14, 2003, p. 196-198.
[6] Lembre-se, por exemplo, de Eduardo Lourenço louvando Ruy Belo por ser um poeta de amores e desamores (p. 216); ou Fernando J. B. Martinho sobre Cristovam Paiva: "É, pois, a emotividade do poeta que ocupa, agora, o lugar central." (p. 296).

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