O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Sopro a Gaza, de Ricardo Rizzo




Sopro a Gaza (Mórula, 2026) confirma o caráter experimental da poética de Ricardo Rizzo já no plano estrutural: a ambiguidade entre o livro de poemas curtos e o poema longo, destacada por Eduardo Jorge na orelha e Manoel Ricardo de Lima no posfácio, permanece até o fim do volume. 
Há mais, no entanto. A ousadia no terreno das imagens, presente desde o primeiro livro, Cavalo marinho e outros poemas (Nankin, Funalfa, 2002), reúne aqui, em alianças não suspeitadas, lâmpadas de vidro e aspirinas, algas e metralhadoras, nazistas e Nobel de Física, os piores dentes e a metafísica, os Estados Unidos e assassinos de meninos de aventais, a bandeira e o estilhaço, a amiga palestina e as origens da vida no planeta. 
Em regra, os poemas, ou unidades do poema longo, são curtos e cabem numa página só. O primeiro poema, sobre o pó das estrelas, é sucedido pelo que trata do pó que cobre os corpos. é a primeira surpresa do livro, que não deve ser diminuída a uma suposta falta de mediação entre dimensões diversas da realidade porque a poesia, pelo menos a de Rizzo, acontece justamente na desmedida das dimensões do cosmológico e do cosmopolítico.
O genocídio em Gaza perturba o cosmos: "[...] poeira de estrelas organizada/ para olhar a si mesma, e ao nada"; "As horas do dia formam/ covas.". Reconhecemos o mesmo poeta que escreveu o poema "Alpinismo", de País em branco (Ateliê, 2007), com os "movimentos/ através dos quais mantém/ suas mãos presas/ ao planeta." 
Para tratar desse crime internacional dessa maneira tão singular, são evocados antecedentes mais próximos, como o massacre de Deyr Yassim, mas também as Guerras Mundias, a Guerra do Ópio, a República de Vichy. 
Como se trata de um livro contrário ao imperialismo, aparecem os Estados Unidos e suas perdas:

O caixão é uma máscara à sua maneira,
como o são o filho, o estilhaço,
a bandeira.

A palavra Israel nunca é citada, ao contrário de Palestina. O Brasil aparece antes de tudo como poética:

No meio da retina tinha uma pedra.
Objeto imposto.
Check point
entre o clube e a esquina.

"Sou mundo, sou Minas Gerais", dir-se-ia. Duas mineiridades são aludidas, a de Drummond e a do Clube da Esquina. O posfácio menciona as citações do Clube, o que não me parece ser o mais importante, mas a própria poética. Ricardo Rizzo tem algo em comum com o falecido Fernando Brant: uma tensão entre as forças centrípetas e centrífugas das imagens, sempre à beira da dispersão e da perda do referente. 
Neste livro, Rizzo faz este regime de imagens emular os mecanismos da diáspora e da bomba, o que é inesperado e notável. 
Este livro corresponde a uma surpreendente homenagem a um povo vítima de genocídio, apartheid e remoção forçada, neste momento em que os defensores brasileiros desses crimes internacionais ameaçam tomar o poder também em nosso país, concorrendo contra o primeiro chefe de Estado no mundo, Lula, que caracterizou a guerra contra Gaza de genocídio, destacando o massacre de mulheres e crianças palestinas.
Rizzo, atento a essa dimensão particularmente cruel do genocídio (o extermínio das crianças) chegou neste poema talvez ao ponto mais alto deste Sopro, desta respiração que ainda resiste:

Criança Morta, criança morta.
Onde fica a sua casa?
Que cometa levou o seu brinquedo?
Nem os olhos
nem os lençóis
em cima de seu peito
sopram qualquer desejo. Pequena
parada cardíaca do tempo.
Pendem dos drones os intestinos
com que serão tecidas todas as manhãs
por muitos e muitos anos ainda.