O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

domingo, 25 de outubro de 2026

Desarquivando o Brasil CCXVI: Dia da Democracia, ou jamais votar pela ditadura que matou Vladimir Herzog

O menino Vladimir Herzog (o Vlado) e sua família imigraram para o Brasil em 1946, depois de terem fugido da Iugoslávia e de terem sido internados em um campo de refugiados na Itália. Ele não foi assassinado pelos fascistas de lá, mas pelos do Brasil durante a ditadura militar. Sua conhecida história é contada, entre outros, pelo Instituto que sua família criou e leva o seu nome: https://vladimirherzog.org/vladimir-herzog/
A mentirosa versão oficial da ditadura em 25 de outubro de 1975 atribuía sua morte a "suicídio". Sua viúva, Clarice Herzog, com os filhos, Ivo e André, que eram menores nessa época, processou a União Federal; o juiz Márcio José de Moraes decidiu em 1978 (ainda sob o governo de Geisel, marcado pelos desaparecimentos forçados) que o Estado brasileiro era responsável pela morte de Vlado.
Esta, segundo a Comissão Nacional da Verdade (volume III do Relatório, p. 1797), é a cadeia de comando da prisão ilegal, tortura e execução extrajudicial de Vladimir Herog, a começar do ditador em plantão, general Ernesto Geisel:



Quando Vlado foi supliciado no DOI-Codi/SP, os presos políticos em São Paulo tinham acabado de preparar uma longa denúncia dos crimes da ditadura que foi entregue ao presidente do Conselho Federal da OAB. Ela continha os nomes e/ou codinomes de 233 torturadores. Aconselho a conhecê-la na publicação da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", para a qual contribuí (nesta ligação, com a capa).
Eles haviam concluído o texto principal; o assassinato foi incluído em post scriptum:


A referência ao famigerado médico nazista não era despropositada, claro. É triste que Herzog tenha fugido da extrema-direita europeia, mas caído nas mãos dos seus equivalentes no Brasil.
Escrevi há alguns anos um livro, Ilícito absoluto, sobre o processo da família Almeida Teles, que conseguiu o reconhecimento judicial de Carlos Alberto Brilhante Ustra como torturador.
Por sinal, um dos presos políticos signatários do Bagulhão, César Teles, foi um dos autores da ação vitoriosa contra Brilhante Ustra.
Jair Bolsonaro várias vezes declarou sua admiração por esse militar e pelo segundo livro que assinou. Uma das várias inverdades dessa obra é corroborar a versão de "suicídio" para o assassinato de Vladimir Herzog. Cito o meu livro:




Lembro que Brilhante Ustra não estava mais no DOI-Codi em 1975. Ele não estava a defender a si mesmo diretamente quando ratificou a versão falsa sobre a morte de Vlado, porém a ditadura a qual ele serviu.
Li o panfleto de propaganda editado como se fosse um livro que Flavio Bolsonaro assinou sobre o pai em 2017. Lá, também o filho mais velho do ex-presidente preso por golpe de Estado professa admiração por Ustra.
Hoje é o aniversário de cinquenta e um anos de seu assassinato sob tortura no DOI-Codi de São Paulo. Neste dia, em homenagem a Vlado, comemora-se no Brasil o Dia Nacional da Democracia. É inquietante que, nesta data em que está a ocorrer o segundo turno das eleições de 2026, que tenha chegado ao fim do pleito um candidato que admire a ditadura que tantos matou. Quem ofende a memória de Herzog ofende a democracia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário