O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

domingo, 25 de agosto de 2024

César Braga-Pinto e as dissidências de gênero na literatura brasileira de 1850 a 1950

Saiu na revista 451 uma resenha que fiz, "O arco-íris e a nação", sobre os dois livros mais recentes em português de César Braga-Pinto: o volume de ensaios Poses e posturas: performances de gênero e sexualidade na literatura brasileira (1850-1950) e a antologia de contos O homem que passou por baixo do arco-íris: e outras histórias sobre sexualidades, gênero e dissidência entre 1880-1950, ambos publicados pela Alameda em 2023. São trabalhos fundamentais para rever a história da literatura brasileira, que não pode fugir do reconhecimento da importância dessas representações das dissidências de gênero, que foram mais influentes no Brasil, explica Braga-Pinto, do que na América hispânica.

As duas obras, juntas, somam mais de novecentas páginas. Por isso, tive de cortar alguns trechos para que a resenha coubesse dentro do espaço do periódico. Sacrifiquei Joaquim Manuel de Macedo, Coelho Neto e José Lins do Rego; doeu-me bastante fazê-lo, pois o ensaio sobre Coelho Neto, em especial, é muito esclarecedor. Parte da análise da antologia também teve que ser apagada, inclusive minha lembrança de Diadorim, talvez impertinente. Se alguém tiver curiosidade, e se isto servir para aguçar o interesse pelo trabalho de César Braga-Pinto, eis os trechos cortados:


[...] Com esse tipo de leitura, ele se interessa por autores secundários (que ele reconhece como tal), porém relevantes para o quadro analisado, e também por escritores canônicos (re)vistos por este prisma. [...]
A partir desses autores, o crítico realiza saltos teóricos de longo alcance; no primeiro ensaio, a partir do travestimento das mulheres que tentavam se alistar para lutar contra o Paraguai e o culto aos militares que se destacaram na Guerra da Tríplice Aliança, Braga-Pinto desvenda “uma genealogia da nacionalidade desracializada” e a criação do “protótipo do novo homem republicano” (p. 39), em um “período crítico na redefinição das categorias de gênero e, principalmente, de masculinidade do Brasil oitocentista” (p. 41).
O ensaio sobre Coelho Neto trata da figura do andrógino, que aparece diversas vezes em sua obra, destacando o romance Esfinge, de 1908, que explorou “questões de gênero (híbrido) e sexualidade” “de forma praticamente inaudita” (p. 57). Na comédia O patinho torto, dez anos posterior, com a personagem Eufêmia, que se revela um homem, “as categorias de gênero são atribuídas menos à biologia do que ao costume e à gramática” (p. 68).
[...]
João do Rio “manipula, em proveito próprio, o conceito de imitação, tornando-o um mecanismo de reconhecimento, sobrevivência, aceitação e ascensão social” (p. 168). Nesse brilhante ensaio, Braga-Pinto ainda corrige Davi Arrigucci Jr. e Brito Broca sobre a importância da recepção de Wilde, que ensejou uma “complexa negociação de novos valores estéticos, subjetividades e desejos” (p. 180).
O ensaio sobre José Lins do Rego centra-se no romance O moleque Ricardo e apresenta menos novidades do que os outros do livro; ele termina com uma curiosa tentativa de dirigir o brilhante diretor de cinema Hilton Lacerda para hipotética filmagem do romance, o que parece reproduzir uma postura de scholar a querer guiar os artistas.
[...]
Em outros textos, falei do paradigma da “medicina moral” como dominante no direito urbano brasileiro do fim do século XIX e início do XX. O mesmo se verifica na literatura da época: a partir de um enfoque cientificista, o discurso médico é empregado para legitimar condenações de cunho moral contra as chamadas dissidências de gênero: nos contos, uma personagem feminina de Medeiros de Albuquerque morre simplesmente por experimentar um primeiro orgasmo (e com um homem negro); a homossexualidade é categorizada como “anomalia estrutural’ no “barro humano” (Carlos Vasconcelos, p. 228). As histórias de travestis e transexuais muitas vezes se passam durante o Carnaval, mas, quando se dão fora dele, muitas vezes terminam com a morte violenta da personagem. Seria de se pensar se um romance genial Grande Sertão: Veredas não encontra parte de sua genealogia nesse tipo de literatura que trata de dissidências e gênero.
Braga-Pinto vê com simpatia um conto de Nestor Vitor que começa com um relacionamento amoroso entre dois rapazes, que não recebe condenação moral do narrador; no entanto, ele segue o mesmo paradigma: o personagem principal, depois do relacionamento com o rapaz, vai passando por um declínio social e psíquico; descobrimos que o pai havia enlouquecido. Incorporando a noção de tara familiar, o conto parece uma ilustração das teorias psicopatológicas da época. O conto renegado de Lygia Fagundes Telles, a obra que fecha o volume, significativamente chama-se “Tara”.
[...]


quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Deu Fim

O ângulo de noventa graus

do pau de arara com a parede

assegura o dez por cento

de crescimento do PIB.


A precipitação de duzentos metros

de napalm nas aldeias

assegura o dez por cento

das fardas no garimpo.


-- Nunca falei em bolos. Confundiram com a palavra balas. Elas se multiplicam sobre vocês.


Dois milhões de francos 

para grampos e alicates 

assegura o dez por cento

das malas diplomáticas.


Menos vinte volts

para a cadeira do dragão 

assegura dez por cento

do valor dos fornos crematórios.


-- A ciência provou que o coração bate um milhão e quatrocentas mil e tantas vezes. Depois disso, paralisa-se. Por isso a ginástica acelera a morte, quase como se fosse um economista.


Trinta por cento de fraude

no índice de preços

assegura dez por cento

dos votos no partido governista.


A economia de seis azeitonas

nos jantares empresariais

assegura dez por cento

a mais de desaparecimentos forçados.


-- Se tiverem fome, terão que migrar. Aceitarão até trabalho sem salário e os empresários poderão investir mais. A Economia lida com recursos finitos. Acabar com a fome não tem fundamento científico. Passe o caviar, por favor.


A duplicação de algemas

nas eleições de sindicatos

assegura dez por cento 

dos canapés das multinacionais,


assim como a triplicação 

de granadas na dívida externa

assegura dez por cento

da erudição do economista.


-- O povo deixou de me eleger. Mas jornalistas, políticos da esquerda, professores e editores escolheram-me seu representante perpétuo. A democracia funciona.


A quintuplicação dos ais

assegura há cinquenta e cinco anos

cem por cento do chicote

sobre as domésticas e outros animais.


 -- A democracia funciona.


segunda-feira, 15 de julho de 2024

Subterrâneo do anjo e aniversário de Walter Benjamin

Como 15 de julho é dia de aniversário do filósofo Walter Benjamin (nascido em Berlim, 15 de julho de 1892; suicidado pelos nazistas em Portbou, 27 de setembro de 1940), vou  deixar aqui este poema que escrevi a partir da famosa Tese IX sobre o conceito de história.

Conto por que decidi finalmente abordar o tema, depois de pensar nele por muito anos. Gustavo Silveira Ribeiro me pediu um poema em 2022 para o terceiro número da revista Ouriço com o tema  de "poesia e história". A ideia realmente óbvia que eu tinha era partir de Benjamin, que escreveu tanto sobre poesia quanto sobre história e percebeu a necessidade de entender a história por meio dos poetas, especialmente, mas não exclusivamente, nos seus estudos sobre Baudelaire e Paris.

Ademais, Benjamin escrevia poeticamente, digamos assim, porque evidentemente refletia por meio de imagens. Comprova-o, entre outros textos, a Tese IX, com sua referência ao quadro de Paul Klee (aproveito e deixo aqui a referência a vídeos de Eduardo Sterzi para a revista FronteiraZ sobre poesia e imagem: https://www.youtube.com/watch?v=Qoa1RgwRfHM).



Eu guardei esse motivo do conceito de história por muitos anos em algum escaninho mental, adiando até o o momento em que me sentisse preparado, o que evidentemente jamais aconteceria. Resolvi finalmente enfrentá-lo com o pretexto da encomenda, que enviei no fim de 2022. Continuo com esse motivo; o "Subterrâneo do anjo" foi apenas o primeiro movimento.

Vejam os autores incluídos na revista, lançada em 2024 com o tema, finalmente alterado, da imaginação. Apesar de eu ter tratado de outras coisas, relativas à encomenda original, os editores tiveram a delicadeza de incluir meu poeminha. O próprio Walter Benjamin, que escreveu também sobre imaginação, está lá, por sinal. 

Essa é uma revista que tem muita procura (seus números esgotam, o que não acontece sempre com os periódicos de poesia), mas ainda está disponível para venda. Como o meu poema saiu lá com a formatação errada, deixo-o aqui também.



Subterrâneo do anjo


Pádua Fernandes





I


Na primeira vez em que fui assassinado pela polícia nacional,

a câmara de gás era portátil,

cabia no porta-malas da viatura.

Na primeira vez em que fui cremado pela polícia nacional,

dispensaram a viatura,

o campo de concentração era o meio de transporte para o país.

Na primeira vez em que a polícia nacional dispersou minhas cinzas,

o hasteamento da bandeira dispensou campos de concentração.

Na primeira vez em que a polícia nacional se cobriu de cinzas

a gentil brisa nascida do despir das togas

antes da sauna vespertina

removeu das fardas o pó.


– O poema mente: os editais para a construção de campos de concentração seguiram quase todas as regras, as empresas agroexportadoras em consórcio com os bancos de investimento venceram a concorrência.

– Mas o Ministério Público fez bem quando opinou pela nulidade do resultado, as empresas de seguro saúde têm notória especialização na matéria!

– O pedido de vistas de um Ministro interrompeu o julgamento quando já se tinha formado maioria para que o edital fosse interpretado de acordo com a Constituição: cotas raciais, sociais e de gênero deveriam ser impostas nos campos.


Na primeira vez em que a criança foi impedida de abortar

e a juíza apontou para o crucifixo do fórum

e o estupro celebrou a família tradicional

e a direita lançou campanhas eleitorais com vouchers para granadas

e a juíza perguntou se a criança acreditava em bonecas

que nasciam na barriga das meninas

e a ministra de direitos humanos explicou a felação infantil sem dentes

para os fiéis interessados

e os eleitores cobriam de cédulas a pastora morta durante o culto

até que ela ressuscitasse sob o peso asfixiante

e os juízes vedaram o aborto legal à criança

pois eram competentes para abortar a legalidade,

os escombros da repetição da primeira vez

fizeram sombra ao sol

e alguns se perguntaram

se era só a noite ou o fascismo;

outros, se era só o fascismo

ou o país. 


– O poeta erra: ele escreve como se existisse algo como o nascimento.

– Era melhor que ele não tivesse nascido. Mas isso pode ser remediado.


Na primeira vez em que morreram cem mil

e os liberais trocaram as políticas de saúde pela dispneia,

na primeira vez em que morreram duzentos mil

e os militares torturaram vacinas em nome da segurança nacional,

na primeira vez em que morreram trezentos mil

e o planeta foi considerado oficialmente plano,

na primeira vez em que morreram quatrocentos mil

e drogas para piolho foram enviadas para as aldeias,

na primeira vez em que morreram quinhentos mil

e a imprensa burguesa louvou a direção correta,

na primeira vez em que morreram seiscentos mil

e os parlamentares trocaram covas por votos,

na primeira vez em que morreram setecentos mil

e a bolsa disparava com os índices da fome,

na primeira vez em que morreu um milhão

e os algarismos foram considerados subversivos,

na vez alguma em que ninguém morreu,

jamais a produtividade do sistema político,

dos juros e do mercúrio

que substituiu os peixes nos rios pátrios

desceria a zero.


– Isto nem parece com poesia, ele faz é ativismo do movimento "Todas as árvores de pé", ramificação que brotou do movimento comunista internacional.

– É para derrubar o cara?

– Claro. Os versos sobre os milhões desviados para tratar a disfunção erétil das forças armadas ameaçam a higidez do Estado.


Na primeira vez em que não se via nada que não fosse polícia,

os olhos do capitão úmidos do adeus ao orçamento público

pingavam polícia,

o patrocínio latifundiário para os cantores da trilha sonora da tortura de camponeses

comprava a polícia,

o desaparecimento do boletim de ocorrência

da chacina de mulheres transexuais

ostentava a presença da polícia,

enquanto as gargalhadas do jornalista e do economista com a notícia de mais um estrangulamento de negros

(diminuição benfazeja do défice da previdência, explicou o economista;

este pessoal ruim de bola nem sabe posicionar o joelho em cima de um pescoço, criticou o jornalista),

queriam esconder a polícia.


– Com as escolas cívico-militares, nada disto será lido pelos estudantes.

– Se elas derem certo, eles não lerão mais nada!

– Assim, poderemos economizar a munição para alvos mais importantes, como alunos de cabelo africano.


A primeira vez em que a polícia nacional atirou no menino autista que não disse como se chamava

e as folhas caídas sobre o corpo encontrado uma semana após reproduziam o mapa do Estado,

a primeira vez em que a federação das indústrias inflou patos gigantes nas ruas

e o golpe de Estado era o que se via no espelho dos palácios,

a primeira vez em que juízes pegaram os papéis deixados sob o pau de arara

para ler nas manchas a lei que aplicariam,

ou aquela em que se decidiu pela incineração coletiva para privatizar com higiene os cemitérios,

ou nesta em que o desvio de verbas da educação para estandes de tiro

levou ao monopólio dos prêmios literários por rascunhos de oficina.


– Antes de explodirmos a casa, ele acrescentou: "Não há primeira vez. Que seja abolido o mito da origem". Não entendi.

– Não teve tempo de terminar o poema. Lerdo. A detonação é o espaço do verso.


Também na primeira vez em que a Terra se tornou redonda

assassinos, togas e cruzes se levantaram.



II


Moramos nos escombros.

Resistimos nos escombros.

Somos feitos dos escombros.

Neste país eles chegam até o céu.

Cairemos sobre vocês.


Nem mesmo voando escaparão

pois soterraremos o anjo.



Encerrada a ilusão das asas,

a história poderá começar.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Encontro de exílios: um soldado, o Diabo, Stravinsky e a Bolívia no SESC

Um dos momentos mais esperados da música em São Paulo é o Festival  SESC de Música de Câmara. Neste ano, só pude ver, em 9 de junho, A História do Soldado, peça de 1918 com música de Stravinsky e texto de Charles-Ferdinand Ramuz, que foi tocada por La Sociedad Boliviana de Música de Cámara, regida por Leonard Evers, e encenada por Leonardo Ventura. O texto, apresentado em português, foi adaptado pelo escritor boliviano Gabriel Mamani Magne.

Chamei de peça, mas o que é A História do Soldado? O Kobbé a incluiu em seu dicionário de ópera, embora não tenha canto. O espetáculo original, certamente sui generis, envolve um narrador, atores, bailarinos e um conjunto de câmara.

No SESC, não houve balé e Leonardo Ventura assumiu todas as partes faladas, inclusive o proto-rap que o Diabo deve emitir pouco antes do fim. A adaptação foi muito interessante. Gabriel Mamani Magne transpôs a história de Ramuz para a Bolívia e o Brasil. 

Em verdade, não houve mera transposição, mas metamorfose: o espetáculo começa antes de os músicos entrarem em cena com Ventura trabalhando com uma máquina de costura, sacos de retalhos em volta, e o som toca notícias da Bolívia, especialmente questões sobre o câmbio, tão importante para imigrantes. As projeções no fundo são imagens daquele país. 

O imigrante trabalhava em São Paulo, numa tecelagem; nessa cidade, casos de trabalho em condições análogas à escravidão encontram-se justamente com estrangeiros, muitas vezes em situação irregular no país, e nesse campo de atividade. Leonardo Ventura teve a ideia de enredar-se nos fios da tecelagem, em um efeito visual marcante. 

No fim da música, voltávamos à máquina de costura e aos retalhos e às notícias em áudio sobre a Bolívia. O Diabo vencia, confundindo-se com a dinâmica do capital que obriga os imigrantes a deixarem seus países e muitas vezes os mergulha em condições degradantes de trabalho. 

Na história de Ramuz, o soldado é iludido pelo diabo e fica três anos fora de casa. Neste espetáculo, o imigrante ficou dez anos (em vez de dez dias) e por isso não é mais reconhecido quando volta: tudo mudou na sua terra natal e sua noiva casou-se.

Chegou a ser dito que a escolha de Ramuz provaria a falta de gosto de Stravinsky para a literatura; Celso Loureiro Chaves, nas notas que fez à publicação separada do verbete do Grove sobre Stravinsky (escrito por Eric W. White e Jeremy Noble), menciona a "evidente disparidade" entre o texto e a música. No entanto, a brilhante adaptação de Mamani Magne confere mais concretude à história e a melhora sensivelmente. 

A execução musical foi feliz nos momentos de dança, como no tango, mas não tanto nos de maior violência, com exceção do solo final da brilhante percussionista, Paola Machicado Torres, que representou a vitória final do Diabo. O maestro e colaborador de Stravinsky Robert Craft, em seu diário, contou que Genet dissera a ambos que a voz do compositor lembrava os instrumentos de percussão n'A História do Soldado, o que era uma boa observação. Na ópera "The Rake's Progress", Stravinsky transformaria em música outra vitória do Diabo.

O espetáculo paulista/boliviano, aparentemente tão pouco ortodoxo, fugiu ao espirito do original? O adaptador, no texto do programa, falou de sua experiência pessoal como boliviano que mora no Brasil; ele quis abordá-la porque "Quando li a obra pela primeira vez, só pensei numa pessoa que está cansada de andar e quer volver para a sua terra". "Volver", e não a palavra "voltar"; de certa forma, ao menos no vocabulário, ele não deixou seu país.

Este Festival SESC trouxe muitos músicos bolivianos, o que seria outro motivo para a adaptação. Creio, porém, que, a mudança para a questão do imigrante, embora na América Latina, realmente aproxima o espetáculo de Stravinsky, inclusive em termos biográficos: o compositor russo migrou depois da Revolução de 1917 e teve de morar em diversos países. Em 1918, ele já tinha percebido que não poderia voltar depois de os bolcheviques terem tomado o poder. Ele estava exilado na Suíça. Em 1920, mudou-se para a França, onde ficaria alguns anos. Com a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para os Estados Unidos.

A questão do exílio, na verdade, está no centro dessa peça, mas só fui capaz de percebê-la quando vi este espetáculo em São Paulo. Ele teve a capacidade de aproximar-se de Stravinsky por meio de um deslocamento: transpondo-a para a América Latina, percebi o que sempre esteve lá na obra concebida na Suíça. Trata-se do efeito próprio da poesia: deslocamento de palavras e imagens para ver melhor o que sempre esteve presente, ou passou a estar sempre presente depois de ter sido visto.

Na poesia, o exílio pode tornar-se lugar de encontro; esse foi impacto da renovada História do Soldado  no Festival SESC de Música de Câmara.


P.S.: Eu quase tinha acabado de escrever esta nota quando aconteceu a tentativa de golpe de Estado na Bolívia, felizmente malogrado. Cito a reação de Mamani Magne: "Cada vez que un militar habla de patria cae sangre. Zúñiga habló de patria y dios, la ecuación letal. Hay que cuidar la democracia porque hay que cuidar vidas. No olvidemos que las balas nunca llegan a las cabezas, sino a los más vulnerables".

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Desarquivando o Brasil CC: Uma nota sobre Chico Buarque e censura na ocasião de seus 80 anos

Tive a ideia de escrever esta nota porque, em 19 de junho de 2024, aniversário de oitenta anos de Chico Buarque, o jornalista Evandro Éboli publicou no Twitter um documento da Censura sobre a peça Roda Viva, em que o censor Mario F. Russomano indagava se "Francisco Buarque de Holanda" seria "débil mental". 

A imbecilidade da questão sobre um dos artistas mais brilhantes da história do Brasil refletia bem  o rebaixado estado mental da ditadura militar.

O documento, explicou Éboli, estava exposto no Arquivo Nacional em um banner que o então ocupante da presidência da república, o militar Jair Bolsonaro (outra "página infeliz de nossa história"), negacionista nos planos da ciência e da história, mandou retirar:



As expressões "de baixo calão" que ofenderam os censores tinham sido contribuições de Zé Celso, o saudoso indisciplinador de mentes e corpos, que dirigia a peça. Exatamente por causa das mudanças no texto, a Censura havia decidido voltar a examinar o espetáculo; neste despacho de 25 de janeiro de 1968, o Censor Federal Augusto da Costa explica que "nas seguintes apresentações para o público, as marcações foram acrescidas de novas ideias que ocorreram ao seu diretor no afã de procurar um aprimoramento para o espetáculo, que deram ao mesmo nova dimensão quanto a restrição de idade", sugerindo o limite de 18 anos:



A peça sofreu ataques dos grupos da extrema-direita (Marília Pêra foi espancada grávida em São Paulo pelos fascistas do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, que invadiram o teatro de Ruth Escobar) e acabou sendo proibida. A peça Calabar: o elogio da traição, de 1973, que escreveu com Ruy Guerra, também seria censurada. Em 2018, meio século depois, Zé Celso remontou Roda viva no Teatro Oficina. 

Chico Buarque foi censurado como compositor e dramaturgo, o que é amplamente conhecido. Sabe-se também do exílio de precaução que ele viveu na Itália de 1969 a 1970. Depois de voltar ao Brasil, ele continuava a ser vigiado, inclusive no exterior. Nesta edição de 1973 do Boletim Comunismo Internacional, um documento reservado do SNI, sua viagem à Argentina foi enquadrada como "campanha contra o Brasil no exterior". Passo agora a reproduzir documentos que estão no Fundo DEOPS/SP do Arquivo Público do Estado de São Paulo:



Ele teria dito que "as circunstâncias atuais fazem com que toda a música seja política [...]; toda a música está cumprindo uma função política, na medida em que é utilizada de acordo com planos bem claros." Era a época do chamado "circuito universitário" de apresentação de artistas:



Ele disse preferir essas apresentações à televisão. No entanto, os estudantes também eram um grupo suspeito para a ditadura. Por isso, os agentes da repressão acompanhavam-no. Vejam como o delegado Romeu Tuma (um dos 377 autores de graves violações de direitos humanos segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade) escrevia em código os nomes de Chico Buarque e do MPB-4, querendo saber se tinha havido agitação estudantil e propaganda subversiva nesta apresentação de outubro de 1972:



Não tinha ocorrido nenhuma agitação desse tipo. No entanto, ele era um artista visado: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", ele escreveria no ano seguinte sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide, criado para escapar da marcação cerrada da censura. O Centro de Informações do Exército (CIE) caracterizava o artista em termos de "proselitismo desagregador", "mantendo os estudantes em permanente expectativa política":



Vejam que foram incluídos nessa categoria de artistas incômodos à ditadura Alaíde Costa, Capinan, Edu Lobo, Egberto Gismonti, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Jards Macalé, Marília Medalha, Milton Nascimento, MPB-4, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Trio Mocotó, Vinicius de Moraes e Ziraldo. Bela lista.

Na soi-disant abertura, ele continuava a ser censurado, claro, assim como outros artistas. Em 1977, ocorreu a censura dessa apresentação dele com Bibi Ferreira, Edu Lobo, Milton Nascimento  e MPB-4, todos considerados pelas autoridades como "artistas tradicionalmente contestadores ao regime". A apresentação teve de ser adiada e o local, mudado. 



Trata-se de um informe de 12 de julho de 1977 da Coordenação de Informações e Operações da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Já haviam sido vendidos três mil e trezentos ingressos.

Apesar disso, a ditadura militar chegou a usar sua música sem autorização: "A banda", um de seus primeiros sucessos, com sua letra inofensiva para o regime, foi capturada para incentivar o alistamento militar, o que provocou o protesto do músico. Esta é a notícia que saiu no boletim de março de 1972 do boletim de março de 1972 do "Frente Brasileño de Informaciones", o irônico FBI dos exilados (só no exterior as denúncias deles podiam ser ouvidas, em razão da censura no Brasil), editado no Chile:



Lembro disso porque, meio século depois, na campanha eleitoral de 2022, o membro da família Bolsonaro que os paulistas se acostumaram a eleger como deputado federal se apropriou de "Roda viva", nada menos, para suas redes sociais, em postagem que pretendia que o Brasil estaria sob censura porque bolsonaristas estavam sendo processados!

Chico Buarque, um conhecido apoiador de Lula, processou o político. A magistrada Monica Ribeiro Teixeira inscreveu seu nome na longa história de conflito do Judiciário com os artistas brasileiros indeferindo o pedido sob o insólito pretexto de que não havia prova de que a canção de 1967 era de sua autoria

Vejam o compositor com o MPB-4 defendendo a canção no Festival da Record: https://www.youtube.com/watch?v=3ALZNNUQdYM. Ela ficou em terceiro lugar, depois de "Ponteio", de Edu Lobo e Capinan, a vencedora, e "Domingo no parque", de Gilberto Gil. Em quarto, "Alegria, alegria", de Caetano Veloso. Que ano para a música popular brasileira! Se o Judiciário tivesse memória... O próprio direito à memória encontra dificuldades no campo judicial, problema que já abordei aqui e alhures algumas vezes.

Proposta nova ação contra o deputado federal, o juiz Fernando Rocha Lovisi mandou que a postagem fosse retirada. Era dezembro de 2022, aquele filho do ainda ocupante da presidência já estava reeleito. O estrago que a postagem podia causar, no sentido de ganhos eleitoreiros para o violador dos direitos do compositor, já estava feito, porém.

Curiosamente, em agosto de 2023, o Judiciário reconheceu o abuso mas não determinou indenização para Chico Buarque, embora ele tivesse ganhado indenização em outro processo, contra o Bolsonaro que é senador pelo Rio de Janeiro, que usou sua imagem em postagem em redes sociais.

A ação judicial deve durar alguns anos e não deixa de mostrar que nem tanto mudou no estado mental de nossas autoridades, o que a volta explícita dos militares ao poder, ensejada pelo golpe de 2016, pareceu tristemente comprovar: eles continuaram os mesmos.

Felizmente, pode-se constatar algo semelhante em Chico Buarque: ao contrário de alguns de seus colegas, ele permaneceu fiel a si mesmo ao longo das décadas e nunca "estancou" ou "deixou de cumprir".


sábado, 8 de junho de 2024

Sobre a terra

 


A amiga

com as duas fotos:

o marido

(meu amigo),

e o Sol.


Ela explica:

ele é quem aponta o Sol

e a surpreende

com a notícia

de que ainda brilhe sobre o planeta.


Não sei se a informação é verdadeira,

mas não deixa de encorajar

que o Sol guarde um entusiasmo

raro de encontrar sobre a Terra.


A primeira foto, o amigo jovem:

borrada, envelhecida.

A segunda: as nuvens em ebulição

com a luz por trás.


Meu amigo atrás do tempo,

o Sol atrás das nuvens.

Mas a chuva cairá

para o júbilo das sementes.


As duas fotos tinham a mesma coloração.

Não sei se o Sol imitara meu amigo

ou se foi o tempo que os aproximou,

raros de encontrar sobre a Terra.