Há mais, no entanto. A ousadia no terreno das imagens, presente desde o primeiro livro, Cavalo marinho e outros poemas (Nankin, Funalfa, 2002), reúne aqui, em alianças não suspeitadas, lâmpadas de vidro e aspirinas, algas e metralhadoras, nazistas e Nobel de Física, os piores dentes e a metafísica, os Estados Unidos e assassinos de meninos de aventais, a bandeira e o estilhaço, a amiga palestina e as origens da vida no planeta.
Em regra, os poemas, ou unidades do poema longo, são curtos e cabem numa página só. O primeiro poema, sobre o pó das estrelas, é sucedido pelo que trata do pó que cobre os corpos. é a primeira surpresa do livro, que não deve ser diminuída a uma suposta falta de mediação entre dimensões diversas da realidade porque a poesia, pelo menos a de Rizzo, acontece justamente na desmedida das dimensões do cosmológico e do cosmopolítico.
O genocídio em Gaza perturba o cosmos: "[...] poeira de estrelas organizada/ para olhar a si mesma, e ao nada"; "As horas do dia formam/ covas.". Reconhecemos o mesmo poeta que escreveu o poema "Alpinismo", de País em branco (Ateliê, 2007), com os "movimentos/ através dos quais mantém/ suas mãos presas/ ao planeta."
Para tratar desse crime internacional dessa maneira tão singular, são evocados antecedentes mais próximos, como o massacre de Deyr Yassim, mas também as Guerras Mundias, a Guerra do Ópio, a República de Vichy.
Como se trata de um livro contrário ao imperialismo, aparecem os Estados Unidos e suas perdas:
O caixão é uma máscara à sua maneira,como o são o filho, o estilhaço,a bandeira.
A palavra Israel nunca é citada, ao contrário de Palestina. O Brasil aparece antes de tudo como poética:
No meio da retina tinha uma pedra.Objeto imposto.Check pointentre o clube e a esquina.
"Sou mundo, sou Minas Gerais", dir-se-ia. Duas mineiridades são aludidas, a de Drummond e a do Clube da Esquina. O posfácio menciona as citações do Clube, o que não me parece ser o mais importante, mas a própria poética. Ricardo Rizzo tem algo em comum com o falecido Fernando Brant: uma tensão entre as forças centrípetas e centrífugas das imagens, sempre à beira da dispersão e da perda do referente.
Neste livro, Rizzo faz este regime de imagens emular os mecanismos da diáspora e da bomba, o que é inesperado e notável.
Este livro corresponde a uma surpreendente homenagem a um povo vítima de genocídio, apartheid e remoção forçada, neste momento em que os defensores brasileiros desses crimes internacionais ameaçam tomar o poder também em nosso país, concorrendo contra o primeiro chefe de Estado no mundo, Lula, que caracterizou a guerra contra Gaza de genocídio, destacando o massacre de mulheres e crianças palestinas.
Rizzo, atento a essa dimensão particularmente cruel do genocídio (o extermínio das crianças) chegou neste poema talvez ao ponto mais alto deste Sopro, desta respiração que ainda resiste:
Criança Morta, criança morta.Onde fica a sua casa?Que cometa levou o seu brinquedo?Nem os olhosnem os lençóisem cima de seu peitosopram qualquer desejo. Pequenaparada cardíaca do tempo.Pendem dos drones os intestinoscom que serão tecidas todas as manhãspor muitos e muitos anos ainda.

Nenhum comentário:
Postar um comentário