O palco e o mundo
Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".
domingo, 22 de novembro de 2015
Universos paralelos da educação XII: Carta de demissão
A afixação de divisórias para a criação de salas de aula nos espaços que eram de corredores e rampas de cadeirantes mostra como o conhecimento se multiplica mesmo sem janelas.
A ideia de dotar as salas de aula de projetores, acionados através do sistema de informática, e afirmar que deverão ser ligados e desligados para que a entrada e a saída do professor em sala fiquem registradas eletronicamente confere uma esplêndida oportunidade de ensinar Foucault e explicar como as salas de aula cada vez mais se parecem com prisões.
A estratégia de obrigar o professor a ter (ou comprar) e a usar os próprios equipamentos para ligar os projetores da sala de aula representa uma tática formal de comprometer o docente com a instituição, compensada dialeticamente pela possibilidade informal de acesso aos dados pessoais dos docentes armazenados nesses aparelhos.
A orientação de fazer todas as avaliações em múltipla escolha (de quatro opções, pois uma quinta já se avizinharia do infinito), entre outras vantagens, apresenta a mais sublime: a de que o aluno somente precisará reconhecer as quatro primeiras letras do alfabeto, o que é possível aprender em cinco anos de faculdade (uma letra por ano, o último é para revisão do que foi aprendido).
A projeção em sala da prova de múltipla escolha, reduzindo drasticamente as despesas de papel, induzirá a uma cooperação mais estreita entre os alunos e permitirá que terminem a avaliação ao mesmo tempo, acabando com a figura traumatizada do retardatário.
A avaliação dos professores por meio do número de páginas viradas pelos alunos no material de ensino à distância significa atualizar os critérios de mérito acadêmico e reforçar a tese de que hoje a atividade de pesquisa foi racionalizada para o clique em setinhas virtuais.
A avaliação dos professores por meio da análise estatística da média de suas turmas, que não deve ser inferior à média do alunos do curso, explica por que nossa filosofia integra qualidade e equidade.
Permitir que alunos que ficaram com média zero em certa disciplina sejam aprovados pela média das outras significa aprender a realocar recursos, o que é importante para um futuro gestor.
Permitir que alunos que ficaram com média zero em certa disciplina sejam aprovados fazendo uma prova suplementar com um quarto dos tópicos da disciplina significa saber dividir o conhecimento.
A presença de coordenadores disfarçados nas reuniões dos professores com fiscalizadores externos é medida terapêutica que acaba com a ilusão neurótica da neutralidade das avaliações.
O envio de dados criativamente superestimados sobre os professores para os órgãos de fiscalização coaduna-se com a relação entre a(s) verdade(s) e a(s) nova(s) ontologia(s).
A estratégia de alterar a data de começo do semestre letivo na semana anterior ao início previsto e de só divulgar os horários de aula semanas depois de as aulas já estarem ocorrendo obrigará pedagogicamente a comunidade acadêmica a cultivar o valor da atenção.
A estratégia de, poucas semanas antes, antecipar o fim do semestre letivo acaba com as expectativas paranoicas da possibilidade do planejamento e da existência do futuro.
Ocupar diariamente os coordenadores com telefonemas aos alunos ausentes para que evitem a evasão satisfaz a diretriz acadêmica de que, sem aluno, não há mensalidade; sem mensalidade, os gestores não ganham viagem a Miami.
Não novas competências, tampouco novas habilidades, e sim novos manuais de gestão para a velha dominação.
A prática pedagógica de substituir as aulas por projeções de autoajuda e fotos com gatinhos em cima do Código Penal assegura a motivação dos alunos e condiz com a máxima categórica de que educação é amor.
É instigante a criação do concurso da professora mais bem vestida, com o prêmio (para os alunos) de pontos nas provas da elegante docente. Além do reforço de estereótipos de gênero (estratégia fundamental para manter a clientela discente), abre-se outra perspectiva do que significa o mérito acadêmico.
Tornar uma competição jurídica em oportunidade para os professores se fantasiarem e dançarem músicas de apresentadoras de programas infantis traduz a maneira performática de ilustrar o estado do debate do direito nacional.
A apresentação de fotos como trabalho jurídico de fim de curso, ou a ideia de que uma imagem vale por mil leis, ao menos quando as leis nada valem.
Aproveitar a apresentação de trabalhos de fim de curso para demitir professores simboliza a plena consciência do lugar do conhecimento nesta arquitetura de praça de alimentação.
A progressiva substituição de professores por pós-graduandos da própria instituição, além da adequação aos princípios da retroalimentação e da reciclagem, mostra os caminhos possíveis da empregabilidade dos profissionais nela formados.
A progressiva substituição de professores por vídeos e instrutores de ensino, comprova, por meio dos valores reduzidos recebidos pelos instrutores, que o professor é valorizado pela instituição.
O treinamento docente convertido em curso de como segurar microfones e olhar para a câmara em vídeos representa a generosa preocupação da instituição com a reorientação profissional que os professores necessitarão após as periódicas reestruturações administrativas e corte de excedentes.
Em razão de tudo acima elencado, a educação está demitida de nossas instituições. Desejamos-lhe sorte em seus novos horizontes profissionais: nas ruas, nos buracos das ruas, nas pedras no fundo dos buracos das ruas, no lixo que compartilha com as pedras o fundo dos buracos das ruas, acolhendo os tiros e explosões oficiais (ela sempre foi desrespeitosa com as autoridades) no seu corpo generoso e descontente.
sábado, 14 de novembro de 2015
"Onde desaguam/ os rios sem água"
Onde desaguam
os rios sem água,
que vida resiste
nos rios mortos,
para onde correm
os rios imóveis,
seria milagre
andar na superfície
dos rios sem água,
dos rios mortos,
que milagre ou desastre
percorreria
os rios imóveis
sem medo de molhar-se
ou afundar no nada,
haveria outro milagre
senão o desastre
nesses rios que não mais
perguntando incessantes
sem a resposta da foz?
nos hospitais sem água,
encarrega-se da sede
nas escolas fechadas,
entrega às escolas
o arsênio e o mercúrio
que inundam as salas
sem lições de química,
arsênio e mercúrio
ensinam política
e ela vive
da morte dos rios.
(os cavalos
imitam o rio,
arrastam-se
para morrer)
(os peixes
imitam o rio,
imóveis
afogam-se)
(as pedras
imitam o rio
ou o contrário,
impossível saber)
(o rio
imita o oceano,
torna-se deserto,
cada onda
ergue-se
procurando seus semelhantes,
os ossos)
O que resta de sólido,
os rios sem água
desaguam na vida
que resiste.
os rios sem água,
que vida resiste
nos rios mortos,
para onde correm
os rios imóveis,
seria milagre
andar na superfície
dos rios sem água,
dos rios mortos,
que milagre ou desastre
percorreria
os rios imóveis
sem medo de molhar-se
ou afundar no nada,
haveria outro milagre
senão o desastre
nesses rios que não mais
perguntando incessantes
sem a resposta da foz?
– Os índios não existem mais, Ministra?
– Não existem e invadem nossas plantações no meio da floresta.
–O latifúndio acabou no país, Ministro?
– Claro. Agora só temos empreendedores que resistem contra a opressão de camponeses e leis ambientais.
Há algo sólido
no rio tomado
por ferro e rejeitos,
mais sólido que o ferro;
há algo tóxico
no rio naufragado
na correnteza de minérios,
mais tóxico que os rejeitos;
sólido e flui
nas veias do país,
tóxico e alimenta
o corpo do país,
cuida dos pacientesnos hospitais sem água,
encarrega-se da sede
nas escolas fechadas,
entrega às escolas
o arsênio e o mercúrio
que inundam as salas
sem lições de química,
arsênio e mercúrio
ensinam política
e ela vive
da morte dos rios.
– Como ficarão os licenciamentos ambientais, Governador?
– Licenciamento é uma coisa autoritária. A presidenta já explicou que o meio ambiente ameaça a sustentabilidade. O ambiente é que tem que pedir licença para se implantar nos empreendimentos, mas não para a Secretaria do Verde, a Secretaria do Progresso é que vai examinar, e assim vamos criando o equilíbrio entre os sapos e as escavadoras.
– Que plano o governo tem para o fim do abastecimento de água?
– As Forças de Segurança já estão sendo treinadas.
Onde desaguam
os rios sem água
ainda é uma foz,
ou fossa que se abre
garganta da política?
Ela se abre
Ela se abre
dos jornais até o lamaçal,
das mineradoras até o parlamento,
dos dentes afiados até a cárie dos minérios,
do riso das balas
até os rios de sedentos,
as fossas da política abrem-se
e no seu sorriso imenso
os tolos pensariam caber
toda a morte do oceano,
no seu discurso os tolos
confundiriam o continente
com o espaço do desastre,
na sua mordida o desastre
faz sangrar o querosene
entregue ao continente
como se fora vinho.
na sua mordida o desastre
faz sangrar o querosene
entregue ao continente
como se fora vinho.
– Vou explicar a pergunta: que plano existe para o fim do abastecimento de água, já que a barragem da mineradora explodiu e os rios morreram daqui do interior até o litoral?
– Ah, entendi. As Forças de Segurança receberão água durante o trabalho. Não ganharão o vinho que estamos tomando aqui na sede da mineradora, esta mordomia é para as coletivas de imprensa, rá, rá, mas os soldados não deixarão de trabalhar por causa da sede.
– E se a crise continuar?
– A sede é subversiva. As Forças de Segurança estão bem treinadas.
Manganês e alumínio
abririam as bocas dos jornais?
Alimentam-se reciprocamente.
imitam o rio,
arrastam-se
para morrer)
(os peixes
imitam o rio,
imóveis
afogam-se)
(as pedras
imitam o rio
ou o contrário,
impossível saber)
(o rio
imita o oceano,
torna-se deserto,
cada onda
ergue-se
procurando seus semelhantes,
os ossos)
O que resta de sólido,
os rios sem água
desaguam na vida
que resiste.
terça-feira, 10 de novembro de 2015
Desarquivando o Brasil CVIII: A Resistência, de Julián Fuks, e a transição política no Brasil e na Argentina
Em obras de Julián Fuks, não raro a narrativa se deflagra a partir de uma descoberta, ou da busca, de um espaço privado até então desconhecido: é o caso do apartamento em Buenos Aires (e o "trouxeste a chave" drummondiano, em espanhol, também abre a literatura) em Procura do romance (Rio de Janeiro: Record, 2011); o baú escondido em casa (que guarda simultaneamente a vida e a literatura) de seu livro infantil Menina de papel (São Paulo: Iluminuras, 2013, com ilustrações de Thiago Lopes); o João Cabral confinado pela cegueira em Histórias de literatura e cegueira (Rio de Janeiro: Record, 2007); o muro que um personagem resolve construir para isolar-se e morrer dentro de um sótão em Fragmentos de Alberto,Ulisses, Carolina e eu (Rio de Janeiro: 7Letras, 2004), sua estreia.
No romance lançado há pouco, A resistência (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), temos algo de parecido, porém claramente vinculado à história política do continente. O personagem e narrador Sebastián é brasileiro, mas seus pais são argentinos e ele tem um irmão adotivo que nasceu naquele país. Há problemas de relacionamento desse irmão com a família; o protagonista resolve escrever sobre isso e vai fazer a viagem que o irmão não fez, para a Argentina; um dos impasses a que chega é o de entrar na sede das Mães da Praça de Maio (p. 19); seu irmão seria filho biológico de desaparecidos?
Essa questão, bem como o da fuga dos pais, militantes de esquerda, da Argentina para se estabelecerem no Brasil, enquadra esta história na história recente do Cone Sul, das ditaduras militares e da transição política.
É a primeira vez que Fuks, cuja foto vocês podem encontrar neste blogue em passeata do Cordão da Mentira, vestindo a camiseta das Mães de Maio argentinas, em protesto contra a herança da ditadura militar, escreve um romance com tema vinculado à justiça de transição, numa perspectiva em que Argentina e Brasil são comparados, o que já foi objeto, por exemplo, do muito diferente Duas praças, de Ricardo Lísias.
Já no capítulo 7 do livro de Fuks, põem-se em tensão explícita história e memória. A memória que ele detém, no entanto, não é a dos pais, nem mesmo da Argentina, onde ele não nasceu: "Tenho a idade que meu pai tinha aquela época – o bastante para saber que as armas dele não são as minhas" (p. 38). Relembra das conversas entreouvidas sobre o passado militante. Esta memória dos sussurros e dos detalhes incompletos e contraditórios ("Sei e não sei que meu pai fez treinamento em Cuba, sei e não sei que jamais desferiu um tiro com alvo certo", p. 40) que ele não viveu é bem a questão do testemunho do filho.
No livro A literatura e a vida: por que pesquisar literatura?, organizado por Vitor Cei, João Guilherme Dayrell, Michel Mingote e Ferreira de Azara, que deverá sair este ano pela Praia Editora, haverá um artigo meu, "Literatura e Justiça: Julián Axat e os desaparecidos na Argentina", que escrevi a partir de palestra que proferi na UFMG no II SPLIT – Seminário de Pesquisa Discente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (Pós-Lit). O livro recolhe as comunicações do Seminário. Nele, trato brevemente da questão da memória de Julián Axat, membro da organização HIJOS, que congrega filhos de desaparecidos e de mortos pela última ditadura. Um hijo, como Axat, como Emiliano Bustos, que tipo de memória tem da ditadura, visto que muitos nasceram após o golpe, ou eram muito pequenos quando ele ocorreu? Cito uma passagem de meu texto:
No romance lançado há pouco, A resistência (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), temos algo de parecido, porém claramente vinculado à história política do continente. O personagem e narrador Sebastián é brasileiro, mas seus pais são argentinos e ele tem um irmão adotivo que nasceu naquele país. Há problemas de relacionamento desse irmão com a família; o protagonista resolve escrever sobre isso e vai fazer a viagem que o irmão não fez, para a Argentina; um dos impasses a que chega é o de entrar na sede das Mães da Praça de Maio (p. 19); seu irmão seria filho biológico de desaparecidos?
Essa questão, bem como o da fuga dos pais, militantes de esquerda, da Argentina para se estabelecerem no Brasil, enquadra esta história na história recente do Cone Sul, das ditaduras militares e da transição política.
É a primeira vez que Fuks, cuja foto vocês podem encontrar neste blogue em passeata do Cordão da Mentira, vestindo a camiseta das Mães de Maio argentinas, em protesto contra a herança da ditadura militar, escreve um romance com tema vinculado à justiça de transição, numa perspectiva em que Argentina e Brasil são comparados, o que já foi objeto, por exemplo, do muito diferente Duas praças, de Ricardo Lísias.
Já no capítulo 7 do livro de Fuks, põem-se em tensão explícita história e memória. A memória que ele detém, no entanto, não é a dos pais, nem mesmo da Argentina, onde ele não nasceu: "Tenho a idade que meu pai tinha aquela época – o bastante para saber que as armas dele não são as minhas" (p. 38). Relembra das conversas entreouvidas sobre o passado militante. Esta memória dos sussurros e dos detalhes incompletos e contraditórios ("Sei e não sei que meu pai fez treinamento em Cuba, sei e não sei que jamais desferiu um tiro com alvo certo", p. 40) que ele não viveu é bem a questão do testemunho do filho.
No livro A literatura e a vida: por que pesquisar literatura?, organizado por Vitor Cei, João Guilherme Dayrell, Michel Mingote e Ferreira de Azara, que deverá sair este ano pela Praia Editora, haverá um artigo meu, "Literatura e Justiça: Julián Axat e os desaparecidos na Argentina", que escrevi a partir de palestra que proferi na UFMG no II SPLIT – Seminário de Pesquisa Discente do Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários (Pós-Lit). O livro recolhe as comunicações do Seminário. Nele, trato brevemente da questão da memória de Julián Axat, membro da organização HIJOS, que congrega filhos de desaparecidos e de mortos pela última ditadura. Um hijo, como Axat, como Emiliano Bustos, que tipo de memória tem da ditadura, visto que muitos nasceram após o golpe, ou eram muito pequenos quando ele ocorreu? Cito uma passagem de meu texto:
Sarlo critica o conceito de pós-memória, afirmando que o que existem são “formas de memória que não podem ser atribuídas diretamente a uma divisão simples entre memória dos que viveram os fatos e memórias do que são seus filhos”. Se se reservasse o termo para a memória da “primeira geração depois dos fatos”, “a pós-memória é tanto um efeito do discurso como uma relação particular com os materiais da reconstituição; com os mesmos materiais se fazem relatos decepcionantes e cheios de furos ou reconstituições precárias que, no entanto, sustentam algumas certezas”.
No entanto, a obra de Julián Axat é, realmente, um exercício de pós-memória? Ele está realmente a fazer esse tipo de reconstituição da história dos pais, a tornar as difíceis e fragmentárias reconstituições do passado em poesia? Parece-me que não.
[...]
De um lado, a experiência dos hijos permite-lhes dizer que apresentam suas próprias memórias sobre o terror de Estado: o fato de terem perdido os pais e outros parentes, de terem tido, muitas vezes, sua identidade negada ou subtraída marcou-lhes a infância e representa a marca do terror de Estado em sua história pessoal, inscrita nessa história coletiva. Nesse sentido, suas subjetividades também foram configuradas pelo terror, e isso os autoriza a falar como testemunhas diretas da ditadura.
Marcadores:
Direito à memória e à verdade,
Edson Teles,
Ficção contemporânea,
Gênero,
Insurgências,
Julián Axat,
Julián Fuks,
Justiça de transição
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
Desarquivando o Brasil CVII: Ustra e os efeitos da anistia
Li algumas notícias sobre a morte de Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel reformado do Exército, em 15 de outubro. A importância histórica de sua figura é inegável, sublinhada pelo recebimento da Medalha do Pacificador com Palma em 1972, honraria oficial concedida até mesmo a alguns outros dos nomes apontados pela Comissão Nacional da Verdade como autores de graves violações de direitos humanos.
Na grande denúncia de 1975 dos presos políticos no presídio de Barro Branco, com nome e/ou codinome de 233 torturadores, Ustra aparece nada menos do que em primeiro lugar, com o codinome de Dr. Tibiriçá:
O documento, como já escrevi, foi publicado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", com textos de Adriano Diogo (presidente da Comissão), Amelinha Teles (coordenadora), Reynaldo Morano (um dos signatários da carta) e um posfácio meu.
No capítulo 16 do volume I do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), ele está entre os autores de graves violações de direitos humanos, com o número 71. A CNV considerou-o responsável por 45 mortes e desaparecimentos.
Ustra presidiu o DOI-CODI do II Exército (Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna, em 1970, uma espécie de "legalização" da Operação Bandeirante - OBAN) em São Paulo, na rua Tutoia, entre 1970 e 1974. No fim de 1974 foi para Brasília e se tornou chefe de operações do Setor de Operações do CIE, onde ficou até 1977.
Cito agora o capítulo 4 do volume I do relatório da CNV sobre a Escola Nacional de Informações do SNI:
Na grande denúncia de 1975 dos presos políticos no presídio de Barro Branco, com nome e/ou codinome de 233 torturadores, Ustra aparece nada menos do que em primeiro lugar, com o codinome de Dr. Tibiriçá:
O documento, como já escrevi, foi publicado pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo "Rubens Paiva", com textos de Adriano Diogo (presidente da Comissão), Amelinha Teles (coordenadora), Reynaldo Morano (um dos signatários da carta) e um posfácio meu.
No capítulo 16 do volume I do relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), ele está entre os autores de graves violações de direitos humanos, com o número 71. A CNV considerou-o responsável por 45 mortes e desaparecimentos.
Ustra presidiu o DOI-CODI do II Exército (Destacamento de Operações de Informação/Centro de Operações de Defesa Interna, em 1970, uma espécie de "legalização" da Operação Bandeirante - OBAN) em São Paulo, na rua Tutoia, entre 1970 e 1974. No fim de 1974 foi para Brasília e se tornou chefe de operações do Setor de Operações do CIE, onde ficou até 1977.
Cito agora o capítulo 4 do volume I do relatório da CNV sobre a Escola Nacional de Informações do SNI:
O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, após ser comandante do DOI-CODI/II Exército, tornou-se instrutor de operações da EsNI e passou a difundir, para alunos vindos de variados órgãos, as táticas e técnicas empregadas pelo DOI-CODI/II Exército. Assim, os currículos de formação dos cursos A, B, C1 e C2 da EsNI, após 1976, passaram a contar com um módulo específico sobre o DOI-CODI. Em audiência pública da CNV, Ustra confirmou que, quando era instrutor da EsNI, confeccionou apostila sobre "Cobertura e neutralização de aparelhos". Um interrogatório deixava de ser ato formal de tomada de depoimento e passava a ser "graduado de intensidade" quando começavam as sessões de tortura, de acordo com a referida apostila. Os presos eram submetidos a sevícias nas dependências do do DOI e, para garantir que os agentes pudessem atuar mais livremente, os parentes dos militantes eram mantidos desinformados e sem contato com os presos. Os casos relatados na apostila, obviamente, não descrevem torturas a familiares. No entanto, sabe-se que eram largamente empregadas para convencer um preso a falar [...] (p. 120)Segundo as denúncias, ele participava das torturas. Entre os casos, podem ser citados o de Crimeia Alice Schmidt de Almeida, que era militante do PcdoB, e foi torturada grávida (p. 368 do volume I do Relatório da CNV); Eleonora Menicucci, que foi torturada com o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, militante do Partido Operário Comunista (POC) assassinado em 1971 (p. 463 da mesma fonte).
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Lançamento de Cálcio e de Cidadania da bomba em São Paulo
Escrevo esta nota apenas para avisar que lanço neste dia 15 de outubro, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37), em São Paulo, a edição brasileira de Cálcio (poesia, Hedra) e a edição impressa de Cidadania da bomba (contos, Patuá e E-Galáxia).
Na mesma ocasião, serão lançados três livros de poesia que ganharam um edital de cultura da Petrobrás: Treme ainda, de Fabio Weintraub, Caçambas, de Ruy Proença, e Viagem a um deserto interior, de Leila Guenter. Além desses, teremos a tradução comentada de Woyzeck, de Büchner, por Tercio Redondo.
Na contracapa de Cálcio, foram incluídos trechos da recensão de Maria da Conceição Caleiro, no jornal O Público, sobre a edição portuguesa (pela Averno), e da apresentação que Julián Axat fez da edição argentina, publicada por Libros de la talita dorada.
A orelha é de Eduardo Sterzi.
Já Cidadania da bomba tem apresentação de Ricardo Rizzo, "Democracia desertada"; um trecho dela foi para a orelha.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
V Seminário do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais: a academia e a ação coletiva
Participei do V Seminário do Instituto de Pesquisa Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), que ocorreu na Faculdade de Direito de Vitória (ES) entre 22 e 26 de setembro de 2015. Eu havia tomado parte de reuniões preparatórias do Instituto, porém nunca dos seminários.
O IPDMS vai de encontro ao que normalmente se faz no âmbito da academia jurídica, em primeiro lugar por ser realmente um instituto de pesquisa, e a "pesquisa", em faculdades de Direito, ainda é confundida, tantas vezes, com a mera busca de jurisprudência na internet.
Em segundo lugar, por recusar-se a qualquer encastelamento, mesmo nas torres de marfim dos fóruns.
Luiz Otávio Ribas, conselheiro do IPDMS, escreveu no Brasil de Fato sobre a abertura do evento, deixa bem clara essa orientação, enfatizando a pesquisa militante: "Chamada ao compromisso do estudo militante": http://www.brasildefato.com.br/node/33072
Os espaços de discussão aconteceram ao mesmo tempo, e perdi tanto o início quanto o final do seminário, que ainda serviu para o lançamento da plataforma da revista Insurgência. Mesmo assim, gostaria de levantar, sem me estender, alguns dos pontos positivos que consegui perceber:
O IPDMS vai de encontro ao que normalmente se faz no âmbito da academia jurídica, em primeiro lugar por ser realmente um instituto de pesquisa, e a "pesquisa", em faculdades de Direito, ainda é confundida, tantas vezes, com a mera busca de jurisprudência na internet.
Em segundo lugar, por recusar-se a qualquer encastelamento, mesmo nas torres de marfim dos fóruns.
Luiz Otávio Ribas, conselheiro do IPDMS, escreveu no Brasil de Fato sobre a abertura do evento, deixa bem clara essa orientação, enfatizando a pesquisa militante: "Chamada ao compromisso do estudo militante": http://www.brasildefato.com.br/node/33072
Os espaços de discussão aconteceram ao mesmo tempo, e perdi tanto o início quanto o final do seminário, que ainda serviu para o lançamento da plataforma da revista Insurgência. Mesmo assim, gostaria de levantar, sem me estender, alguns dos pontos positivos que consegui perceber:
- O IPDMS leva realmente a sério o fato de que não são apenas os acadêmicos do Direito que produzem conhecimento sobre o Direito, ao contrário de associações epistemologicamente mais adeptas de reservas de mercado, como a ANPUH (que patrocinou isto - vejam a ligação). Dessa forma, havia coordenadores dos espaços de discussão e palestrantes que detinham diplomas em outras áreas.
- O IPDMS leva a sério o propósito científico e político de não se guiar pelos medalhões, contrariando os procedimentos habituais na cultura jurídica brasileira de gerar homenagens ("estudos em homenagem a **", em que o homenageado praticamente não é citado, até porque não haveria nada mesmo a citar) e, assim, substituir o conhecimento científico pelo capital social.
- O IPDMS aceitou trabalhos de graduandos, o que pode perfeitamente ser feito se a avaliação é séria. No espaço de discussão de que participei no seminário, todos eles tinham mérito científico e trouxeram novidades. Essa orientação contraria a política habitual das publicações científicas brasileiras, de (em submissão à burocracia federal e seus parâmetros de avaliação, que eu não seguia quando editor) vedar a publicação a quem não é doutor, ou seja, de trocar a qualidade pelo qualis.
Marcadores:
Amelinha Teles,
Elizabeth Gelin,
Ensino jurídico,
Imaginação jurídica,
Insurgências,
Justiça de transição,
Movimentos sociais,
Sentimentos novos
Assinar:
Postagens (Atom)




