O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Don Carlo no Municipal de São Paulo sem bots, pneus, detergentes e ETs

Don Carlo (em italiano) ou Don Carlos (em francês, a versão da estreia) de Verdi é uma ópera política: livremente inspirada pelo contexto histórico do Império Espanhol na época de Felipe II, a obra mostra o conflito entre Estado e religião, o liberalismo e o antigo regime, catolicismo e protestantismo, lutas por independência (somente na Europa: o colonialismo nas Américas aparece na ópera anterior de Verdi, La forza del destino), com um trio amoroso que envolve incesto (o baixo, pai do tenor, casa com a soprano, embora tenor e soprano estejam apaixonados um pelo outro) e que, no fundo, é um quadrilha no sentido drummondiano: a meio-soprano e o barítono também amam o tenor: ela decide ir para o convento depois de trair a rainha, mas antes põe em prática um plano de sublevação popular para que Carlo consiga fugir da prisão; ele sacrifica a própria vida para libertar o príncipe com documentos que atraíam para si a responsabilidade pelo movimento contra o domínio espanhol em Flandres (Roger Parker, por sinal, escreveu como o amor de Posa por Carlo, que pode passar por fraternal, está inscrito na harmonia na primeira ária da prisão). Dito isso, Carlo não é realmente o personagem principal, ou aquele para quem Verdi escreveu as melhores árias.

Por coincidência, alguns desse temas guardam muita pertinência a esta vergonhosa campanha eleitoral no Brasil, em que concorre o filho do golpista preso, com a aliança visceral de autoridades neopentecostais com o bolsonarismo e os seus financiadores, alguns deles agora encarcerados, como o "irmão" de Flavio Bolsonaro, o banqueiro Daniel Vorcaro (vejam ou revejam Revelando: Grandes Empresas, Master Negócios). No entanto, se alguém fosse escrever uma ópera sobre isto, teria que ser uma tragicomédia, ou uma opereta como as de Offenbach: o tom sério como Don Carlo parece não combinar com o ridículo estético, político e moral do bolsonarismo. Em comum com a ópera de Verdi, teria que haver uma cena de auto da fé, mas com pneus (objeto de culto, mas também como instrumentos de execução), celulares chamando ETs, brindes com detergente, e a "voz celestial" para os mortos teria que contar com um coro de setecentos mil cantores. Somente a música eletrônica daria conta, bem como dos bots usados pela extrema-direita internacional, a Internacional Fascista, que tem F. Bolsonaro como candidato (assim como os teocratas neopentecostais), para interferir nas eleições da América do Sul. 

Nada da atualidade, portanto, aparece na montagem que o Theatro Municipal de São Paulo recentemente produziu. Eu a vi no dia 23 de setembro: ao contrário do desastre cênico de Tristão e Isolda, apesar de visivelmente ter sido feita com pouco dinheiro, havia uma direção de atores. Caetano Vilela, o diretor cênico, conseguiu contar a história. Pelo que a Folha de S.Paulo contou, parece que a ópera teve que ser montada para evitar multas por rompimentos contratuais. Outros espetáculos foram cancelados pela atual pessoa jurídica que comanda o Theatro, entre eles a ópera Andrea Chenier e o que era o momento mais esperado da temporada, a nova obra de Jocy de Oliveira, Medea e o direito de ser dfierente, que seria montada em programa duplo com um compositor com quem ela trabalhou: ninguém menos do que Stravinsky e o seu Édipo Rei. A compositora nem foi avisada previamente pelo Instituto Baccarelli da decisão; foi um "equívoco lamentável", escreveu Nelson Kunze para a Revista Concerto. Leiam ou releiam a carta aberta de Jocy de Oliveira, que completou 90 anos e merece mais respeito: https://www.instagram.com/p/DcZOL7ZCRd4/

Ubiratan Brasil, na Folha de S.Paulo, em 17 de setembro, criticou de maneira estranha a orquestra do teatro, antes mesmo da estreia, escrevendo que ela, "sob a regência de Roberto Minczuk, ganhou reforço do Coro Lírico Municipal, cuja presença nos quatro atos acentua a dramticidade" (são cinco atos, mas o coro só canta em quatro). Claro que não: a parte do coro já estava escrito por Verdi, ele não apareceu para "reforçar" a oequestra e encobrir as eventuais falhas dos instrumentistas. Também foi isso, contudo: o coro esteve ótimo, especialmente na cena do auto da fé. Mas a regência de Roberto Minczuk, não muito inspirada pela música de Verdi, negou fogo: por exemplo, na parte final de "O don fatale", ária de Eboli, em que a personagem tem a ideia, no dia que lhe resta, de resgatar o príncipe da prisão, não houve a necessária mudança de clima após a parte central, lamentosa, em que a personagem decide ir para um convento. Ana Lúcia Benedetti teve que fazer o trabalho sem apoio da regência, que parecia puxar para trás o tempo. Mesmo assim, recebeu uma ovação do público.

No Municipal do Rio de Janeiro, em 1998, vi Don Carlo com grandes artistas, que estiveram à altura de sua reputação: James Morris interpretando Filippo II, Leona Mitchell como Elisabetta e Giovana Casolla no papel de Eboli. Mas o elenco de 2026 foi o elenco mais homogêneo que vi, sem nenhum ponto fraco, bem diferente da lamentável montagem de 2004 no Municipal de São Paulo. Pena que só consegui ver um dos elencos. Atalla Ayan, imagino, ainda vai crescer dentro do papel título, para o qual ele tem a voz certa: no segundo dueto com a Rainha, por exemplo, ele não fez contraste entre o tom formal do início ("Io vengo a domandar grazia alla mia Regina") e o desabafo de "Quest'aura m'è fatale". A interpretação não teve profundidade e o artista ainda não é realmente um bom ator. A voz possui a robustez necessária para este Verdi: o si agudo do desafio ao Imperador na cena do auto da fé soou realmente desafiador; fiquei imaginando-o em outro papel de tenor spinto, La forza del destino; certamente ele teria se dado muito bem no Chenier que o Municipal cancelou. No dueto final, ele e Aylin Pérez foram sublimes. 

Pérez é uma grande artista: ela não é uma soprano falcon, porém canta belamente o papel (a frase "La pace dell'avel", da última ária, claro, é grave demais para ela, que sabiamente apenas marcou as notas nesse ponto). Sua réplica a Carlo no final de "Io vengo a domandar grazia" foi realmente imperial. Pena que foi cortada metade de sua primeira ária, "Non pianger, mia compagna", em que ela mostrou a beleza de seu agudo piano. 

Esse foi um problema geral: montaram um Don Carlo em cinco atos, em vez de quatro (também uma versão do próprio compositor), no entanto, com cortes: além dessa ária da Elisabetta, foram cortadas pela metade as árias "Nel giardin del bello", da Eboli, e "Carlo ch'è sol il nostro amore", de Posa (no libreto vendido no saguão, os textos foram impressos integralmente). Uma pena, pois ambos teriam cantado muito bem: Benedetti e Paulo Szot foram muito aplaudidos, com justiça. No plano cênico, Szot talvez tenha sido o melhor dos artistas, especialmente no complexo dueto com o rei, em que apresentou suas reivindicações de liberdade contra a "paz dos sepulcros". O trecho "Inaspettata aurora in ciel appar", que pode fazer os barítinos sofrerem ao vivo, foi muito bem cantado. Pena que Szot compartilhe com Aylan a ausência de trinados.

Robert Craft contou no seu Diário (publicado no Brasil pela Difel) como foi ver uma apresentação de Don Carlo com Stravinsky: o gênio russo entusiasmou-se com a obra de Verdi: "Era seu o autêntico espírito de libertà, e ele, não Wagner, foi o verdadeiro progressista, não o Verdi do Risorgimento e do Parlamento de Cavour, mas o compositor do dueto de Don Carlos, que é tão mais palatável do que aquela música Blütbruderschaft, que pessoas gordas, com capacetes de chifres e capas de pele, ficam horas uivando umas para as outras." 

Stravinsky referia-se pouco sutilmente a Wagner e sua música interminável de irmandade de sangue em alemão. Os duetos, em Verdi, são mais ágeis e fazem a história avançar: o confronto entre Abigail e Nabucco, entre Violetta Valéry e Giorgio Germont, Aida e Amonasro, Iago e Otello, Falstaff e Ford... O poder dialógico da música de Verdi apoiava-se no seu poder de caracterizar e diferenciar os personagens musicalmente. Don Carlo é cheio deles; provavelmente Stravinsky referia-se ao dueto que Craft antes menciona, entre o Rei e o Grande Inquisidor, duas vozes de baixo, lamentando que o cantor que cantou esse último fosse fraco.

Ocorreu algo bem diferente no Municipal de São Paulo: Solomon Howard, o Inquisidor deste elenco, tinha a voz mais volumosa do palco e, como é para acontecer, dominou o rei, interpretado por Luiz-Ottavio Faria, no enfrentamento dos personagens no quarto ato, talvez o ponto mais alto da obra, e uma das maiores cenas de todas as óperas. Não uma das mais longas, ressalte-se: no estranho texto de Ubiratan Brasil que mencionei antes, ele acusou o dueto de durar "40 minutos". Em geral, não dura nem dez. a primeira gravação integral da ópera em estúdio, em quatro atos, em 1954, a do regente Gabriele Santini com os baixos Boris Cristoff e Giulio Neri, durou nove minutos e quinze segundos, o mesmo que a primeira gravação em cinco atos, a de Georg Solti, com Nicolai Ghiaurov e Martti Talvela (1965). Décadas depois, em 1996, Bernard Haitink, na gravação da ópera com os baixos Roberto Scandiuzzi e Robert Lloyd, gravou a cena em 9 minutos e dez segundos, a mesma duração da gravação de Karajan com Nicolai Ghiaurov e Ruggero Raimondi (1978); Antonio Pappano, com José van Dam e Eric Halfvarson, 9 minutos e 30 segundos (1996).

Poderia citar outras, inclsuive ao vivo, que seguem o mesmo padrão. Certamente ninguém na história da ópera ousou executar Verdi demorando quatro vezes mais tempo nesse trecho, os músicos (cantores e instrumentistas) fisicamente não conseguiriam. Minczuk não o fez e jamais teria cometido algo assim, grotesco.

Esse dueto, em que se enfrentam Igreja e Estado, termina com a famosa frase de duas oitavas, de fá agudo a fá grave, em que Filippo queixa-se de que o trono deverá sempre dobrar-se ao altar. Luiz Ottavio Faria, claro, esteve à altura desses desafios do papel e da ária que precede o dueto, "Ella giammai m'amò". Sua interpretação deu um toque melancólico bem pessoal para o rei.

Savio Sperandio, Filippo II no elenco par, cantou esplendidamente o Frade/Carlo Quinto no elenco ímpar. Foi um prazer para quem aprecia essa categoria vocal, ver e ouvir tantos baixos excelentes, o que inspirou este vídeo divertido com os cinco desta produção: https://www.instagram.com/p/DdRTBABzHWA/.