O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

domingo, 19 de março de 2017

30 dias de canções: Mahler, o marginal

30 dias de canções

Dia 26: Uma canção que cancela as paixões

"Ich bin der Welt abhanden gekommen" ("Tornei-me estranho ao mundo"), de Gustava Mahler, sobre poema de Friedrich Rückert, composta durante 1901 e 1902. Ele musicou mais quatro desse poeta nessa época.
Esta canção só poderia ser feita por Mahler. Mas não o resume musicalmente: ele tem diversos momentos em que o mundo invade a música, que contrastam com esses de lirismo.
Esta música soa melhor em vozes médias ou graves. Para ouvi-la em voz feminina, sugiro Jessye Norman, com a Filarmônica de Nova Iorque regida por Zubin Mehta: https://www.youtube.com/watch?v=bxh-VTqNK0c.
Entre os homens, aconselho José van Dam, aqui na gravação de estúdio com a Orquestra Nacional de Lille regida por Jean-Claude Casadesus: https://www.youtube.com/watch?v=kuQBg-tS0o8
O original é metrificado e rimado, na minha tradução fuleira ficaria assim:
Tornei-me estranho ao mundo, nele já perdi muito tempo. Faz tanto que ele não ouve nada de mim que deve bem acreditar que estou morto! Não dou a mínima se me julgam morto. A isso não posso retrucar nada, pois realmente morri para o mundo. Morri para o tumulto do mundo e descanso em um território silencioso. Eu vivo sozinho em meu paraíso, em meu amor, em minha canção.
Na canção, repete-se uma vez "em meu amor" (in meinem Lieben): https://youtu.be/bxh-VTqNK0c?t=5m42s, na frase mais aguda do fim; na última, "Na minha canção" (in meinem Lied), ouve-se um recolhimento ao repouso. A ornamentação em gerstoben (morto) na frase "deve bem acreditar que estou morto", também é muito interessante: Dietrich Fischer-Dieskau, mesmo aqui, em fim de carreira, ao lado de Chailly, acha a expressão mais correta: o barítono mantém a voz leve e sua face está serena, não se trata de nenhuma tragédia: https://youtu.be/587P3LMhkJg?t=2m9s
Afinal, ele realmente se isolou e achou, fora do mundo, aquilo de que necessita: paraíso, amor, canção: Himmel, Liebe, LiedNão tenho ideia de como reproduzir as assonâncias desses três substantivos, que Mahler tão bem explora, em português.
Se a música é tão pessoal, talvez seja porque Mahler tenha visto na letra algo que lhe era muito próximo. Tinha que ser algo estranho no mundo, pois era um judeu no Império Austro-Húngaro; em razão da discriminação, teve de batizar-se no catolicismo para reger a Ópera de Viena. Klemperer, em 1948, falou à Rádio de Budapeste sobre o compositor, cujo valor ainda era subestimado naquela época, antes de reger A canção da terra: "Por toda sua vida, eu foi atacado tanto por antissemitas quanto por filossemitas. Ele era, propriamente falando, um marginal". Ele não era religioso, mas tinha um sentido de piedade que não se adequava a nenhuma igreja.
Além disso, ele era um compositor que não era entendido na época, nem mesmo por Klemperer ou Bruno Walter, os dois maestros mais jovens que o conheceram e foram fiéis à música de Mahler, que morreu prematuramente em 1911. Nenhum dos dois chegou a reger todas as sinfonias. Leonard Bernstein, nos anos 1960, seria o primeiro a fazê-lo. O filme de Visconti, Morte em Veneza, com o onipresente adagietto da Quinta Sinfonia, ajudou na divulgação da obra de Mahler que, hoje, é das mais populares, e eclipsou, em número de gravações e apresentações, quase todos seus contemporâneos. E pensar que, ainda nos anos 1980, comprei um livrinho sobre Mahler dos Guias Musicais da BBC com um tom geral negativo sobre a obra, chegando a comparar sua música com a de Mascagni...
O adagietto da Quinta compartilha do clima melancólico da canção "Ich bin der Welt abhanden gekommen", que é uma das facetas mais atraentes da música de Mahler. Outra delas é a forma como integrou a canção à sinfonia, como fez na Segunda, na Terceira e na Quarta. A Primeira, a Quinta, a Sexta e a Sétima são apenas instrumentais; a Oitava, porém, é completamente cantada, com uma série de solistas e coros, inclusive um infantil. A Nona, que ele nunca chegou a ouvir, é puramente instrumental, e provavelmente também o seria a Décima, que ele não completou.
Klemperer, naquela mesma fala, comenta como Mahler tocou piano em um recital só de canções suas em Berlim e a sala estava bem vazia. Era 1907. Poucos anos lhe restavam, e ele deixaria nesse ano Viena para Nova Iorque, onde a doença cardíaca, que o matou, e a concorrência com Toscanini não lhe permitiram fazer tanto sucesso como maestro.
Alex Ross, em um livro creio que chamado O resto é surdez, tenta minimizar o antissemitismo de Viena (ele não menciona, mas quando Bruno Walter tornou-se assistente de Mahler em 1901, foi atacado em termos discriminatórios pela imprensa austríaca) e afirma que Mahler foi para os Estados Unidos realmente para ganhar muito dinheiro.
Nos anos 1930, a Áustria logo pareceria perigosa demais para todos os judeus, e a Alemanha já o era quando a anexou. Bruno Walter deixou a Áustria depois de ainda reger lá a Nona de Mahler, que pode ser ouvida como uma sinfonia de despedida, em 1938, ano da anexação.
Paul Griffths, no interessante e acessível Modern Music: A concise history, apresenta uma explicação interessante para o sucesso póstumo de Mahler:

[...] parte da música aparentemente mais reacionária da metade do século [XX] pode realmente ser, em um nível diferente, a que mais olha para o futuro - música na qual, como no altamente sofisticado mundo de Berio, a própria linguagem composicional se sujeita à vontade do artista para que ele a manipule e a use contra ela mesma. Mahler, cujas sinfonias operam exatamente nesse mundo de falsas aparências, começou nos anos 60 e 70 a ser visto como uma figura central da música do século.
Algo da consciência que ele tinha da linguagem musical e sua relação com a história estaria finalmente presente na música daquelas décadas. Finalmente, o mundo tinha aportado, depois das tempestades das guerras mundiais e dos genocídios, após ondas e correntes estéticas, às margens de Mahler.

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar
Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura
Dia 25: Sarah Vaughan e os palhaços


sexta-feira, 17 de março de 2017

30 dias de canções: Sarah Vaughan e os palhaços

30 dias de canções

Dia 25: Uma canção cujo intérprete pode ser considerado coautor

"Send in the clowns" (Mande entrar os palhaços), de Stephen Sondheim, na versão de Sarah Vaughan. 
Vejam uma interpretação que segue de perto o original: https://www.youtube.com/watch?v=vufO2FZY6XQ.
A Divina Sarah Vaughan transforma a canção em um grande momento de expressão de perda e ironia; ela gravou-a em 1980 com a orquestra de Count Basie: https://www.youtube.com/watch?v=UBJSP2NUaSU
A canção pertence ao musical "A little night music", que nunca vi; o espetáculo recebeu diversos prêmios, inclusive por sua música: https://www.ibdb.com/broadway-production/a-little-night-music-3176/#awards
A canção é cantada, na peça, por uma atriz que tem seu pedido de casamento rejeitado por um homem que quer casar com uma mulher mais jovem. Ela foi logo tirada do contexto e gravada por diversos intérpretes, muito diferentes entre si: Frank Sinatra (creio que o primeiro a fazê-lo) e Renato Russo, Barbra Streisand e Tom Jones, Sumi Jo e Grace Jones. Não ouvi todas desta lista, mas, das que conheço, a de Vaughan é a mais comovente e, musicalmente, a mais inventiva.
A canção é aparentemente simples, mas creio que isso é uma virtude, por deixar espaço para o intérprete improvisar. 
Vaughan criou a sua própria partitura vocal. Primeiramente, o andamento: ela canta mais lentamente do que todo mundo, seu controle respiratório lhe permite fazê-lo, e assim ela tem mais espaço para detalhes. Logo ela começa a ornamentar a música; "Don't you aprove": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=1m11s.
A rica voz de peito desta contralto traz peso à questão "Where are the clowns?": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=1m47s; e tristeza ao "Sure of my lines/ No one is there"https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=2m45s. A ironia em "Don't you love farce?" contrasta com a seriedade de "My fault, I fear": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=3m14s.
Ela alterna entre as cores mais leves e as mais pesadas de sua extensa palheta de expressões até chegar à última estrofe (lembro que Sondheim, em aula, enfatizou a importância do jogo de cores vocais e a ironia nesta canção), que ela começa leve, com a pergunta irônica: "Isn't it rich?": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=4m31s, até chegar o trêmulo, efeito que sempre indica uma intensificação no sentimento, na palavra my da frase "Loosing my timing this late in my career": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=4m44s
Ela fica dez segundos no trêmulo e ainda faz um crescendo! Ela, que nunca teve uma aula de canto. Todavia, mais do que uma proeza vocal, ouve-se aí o drama desta situação amorosa.
Em estúdio, ela vai para o agudo em "career", porém me parece mais apropriado o mergulho no grave. Ao vivo, o ataque mais forte em "Where are the clowns" impressiona mais do que em estúdio e contrasta com os últimos instantes de ironia, antecedidos por um ritardando: "Well, maybe next here": https://youtu.be/2rd818Ae3J8?t=5m32s.
É o momento da devastadora coda que Vaughan criou a partir dessas palavras, de que "talvez" (isto é, com certeza) os palhaços estejam perto daqui. 
Essa canção já atraiu atores sem voz, capazes (com sorte) de apenas reiterar as linhas sem nada acrescentar. Tinha que ser um grande intérprete do jazz para transformar a canção ritmicamente e melodicamente. Stravinsky, em razão da Segunda Guerra Mundial, foi viver nos Estados Unidos. Segundo Robert Craft, maestro que foi por bastante tempo seu assistente, o compositor russo achava que a grande música dos EUA não estava na Broadway ou nos musicais, e sim no jazz e nas missas gospel, isto é, na música dos negros.
Vaughan, como todos sabem, foi uma das maiores representantes do jazz vocal. Não obstante sua grandeza e as décadas de carreira (ela começou nos anos 1940), ela chegou a ficar sem gravadora em certo momento nos anos 1970, com todas suas três oitavas relegadas pelo pessoal do rock e da discoteca. Nessa época, porém, ela conseguiu fazer algumas gravações muito interessantes de canções que não eram originalmente do domínio jazzístico, enquanto outros cantores de sua geração declinavam. Vejam "A house is not a home", de Burt Bacharach: https://www.youtube.com/watch?v=vDtQzuqtrtg. Ou "Imagine", do disco "A time in my life", em que canta Marvin Gaye, Carly Simon, Michel Legrand e Bob Dylan: https://www.youtube.com/watch?v=I86x1e2oqXM.
Nesses momentos, a cantora, que compunha também, fazia das canções alheias criações próprias, senhora da liberdade que a linguagem do jazz confere aos intérpretes, uma linguagem criada por um povo que foi escravizado. Como escreveu Charles Rech em Subversive sounds: Race and the birth of jazz in New Orleans"A característica africana que mais pessoas associam com o o jazz é a improvisação. Ela confere ao músico um senso de liberdade indisponível na tradição clássica, e essa razão bastava para ela ter implicações políticas para os afro-americanos."

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
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Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
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Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira
Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar
Dia 24: Bosco e Blanc vs. racismo e censura

quinta-feira, 16 de março de 2017

30 dias de canções: Bosco e Blanc vs. racismo e censura

30 dias de canções

Dia 24: Uma canção cujos compositores ainda deveriam trabalhar juntos

"O mestre-sala dos mares", de João Bosco e Aldir Blanc. Vi, neste mês, o próprio João Bosco a cantando com surpreendente divisões, acompanhado apenas com o seu próprio e inimitável violão: https://www.youtube.com/watch?v=l_sdVAgyiLk.
Esta dupla foi lançada por Elis Regina. Ele contou na apresentação que vi que ele foi beneficiado por Milton Nascimento. A gaúcha Elis havia lançado o conterrâneo de Bosco e estava curiosa por conhecer outros compositores mineiros. [Nota: Milton nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Minas]
Julio Maria, na biografia de Elis Nada será como antes, conta que ele foi apresentar suas canções. Ela escolheu "Bala com bala" e a incluiu no show "É Elis", entusiasmada: "Outro mineiro, meu Deus, que sorte a minha". Depois, lhe diria: "Nunca mais deixe de compor suas coisas estranhas".
A impressionante capacidade de observação do cotidiano por Aldir Blanc gerou clássicos como "De frente pro crime". Sua antena para o momento político deixou a genial "O bêbado e a equilibrista", o hino do movimento pela anistia.
Bosco e Blanc se separaram e fizeram diversas canções importantes com outros parceiros. Pensem no poema de relacionamento na canção "Catavento e Girassol", de Aldir Blanc e Guinga, aqui com o Guinga ao violão e Leila Pinheiro cantando: https://www.youtube.com/watch?v=_ShiqGQp8hQ.
De Bosco, posso lembrar a canção "Sinhá", crônica do escravismo feita com Chico Buarque: https://www.youtube.com/watch?v=3w3615iDte4.
Eles deveriam voltar a compor em parceria? Realmente não sei, embora os tenha escolhido para este dia do desafio. Certamente um reencontro se daria em bases muito diferentes, pois eles mudaram, os tempos também. Uma eventual nova canção provavelmente seria muito criativa, dado que eles continuam senhores de suas possibilidades, e frustraria os nostálgicos que esperariam o mesmo dos anos 1970. O mesmo, hoje, seria menos, e creio que eles fariam o outro; só o outro justificaria uma volta.
Nos anos 1970, enquanto estiveram juntos, entre as novidades que eram e traziam, combinadas e multiplicadas um pelo outro, estava "O mestre-sala dos mares", que tratava de um fato histórico incômodo para a ditadura militar, racista, que dominava o país. Cito, do relatório da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", o capítulo "Perseguição à população e ao movimento negros":
Um dos casos célebres foi o do samba “O Mestre Sala dos mares”, de João Bosco e Aldir Blanc, que cantava o líder negro da Revolta da Chibata, João Cândido. O samba foi gravado por Elis Regina em 1974, com a letra alterada por força da censura. 
O marinheiro João Cândido liderou essa revolta contra os castigos corporais, típicos dos que se usavam contra os escravos (como a chibata), que a Marinha adotava contra os marinheiros. A revolta ocorreu em novembro de 1910. A Marinha desrespeitou a anistia votada pelo Congresso Nacional, assassinou vários dos rebelados. João Cândido morreu no ostracismo, expulso das Forças Armadas. 
Ele ficou conhecido como “Almirante Negro” pelo povo. João Bosco e Aldir Blanc, no entanto, foram impedidos de chamá-lo assim pela censura – tornou-se um “navegante negro” – e a referência à tortura contra os negros foi silenciada: o verso, originalmente “rubras cascatas jorravam das costas dos negros”, teve que ser alterado para “rubras cascatas jorravam das costas dos santos”. Lembra Aldir Blanc que ele e Bosco foram acusados pelos censores de fazer “apologia ao negro”. 
O trecho "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos negros/ Pelas pontas das chibatas" foi suavizado: "Rubras cascatas/ Jorravam das costas dos santos/ Entre cantos e chibatas". Outro dos trechos mudados: "que a exemplo do marinheiro gritava não" tornou-se "que a exemplo do feiticeiro gritava então". A revolta virou um feitiço alegre.
A mudança de "Almirante negro" para "Navegante negro" também era crucial. Não sei, aliás, quantos negros foram Almirantes no Brasil. Com a legitimidade de ter tido seu título concedido pelo povo, provavelmente só João Cândido, que ainda teve essa legitimidade redobrada pelo fato de a concessão ter sido dada por uma revolta em prol da dignidade humana.
O princípio da dignidade era sistematicamente violado pela Marinha. A partir de 1964, com as Forças Armadas tomando o poder, essa violação tornou-se método de governo. Para as artes, isso significou, em muitos casos, a censura, como a desta canção, que teve a sorte de ser liberada depois de sofrer as modificações.
Não entendo por que João Bosco, este patrimônio musical do país, que só com seu formidável violão e seu desconcertante método vocal (ele já não é mais nenhum jovenzinho, mas no fim da apresentação que eu vi, pediram "Papel machê", parceria dele com Capinan, e ele a cantou com todos os agudos no lugar), não percebo por que este impressionante músico permanece apresentando a letra aprovada pela censura. Ele gosta mais assim? Não sei a razão.
Em 1981, Elis Regina, longe da censura brasileira, cantou no México a letra original, em homenagem à "figura de um bravo marinheiro", em vez do "feiticeiro" imposto pela censura: https://youtu.be/2HPCf-35xOQ?t=19m50s.
Vejam como, em gesto, a cantora saúda as "pedras pisadas do cais", o "monumento" deixado para o Almirante Negro. 
Pisadas, não podiam queixar-se. Até virarem canção.

P.S.: Depois que escrevi isto, lembrei do verbete de Sérgio Alcides sobre Aldir Blanc no livro "Folha Explica" Música popular brasileira hoje, de 2001. Ele destaca a grande qualidade poética de Blanc e dois fatores presentes nesta canção: a memória e o não oficialismo: "as histórias de Blanc nos ajudam a criar uma memória coletiva brasileira e livre. E o melhor: sem a menor sombra de oficialismo nacional."


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
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Dia 23: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar

terça-feira, 14 de março de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXV: Onde estão os desaparecidos políticos?




Em 31 de março, ocorrerá a primeira parte do ato "Onde estão os desaparecidos políticos? Estado de exceção ontem e hoje" na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), às 9:30h. A questão é uma das grandes pendências da justiça de transição no país. O Estado brasileiro deixou de cumprir decisões de seu próprio Judiciário e da Corte Interamericana de Direitos Humanos que determinavam a localização e a identificação dos mortos e desaparecidos políticos.
No primeiro de abril, a manifestação acontecerá às 16:00h, em frente ao antigo DOI-Codi de São Paulo, na rua Tutoia, n. 921. O antigo centro de tortura, embora já tombado, ainda não foi transformado em lugar de memória, apesar da recomendação da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva" publicada há dois anos.
A página do ato pode ser vista nesta ligação: https://www.facebook.com/events/260253604430021/.
Um dos processos de identificação de desaparecidos políticos que se encontra praticamente paralisado é o dos mortos da Vala de Perus, construída durante a primeira prefeitura de Paulo Maluf. Formou-se, depois de muitos anos, um grupo de antropologia forense para realizar o trabalho, cuja história foi contada neste capítulo da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva": http://comissaodaverdade.al.sp.gov.br/relatorio/tomo-i/parte-i-cap4.html.
Os contratos da equipe encerraram-se no início deste ano e não foram renovados. Trabalha agora, de forma provisória, um pequeno grupo de três pessoas, conforme o manifesto abaixo.
Em 18 de outubro de 2016, foi realizado um "Seminário Vala de Perus" pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos na Câmara Municipal de São Paulo, com apoio da Vereadora Juliana Cardoso. Escrevi sobre a importância do evento e os vários erros da cobertura da imprensa aqui: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2016/10/desarquivando-o-brasil-cxxviii.html?spref=tw.
Gravei alguns vídeos curtos do seminário:

Não consegui gravar as falas de Patrícia Fischer e Ana Paula Tahuyl, que também integravam aquela equipe. A continuidade destes trabalhos é uma das pautas do evento dos dias 31 de março e 1o. de abril.



Manifesto “Onde estão os desaparecidos políticos? Estado de exceção ontem e hoje”


Neste dia de 31 de março de 2017, reunimo-nos na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, que foi uma das instituições de ensino que teve estudantes presos, torturados, mortos e desaparecidos há décadas sem que nenhuma resposta tenha sido dada até agora. As famílias, a Universidade e a sociedade em geral têm direito de saber onde estão e o que aconteceu com cada um deles e com todos os desaparecidos. Eles fazem parte da história política do povo brasileiro.
Nesta história política, não podem ser esquecidos os 436 mortos e desaparecidos políticos, as 10.034 pessoas submetidas a inquérito e 7.376 indiciadas por crimes políticos, os 130 banidos, 4.862 cassados e os 6.952 militares atingidos pela ditadura segundo o Dossiê da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos; os 1.196 camponeses e apoiadores mortos e desaparecidos de acordo com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República; os 8.350 indígenas mortos e desaparecidos segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, que só conseguiu pesquisar dez etnias.
Esses números, embora muito incompletos, servem para sugerir a violência de um regime fundado por um golpe de Estado e baseado em crimes de lesa-humanidade.
Quase 53 anos depois do golpe de 1964, o Estado continua com sua dívida em relação aos desaparecidos políticos. A Comissão Nacional da Verdade não logrou fazer avanços significativos na questão, e o seu relatório foi engavetado pelo governo federal, inclusive a recomendação de investigar a responsabilizar os agentes das graves violações de direitos humanos de acordo com a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos sobre a lei de anistia.
O Estado brasileiro continua descumprindo a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 2010, no caso Gomes Lund e Outros vs. Brasil, sobre a Guerrilha do Araguaia, de localizar os desaparecidos, investigar as circunstâncias dos crimes e punir os agentes responsáveis pelas torturas, execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados.
A busca dos desaparecidos do Araguaia está paralisada. Em São Paulo, o trabalho de identificação das ossadas da Vala de Perus, iniciado em 1990, até hoje não foi concluído devido à paralisação em diversos momentos. Há pouco terminaram os contratos da equipe de antropologia forense que vinha atuando, com interrupções, desde 2014. O governo federal realizou uma contratação temporária de apenas três técnicos, o que não substitui uma equipe.
Falta realizar, na grande maioria dos casos, a retificação dos atestados de óbito dos mortos e desaparecidos políticos. Apesar da lei no 9140 de 1995, que reconheceu “como mortas pessoas desaparecidas em razão de participação, ou acusação de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979”, os atestados não mencionaram os crimes de lesa-humanidade cometidos pela ditadura, tampouco a responsabilidade do Estado brasileiro.
Quase 53 anos depois do golpe de 1964, a democracia continua sendo ferida; está sendo atingida a democracia representativa e o voto popular, ergue-se uma onda de ataque institucional contra os direitos humanos, o que inclui retrocessos no campo dos direitos sociais, dos direitos territoriais das comunidades tradicionais e dos direitos originários dos povos indígenas, que continuam sofrendo ações de etnocídio e genocídio.
Quase 53 anos depois do golpe de 1964, o Estado brasileiro continua a vigiar e reprimir militantes e manifestantes por direitos tão básicos como a circulação, a saúde, a educação. Continua existindo uma polícia militarizada, contra as recomendações da ONU, da Comissão Nacional da Verdade e de outras Comissões da Verdade, bem como dos movimentos contra a violência policial e contra o encarceramento em massa e o genocídio da juventude preta, pobre e periférica.
Amanhã, primeiro de abril, o golpe de 1964 fará 53 anos. Para protestar contra tudo o que não foi resolvido em matéria de democracia e justiça de transição, chamamos para um ato no antigo DOI-Codi de São Paulo, na rua Tutoia, n. 921, às 16 horas.
Apesar da recomendação da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva” de transformar o antigo DOI-Codi em local de memória política, e da decisão do Condephaat, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico, pelo tombamento do prédio, a mudança de uso do imóvel ainda não foi realizada pelo Governo do Estado, o que configura mais uma dívida com os mortos e desaparecidos políticos.




segunda-feira, 13 de março de 2017

30 dias de canções: Encontrar o dia novo, Villa-Lobos e Ferreira Gullar

30 dias de canções

Dia 23: Uma canção que você acha que todos deveriam ouvir 

"O trenzinho do caipira", de Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar. Não creio que exista uma canção que todos devam ouvir. De qualquer forma, não sou fiscal nem da audição nem de vestes alheias. No entanto, acho que não faz sentido ouvir música brasileira e não conhecer Villa-Lobos.
Neste caso, não se trata nem mesmo, originalmente, de uma canção. O "Retrato em branco e preto", que escolhi no primeiro dia do desafio, tampouco. Nos dois casos, a origem era uma música instrumental.
Diferentemente do que ocorreu com Tom Jobim, que pediu a letra para Chico Buarque, Villa-Lobos não pediu nada. A letra surgiu depois da morte do músico, publicada em O poema sujo, livro que Ferreira Gullar escreveu no exílio.

Originalmente, a música é o último movimento, a tocata, das Bachianas Brasileiras n. 2 ("Bachianas" no plural, como Villa-Lobos queria), para orquestra de câmara, composição de 1930.
Gosto muito deste arranjo de Leandro Braga para o disco "O cair da tarde", em que Ney Matogrosso canta Villa-Lobos e Tom Jobim: https://youtu.be/oPpAYciwtHs?t=39m24s. Ouçam a expressão do cantor quando diz pela última vez "Pro dia novo encontrar".
Ney Matogrosso erra a letra, porém, cantando "cantando pela serra ao luar" em vez de "cantando pela serra do luar". Ferreira Gullar diz que esse erro "É o lugar-comum desbancando a poesia". Na regravação pop que fez anos depois, o cantor insistiu no erro.
Para entender o sentido da referência a Bach na série das Bachianas Brasileiras, aconselho ler/ouvir o que Amancio Cueto Jr. escreveu para o blogue Euterpe, analisando brevemente a que talvez seja a mais célebre das Bachianas Brasileiras, a de número 5, que foi gravada por algumas das mais célebres sopranos (Bidu Sayão, menos o "Martelo", Victoria de los Angeles em mau português, regida pelo compositor, Anna Moffo, Kiri te Kanawa - que tenta transformar o compositor em Puccini - , Barbara Hendricks, Renée Fleming etc.): http://euterpe.blog.br/analise-de-obra/villa-lobos-bachianas-brasileiras-5.
"O trenzinho do caipira" existe em várias transcrições, como para cello e piano, neste vídeo com Hugo Pilger e Lúcia Barrenechea: https://www.youtube.com/watch?v=Spavh6T-wJ0(o apresentador se equivoca em relação ao título).
Vejam o que o grande Quinteto Villa-Lobos fez: https://www.youtube.com/watch?v=COkFaUMzPak.
Ferreira Gullar contou em crônica de 6 de dezembro de 2009 para a Folha de S.Paulo o impacto que teve ao descobrir essa música de Villa-Lobos por meio de sua esposa, Thereza Aragão, e que pensou por vinte anos em escrever uma letra para a tocata das Bachianas n. 2, sem o conseguir. foi em Buenos Aires, em 1975, no exílio, é que logrou "em vinte minutos" criar a letra, que se encaixa bem, com a evocação do trem, da paisagem e da infância, nessa obra da memória que é o Poema sujo.
De acordo com o poeta, a indicação para cantar aqueles versos ao som da tocata das Bachianas era meio irônica, porém Edu Lobo quis fazê-lo em 1978. Na crônica, ele trataou também das questões de direitos autorais que surgiram para acertar essa parceria póstuma com Villa-Lobos.
Vejam Edu Lobo ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=8cmVC-JotNw.
Uma nota: lembro que, pouco depois, em 1981, Milton Nascimento, no disco "Caçador de mim", em movimento contrário ao de Gullar, partiu da poesia para a canção e musicou um trecho do Poema Sujo: "Bela bela", que não havia sido pensado originalmente para esse fim: https://www.youtube.com/watch?v=YzLnIFBI0XQ.
Muitos músicos "eruditos" têm dificuldade com Villa-Lobos, creio, pelo menos em alguns casos, por ele ser tão maior que os outros e ter todo esse diálogo (e vivência) com a música popular. Vejam o livro de J. Jota de Moraes, Música da modernidade, em que o único dos compositores apresentado com tintas negativas é justamente Villa-Lobos, o único brasileiro entre as "personalidades" escolhidas, e que ele "coloca entre os grandes compositores surgidos no Brasil", o que é uma forma de diminuí-lo; chama-o de "um rapsódico que se encantava com as novelas de rádio". 
Contra isso, cito o artigo "Inspirações étnicas", de Marcos Lacerda, no livro Notas. Atos. Gestos, organizado por Silvio Ferraz:
O equívoco na avaliação de Villa-Lobos, segundo o qual ele teria pouco a oferecer de consistente no domínio restritíssimo da modernidade, interessa a um contingente grande de compositores e intérpretes dispostos a repassarem a aproximação ao popular de ouvido, novamente à maneira romântica. [...] Isso teria bastado como fundamento de uma ideologia suficientemente resistente às emanações perturbadoras de que o mundo desembocara na atonalidade sem direito a histórias singulares no hemisfério sul.
Acho que Villa-Lobos é uma dessas histórias singulares, e o fato de ele ter atravessado fronteiras, inclusive do que é popular ou clássico, bem poderia ser uma singularidade nossa.

Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita
Dia 18: Amin, Garfunkel e outros pássaros
Dia 19: Wolf e Mörike imaginando a ilha
Dia 20: A loucura, Schumann e Andersen
Dia 21: Tiganá Santana e a memória negra
Dia 22: A boca seca da revolução: Miguel Poveda e Narcís Comadira