O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

sábado, 30 de março de 2013

Desarquivando o Brasil LIV: Negacionismo de reserva no Brasil e no Chile



Com o que Carlos Fico chamou de "comunicado patético" (https://twitter.com/brasilrecente/status/317394150507044864),  os presidentes dos Clubes Naval, Militar e de Aeronáutica divulgaram um manifesto, em 28 de março de 2013, com a data de 31 de março (certamente em alusão ao golpe de
de abril de 1964), para criticar a Comissão Nacional da Verdade, cujos membros seriam "totalitários".
Qual é a preocupação aparente desses militares da reserva? Que haja uma nova versão dos fatos ocorridos durante a ditadura. Por essa razão, preocupado com a investigação sobre os crimes cometidos pelos agentes do Estado, seus colaboradores e financiadores, em fevereiro último, o presidente do clube de Aeronáutica, o brigadeiro Ivan Frota, havia entregue a Cláudio Fontelles, da CNV, documentos, principalmente o ORVIL, livro sobre as organizações clandestinas de esquerda elaborado a partir das informações obtidas por meio da tortura: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,militares-criticam-comissao-da-verdade-e-homenageiam-golpe-de-64,1014395,0.htm 
O próprio documento entregue, pois, depõe contra aqueles que o entregaram...
Esse tipo de reação negacionista contra mecanismos de justiça de transição também ocorreu em outros lugares. No Chile, o General Manuel Contreras Sepúlveda entregou documentos à Justiça, com um manifesto, de 12 de maio de 2005, "Introducción a la entrega de documentos que demuestran las verdaderas responsabilidades de las instituciones de la defensa nacional en la lucha contra el terrorismo en Chile", que li na Biblioteca de Nanterre (e pode ser baixado aqui: http://www.latinamericanstudies.org/chile/contreras-2005.pdf). Ele dirigiu a DINA (Direção da Inteligência Nacional), uma das peças fundamentais da repressão política e do terror de Estado durante a ditadura de Pinochet.
Contreras já havia sido condenado pelo assassinato do oposicionista Orlando Letelier nos EUA, e sofreria nova pena neste processo: http://www.latinamericanstudies.org/operation-condor.htm



O curioso documento admite o desaparecimento de vários oposicionistas (e deixa clara a resposabilidade de Pinochet, que tentava jogar toda a culpa sobre seu subordinado), mas quer demonstrar que a esquerda inventava acusações contra a DINA, Contreras e o ditador Em seu insistente negacionismo, chega a afirmar que o Chile havia sido o "único país no mundo" a derrotar o "terrorismo" com um "mínimo de baixas humanas": 

[...] nuestra Patria ha sido el único País en el mundo que ha derrotado al terrorismo con un minimo de bajas humanas, en relación a la criminalidad y violencia con la cual esta especie violentista ha demonstrado producir a lo largo de su accionar en tantos lugares del planeta.
 

A afirmação negacionista, que minimiza a violência da repressão chilena, é acompanhada da defesa da negação dos direitos humanos pela repressão política: "vincular a luta contra o terrorismo aos direitos humanos" seria um "grave erro de incalculáveis consequências".
Nesse ponto, como também ocorreu no Brasil (o script da doutrina de segurança nacional apresentava semelhanças nos dois paises), a direita armada associa os direitos humanos ao marxismo, pois permitiria que os marxistas fossem considerados "vítimas":

Vincular la lucha contra el terrorismo com los DD.HH. es un grave error de incalculables consecuencias. Este peligroso error queda palmariamente demostrado por cuanto los DD.HH., como concepto universal, fue apropriado por los marxistas y tuvo como principal escenario de aplicación y desarollo a nuestro País, traduciéndose em que los terroristas fueran considerados “las víctimas” y, los Militares que derrotaron al terrorismo en Chile fueran catalogados como “victimarios”.
Nesse ponto, Contreras acaba por admitir o caráter criminoso do regime de Pinochet na violação institucionalizada dos direitos humanos pelos órgãos de repressão. Entende-se, portanto, que Contreras lamente a democratização; com ela, "Queda la impresión que la Historia, en este caso, ha variado trágicamente su rumbo". Felizmente, o curso da história virou... É o mesmo lamento daqueles militares da reserva brasileiros, com a significativa diferença de que estes não foram condenados nem processados.


Já que esses militares estão preocupados com a CNV (julgando-a mais efetiva do que boa parte dos militantes de esquerda), poderiam, quem sabe, colaborar com ela procurando, por exemplo, descobrir o que o tenente-coronel Sergio Arredondo, encarregado da DINA no Brasil, oficialmente adido militar, fazia neste país. Ele participou da Caravana da Morte em 1973 (http://epoca.globo.com/edic/20010129/mundo1a.htm). 
Teria ele entrado em contato com os torturadores brasileiros que estiveram presentes no Chile desde o início da ditadura de Pinochet? Qual foi seu papel na cooperação entre as duas ditaduras no âmbito da Operação Condor? Ele teria participado do possível assassinato de Juscelino Kubitscheck, como já se suspeitou: http://www2.uol.com.br/JC/_2001/2703/po2703_11.htm?


P.S.: Esta nota integra a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, cuja chamada pode ser lida nesta ligação: http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/

sexta-feira, 29 de março de 2013

Fábulas da censura: O poeta Pound ouvindo soul na praia de Ipanema

O Poeta Pound Ouvindo Soul na Praia de Ipanema




Atirei
O pau no gato
Mas o gato não morreu
Dona Chica admirou-se
Do berrô ] 2x
Que o gato deu,
Miau!


"Não restam dúvidas de que a música deve ser vetada. Sem direito a recurso. Trata-se de um incentivo à guerrilha urbana. Parece que não basta mais andar com o manualzinho do Debray. Nem com as bulas dos coquetéis molotov. Agora eles querem cantar sua fúria livremente pelas ruas, por meio de metáforas trabalhadíssimas (É coisa de poeta? Não, poesia é mais simples. Mais natural. Nada dessa sofisticação artificial e pretensiosa.) Mas as aparências não enganam, exceto se não forem aparentes. A letra silencia justamente o que não diz. A palavra cala por meio de seu não. Mas é inútil ocultar. O lado verdadeiro é o avesso da verdade. Não podemos nos enganar: arte é apenas uma interpretação rasteira. Lendo melhor, vemos que ela é política. Ler melhor é questão política."


"Reconhecemos na letra ora em análise uma paródia à política do governo em relação às florestas e, mais especificamente, à Amazônia. Esta nova subversão, verde, comunismo disfarçado de ciência, a ecologia, é potencialmente muito mais perigosa do que as antigas formas vermelhas. Como se houvesse problema em derrubar algumas árvores (atirei o pau!) e caçar alguns animais, o gato, que é a onça, animal feroz e traiçoeiro já nas lendas ingênuas dos índios, figuras folclóricas do nosso passado subdesenvolvido. O jeitinho verde de subverter se insurge contra os próprios motores do nosso desenvolvimento, como a gloriosa e inenarrável Transamazônica! Esta maravilha do mundo moderno, este prodígio da engenharia humana, mais uma conquista da técnica e da ciência brasileira, ao lado dos futuros satélites e usinas nucleares, virá tão somente a confirmar o Brasil como lume de todos os povos e não pode ser vilipendiada por línguas falazes sem que se esteja afrontando a segurança nacional..."


- Você também foi contra? Até você, que tem todos os discos dele?
- Tenho o barulho subversivo só para entender as estratégias da Guerra Revolucionária.
- Eu pensava em não censurar nada, não vi nada de errado com...
- Este é o risco: não haver nada de errado.
- Continuo não vendo nada.
- Esses compositores são muito sofisticados, conforme apontei. Pegue uma enciclopédia. Pegue aquela que foi censurada mês passado, mandei ela ficar no departamento, pois é muito boa. Consulte. E veja a que eles recorrem para esconder suas más intenções. Enquanto usamos a cultura para mostrar e educar, os artistas a empregam para obscurecer e duvidar. Cuidado com o que lê. Você pode ser apanhado.


“Pound foi um poeta fascista norte-americano que morreu louco. Soul é um ritmo idem. A letra fala da resistência à influência da cultura americana, que não morre, apesar dos ataques que sofre dos músicos nacionais. O pau é o pau-brasil. Temo que a letra vá acirrar os conflitos da Guerra Fria. Também é possível que a letra esteja se posicionando numa posição pró-soviética. É melhor consultar o Itamaraty, que tão bem tem servido nosso Estado, sobre a questão.”

"Como se sabe, pound é a moeda inglesa. O fato de estar ouvindo soul, que é alma em inglês, significa que o compositor acha que o novo regime é sustentado por agentes estrangeiros, ou, então, infâmia maior, indica uma crítica mordaz à política soberana de endividamento externo. A canção só poderá ser liberada se o título for vertido para o vernáculo."

- Poeta desde o título? É coisa de desocupado. Vou riscar tudo. Na prisão esse pessoal nem lava o chão direito.

"Obviamente esta música tem conotações obscenas de perversão consubstanciada na inversão sexual verificada no louvor do órgão sexual masculino. O compositor, desde a última obra aqui liberada (com voto contrário meu), "Ciranda, cirandinha", em que pouco veladamente incitava os jovens para a prática do sexo grupal e do amor livre, o que é uma mentira, se houvesse liberdade é óbvio que não haveria amor, ele vem denegrindo a sagrada instituição, e com que aplausos da intelectualidade, sempre vendida aos interesses alienígenas, da família. Nenhuma obra mais desse músico merece ser liberada. Que os jovens não ouçam mais mensagens libidinosas que possam conduzi-los à prática de atos licenciosos. Ainda mais aqueles que ofendem a lei de Deus e da natureza. Dessarte, a liberação deve ficar condicionada à troca da palavra Dona por Senhora, que, pelo contrário, inspira castidade."


- Tá na cara. Se é Ipanema, é maconha. Se mudar o título para Higienópolis, tudo bem.
- Tem comunista com letra P?
- Como assim?
- Muita aliteração: Poeta Pound ouvindo soul na Praia de iPanema... Depois, a música fala de pau...
- Claro, o Prestes! Tem tudo a ver como ele, essa coisa de pau é bem de militar.
- A exceção do P é "ouvindo soul".
- Código óbvio para soucialismo. E a Dona Chica só pode ser Cuba.


"A letra insinua que há prisioneiros políticos neste país, os gatos, animais traiçoeiros, e que eles sofrem maltratos. Berrô, quem é? Uma aberração? Por que 2 x? É uma identidade secreta. Se o compositor for interrogado, talvez se veja forçado a revelar o verdadeiro nome de Berrô."


"... e o miau final é uma corruptela óbvia de Mao!"

Não, não se levantem! Minhas estrelas não exigem continência de vocês, civis; isto é, nem sempre. Vim ver o trabalho deste setor, um dos mais leais e capazes de nosso Estado. Estão trabalhando contra quem? Esse aí? Conheço seus sambinhas. Minha filha é gamada nele, só de lembrar tenho vontade de arrebentar com o sujeito. Pois é, para esse artista metido a bacana e esperto, vocês têm que trabalhar todos juntos mesmo, para evitar os fatais enganos já cometidos e que causaram certos expurgos no setor. O que é isso aí? Não, não quero ler o que vocês escreveram não. Parecer não tem nada de arte. Quero a obra. Lê só o primeiro verso da música para mim. Interessante. Atirou... E mata, no final? Mata mesmo? Então liberem; é música de macho!

quinta-feira, 28 de março de 2013

Hamlet Molotov, ou Julián Axat, poesia e história

Esta tradução foi escrita para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, cuja chamada pode ser lida no blogue da jornalista Niara de Oliveira: http://pimentacomlimao.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/ Dela já estão a participar a jurista Maria Carolina Bissoto (http://entrepasadoyelfuturo.blogspot.com.br/2013/03/45-anos-da-morte-do-estudante-edson.html) e  a jornalista Suzana Dornelles (http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/nao-passara/).
Gosto muito da poesia argentina e da forma como autores contemporâneos tratam as questões da história e da política.
Um dos principais nomes da poesia argentina de hoje é Julián Axat, que é um dos poetas que tenho estudado mais regularmente. Depois de lê-lo, traduzi-lo e resenhá-lo, acabamos nos tornando amigos. Em seu livro de 2012, Neo (Buenos Aires: El Suri Porfiado), ele avança ainda mais no diálogo entre poesia e história.
O amplo espectro do peronismo cobre da direita à esquerda. A parte IX alude à volta de Perón em 1973 e ao episódio do massacre de Ezeiza; no palco onde discursaria o ex-exilado estavam homens armados de Osinde, da direita do peronismo, que atiraram nos grupos de esquerda, em um conhecido e não apurado episódio de massacre da história argentina. Antonio Cafiero, social-democrata, perdeu a disputa pelo controle do peronismo para Menem (ver este artigo da professora Marcela Ferrari: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-33522012000200005&script=sci_arttext&tlng=pt).
Há outras alusões. Kafka, o caudilho Facundo Quiroga, Ginsberg, Shakespeare, o genocida Videla, o Pai - encarnando a figura do desaparecido pelo terror de Estado - e outros nomes circulam neste caleidoscópio, cujo centro é a ditadura militar argentina.
Vejam como o crânio que Hamlet, o vingador de seu pai, segura, torna-se em um coquetel molotov na parte VI. Não conheço nada de equivalente a essa combinação de militância e memória na poesia brasileira, a essa imaginação literária da justiça.





Antologia 2020

a Juan Diuzeide


1

Montar uma bicicleta coxal / sair a passeio / levar
as medulas pelo DNA
extraído da irmã que busca poeta / não Tinajero
/ Evas / muitas Evas /
apropriadas / re-tratadas ou próximas a sê-lo
guidão em suas vértebras do dizer


2

Armar uma biblioteca sobre o golpe de 76 / fazê-la
arder ao agregar
a versão “40 anos depois, as causas do golpe
foram...”


3

Procurar o filho idiota de Videla / convidá-lo a
participar de Hijos com coletes.


4

Pre mortem: encontrar radiografia de fêmur 1973: chumbo de 22 intacto no fêmur esquerdo / Ezeiza / disparada enquanto / do palco Osinde lê Uivo de Ginsberg / alguém (ainda não sabemos) / lhe faz manicure.


5

Posmo-rtem: Caminhante de sombras / resto abatido entre tiras e ladrões exige devolução de seu olho azul / para buraco teia aranha em calota perfurada / “O tempo dos ossos é o tempo do vazio ou das pistas” (Franz Kafka. Diários).


6

Depois de vinte anos encontram o crânio de seu pai / só o crânio / por fim era seu / o apoiou sobre a mesa de luz para quando se desvelasse / diante do espelho falou o monólogo do Príncipe da Dinamarca / usou-o como cinzeiro / envolve-o em papel de jornal da época e até lhe desenhou um sorriso / em 2001 encheu-o de benzina e pano úmido lançou-o molotov em um tira / nele escreveu versos de Maiakóvski na frente onde mais tarde escondeu uma tiara com gravata nomenclatura / hoje limpo de novo na mesa de luz


7

Sonho com o ataúde do ex-presidente / Regresso à praça nessa tarde de outubro / volto à mesma fila / na sala, se abre o caixão / saem vários John Malkovich interpelando-me / queres ser a mim ou a nós? /A resposta vem da fila no fundo, onde outros Malkovich gritam: Acabou-se Hamlet, agora Hécuba!  


8

É necessário submergir nas profundidades e salvar o pai para converter-se em um menino real?


9

Antologia peronista 2020 / sonho que o General me encarrega de fazer a lista que vai trazê-lo de volta da Espanha / passo a colocar companheiros nas filas dos assentos do avião / poetas de uma futura antologia neo-urondiana / então o General exige paridade e não esqueça os neo-cafieristas / que esses têm que estar de qualquer jeito na comitiva de regresso / desperto quando recordo que meu pai estará esperando a chegada do avião / vão atirar nele do Palco / e ali está Osinde vociferando Howl / e um neocafierista que faz as mãos com uma lixa / enquanto / pensa em um poema para minha antologia 2020.    


10

Armar o arquivo das organizações revolucionárias / o museu mais completo da guerrilha armada / de todas as guilhotinas em que a palavra fraternidade tenha sido cortada / como margarita ou porco / arremessada sua cabeça de coágulo com pétalas de sujeira & sangue / um Facundo bárbaro e civilizado / operação saciedade ou a impossibilidade de sua leitura / para novas gerações adivinhas-tesouras / as que visitem o museu.

domingo, 24 de março de 2013

Desarquivando o Brasil LIII: Blogagem coletiva e Dia Internacional do Direito à Verdade

Hoje, Dia Internacional do Direito à Verdade, ocorreram várias manifestações. Em Buenos Aires, marcha contra a "impunidad de ayer y de hoy" (http://seminariogargarella.blogspot.com.br/2013/03/marcha.html).
O Brasil começou neste ano a oficialmente festejar a data, criada pela ONU em 2010, em homenagem ao arcebispo de El Salvar Óscar Romero, assassinado em 1980. No Rio de Janeiro e em São Paulo, artistas organizaram eventos para a comemoração. Nos dois lugares, a escritora e psicanalista Maria Rita Kehl, que é um dos membros da Comissão Nacional da Verdade, apresentou os trabalhos.
O dia também foi aproveitado para o lançamento da VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR. A jornalista Niara de Oliveira escreveu a chamada, esperando que outros blogueiros, como este, juntem-se à campanha: http://pimentacomlimao.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/
Quem não tiver um blogue próprio, poderá enviar um texto, que ele será publicado aqui: http://desarquivandobr.wordpress.com/
Pude apenas comparecer ao evento de São Paulo, que ocorreu na frente do Centro Universitário Maria Antônia, da USP, onde ficava a faculdade de filosofia dessa Universidade, e palco da conhecida batalha, em 1968, entre os seus estudantes, majoritariamente de esquerda, e os da Universidade Mackenzie, do outro lado da rua Maria Antônia. Nesta instituição, a direita dava as cartas; entre seus estudantes incluíam-se membros do Comando de Caça aos Comunistas, responsáveis pela morte do estudante secundarista José Carlos Guimarães (http://www.torturanuncamais-rj.org.br/MDDetalhes.asp?CodMortosDesaparecidos=23).

Maria Rita Kehl abriu os trabalhos e chamou José Miguel Wisnik e Celso Sim, cuja participação havia sido anunciada na coluna de Monica Bergamo (o sítio da CNV não os mencionava).
Wisnik (o músico, ensaísta, professor aposentado e ex-aluno da FFLCH) fez o discurso mais interessante do evento, contando suas memórias da antiga Faculdade de Filosofia da Maria Antônia. Explicou que ela dialogava com o mundo e preparava para ele, ao contrário de instituições de hoje que só preparam para o mercado. Tinha saudades do nome Maria Antônia, uma "potência feminina", tão diferente da sigla FFLCH, que lembrava FHC...

Ele relembrou nomes da USP que se engajaram na luta armada e morreram: Iara Iavelberg, Helenira Rezende e Suely Yumiko Kanayama. As duas últimas foram ao Araguaia e continuam desaparecidas, pois o Estado brasileiro segue descumprindo a sentença da OEA no caso Gomes Lund (http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2011/12/cumpra-se-ato-pelo-cumprimento-da.html).
 
Wisnik relembrou a despedida de Kanayama, que não chegou a lhe revelar abertamente que iria para a clandestinidade. Mas ele disse ter sentido o que aconteceria. Apesar de ele ter destacado o caso dela, na matéria da Rede Brasil Atual sobre o evento a militante e desaparecida não foi mencionada: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2013/03/dia-internacional-pelo-direito-a-verdade-reune-ativistas-e-artistas-em-sao-paulo
Ele fez ainda uma afirmação muito curiosa: os torturadores seriam um tipo de "desaparecido político", o "desaparecido covarde", pois não quer aparecer... Nessa categoria, incluir-se-iam os empresários que financiaram a repressão política.

Em seguida, ele e Celso Sim declamaram, a capella, composição de Wisnik e Jorge Mautner: "A liberdade é bonita/ Mas não é infinita/ Eu quero que você me acredite/ A liberdade é consciência do limite".

A Companhia do Latão, importante grupo, dirigido por Sérgio de Carvalho, assumiu então a frente do evento. Nesta página na internet, temos a ficha técnica da apresentação: https://www.facebook.com/Companhiadolatao. Ela se estruturou a partir do texto "As cinco dificuldades de dizer a verdade", de Brecht, escrito em 1934 contra os nazistas. Elas eram coragem, inteligência, arte (de manejá-la), discernimento (de escolher nas mãos de quem ela pode ser proveitosa), astúcia.
Tratava-se  de como instrumentalizar a verdade em favor da revolução. Poetas, só os engajados: os lamentosos não eram nem aliados nem inimigos.
Enfim, temos assim, novamente, a expulsão dos poetas de uma república, não agora a de Platão, mas desta outra república comunista, a de Brecht.

Não admira que o Latão tenha escolhido Brecht, muito pelo contrário. Trechos da Ópera dos Vivos e de Augusto Boal foram também cantados, com os mesmos problemas da interessante Ópera (ao lado, Adriana Mendonça, que cantou): um elogio sem nuances da luta armada (esse espetáculo é, teoricamente, uma aplicação cênica do questionável texto de Roberto Schwarz "Cultura e política, 1964-1969") e um didatismo marxista.
Dessa forma, ouvimos canções sobre a forma universal da mercadoria e sobre o conceito de valor de troca (cantada com sensibilidade por Ana Luiza). Foram também problemáticos a falta de humor e o tom panfletário do texto do Brecht, em mais um de seus momentos autoritários de pregação ao mundo e aos poetas.
Enfim, havia muita habilidade e experiência cênicas em conseguir apresentar aquele texto, que, em mãos menos talentosas, serviria apenas a uma leitura enfadonha. A direção musical e o piano de Martin Eikmeier contaram para o sucesso da ocasião.










Musicalmente, porém, o melhor foi a seção de canções latinoamericanas de protesto, com destaque a Violeta Parra. Não sei o nome da cantora, que foi esplêndida. Se alguém puder informar... Agradeço.




Juçara Marçal cantou, acompanhada do violão de Walter Garcia, e também foi muito aplaudida.






Outro momento forte foi a apresentação da rapper Roberta Estrela d'Alva, que eu não conhecia; ela iniciou com as  estatísticas de mortos e torturados na ditadura militar (incluindo uma referência aos processos do Ustra) e nos dias de hoje. Foram exemplos as vítimas da violência policial em São Paulo, no mês de maio de 2006, e a entrega de três jovens pelo Exército ao tráfico de drogas no Rio de Janeiro.
Nesse momento, no nível das escadarias, havia sido desfraldada a reprodução da imagem de várias mulheres que foram assassinadas pela ditadura militar.



Como na comemoração argentina, que era contra a impunidade de ontem e de hoje, Maria Rita Kehl chamou para falar Débora Maria, do Movimento Mães de Maio, que congrega os familiares das vítimas da violência policial em São Paulo (http://maesdemaio.blogspot.com.br/).




Essa  fala não estava programada, mas foi breve e eficaz, numa espécie de resumo do que ela discursou no lançamento do Periferia grita: Mães de Maio Mães do Cárcere (nesta nota, tratei do evento: http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/12/desarquivando-o-brasil-xlv-perseguidos.html). A bandeira das Mães foi exposta: "Justiça e liberdade/ Memória e verdade/ Contra o terrorismo do Estado".

O bloco do Ilú Obá De Min, com muita energia, encerrou o evento, que durou aproximadamente duas horas. Ao lado, vê-se um manifestante que, desde o início, segurava o cartaz contra o senador Renan Calheiros e o deputado-pastor Marco Feliciano. 




O deputado estadual Adriano Diogo (PT/SP), presidente da Comissão da Verdade "Rubens Paiva", assistiu a todo evento, bem como Ivan Seixas, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) e diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política (ele pode ser visto à direita, na penúltima foto). O público não era numeroso, mas nele pude identificar o estudioso de justiça de transição Renan Quinalha, que colabora com a Comissão "Rubens Paiva", participou da campanha para a aprovação da Comissão da USP e integra o IDEJUST.

Vi escritores e amigos presentes: além de Fabio Weintraub, estavam lá Donizete Galvão, Mario Rui Feliciani, Priscila Figueiredo, Renan Nuernberger e Ruy Proença.
O pesquisador da justiça de transição, Renan Quinalha, lá também estava.
Para terminar, relembro a chamada para a VII Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR, que durará até 3 de abril, com tuitaços nos dias 31 de março e 1º de abril a partir das 21 horas: http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/