O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Desarquivando o Brasil CXCI: Passado e futuro da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos

O novo Ministro de Direitos Humanos, o advogado Sílvio Almeida, em seu discurso de posse, tratou de suas competências no campo da justiça de transição: "minha primeira mensagem é a reverência à luta por memória, verdade e justiça". Mencionou com respeito os anistiados e ainda se referiu à tentativa de extinção (ilegal) da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos pelo governo de Jair Bolsonaro, prometendo reformulá-la. Parecem-me boas indicações para o futuro.

A Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos foi descaracterizada pelo governo Bolsonaro e acabou não cumprindo as atribuições determinadas pela Lei 9.140, que a instituiu. Imagino que o não cumprimento desses deveres será objeto de investigação da nova administração. Criada no governo de Fernando Henrique Cardoso diante das exigências dos movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos, ela deveria cumprir estas competências determinadas pela Lei:


Art. 4º Fica criada Comissão Especial que, face às circunstâncias descritas no art. 1º desta Lei, assim como diante da situação política nacional compreendida no período de 2 de setembro de 1961 a 5 de outubro de 1988, tem as seguintes atribuições: 
I - proceder ao reconhecimento de pessoas:
a) desaparecidas, não relacionadas no Anexo I desta Lei;
b) que, por terem participado, ou por terem sido acusadas de participação, em atividades políticas, tenham falecido por causas não-naturais, em dependências policiais ou assemelhadas; 
c) que tenham falecido em virtude de repressão policial sofrida em manifestações públicas ou em conflitos armados com agentes do poder público;
d) que tenham falecido em decorrência de suicídio praticado na iminência de serem presas ou em decorrência de sequelas psicológicas resultantes de atos de tortura praticados por agentes do poder público; 
II - envidar esforços para a localização dos corpos de pessoas desaparecidas no caso de existência de indícios quanto ao local em que possam estar depositados;
III - emitir parecer sobre os requerimentos relativos a indenização que venham a ser formulados pelas pessoas mencionadas no art. 10 desta Lei.

O governo Bolsonaro havia, já em 31 de julho de 2019, indicado membros que haviam manifestado posições simpáticas à ditadura militar, segundo o Ministério Público Federal, o que incluía o deputado federal (reeleito em 2022) Filipe Barros e o próprio novo presidente, o advogado e procurador do Município de Taió, Marco Vinicius Pereira de Carvalho, que era assessor da então Ministra Damares Alves. 

Filmei no Seminário 40 anos da Lei de Anistia, que ajudei a organizar em São Paulo em agosto daquele mesmo ano, trechos da fala da Procuradora da República Eugênia Gonzaga, a antecessora de Pereira de Carvalho. Entre outras coisas, ela revelou que o seu sucessor tentou impedi-la de entregar as certidões da Comissão às famílias de mortos, tendo-lhe enviado uma esdrúxula notificação "com prazo com início retroativo". Gonzaga não se deixou intimidar, porém, e as famílias receberam o que lhes pertencia. 

Ela ainda lembrou que, quando Bolsonaro disse, também em 2019, inverdades sobre o desaparecido político Fernando Santa Cruz, "parecia que eu estava ouvindo o Curió falando, era realmente a tal da contrainformação [...] a tentativa de desqualificar a vítima". O Major Curió, um dos responsáveis pelos crimes de lesa-humanidade no Araguaia segundo o Ministério Público Federal, que propôs contra ele várias denúncias criminais, foi um dos autores de graves violações de direitos humanos elencados pela Comissão Nacional da Verdade. Foi recebido pessoalmente por Bolsonaro em 2020: afinal, desde as declarações de seu líder, o governo passado anunciava-se, sem pudor ou medo de sanções jurídicas, fora da lei no campo da justiça de transição.

Ao arrepio da Lei, desqualificando novamente as vítimas e a memória social do país, esse governo, já em decomposição desde pelo menos o fim do segundo turno das eleições de 2022, decidiu extinguir a Comissão em 15 de dezembro de 2022, apesar da recomendação do Ministério Público Federal de que não o fizesse, assinada em primeiro de julho de 2022 pelas Procuradoras da República Luciana Loureiro Oliveira e Marcia Brandão Zollinger. Cito o trecho com as recomendações:


a) ao Presidente da CEMDP, ora vinculada ao Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos que, enquanto não esgotadas as competências previstas no art. 4º da Lei 9.140/1995; enquanto não cumpridas as obrigações assumidas pelo Estado brasileiro perante a CIDH nos casos Gomes Lund e Vladimir Herzog; e enquanto não efetivadas as recomendações expedidas pela Comissão Nacional da Verdade, em seu Relatório Final (mencionadas neste documento), se abstenha de propor e/ou aprovar a extinção da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos;
b) à Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos que adote providências para impedir a extinção da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, bem assim para assegurar, física e financeiramente, o seu adequado funcionamento, enquanto não esgotadas as competências previstas no art. 4º da Lei 9.140/1995; enquanto não cumpridas as obrigações assumidas pelo Estado brasileiro perante a CIDH nos casos Gomes Lund e Vladimir Herzog; e enquanto não efetivadas as recomendações expedidas pela Comissão Nacional da Verdade, em seu Relatório Final (mencionadas neste documento);
Requisita, ainda, no prazo de 10 (dez) dias contados do recebimento do presente documento, resposta dos órgãos destinatários acerca do acatamento desta Recomendação.

A recomendação, elaborada depois de representação encaminhada em junho pela Comissão Arnsfoi reiterada pelo Ministério Público Federal em 8 de dezembro de 2022, novamente depois de representação daquela Comissão. Ressalte-se nela a importância determinante para a justiça de transição no Brasil da ação movida por outro movimento da sociedade civil, a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, no âmbito do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. A condenação do Estado brasileiro em 2010 no caso Gomes Lund e Outros (o chamado caso da Guerrilha do Araguaia) abriu o caminho para a Lei de Acesso à Informações, às comissões da verdade e a novos processos, nacionais e internacionais, entre eles o Caso Herzog na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que gerou nova condenação ao Brasil.

Felizmente, a gestão que fazia questão de desprezar a observância dessas normas jurídicas foi derrotada. Com o novo governo Lula, na estrutura do Ministério de Direitos Humanos foi criada para uma assessoria de "democracia, memória e verdade"; note-se que não coube no cargo a palavra justiça. Ela já não cabia no último Plano Nacional de Direitos Humanos, o terceiro, de 2009. O sexto eixo orientador do Plano, fruto da luta da sociedade civil contra interesses de corporações do Estado brasileiro (Amelinha Teles sempre conta que ele só conseguiu ser aprovado, apesar da oposição dos representantes das Forças Armadas e do Itamaraty, por causa do apoio do movimento negro, que deseja uma comissão da verdade para apurar os crimes da escravidão), só conseguiu ser aprovado sem a palavra "justiça". Relembro o Decreto 7.037, de 21 de dezembro de 2009:  


Art. 2o  O PNDH-3 será implementado de acordo com os seguintes eixos orientadores e suas respectivas diretrizes:
[...]
VI - Eixo Orientador VI: Direito à Memória e à Verdade:
a) Diretriz 23: Reconhecimento da memória e da verdade como Direito Humano da cidadania e dever do Estado;
b) Diretriz 24: Preservação da memória histórica e construção pública da verdade; e
c) Diretriz 25: Modernização da legislação relacionada com promoção do direito à memória e à verdade, fortalecendo a democracia.


Trata-se de impasses que vieram do passado. Até que ponto a justiça será adiada? Por que tanta resistência do Estado brasileiro a cumprir suas próprias leis e o Direito Internacional? A defesa dos crimes de lesa-humanidade da ditadura e seus agentes, que parece ter-se tornado uma finalidade mais ou menos informal das instituições, gerava preocupações oficiais já durante o regime autoritário. Há vários exemplos nos documentos dos órgãos de informação. Em maio de 1979, o SNI continuava a monitorar o movimento pela anistia, que prosseguiu mesmo depois de a ditadura fazer aprovar seu projeto de lei no Congresso Nacional. Neste momento, o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA) apoiava a criação de uma CPI dos direitos humanos que investigasse os desaparecimentos forçados e as execuções extrajudiciais promovidas pelo governo. Esta é cópia do panfleto:




Assina Eny Raimundo Moreira, a advogada que, além desta campanha e da advocacia para presos políticos, ajudou a organizar o projeto Brasil: Nunca Mais.

Esses apelos de justiça eram chamados, despudoradamente, de "revanchismo". Nesta Apreciação de 1981 do SNI, no campo relativo a esse tema, vemos listados como revanchistas as reações ao atentado cometido contra o advogado Dalmo Dallari (falecido em 2022), jamais esclarecido, à tortura e à execução extrajudicial de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, à tortura e ao desaparecimento forçado de Rubens Paiva (note-se que o SNI, tão bem informado, não sabia escrever o nome do deputado), bem como as denúncias contra o médico Harry Shibata, que assinou laudos falsos para a repressão.



Todos esses documentos encontram-se no Arquivo Nacional.

Revanchismo é palavra que voltou a frequentar o noticiário político. Não é de estranhar-se, contudo, que os veículos de comunicação e os políticos ligados ou simpáticos à extrema-direita de hoje tenham retornado ao termo com que os criminosos de ontem queriam usar para rebater as reivindicações de justiça da época da ditadura. Trata-se de continuidades no autoritarismo e no crime.

É indigna a equiparação entre as demandas de justiça, de um lado, e, de outro, os crimes cometidos por ou com a cumplicidade do Estado brasileiro. No entanto, ela é realizada por aqueles que tentam sustentar a qualificação de "revanchismo" aos familiares de mortos e desaparecidos no passado, ou para quem deseja a punição de crimes que tenham sido cometidos pela última gestão federal. Por trás dessa indignidade, parece-me estar a chamada teoria dos dois demônios, apelidada por alguns de "doisladismo" na versão brasileira desta forma de criminalização das vítimas que, esperamos, o novo governo Lula combaterá.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Universos paralelos da educação XIV: provas para professores

Com toda humildade, esta instituição sente-se muito honrada pelo interesse dos senhores de nela ingressar. Permitam-me explicar as regras. Os candidatos farão a prova ao computador. Terão uma primeira hora de consulta, durante a qual poderão fazer anotações em arquivo digital nos computadores disponibilizados pela faculdade. Depois, essas anotações serão impressas por nosso pessoal administrativo e os arquivos, apagados dos computadores. Os candidatos responderão à prova escrita somente com essas folhas impressas. No meu tempo, não era assim, escrevíamos tudo à mão, os avanços tecnológicos são muito auspiciosos. Tudo muda, a educação também tem que mudar!

Creio que o regulamento permite consulta a todos os meios na primeira hora. Impressos e digitais. É mais internacional. Sem acesso à internet  ressalte-se. Com o uso de pen drive, evidente, para os livros eletrônicos. Viva o progresso, aliás, inscrito na bandeira pátria. Não vedaremos o uso de anotações pessoais. Sim, é claro que os candidatos poderão elaborar previamente suas dissertações sobre os pontos do concurso no pen drive e copiá-las para o rascunho da prova. Parece que é uma facilidade, porém eles deverão digitar tudo de novo, porquanto o arquivo do rascunho é apagado depois da primeira hora de pesquisa. Precisarão copiar das folhas impressas.

Se um candidato simplesmente resolver conectar o pen drive de novo para evitar o trabalho de digitar a dissertação que já teria preparado antes da prova?? Não cogitei essa possibilidade, mas certamente o único funcionário que ficará na sala com as poucas dezenas de candidatos impedirá essa eventual irregularidade.

Em relação à possibilidade de que outrem seja contratado para elaborar as dissertações previamente e, dessa forma, um candidato seja aprovado com uma prova comprada, parece-me que uma farsa desse tipo não se sustentaria nos quarenta e pouco minutos da prova de aula. Do contrário, nossa prova se mostraria menos segura do que o vestibular dos alunos!!

É curioso pensar que o candidato também poderia adquirir de outrem um plano de aula com as projeções respectivas. Ah, a duvidosa natureza humana, que nunca muda... De qualquer forma, ele teria o trabalho intransferível de operar o computador e ler com boa dicção as projeções, o que já o comprovaria apto para o trabalho docente.

Não julgo crível que algum candidato usasse o pen drive irregularmente depois da hora de consulta para colar um capítulo do manual do pai do presidente da banca e atual diretor da faculdade, mais um artigo da ex-diretora, embora versem sobre temas diversos, e apresentasse a colagem como prova sua, e muito menos que gastasse quarenta e três minutos, o dobro dos outros, no momento de leitura oral da prova diante da banca. Evidentemente, professores de verdade perceberiam o plágio, ouso dizer que alguns deles provavelmente estariam na banca e impediriam este erro.

É claro que, se tudo isso ocorresse, mesmo assim a banca permaneceria soberana e continuaríamos a nos julgar os melhores desta parte do continente. Ninguém ostenta melhores relações do que nós.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

A bomba e a posse

 - Vêm uns dezessete presidentes para a posse. No mínimo.

- [resmungos]

- O Diogo está até em depressão.

- [resmungos]

- Será que o Lucas votou no Lula?

- E você tem dúvida?

- Mas ele é tão inteligente... Ele está escrevendo um livro, "Do que os bolsonaristas falavam".

- Falavam?

- Pois é.

- Eu não falo nada perto dele. Não quero acabar nesse livro.

- Ele votou no Lula. Ele fica falando de livro.

- [resmungos]

- Ele votou porque Bolsonaro é contra os homossexuais.

- E o Lula não é?

- Gostou do pão?

- Gostei.

- Viu que prenderam o cara que queria explodir o aeroporto de Brasília?

- É mentira. Não apareceu no grupo.

- Ouvi no rádio.

- [resmungos]

- Fazia tempo que o Lucas não visitava a gente.

- Eu acho que ele fez bem. Sem o aeroporto funcionando, a gente de bem deste país não passaria pelo vexame de quinze presidentes chegarem para a posse de um ex-condenado.

- Mais de quinze.

- Vêm para debochar do Brasil. 

- Muita gente.

- [resmungos]

- A bomba veio do garimpo ilegal na Amazônia.

- Fake news. O garimpo é a lei.

- A rádio disse que ele estava no acampamento do quartel.

- [resmungos]

- Vou pegar o leite.

- Mas eu acho que ele fez bem. O garimpo sempre trouxe o progresso. Sem ele, Minas Gerais não teria recebido tantos escravos. Sem o garimpo, muitos índios estariam até hoje atrapalhando o progresso.

- Parece que duas indígenas se elegeram agora.

- [resmungos]

- Bolsonaro vai para os Estados Unidos. Ou já foi?

- [resmungos]

- Aquele filho já foi. A esquerda diz que ele está querendo fugir. Fugir do quê?

- Da vergonha da posse de um ex-condenado.

- Na posse do Bolsonaro vieram muito menos presidentes. 

- A ONU ficou com inveja do Brasil ter um presidente tão bom.

- Por isso a ONU elogia o Lula...

- [resmungos]

- Parece que o Papa também gosta.

- Os comunistas todos gostam. Eles estão contentes. Rindo da nossa cara. Dizendo que somos burros. Que somos fascistas. Que somos violentos  Eles acham que estão nos xingando.

- Vêm presidentes de vários países comunistas, até da Alemanha.

- [resmungos]

- Eu achava que era a Alemanha comunista que tinha acabado.

- [resmungos]

- Os alemães correram para o lado errado do Muro?

- O problema todo é que aquele merda NÃO SOUBE MEXER NO DETONADOR! COMO É QUE ELE VEM DO PARÁ, QUE AINDA TEM ÁRVORE, ÍNDIO E SEM-TERRA, E NÃO SABE EXPLODIR NADA DIREITO?? FICOU NO ACAMPAMENTO EM FRENTE AO QUARTEL E NÃO APRENDEU A DETONAR BOMBA? OS MILITARES NÃO MELHORARAM NADA DESDE A INCOMPETÊNCIA DO RIOCENTRO?? ELES AINDA NÃO ENTENDERAM O QUE É VIVER NA DEMOCRACIA!!! Era o presente de Natal da nação, Cristo amado, uma bomba só... Deus dos Exércitos, ouvi as mil orações por uma só explosão...

- Calma, o Lucas está dormindo. 

- Bobagem, ele não ouviu nada. Ele vai acordar tarde, ele votou no Lula. Não vai ter nada no livro dele.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Lançamentos: livros de Fabio Weintraub, Ricardo Rizzo e Pádua Fernandes

 


Em 17 de dezembro de 2022, sábado, das 17 às 20 horas, serão lançados meu livro novo de poesia, Assassinato e ascensão do grande escritor (seguidos de Antologia completa), a edição de 20 anos de Novo endereço, de Fabio Weintraub, que foram objeto de uma campanha de financiamento coletivo lançada em outubro deste ano. Levamos dois meses para concluir o processo. A editora Patuá os publicará.



O evento ocorrerá na Patuscada (rua Luís Murat, 40), em São Paulo. Conosco estará Ricardo Rizzo, sobre quem já escrevi algumas vezes, que vem de Brasília e lançará em São Paulo seu mais novo livro de poesia, O excedente, que saiu pela Corsário-Satã.



Agradecemos a presença de todos. Estas são as ligações para os livros:

Novo endereçohttps://www.editorapatua.com.br/novo-endereco-de-fabio-weintraub/p

Assassinato e ascensão do grande escritor (seguidos de Antologia completa)https://www.editorapatua.com.br/assassinato-e-ascensao-do-grande-escritor-de-padua-fernandes/p

O excedentehttps://corsario-sata.minestore.com.br/produtos/o-excedente-ricardo-rizzo


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Nina e Paloma, de Diego Callazans

Li no Koo de Diego Callazans que será publicado, pela 7Letras, o livro de contos Nina e Paloma. Escrevi a orelha, meses atrás, que reproduzo aqui:



Diego Callazans surpreende o leitor deste segundo livro de contos desde a sua estrutura. Dividido em duas partes, “Contos de Nina e Paloma” e “Contos de Nina ou Paloma”, a obra anuncia-se composta de histórias em que aparecem, na primeira seção, as duas personagens do título (a detetive e sua auxiliar) e, na segunda, ou uma ou outra.

Não se trata apenas disso, porém. A primeira parte parece formar uma novela, pois as histórias ganham em ser lidas em conjunto. Todo o livro é atravessado pela tensão entre o conto e a latente forma do romance.

A tensão é reforçada pelos laços que Nina e Paloma mantém com o romance Urinol (2021), com que compartilha personagens, inclusive as que dão título ao conjunto. Ademais, ele confirma a importância das comunidades LGBTQIA+ na obra de Callazans. Paloma é lésbica e sente-se atraída por Nina; Désirée, outra personagem de Urinol que aparece neste livro, é uma mulher transexual.

A nova obra acentua os traços de literatura fantástica. Os crimes que Nina investiga pertencem ao universo do sobrenatural e envolvem espíritos e rituais mágicos. Paloma é moderadamente cética; o último caso em que atua revela a conturbada origem familiar de sua chefe e ajuda a explicar a atração pelo oculto. 

O que dizer dessa matéria da ficção, que desafia os sentidos? O conto “Persona” talvez dê uma chave: “Somente a arte é real o bastante”, em tensão com a fala de Nina em “Sofia”: “não entendo o idioma do Abismo”. O ininteligível, o nome mais compreensível do mistério, pulsa sob a fala. 

“Grimório”, o último conto, corresponde a um dos capítulos de Urinol, e não só pode ser lido autonomamente como se relaciona bem com o conjunto deste novo livro, dando-lhe um final lógico e inesperado. Ele retoma a tensão entre os gêneros literários (conto e romance) e reafirma a presença do ininteligível na imagem do "testemunho de uma voz abissal, que soava diretamente em seus crânios, falando-lhes em uma linguagem inumana", evocada pelos livros em relação aos quais nutrimos a “esperança – vã – de que ninguém os lesse.” 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A rosa do genocídio

A rosa do genocídio,
toda feita de espinhos,
vota na fome,
alimenta-se dos famintos.

A rosa do genocídio
odeia o vermelho,
expulsa essa cor
para fora dos corpos,
para dentro dos ralos.

A rosa do genocídio
acampa diante dos quartéis.
Toda campa
é seu jardim.

Floresce ao inverso:
quando as moscas rodeiam o caule
sentimos enfim seu perfume.
O voo das borboletas
encerra-se sob folhas mortas.

Não sei que forças extrai da terra
a raiz da rosa do genocídio.
Os recursos se esgotam,
os rios secam,
as facas se aguçam,
todas as onças caem
com patas queimadas;
as nuvens tóxicas vestem a pele
também dos que a cultivam.

Suas pétalas, afiadas.
Estúpidos confundem-nas
com a sagração da primavera.
Rejeitam vacinas porque os espinhos
da rosa do genocídio
atravessam mais profundamente a carne.

Os admiradores da rosa do genocídio
não a colhem para vasos
ou arranjos florais.
São colhidos por ela
com bombas, mensagens automatizadas,
fuzis e orações.

Ela não se reconhece como rosa.
Prefere uma imagem mais viril,
como chacinas em creches
e estupros coletivos.

A rosa do genocídio escolhe o deserto;
se a chuva aparece,
ela exige a anulação das eleições.
Chove, outras plantas brotam, porém
ela só reconhece urnas em formato de foice.

Alguns não a reconhecem como flor,
mas como o próprio Messias,
a taxa de juros ou o dedo espetado
ao remendar a bandeira pátria.

Flor é, no entanto,
pode ser arrancada
como todas as outras pragas.


II

Educação a base de instrumentos de poda e agrotóxicos. Doutorado e outros cursos, mera reciclagem do jardim de infância após a chacina, jardim de seixos. Atirados. Ela desensina todas as cores, como se vestir da rosa do genocídio, senão sob diamantes colhidos por crianças escravizadas, eles brilham e desensinam a luz: o sol não se reconhece nestes pequenos espelhos da hediondez. Versão pós-atômica das armas de destruição em massa. A disposição de todos nas melhores lojas.