O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco

30 dias de canções

Dia 4: Uma canção da memória reprimida

"Beco do Mota", de Milton Nascimento e Fernando Brant. Milton, este patrimônio vivo do país, a gravou no seu segundo disco no Brasil, e o terceiro de sua carreira. O segundo, Courage, gravou-o nos Estados Unidos com apoio de Eumir Deodato, quando as portas estavam fechadas para o jovem músico no Brasil.
O disco Milton Nascimento de 1969 era aberto com sua primeira gravação de "Sentinela" (no disco Sentinela, regravá-la-ia em ouras proporções, contando com o Coro de Beneditinos e Nana Caymmi), suficiente para provar que ele era um grande compositor, e que "Travessia", sucesso no II Festival Internacional da Canção, em 1967, não era um acidente de percurso.
Havia mais provas da excelência de Milton, evidentemente, e "Beco do Mota" era uma das canções novas. 
A música não atraiu a atenção da censura, leio no texto de Luiz Maciel no encarte do relançamento do disco, apesar do tema. Milton Nascimento e Fernando Brant falam da memória da antiga zona boêmia de Diamantina, próxima da igreja matriz e, por isso, arrasada no fim daquela década por iniciativa do arcebispo.
Milton, nesta apresentação em 2009, explicou para o público que o Beco do Mota "era o lugar onde viviam as senhoras de vida fácil, e dez metros do Beco do Mota tinha a porta da catedral de Diamantina" e contou que a interpretou para Juscelino Kubitschek, já cassado pela ditadura militar; JK entendeu, naturalmente, a canção e teria rido dizendo "Vocês são de morte, muito bem": https://www.youtube.com/watch?v=4vJzv32qMo8
JK seria morto pela ditadura (a despeito da Comissão Nacional da Verdade, que não investigou o crime, leiam o relatório do Grupo de Trabalho JK para Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva": http://verdadeaberta.org/relatorio/tomo-iv/downloads/IV_Tomo_Relatorio-sobre-a-morte-de-juscelino-kubitschek.pdf). Milton, que teve nessa época sua fase mais engajada politicamente, teria diversos problemas, inclusive censura de canções inteiras.
A obra de Milton Nascimento apresenta várias exemplos dessa memória resistente, que toma como objeto a ser cantado o que outros quiseram reprimir, ou destruir pela segunda vez por meio do esquecimento. Neste caso, o Beco, tomado como espaço dos marginalizados - os "homens e mulheres na noite desse meu país".
Outro exemplo célebre da memória resistente de Milton Nascimento e Fernando Brant é "Saudades dos aviões da Panair" ou "Conversando no bar". Essa canção, a partir do episódio do fechamento forçado dessa empresa de aviação pela ditadura militar, faz uma bela evocação de outras memórias, inclusive da infância. Quase a escolhi para esta nota dos 30 dias de canções.
Trata-se mesmo de uma postura ética de Milton Nascimento, penso, que pode ser constatada tanto nas composições próprias (em relação à memória da luta dos negros no Brasil, o exemplo maior talvez seja a "Missa dos Quilombos", escrita com outros resistentes: Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra), quanto na gravação de cantigas da tradição oral e na escolha de parceiros como Clementina de Jesus.


Milton, como se sabe, foi classificado entre os "artistas contestadores" pelos próprios órgãos de vigilância e repressão da ditadura. Ao lado, pode-se ver um documento que o classifica assim, de 12 de julho de 1977, que achei no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
A informação vinha da Polícia Militar de São Paulo e trata da censura a um espetáculo promovido pelo jornal Versus (periódico de esquerda, foi um dos mais combatidos pela ditadura) e da distribuição de exemplares do periódico nos arredores do Anhembi, onde as apresentações teriam ocorrido. Os outros artistas, também contestadores, eram Chico Buarque, Edu Lobo, MPB-4 e Bibi Ferreira.
Muitos anos depois, Milton, no belo disco que Leandro Braga dedicou à sua obra, Fé cegaregravou o "Beco do Mota" de forma serena, como lembrança distante; ouçam o que Leandro Braga inventa ao piano para encerrar liricamente a canção.
No entanto, a melhor interpretação, segundo Milton, é a de Selma Reis, grande cantora que morreu em dezembro de 2015 (meses depois de Fernando Brant, que faleceu em junho daquele ano). Eu a vi cantando ao vivo essa canção; ela o fez exatamente como nesta apresentação de 1990, que leva mais de seis minutos. Ela não estava preocupada em ser deglutida no fast food musical das rádios FM...
A tevê, no especial, cortou a introdução instrumental, trocando-a pelos comentários de Milton Nascimento sobre a cantora. Antes, mostrava-se Selma Reis interpretando "Meu veneno" com Milton ao violão, uma das parcerias do compositor com Ferreira Gullar, que ela havia gravado em um de seus primeiros discos, há muito fora de catálogo.
De "Beco do Mota", ela retirou a breve ladainha inicial da primeira gravação de Milton (e que ele mesmo dispensaria depois), mas o tempo largo adotado substituiu-a, penso, na evocação da religiosidade. Um tempo desses, que só pode ser encarado por cantores com uma técnica respiratória exemplar, é favorável também para a declamação e para os detalhes; ouçam a delicadeza dos agudos em "arquidiocese" e "noite"; a indignação com que ela diz da noite "colonial vazia".
O que ela faz com a estrutura da música parece-me atender com mais exatidão a letra de Fernando Brant do que o arranjo original. Ela acentua o contraste entre as estrofes que evocam "os homens e as mulheres na noite", mais lentas, e a que trata do fim do Beco: "Nesta praça não me esqueço"; "Acabaram com o beco/ Mas ninguém vai lá morar/ Cheio de lembranças vem o povo/ Do fundo escuro beco/ Nesta clara praça se dissolver". 
Com a intensidade da voz deste contralto, o final da música, uma gradação em que Diamantina, Minas Gerais e, por fim, o Brasil, são identificados ao Beco do Mota, é levado a proporções épicas. Na última vez, "Mota" fica à beira do grito (ela sempre fazia assim, não foi um acidente dessa apresentação), e "viva o meu país" é dito com uma indignação que cala qualquer ufanismo e joga na cara da plateia a denúncia.
No disco O preço de uma vida, foi cortada uma das repetições que ela fazia, e o arranjo datado atrapalha a interpretação; prefiro a regravação de Selma Reis no disco "Todo o sentimento".
Como a obsolescência programada da indústria cultural faz apagar a memória da música brasileira, lembro aqui dos dois melhores discos, para mim, da cantora: A minha homenagem ao Poeta da Voz, dedicado a Paulo César Pinheiro, em que ela vai da mandinga à canção romântica e ao samba (com os parceiros Robertinho Silva, Diogo Nogueira em música de João Nogueira, e Beth Carvalho em um dos maiores sucessos de Clara Nunes), e o disco que fez para Gonzaguinha (Achados e perdidos), em que a variedade vocal da cantora está à altura da riqueza da obra do compositor: paródia de opereta, canções românticas, canções sociais, samba, ritmos do Nordeste (com uma intensa gravação de "Galope"), ela podia cantar tudo, inclusive imitar a voz masculina na sátira social "A cidade contra o crime".

Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

30 dias de canções: O céu, o mar, a umbanda

30 dias de canções
Dia 3: Uma canção que faz lembrar a natureza

Um ponto de Ogum, "Se o céu é lindo", de autor anônimo. 
Nunca ouvi este ponto em terreiro (um lugar que poucas vezes estive), e sim em casa. Aprendi-o com esta letra: "Se o céu é lindo/ O mar também é/ Aonde vais cachoeira/ Vou derramar/ Toda esta mironga/ Nas ondas do mar." A mironga (palavra que vem do quibundo, um dos idiomas bantos), no caso, é o feitiço.
Como se trata de música da tradição oral, há mais de uma versão. Encontrei outra letra neste outro blogue, que menciona explicitamente o Beira Mar e a Rainha do Mar (Iemanjá, evidentemente): http://reidospontos.blogspot.com.br/p/pontos-de-ogum.html
Ogum, o orixá guerreiro, ligado ao ferro e às ferramentas, comanda, na tradição da umbanda, a chamada Linha de Ogum, que é, segundo o livro Cantigas de umbanda e candomblé (Pallas Editora: São Paulo, 2008), "constituída por espíritos guerreiros que defendem os filhos-de-fé contra lutas e demandas".
Uma das sete legiões em que se organizam esses espíritos, segundo a mesma obra, é a "Legião do Povo do Mar, chefiada por Ogum Beira-Mar e relacionada à linha de Iemanjá". Este ponto está ligado a Ogum Beira-Mar.
A umbanda, que completará 110 anos em 2018, além de se reivindicar "mestiça como o povo brasileiro", combinando elementos de religiões africanas, ameríndias e do cristianismo, herdou das duas primeiras tradições uma profunda ligação com a natureza. 
Em muitos dos pontos de umbanda, não se trata, na verdade, apenas de mera lembrança da natureza, mas de afirmação de pertencimento.
Lembro Roberto Piva e o contraponto que ele fazia entre as religiões do deserto, que era como chamava o judaísmo e as que dele vieram (as tradições cristãs e islâmicas), e as religiões da floresta. Como poeta-xamã, ele preferia as da floresta e combatia as moralidades do deserto.
O volume Roberto Piva da Coleção Postal das editoras Azougue Editorial e Cozinha Experimental, publicado em 2016, inclui um poema, "Meditações de emergência 1", em que alerta, bem de acordo com aquela dicotomia, contra o deserto: "África prepara o batuque das auroras/ África prepara as zagaias da poesia/ as ruas asfaltadas do fim do mundo/ os escorpiões aninhando-se na palma da mão/ como nuvens/ você que vai me amar neste ano de 1979/ cuidado com os inventores do deserto".
Li, por causa, desta nota, um artigo de Diamantino Fernandes Trindade, "O uso indevido dos pontos cantados de umbanda" (no livro organizado por ele e Ronaldo Antonio Linares, Memórias da Umbanda do Brasil, editado pela Ícone em 2011; a maior parte desse capítulo está nesta ligação). As gravações para divulgação da umbanda são elogiadas; nessa categoria, o autor destaca Martinho da Vila, Noriel Vilela e Ronnie Von. Ele critica os que usaram melodias dos pontos para compor canções com outros fins, como Lamartine Babo teria feito.
Para ouvir o ponto, portanto, pode-se, espero que devidamente, clicar nesta ligação.

Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza



segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

De interino a provisório? Michel Temer no Postas de Pescada

O jornal português Postas de Pescada, editado por Ana Biscaia e Emanuel Carneira em Coimbra, pediu-me um pequeno artigo sobre a situação política no Brasil. Resolvi escrever sobre a eventual (no artigo, futura) queda de Michel Temer.
Foi publicado à página 10 do número 10 do jornal, de dezembro de 2016. Como sempre, basta clicar sobre a imagem para ampliá-la, ou abri-la em outra janela.




De interino a provisório? Michel Temer na presidência do Brasil



No Brasil, após o impeachment de Dilma Rousseff, reeleita em 2014 pelo Partido dos Trabalhadores (PT), seu vice, Michel Temer, do Partido Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), assumiu a presidência. Tão ínfimo como poeta quanto estadista, está em posição frágil: os mesmos parlamentares que o entronizaram podem derrubá-lo, seja com as mesmas alegações de irregularidades orçamentárias que derrubaram a presidenta, seja com os escândalos do novo governo, cujo ministério foi majoritariamente escolhido entre suspeitos, investigados e réus. Ele pode ser cassado também pelo Tribunal Superior Eleitoral, se for julgada a ação de irregularidades das contas eleitorais de 2014.
As evidentes ilegitimidade e incapacidade de Temer fazem que evite aparecer em público, apesar da proteção que ainda vem recebendo de grandes meios de comunicação.
Nas duas arenas, a do sistema político e a das ruas, ele está acuado. Dilma Rousseff caiu após perder ambas, mesmo tendo se inclinado para a direita. As concessões ao latifúndio e a outros grupos conservadores eram defendidas pelo PT como condições de “governabilidade”, tão eficiente que fez o partido perder o governo.
Outro fator que torna improvável a permanência de Temer é a previsão constitucional de eleições indiretas se ele cair durante os dois últimos anos do mandato. Elas poderiam levar ao poder um nome do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), derrotado em 2014, que hoje participa do governo.
A derrubada não viria de divergência ideológica, mas da disputa pelo saque do que é público ou comum. Temer adotou a agenda da plutocracia, com desmanche dos direitos sociais, acelerando o que o PT já estava a fazer. O Congresso segue pauta idêntica, com projetos para congelar por vinte anos investimentos sociais, cortar direitos trabalhistas, espoliar terras indígenas e de comunidades quilombolas, e anistiar crimes econômicos e eleitorais, em reação das elites às investigações da Operação Lava-Jato.
Essa Operação levou à prisão de grandes empresários que há anos corrompiam e financiavam a elite política. Inicialmente atingiu o PT, chegando a ponto da divulgação na tevê de telefonema entre Rousseff a Lula, gravado ilicitamente, em momento de espetacularização da Justiça. Agora, ela ameaça outros partidos.
A realização de eleição indireta para a presidência, a primeira desde a ditadura militar, dispensaria a atuação das Forças Armadas? Em algum momento elas seriam necessárias para a repressão: embora certos grupos (como o “Movimento Brasil Livre”, MBL) que organizaram as manifestações contra Rousseff sejam financiados pelos partidos que estão no poder, é certo que as ruas reagiriam a esta nova cassação do povo brasileiro.

30 dias de canções: Números do trabalho, não da riqueza

30 dias de canções
Dia 2: Uma canção com número no título

"Três apitos", de Noel Rosa. Outro dos sambas de Noel que só foi gravado depois da morte do autor ("Pela décima vez", que eu quase escolhi para esta nota, é outro exemplo). Escrito em 1933, Aracy de Almeida lançou-o em 1951, numa das gravações que levaram à redescoberta do genial compositor, que morreu com apenas 26 anos.
Ouçam o uso do portamento pela cantora já no primeiro agudo, no começo da música: "Quando o apiiito". A cantora não ataca diretamente a nota, ela desliza levemente para chegar na altura desejada. Ainda hoje, os sambistas gostam de temperar seu canto com o portamento em vez de usar um estilo mais objetivo, de atacar direto a nota.

Na importante caixa "Noel pela primeira vez" (que apresenta 229 versões originais das canções de noel, inclusive com o próprio autor), organizada por Omar Jubran, além da gravação de Aracy, temos a de Orlando Silva. Ela é do mesmo ano da composição, mas não havia sido lançada em disco. O cantor corta parte da letra e também canta com portamentos.
Ela, mais velha, e com outra voz, conservava o estilo, e nele Noel certamente se reconheceria.
Tom Jobim, que conhecia muito bem a tradição do samba, mas vinha de outra formação musical, cantou "Três apitos" de forma muito diferente; ouçam-no e comparem o começo da música com ele e com Aracy. Ele ataca diretamente as notas, o que o faz soar mais moderno.A música é muito bonita e já encontrou intérpretes tão diferentes quanto Elizeth Cardoso, Ney Matogrosso, Zé Renato e Zélia Duncan. Uma de suas originalidades está na letra, na forma como a canção de amor com elementos da canção de trabalho. O título logo remete para o mundo do trabalho: trata-se do aviso para as operárias da indústria têxtil. "Você que atende ao apito/ De uma chaminé de barro/ Por que não atende ao grito/ Tão aflito da buzina do meu carro?".
O ciume também está relacionado ao mundo do trabalho: o suposto rival é o "gerente impertinente"; ele quer virar "guarda noturno", "E você sabe por quê". Com esses tipos da cidade, "Três apitos" possui também o caráter de crônica urbana, tão presente na música de Noel Rosa. 
Na canção, o eu lírico sempre se dirige à amada, o que lhe permite um gesto metalinguístico divertido, referindo-se à própria canção que estamos ouvindo como se estivesse sendo feita enquanto é interpretada: "Mas você não sabe/ que enquanto você faz pano/ Faço junto do piano/ Estes versos pra você".Fazer pano, fazer música: temos aí o sambista, homem da noite, que se apresenta tão deslocado dos ideais burgueses ("Sou do sereno/ Poeta muito soturno") quanto a amada proletária. Com isso, lembramos do Noel de canções como "Filosofia", com a contraposição entre o sambista (realmente, uma figura ainda bem marginal nessa época, mesmo considerando o casamento que Noel fez) e o que chama de "aristocracia". Os números do título são os do chamado ao trabalho, e não os da riqueza.
Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico

sábado, 28 de janeiro de 2017

30 dias de canções: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico

30 dias de canções
Dia 1: Uma canção com uma cor no título

Até mais de uma cor: duas. "Retrato em branco e preto", de Tom Jobim e Chico Buarque. Ou nenhuma, de certa forma: se o retrato é em branco e preto, não é colorido.
Antes de a parceria com Chico Buarque existir, Tom Jobim havia composto e gravado um tema instrumental a que deu o título "Zingaro"; está no disco "A certain Mr. Jobim", de 1967. O arranjo é de Claus Ogerman.
Jobim, em 1968, acabou oferecendo o tema para o jovem Chico Buarque letrá-lo, no que se tornou a primeira canção da parceria, uma das mais notáveis da música brasileira. Ademais, trata-se de uma das melhores canções da dupla. 
Helena Jobim, no livro sobre seu irmão, Antonio Carlos Jobim: Um Homem Iluminado, escreveu que Jobim telefonou para Chico Buarque ir a sua casa e tocou-lhe diversas vezes "Zingaro"; a música foi gravada em fita para Chico Buarque criar os versos sozinho, o que fez em "poucos dias". Ele a gravou naquele mesmo ano, em arranjo do maestro Gaya.
Vejam a partitura, em arranjo de Paulo Jobim, no portal do Instituto Antonio Carlos Jobim.
Com a entrada de Chico Buarque, o título e o clima da música mudaram completamente: a nova música agora trata de um amor que não deu certo, mas a que se está aprisionado. Esse amor "que eu nego tanto" e que "volta a sempre a enfeitiçar/ Com seus mesmos tristes velhos fatos,/ que num álbum de retratos, eu teimo em colecionar". 
O desacerto psíquico é dado pela sintaxe; a certa altura, um vocativo interrompe uma enumeração que descreve o seu estado : "Novos dias tristes, noites claras/ Versos, cartas, minha cara,/ Ainda volto a lhe escrever". O que exatamente ocorreu? Um dos elementos geniais da letra é jamais contar o que foram os "tristes velhos fatos", não precisar fazê-lo: "Eu trago o peito tão marcado/ De lembranças do passado/ E você sabe a razão". Trata-se quase do funcionamento dos mecanismos do trauma.
O intérprete desta canção deve ficar muito atento: as frases musicais sobem e descem de forma quase tão sutil quanto "O último desejo" de Noel Rosa.
O título aparece apenas no penúltimo verso. Por que em branco e preto, se todos falam "em preto e branco"? Isso teria incomodado Tom Jobim, segundo li no texto de José Ruy Gandra para a reedição do disco Chico Buarque de Hollanda - Volume 3, em que o compositor a gravou. Chico Buarque teria respondido com isto: "Vou colecionar mais um tamanco/ Outro retrato em preto e branco".
É certo que retrato em "branco e preto" apresenta uma singularidade que o cotidiano "em preto e branco" não tem, chamando a atenção para o título e sugerindo, creio, a desolação. Cotidiano, de fato: a foto em branco e preto, nos anos 1960 no Brasil, era muito mais comum que a foto colorida.
A história, no entanto, chama a atenção para outra questão: o foco da letra talvez fosse a palavra soneto e, por isso, o compositor não quisesse dispensar a palavra da rima - preto - que teria que ficar no final.
A imagem da coleção de sonetos também é invulgar. A letra não adota essa forma poética. Se o soneto era tão necessário a Chico Buarque, talvez fosse por influência ou alusão a outro parceiro de Tom Jobim, mais velho e mais célebre, e com cuja sombra o jovem compositor teria que se defrontar: o poeta e conhecido sonetista Vinicius de Moraes (por sinal, Tom Jobim já havia musicado o "Soneto da separação").
Como os compositores interpretaram a canção? Chico Buarque gravou a música com um canto macio, sem tensões. No histórico disco de 1974, Elis e Tom, a abertura dramática do arranjo de César Camargo Mariano, com cordas e o piano de Jobim, faz o canto de Elis Regina parecer ainda mais desconcertante: a dinâmica vocal nunca vai para o forte (o que é surpreendente tratando-se desta cantora, mas não neste disco), a maior parte do tempo a voz é mantida em baixo volume. No entanto, a emissão marcada de certas notas impede qualquer sensação de serenidade, ao contrário do que ocorre com Chico Buarque. Essas duas particularidades da interpretação de Elis Regina deixam a impressão de uma dor muito interiorizada, um lamento que não pode ser dito em voz alta. Quando ela se cala e o piano e as cordas fecham a música, o drama volta ser explícito e o clima lembra o de Chausson na "Chanson perpétuelle". Por sinal, Tom Jobim, pelo que li, ouvia muito a música francesa dessa época.
Evidentemente, os intérpretes não precisam, neste estilo, se prender à intenção dos compositores. Uma interpretação completamente diferente dessas duas é a de Ney Matogrosso e Raphael Rabello em "À flor da pele", disco de 1990. Eu vi ambos ao vivo interpretando essa canção exatamente como o fizeram no disco: contrastes de dinâmica (tanto no violão quanto na voz), notas em marcato, num discurso exacerbado (que, é claro, chocará os que preferem a interpretação suave, com os graves falados e os agudos omitidos ou enrouquecidos, de João Gilberto) que leva, no 24o. compasso da partitura segundo Paulo Jobim, a um salto para o agudo em uma frase que deveria descer, culminando em um belo agudo em falsete na palavra "razão". 
Razão; justamente o que a canção não diz (isto é, o motivo do fracasso daquele amor), e que o eu lírico, ali, parece estar à beira de perder.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

30 dias de canções: um desafio em tempos de fim da canção?

Vi diversas pessoas escrevendo a partir de um "Desafio 30 dias de música". Fui conferir do que se tratava e percebi que o título era muito enganoso, extremamente redutor: apesar da referência genérica a "música", ele só envolve uma forma musical, a canção.
Como essa forma é a mais comercialmente rentável, esse reducionismo, pensei, também seria nefasto em termos estéticos e de política cultural, pois significaria colocar na sombra outras manifestações musicais. Não cogitei participar, em um primeiro momento. Ademais, provavelmente a melhor parte do que se compõe no Brasil hoje está nos diversos gêneros da música instrumental.
No entanto, como a canção anda meio por baixo, e Chico Buarque, autor de tantos célebres exemplos, chegou até a falar no esgotamento dessa forma, e também porque eu gosto de listas (participei há poucos anos de algo parecido, "30 livros em um mês", que era muito mais bem pensado, pois envolvia vários gêneros), resolvi participar para também... espairecer. Música sempre pode consolar quando tudo está pesado. E inspirar, quem sabe, novos movimentos.
Chico Buarque, naquela famosa entrevista publicada pela Folha de S.Paulo em 26 de dezembro de 2004, "A canção, o rap, Tom e Cuba, segundo Chico", viu no surgimento do rap, que ele achava "muito interessante", o sinal de que o tempo da canção tinha passado:
E há quem sustente isso: como a ópera, a música lírica, foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido.
Noel Rosa formatou essa música nos anos 30. Ela vigora até os anos 50 e aí vem a bossa nova, que remodela tudo -e pronto. Se você reparar, a própria bossa nova, o quanto é popular ainda hoje, travestida, disfarçada, transformada em drum'n'bass.
Essa tendência de compilar e reciclar os antigos compositores de certa forma abafa o pessoal novo. Se as pessoas não querem ouvir as músicas novas dos velhos compositores, por que vão querer ouvir as músicas novas dos novos compositores? Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou. 
É interessante ver um artista constatando sua própria obsolescência. Alguns reagiram a isso calando-se, como Rossini, que preferiu aposentar-se da ópera em pleno auge, com Guilherme Tell - ele sabia que o Romantismo vinha, e que até mesmo os estilos vocais se alterariam.
Outros, como o próprio Chico Buarque, simplesmente dedicam-se a tentar aprimorar a forma ou o estilo em que se formaram. Acho válido esse caminho, e interessante pelo que também pode representar como resistência. Vejam que continuam surgindo novos compositores, apesar de ser cada vez mais difícil ser ouvido.
A não ser que... você siga a moda. E nada é mais questão de moda do que a indústria da música. comprova-o o fato de o tempo do rap, como ritmo da moda, também já ter passado, provavelmente muito mais rápido do que Chico Buarque poderia ter imaginado em 2004. Este texto de Marco Antonio Barbosa (descobri-o porque Idelber Avelar chamou atenção para ele), "Como fazer sucesso nas rádios brasileiras", faz uma breve análise das músicas que mais tocaram nas rádios brasileiras em 2016, e noventa por cento eram canções pop sertanejas: "Hip hop, rock, EDM, tecnobrega, axé e MPB nem aparecem na lista."
A canção continua sendo lucrativa, não obstante a crise da indústria musical. Em texto posterior, "Ainda sobre o sertanejo e as músicas mais tocadas de 2016", Marco Antonio Barbosa trata de problemas que podem levar ao refluxo dessa moda no futuro: o gênero "apresenta certos problemas estéticos/líricos que se traduzem na rejeição de grande parte do público que consome música “séria” (e que já abandonou as rádios FMs há tempos). Por investir em uma imagem e uma poética tão estritas (a vestimenta country, o vocal característico, as letras monotemáticas), o sertanejo acaba limitando seu poder de expansão".
Ainda mais importante a destacar do que essa questão da uniformidade musical, parece-me, é a dominação dos meios de comunicação, sem a qual aquela uniformidade não poderia se impor orelhas abaixo ao público. Os meios de comunicação estruturam-se segundo a lógica do latifúndio (cujo nome foi "higienizado" para agronegócio nesses grandes meios, com ele coniventes), e que determina a monocultura musical: dos dez primeiros da lista, nove pertencem à Som Libre, isto é, à Globo.
É muito previsível que toquem muito nas rádios e na televisão: a lógica do oligopólio preside a indústria cultural, com todos os prejuízos estéticos e democráticos decorrentes dessa monocultura politicamente conformista e musicalmente previsível.
Li compositores mais antigos reclamando do atual estado de coisas, mesmo os de maior sucesso popular. Rita Lee, na interessante autobiografia que lançou ano passado (infelizmente mal editada pela Editora Globo), escreveu que, se fosse da nova geração, teria muita dificuldade em surgir nos dias de hoje, já que o "dinheiro" domina os meios de divulgação.
Deve-se pensar, portanto, o quanto uma possível crise da canção, ou até mesmo da música brasileira, está ligada à estrutura antidemocrática dos meios de comunicação no país, o que é um problema que estamos longe de resolver.

O desafio de 30 dias de canções, portanto, não deixa de ser interessante em termos musicais e políticos.
Parece-me evidente que a escolha da canção para cada dia tem menos interesse do que a motivação para a escolha; por sinal, a mesma música pode ser indicada por razões contraditórias. Vi pessoas que apenas indicavam o nome da música (alguns, sem mencionar o compositor, procedimento lamentavelmente desrespeitoso), fugindo de realmente responder ao desafio. Eu darei minhas modestas razões de mero ouvinte, que talvez interessem, apesar de tudo, por serem o retrato das impressões de um leigo.
Ao lado, vejam a lista original. Resolvi adaptá-la, sem mudar muita coisa (eu criaria outras categorias, mas isso seria estabelecer outro desafio), aos meus interesses em música.
O desafio dos livros, comecei-o em sete de setembro e só terminei em vinte de outubro... Imagino que não conseguirei escrever todos os dias também desta vez; ainda nem mesmo tenho ideia do que escolherei para pelo menos metade das categorias.
Tentarei não repetir compositores, pois há tantos e os meus favoritos não cabem em trinta dias.

Dia 1: Uma canção com uma cor no título
Dia 2: Uma canção com número no título
Dia 3: Uma canção que faz lembrar a natureza
Dia 4: Uma canção da memória reprimida
Dia 5: Uma canção que precisa ser tocada baixo
Dia 6: Uma canção que faz você querer dançar
Dia 7: Uma canção de luta
Dia 8: Uma canção sobre drogas, legais ou não
Dia 9: Uma canção sobre a felicidade
Dia 10: Uma canção sobre a tristeza
Dia 11: Uma canção de que você não se cansa
Dia 12: Uma canção da infância
Dia 13: Uma de suas canções favoritas dos anos 70
Dia 14: Uma canção que você gostaria de ter tocado (ou tocar) em seu casamento
Dia 15: Uma canção que evoca outras artes
Dia 16: Uma canção clássica para você
Dia 17: Uma canção em dueto
Dia 18: Uma canção na qual você gostaria de ter nascido
Dia 19: Uma canção que quer ser a própria vida
Dia 20: Uma canção que destrói o sentido
Dia 21: Uma canção favorita com um nome próprio no título
Dia 22: Uma canção e uma revolução
Dia 23: Uma canção que você acha que todos deveriam ouvir
Dia 24: Uma canção cujos compositores ainda deveriam trabalhar juntos
Dia 25: Uma canção cujo intérprete pode ser considerado coautor
Dia 26: Uma canção que cancela as paixões
Dia 27: Uma canção que cancela as canções
Dia 28: Uma canção de um artista cuja voz você ama
Dia 29: Uma canção improvavelmente composta
Dia 30: Uma canção que faz lembrar o mundo