O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Coragem e memória: Amelinha Teles (1944-2026)

Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha, era genial. Eu a vi pessoalmente pela primeira vez no lançamento de O que resta da ditadura, em 2010, uma obra coletiva organizada por Edson Teles e Vladimir Safatle com capítulos de, entre outros autores, seus dois filhos, Edson e Janaína (dois dos maiores especialistas na questão), porém não dela mesma.


Ela, porém, era a escritora mais prolífica da família. Vi de perto essa vocação quatro anos depois, quando a conheci na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", presidida por Adriano Diogo. Ela entrou como assessora, criou um plano de trabalho e terminou coordenadora da Comissão, que foi a primeira criada no país.

Além de planejar as atividades, coordenar audiências públicas, convidar testemunhas e depoentes, supervisionar os trabalhos, ela escreveu boa parte do relatório. Eu sempre fiquei impressionado com sua capacidade de trabalho. Amelinha pertencia à geração que viveu a ditadura militar desde o início, 1964, ano em que seu pai e ela mesma foram presos (por isso, dizia que não era da "geração 1968").

A Comissão "Rubens Paiva" era, em alguns sentidos, o contrário da Comissão Nacional pois sua equipe incluía ex-presos políticos: ela e Ivan Seixas, além de Adriano Diogo na presidência: pessoas que não haviam parado de militar depois da ditadura.

Ela foi homenageada diversas vezes durante a vida; assisti à cerimônia de seu título de Doutora Honoris Causa, outorgado pela Unifesp em 2023, o mérito legislativo entregue pela deputada estadual Isa Penna na Alesp no mesmo ano; um inventário de honrarias seria extenso: recebeu a medalha Pedro Ernesto pela então vereadora Luciana Boiteux, do Rio de Janeiro, foi homenageada na Câmara em São Paulo etc.

Muitas eram as razões para homenagem, porque várias eram as batalhas de Amelinha e grande a sua coragem. Ela engajou-se na luta pela anistia, na luta pelas creches, nas Diretas Já, na campanha pela Constituinte, na imprensa feminista, tudo isso ainda durante a ditadura militar, depois de ter saído da prisão em 1973. Ela foi uma das fundadoras da União das Mulheres de São Paulo e da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Pollíticos, bem como do projeto Promotoras Legais Populares, em que ela continuava a lecionar. 

Toda sua militância respeitava a transversalidade das questões de gênero. Ela militou indo agir e falar com as mulheres, especialmente nas perifeirias (ela se considerava periférica, por sinal). 

Ela não foi guerrilheira, ao contrário do que afirmam matérias equivocadas sobre sua morte publicadas pelo ICL e pelo Brasil De Fato (eu a vi lembrar algumas vezes que sua irmã, Criméia, é que foi guerrilheira no Araguaia; Amelinha era da imprensa do partido). Dito isso, ela conheceu várias guerrilheiras e escreveu, com Rosalina Santa Cruz, este livro de 2013, Da guerrilha à imprensa feminista: a construção do feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980), em que temos uma espécie de biografia de uma geração de mulheres militantes.

Como sempre, a memória das lutas contra a ditadura convocada por Amelinha servia de orientação para o futuro: para a Comissão Nacional da Verdade, claro, e para a criação de grupos autônomos de mulheres dentor da compreensão de que o feminismo deve ser "anticapitalista, antirracista, anti-homofóbico/lesbofóbico, ampliando as articulações políticas, solidárias e integradas de todos os segmentos oprimidos no campo nacional e internacional":


Memória, verdade e justiça. Ela foi fundamental para o pouco de jusitça de transição que o país conseguiu alcançar. Um dos focos de tensão com a Comissão Nacional da Verdade, ela mesma contou diversas vezes, foi tentar convencer a CNV da importância da pesquisa sobre ditadura e gênero, que, inicialmente, não estava na pauta da Comissão Nacional. O tema das crianças, tampouco, e a Comissão "Rubens Paiva" abordou ambos. O clássico livro Infância roubada: crianças atingidas pela ditadura não teria existido sem Amelinha.
Em 1993, ela publicou a Breve história do feminismo no Brasil; não tenho essa edição, mas a de 2017, que foi ampliada com ensaios mais novos.


O assunto "mulher", como ela explica, era proibido: quando se tratava de temas como parto, desquite, trabalho, a censura entrava em ação:


O livro acabou no dia do lançamento, realizado na União de Mulheres. Poucas vezes vi uma fila tão grande para um autor (maior do que a dela, lembro apenas de uma de Adélia Prado). Quem chegou depois, ficou sem exemplar. Amelinha autografou em uma mesa coberta por uma toalha do MST:



Ela escreveu em 2023 um livro sobre feminismo para jovens, Feminismos: Ações e histórias de mulheres (eu a gravei falando da obra no lançamento): 



É um livro fascinante, encomendado e recusado por uma grande editora que hoje vive do passado, em que ela dá conta da pluralidade do feminismo e de suas práticas. Amelinha não tinha um espírito dogmático.
Amelinha escreveu muito mais coisas. Quero lembrar ainda nesta nota só do último livro que publicou. Ele se destaca por ser a única obra de ficção e a única escrita para crianças:


Contos da cela três é fortemente enraizado na biografia da autora: Amelinha esteve nessa cela, a Lagartixa que é personagem existia na prisão e, principalmente, as histórias do livro foram escritas enquanto ela esteve presa. Ela o fez para divertir e consolar os colegas de prisão. É significativo que o seu livro que está mais próximo da autobiografia (não é, porém) tenha sido, na verdade, criado para confortar os outros, e não como exercício de autorreferência. O livro gerou uma resposta muito positiva nas escolas, o que deu uma grande alegria para a autora, que descobriu que a ficção chega a lugares que ela ainda não havia frequentado.

Em 2026, o livro foi lançado novamente no Instituto de Psicologia da USP, em evento que a psicóloga Bruna Borba, que a entrevistou para sua tese de doutorado, ajudou a organizar.

Janaína, Amelinha e Criméia no Instituto de Psicologia da USP.

Embora se trata de ficção, o livro fo fortemente inspirado em dados reais. Pois ela foi uma presa política e ficou na "cela três". 

Trata-se do que as matérias sobre Amelinha mais lembraram: ela e o marido César Augusto Teles (falecido em 2015) faziam o jornal clandestino do PCdoB. Foram sequestrados pela equipe do DOI-Codi/SP, liderada por Carlos Alberto Brilhante Ustra, em 28 de dezembro de 1972. Também o foi Carlos Nicolau Danielli, dirigente do Partido cuja tortura e assassinato eles testemunharam e denunciaram. No dia seguinte, levaram a irmã, Criméia Alice Schmidt de Almeida (que foi torturada grávida e teve seu filho, João Carlos, enquanto estava presa) e os dois filhos, Janaína e Edson, com 5 e 4 anos, respectivamente, que tiveram de ver os pais torturados.

Contei essa história e a do processo que a família propôs contra Brilhante Ustra, o "escritor" preferido dos bolsonaristas, no livro Ilícito absoluto: a família Almeida Teles, o coronel C. A. Brilhante Ustra e a tortura, publicado pela Patuá em 2023.

Amelinha Teles, Carla Osmo, Crimeia Almeida
e o autor na Livraria Patuscada.

Adriano Diogo, Criméia Almeida, Amelinha Teles, o autor,
Janaina Teles e Carla Osmo na Casa das Rosas.

Sua história durante a ditadura militar é pungente. Não obstante, de forma alguma ela se restringiu a denunciar o que aconteceu com sua família. Amelinha passou a maior parte de sua vida procurando desaparecidos políticos, como falou em 16 de abril de 2025 no evento na Reitoria da Unifesp sobre a identificação, após o trabalho do CAAF, de Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, que haviam sido ocultados na Vala de Perus, uma das maiores provas dos crimes da ditadura militar. Nessa ocasião, ela cobrou, na presença da presidenta de Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Eugênia Gonzaga), a análise dos remanescentes ósseos que podem pertencer a guerrilheiros do Araguaia e estão parados há anos na Universidade de Brasília. 

O próprio Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Unifesp, que ainda é único no país (coordenado hoje por Joana Barros e Edson Teles), foi criado com a missão inicial de identificar os remanescentes ósseos da Vala de Perus, a partir de articulação de Amelinha (por sugestão de Adriano Diogo) com Eleonora Menicucci (então Ministra das Mulheres), que envolveu a Presidenta da República Dilma Rousseff e a Reitora da Unifesp Soraya Smaili.

O Memorial da Vala de Perus, uma reivindicação do movimento de familiares e da comunidade de Perus, foi também pauta de Amelinha diversas vezes: aqui, nós a vemos no aniversário de 34 anos de abertura da Vala ao lado de Aline Oliveira do CAAF: https://youtu.be/240NeqBfGU0?si=2RdEECT08GMmpA5V

Ela conhecia profundamente a questão: muito antes da criação do CAAF em 2014, ela trabalhou na Prefeitura de Luiz Erundina na investigação sobre a Vala, que foi aberta no governo da primeira mulher Prefeita de São Paulo.

Inês Etienne Romeu, Luiza Erundina e Amelinha.
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo.

Na idade das trevas do bolsonarismo na presidência da república, Amelinha não deixou de destacar como a questão dos desaparecidos tinha sua atualidade reforçada pelo hoje presidiário, cujo filho atualmente candidato à presidência quer indultar o pai e os outros criminosos que tentaram dar um golpe de Estado no 8 de janeiro de 2023. Em Seminário sobre a Lei de Anistia em 2019, ela bem comentou: "Quem é que traz o tema à pauta o tempo todo? É esse presidente que está aí. Primeiro que o guru dele é o Ustra. Depois ele fala que Fernando Santa Cruz, ele sabe como é que foi morto". Fernando Augusto de Santa Cruz, irmão de Rosalina Santa Cruz (outra ex-presa política), continua desaparecido.

Na campanha de 2018, ela e Janaína de Almeida Teles gravaram um depoimento para o programa de Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República, quando Lula foi impedido de candidatar-se dentro da conspiração pós-golpe de 2016. Elas falavam do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e da tortura. Não só ambas foram ameaçadas por bolsonaristas e foram alvo de fake news, como o vídeo foi censurado pela Justiça Eleitoral. Amelinha era corajosa. 

Seu falecimento gerou notícias de veículos tão diferentes quanto o G1, TVT, a Veja, Opera Mundi, Marie Claire, Correio Braziliense, SBT, da EBC... Destaco a manifestação da Associação Brasileira de Imprensa, que transcreveu no final a nota autobiográfica que aparece em Contas da cela trêshttps://www.abi.org.br/amelinha-teles-uma-vida-contra-o-esquecimento/

As manifestações de políticos vieram da esquerda, inclusive Dilma Rousseff no Instagram. Ela detinha o dom do diálogo e não o exercia somente com quem pensava como ela: nesse sentido, foi uma das pessoas mais políticas que conheci, embora nunca tivesse desejado entrar no sistema político formal. 

Outra característica era sua integridade: explicava que a força dos familiares de mortos e desaparecidos era dizer a verdade: o Dossiê Ditadura (1964-1985), obra que serviu de base para a Comissão Nacional da Verdade, nunca foi desmentido porque partia dessa integridade do movimento dos familiares. Era também uma característica pessoal dela.

Prefiro terminar lembrando da sua impressionante memória: ela carregava consigo os momentos históricos por que passou. O quanto perdemos, agora que não podemos mais ouvi-la?

Amelinha nunca abandonou suas lutas. No enterro de Grenaldo de Jesus Silva em 26 de junho de 2026, ela rememorou as companheiras: "quantas mães que a gente encontrou aqui, conheceu, e que lutaram com a gente, porque perderam seus filhos, suas filhas, então é um momento de gratidão [...] se essas pessoas não tivessem existido, nós não chegávamos aqui, se não tivessem lutado e resistido". 

Essas palavras hoje, nós a devolvemos para ela, com sua coragem e memória.

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