O palco e o mundo


Eu, Pádua Fernandes, dei o título de meu primeiro livro a este blogue porque bem representa os temas sobre que pretendo escrever: assuntos da ordem do palco e da ordem do mundo, bem como aqueles que abrem as fronteiras. Como escreveu Murilo Mendes, de um lado temos "as ruas gritando de luzes e movimentos" e, de outro, "as colunas da ordem e da desordem".

sexta-feira, 3 de março de 2017

30 dias de canção: Amin, Garfunkel e outros pássaros

30 dias de canções

Dia 18: Uma canção na qual você gostaria de ter nascido 

"Curruíra", de Beth Amin e Jean Garfunkel. A música foi gravada no disco "Poesia à toa", creio que de 2009 (o encarte não informa a data de gravação): https://www.youtube.com/watch?v=6pPTz7xZuOw. 
Quando imaginei esta categoria, inspirado no dia do desafio original "canção do ano em que você nasceu", não sabia bem o que escolher. Deveria optar por uma canção que tivesse uma dimensão utópica? Já que a utopia, por definição, não existe, e desejamos que ela nasça...
Creio que "Curruíra" possui essa dimensão, e não é óbvia. Aqui, pode-se ver a compositora interpretando ao vivo: https://youtu.be/8D4Gh1R72DM?t=30m5s.
Joana Garfunkel, cantora que é filha de um dos compositores da canção, gravou-a e escolheu-a para título do seu disco: https://www.youtube.com/watch?.v=CTwgRYyNeeU. Ela e Beth Amin cantam na mesma tonalidade, mas adotam formas diferentes de finalizar a canção.
No vídeo ao vivo, Amin diz que Garfunkel quis letrar a música por ela lembrar "Chovendo na roseira", de Tom Jobim. Eu penso nesta passagem específica da música, e talvez por isso ele tenha escrito o verso da "chuva de verão que dá e passa": https://youtu.be/8D4Gh1R72DM?t=33m23s.
A obra de Jean Garfunkel é bastante conhecida; a de Beth Amin, menos, o que é uma perda para os que apreciam a música brasileira, pois ela pode sustentar a comparação com Jobim.
Esta canção conjuga natureza e poesia, o que é tremendamente atual na atualidade das políticas prosaicas de destruição que tomaram o país e predominam tanto à direita quanto à esquerda, e cujos crimes são premiados por liminares judiciais e aditivos contratuais de milhões ou de bilhões.
Este é o país da devastação.
A canção não trata da degradação, no entanto; sua terra é a daquela dimensão utópica, onde "o medo/ é só mais uma assombração". 
A curruíra, irmã, nessa canção, de Cora Coralina ("E canta tua sina/ Como a Cora Coralina"), é a própria poesia, que sabe que tudo passa, mesmo a primavera e o "frio da alucinação".
A referência à literatura não é nada gratuita, o que às vezes acontece em algumas alusões literárias em música. A referência sustenta-se em razão dos versos de Jean Garfunkel e por Beth Amin ter buscado, já há alguns anos, conjugar sua obra à de poetas brasileiros como Annita Costa Malufe e Álvaro Faleiros, e estrangeiros: Alfonsina Storni e Florbela Espanca.
A terra desta curruíra é a da dimensão utópica, o que significa, evidentemente, que ela pisa nos ares. O animal foi bem escolhido. 
A própria música de "Curruíra", em seu movimento de ascensão, parece querer negar a gravidade, inclusive no sutil decrescendo do final da gravação da compositora, no arranjo de Yaniel Matos. Creio que a vocalização de Joana Garfunkel no final da canção atende a esse mesmo espírito.
Naquele decrescendo, temos o "passarinho": de fato, uma pequena utopia, a de sabermos passar com leveza. Não nasci nela e, se tentar atingi-la, creio que não saberei incendiar o suficiente para o que pede o segundo verso: acender o espaço.


Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
Dias 6 e 12: Paticumbum na infância do ritmo
Dia 7: A Suíte de Caymmi e uma nota sobre o regente Martinho Lutero e o desmanche da cultura
Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
Dia 9: Tom Zé, a felicidade e o inarticulável
Dia 10: Manuel Falla e a dor da natureza
Dia 11: De "People" ao povo e Cauby Peixoto
Dia 13: Baudelaire, Duparc e volúpia
Dia 14: Bornelh, o amor e a alba
Dia 15: Rodgers e Hart e o desejo de arte
Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável
Dia 17: Janequin, ir à cidade que grita


quarta-feira, 1 de março de 2017

30 dias de canções: Janequin, ir à cidade que grita

30 dias de canções

Dia 17: Uma canção em dueto

"Voulez ouyr les cris de Paris" ou, simplesmente, "Les cris de Paris" [Os gritos de Paris], de Clément Janequin, publicada em 1528, uma das mais famosas canções polifônicas da renascença francesa.
Eu não tinha ideia do que escolher para esta categoria. Tantos duetos conehcidos são, na verdade, discursos monológicos divididos entre um cantor e outro. Às vezes, como geralmente ocorre em canções de amor, simplesmente um cantor repete o que o outro já fez, ou cantam em uníssono, ou cantam em terças o tempo todo, o que é tedioso.
Cheguei a pensar em dueto entre voz e instrumento, o que faz todo sentido em nível musical, mas me acusariam de desprezar o elemento literário da canção...
Até que me veio a ideia do dueto, na verdade, do diálogo como estrutura, e pensei que tinha que ir para a polifonia. Na polifonia, em vez do esquema de melodia principal e acompanhamento, o diálogo entre vozes diferentes está na própria estrutura da música.
Entendendo metaforicamente o dueto como diálogo, e o diálogo como procedimento musical, eu deveria ir para a canção polifônica, e a canção polifônica francesa na Renascença é cheia de exemplos divertidos. Ouçam-na com o Ensemble Clément Janequin. Achei apenas a primeira gravação que este grupo (na época, Dominique Visse cantava, mas não o dirigia) fez dessa canção: https://www.youtube.com/watch?v=FiPhbS_ZlRk.
A segunda está no disco "L'écrit du cri", um trocadilho que, literalmente, significa a escrita do grito, incluindo Janequin e compositores contemporâneos. Embora muito interessantes, nenhum deles supera o grande músico renascentista.
"Vocês querem ouvir os gritos de Paris?", perguntam os cantores; ofertas de vinhos, queijos, peixes, um cliente responde que falta dinheiro, outro diz que quer o leite porque está com frio... Com esses diálogos e anúncios, temos, enfim, toda uma cena urbana revivida em nossos ouvidos.
A canção incorpora os gritos dos vendedores de rua; esses anúncios eram regulamentados pelas diferentes corporações, isto é, eles seguiam regras estabelecidas. Os padrões de uma sociedade dividida em estamentos e corporações existiam também para o grito, que era um código, um estatuto e uma arte. Mesmo hoje, podem-se ouvir curiosos gritos para venda em Paris.
Essa paisagem sonora foi tema e material da música. Com a canção recuperando os gritos dos vendedores (não podemos mais saber o quanto há de reprodução e o quanto de invenção nos gritos que Janequin fixou; de qualquer forma, a genial enunciação polifônica é dele), temos um exemplo de diálogo do músico com as ruas, e um procedimento que a poesia no Brasil começou a adotar mais sistematicamente nos anos 1990, com os "arranjos" para vozes de rua na poesia de Alberto Pucheu, como apontei nesta resenha, http://media.wix.com/ugd/91ec05_bcb91091a37e4fdfb897a9e0fcbe4eb7.pd, em que recuperei este trecho que Pucheu não recolheu em livro: "Uma das coisas que mais me provocam é experimentar o quanto de “não-poético”, de cotidiano, de ordinário, a poesia consegue suportar. Talvez se lembrem de “na cidade aberta no 3” e de “Poema para a maior audiência do país”. O primeiro, com vozes de vendedores ambulantes que circulavam no trem e com o aviso de seus destino e horário de partida. O outro, uma disposição de frases que foram ditas no programa do Ratinho por diversas pessoas".
Também vendedores ambulantes... No fim do século XX, ou no início do século XVI, eles fazem parte da paisagem sonora urbana.
Janequin, na última linha , ainda diz, para quem quer ouvir mais desse cotidiano: "Se vocês querem ouvir mais deles, vão então procurá-los!", e o diálogo com o ouvinte termina com uma exortação para ir às ruas da cidade. Este é o caráter social da música dessa época.
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
Dia 3: O céu, o mar, a umbanda
Dia 4: Milton Nascimento e Fernando Brant desarquivando o Beco
Dia 5: Eisler e Brecht, ou é perigoso, se tocado alto
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Dia 8: Nyro, as drogas e o transporte
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Dia 16: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Piazzolla, Trejo e o irrecuperável

30 dias de canções

Dia 16: Uma canção clássica para você

"Los pájaros perdidos", de Astor Piazzolla e Mario Trejo. Trata-se de uma das músicas mais conhecidas do grande compositor argentino. Aqui, pode-se ouvi-la ao vivo com Milva: https://www.youtube.com/watch?v=TXkqkKpQDpk.
A partitura pode ser lida nesta ligação: http://www.todotango.com/musica/tema/2669/Los-pajaros-perdidos/.
Piazzolla estudou para ser um compositor "clássico" (no sentido de não popular) com Nadia Boulanger, que foi um dos maiores professores de música do século passado. Ela lhe disse, ao conhecer o tango que ele fazia, para continuar nesse estilo, campo em que encontrava uma voz individual.
De fato, o músico (compositor ou intérprete), para ser lembrado, precisa dessa centelha própria; por mais perfeito que seja, se compuser ou interpretar sempre à maneira de outrem, não se fixará na memória do público.
Piazzolla acabou também compondo nas formas eruditas (a Suite Punta del Este, por exemplo, termina com uma fuga). E o tango de Piazzolla, justamente por ter causado urticárias imensas nos puristas e nos antiquados (que ainda tinham que conciliar sua rejeição com o fato de ele ter tocado com Carlos Gardel), apontou caminhos novos para o gênero e ultrapassou suas fronteiras: os músicos "clássicos" passaram a tocar Piazzolla.
Já vi um compositor brasileiro, amigo da ditadura, e que nunca teve tanta gente o tocando quanto Piazzolla  (mesmo considerando apenas os "clássicos), ironizar o gênio argentino, dizendo que ele era uma simples "moda", pois sua música não teria estrutura. 
A "moda" está durando algumas décadas e conta com nomes como Gidon Kremer, Emanuel Ax, Anne Gastinel, Artemis Quartet, Yo-Yo Ma, Manuel Barrueco, Jan Vogler etc. A música de Piazzolla, com sua paixão impressionante, continua a receber diversas transcrições e recriações. O tango "Los pájaros perdidos" foi recentemente gravado na voz do contratenor Philippe Jaroussky no disco homônimo do grupo L'Arpeggiata, dirigido por Cristina Pluhar: https://www.youtube.com/watch?v=Xu-oS2tEm5A. A música é alterada, e o final soa como o do madrigal "Con che soavità", de Monteverdi; comparem: https://youtu.be/dsQNtBA8GSU?t=4m7s
O Festival de Ópera de Belém apresentou em 2016 uma cantata com música de Piazzolla e de Gardel, a que foi dado o título "Los pájaros perdidos - O Tempo no Tango", com a cantora mexicana Eugenia León e o maior tenor brasileiro, Fernando Portari. Não recuperei nenhuma notícia sobre as apresentações. Para os fãs da cantora, eis um vídeo em que interpreta a canção: https://www.youtube.com/watch?v=pk7GheJ8ST8
Mario Trejo, em entrevista concedida a Liana Wenner, publicada postumamente pelo Página 12 ("Fundido en el cielo", título que alude a este poema, de 20 de maio de 2012), contou como a canção foi criada:
[Página 12] Amelita Baltar, hace muy poco en un local frente al parque Lezama, contó al público la historia de uno de los tangos que escribió para Piazzolla: “Los pájaros perdidos”. Parece que todo surgió a partir de un encuentro casual en Roma.
[Mario Trejo] –Con Piazzolla éramos muy amigos ya desde finales de los ’50. En el ’71, estando yo en Roma, llegó Astor y me buscó para que le escribiera un tango. Pasamos una tarde en mi departamento, tocando él y escribiendo yo. De ahí salió “Los pájaros perdidos”, que grabó José Angel Trelles. Pero la historia del tema viene de antes. En un diálogo con un amigo, caminando por la playa de Villa Gesell donde había ido a entrenarme para la actuación en Libertad y otras intoxicaciones. Mirando los pájaros le pregunté a dónde iban a morir. El me dijo que no morían, que los pájaros se fundían con el cielo.
Trejo publicou em 2010 um livro com esse título. O poema parte justamente dessa ideia, e cheguei a pensar nessa música para o dia 10 deste desafio, com o horizonte a se tornar metáfora para o irrecuperável. A ideia dos pássaros que vão para o além e se confundem com um céu que "nunca mais poderei recuperar" é assimilada a um amor que terminou. 
Piazzolla diferenciou musicalmente, no esquema A-B-A desta música, a estrofe que traz a referência explícita ao amor. A parte A é retomada com a estrofe dos "pájaros noturnos". No fim, o próprio eu lírico se compara a um pássaro perdido, e sabemos que ele não poderá mais resgatar a si mesmo.

30 dias de canções: Rodgers e Hart e o desejo de arte

30 dias de canções

Dia 15: Uma canção que evoca outras artes

"My Funny Valentine", de Richard Rodgers e Lorenz Hart. São tantas canções que poderia mencionar nesta categoria, que pedi uma sugestão a Fabio Weintraub e ele a mencionou. Logo a adotei, pareceu tão adequada, tão justa.
Trata-se de mais uma canção conhecidíssima. Na década de 1990, lembro de ter lido em uma coluna do jornalista Paulo Francis um elogio a Lorenz Hart, esplêndido letrista, especialmente ao verso "Is your figure less than Greek?", que ele achava o melhor de todos na música popular dos EUA.
A canção foi composta para um musical que nunca vi, Babes in arms, de 1937, e recebeu centenas de gravações desde então. Talvez eu prefira o que o Quinteto de Miles Davis fez com ela, porém, como a letra, neste caso, é importantíssima, indico os estilos tão diferentes de Sarah Vaughan (ouve-se uma sombra de vaia à sublime cantora em Berlim, pois parte do público patrulhava os músicos que não estavam fazendo músicas de protesto contra a invasão dos EUA no Vietnam) e de Chaka Khan, mais recente.
Ambas interpretaram a canção diversas vezes, mas não sei em quantas delas cantaram sua introdução; para ouvi-la, bem como a todo o resto interpretado à maneira de torch song, sugiro Eileen Farrell, que tinha esta outra carreira: https://www.youtube.com/watch?v=Ym5JETLpCnA; e Dolores Duran, com uma delicadeza exemplar: https://www.youtube.com/watch?v=5fEUToYpL98
A canção, tanto no contexto do musical quanto fora dele, é uma declaração de amor a alguém que não tão belo(a) assim (a introdução já o diz), mas que é a "obra de arte preferida" do seu amante (a letra não determina gênero) do jeito como é. A música pede que não mude nada, "don't change a hair for me", "stay, little Valentine, stay" – e na palavra stay a voz deve prolongar a nota. Vaughan fica 12 segundos no vídeo acima indicado e emenda a palavra com o "each day".
"Is your figure less than Greek?" – este verso sugere a escultura grega clássica e suas proporções do corpo humano. Esta canção, em certo nível, é de amor; mas, em outro, trata da arte: se aquele ser humano é "não fotografável" e, mesmo assim, é a obra de arte preferida, creio que a canção parte do correto pressuposto de que a beleza do retratado não significa a beleza da obra; estamos lidando com a representação.
E há o pedido de permanência: stay; não se quer, neste caso, um happening ou body art ou algumas dessas manifestações ou artefatos artísticos temporários. Em vez de bater na estátua para pedir que fale, deseja-se que o ser amado se torne obra de arte, porquanto somente assim ele poderá permanecer, poderá ser considerado belo com todas suas imperfeições – pois ele se tornará, perfeitamente, na representação de si mesmo. 
Um Pigmaleão invertido: em vez da escultura de mulher ideal que se torna humana, um ser humano comum que alguém, por amor, quer tornar em obra de arte. Talvez somente assim a ideia de que todo dia seja um dia dos namorados possa fazer sentido.


Dia 1: Um retrato à beira da razão, de Tom e Chico
Dia 2: Números do trabalho, não da riqueza
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Dia 14: Bornelh, o amor e a alba


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

30 dias de canções: Bornelh, o amor e a alba

30 dias de canções

Dia 14: Uma canção que você gostaria de tocar (ou ter tocado) em seu casamento

"Reis glorios" (Rei glorioso), de Guiraut (ou Giraut, e ainda Guiraud) de Bornelh (ou Borneilh) que viveu aproximadamente entre os anos de 1140 e 1200. É uma das minhas músicas favoritas, e uma canção de alba. Candé, na sua História universal da música, disse que ela continuou célebre até o fim do século XIV, o que é notável para essa época sem imprensa e, muito menos, registros sonoros.
Bornelh parece ter vindo de origem modesta, porém se tornou um dos trovadores mais respeitados. 70 de seus poemas chegaram até nós, mas apenas 4 com a música.
As canções de alba tinham como tema a despedida dos amantes com o amanhecer. A primeira vez que ouvi essa música foi numa apresentação do Ars Antiqua de Paris nos anos 1990, no Rio de Janeiro. Era uma execução bastante lenta, como a que fizeram em estúdio: https://www.youtube.com/watch?v=iG7nJ6KoxCo.
O grupo La Contraclau adota uma interpretação dançante: https://www.youtube.com/watch?v=Zv_jhDNajOw.
Na voz do grande Paul Hillier, do disco Proensa, temos uma outra interpretação: https://www.youtube.com/watch?v=ccBpe0FpHr8.
Dessa música, sobreviveu apenas, e ao menos (de boa parte do repertório medieval, só restou o poema), a linha vocal. Os músicos especializados no repertório medieval veem-se obrigados a criar o acompanhamento, o que talvez já ocorresse na época, isto é, talvez o acompanhamento fosse programaticamente, ao menos em parte, improvisado.
Além disso, os músicos devem adotar suas próprias concepções sobre o ritmo, em razão da notação musical dessa época.
Na época da composição, as fronteiras entre música popular e música "clássica" não existiam e poesia e música andavam de mãos dadas. sobre o impacto decisivo da lírica trovadoresca, cito Eduardo Sterzi, Por que ler Dante (São Paulo: Globo, 2008):
[...] a canção trovadoresca pode ser vista, sem exagero, como a forma originária de toda  a lírica europeia posterior, pelo menos até meados do século XIX, quando o poema em prosa e o verso livre vêm abalar aquele esquema plurissecular (que, no entanto, não se extingue; está vivo, ainda hoje, na maioria das canções populares do Ocidente). E fecunda ainda, para além da literatura (transbordando para as outras artes, para a filosofia, para o senso comum), na medida em que a lírica dos trovadores é uma das fontes principais da imaginação ocidental, ao fornecer-lhe todo um vocabulário do amor e da subjetividade que antes não existia, ou existia apenas de modo incipiente [...]
Trata-se também de uma época em que as culturas islâmicas e cristãs se influenciavam mutuamente (afinal, essa é a própria dinâmica da cultura, e não a da polícia de costumes, hoje adotada por setores da esquerda). Na melodia de "Reis glorios", reconhecemos os gestos da vocalidade da música árabe tradicional. E talvez a própria palavra trobar venha do árabe, leio no texto de Jean-Pierre Canihac ao disco "Reis glorios: L'influence de la musique arabe dans la mythologie occitane" do grupo de Toulouse Les Sacqueboutiers (o barítono Pierre-Yves Binard canta muito bem a canção nesse disco). Segundo leio, Julian Ribera, em 1928, lançou essa hipótese a partir da palavra árabe taraba, que teria como um de seus significados "compor música, entreter por meio de música".
As duas primeiras estrofes do poema, em provençal, querem significar algo como isto:

Rei glorioso, verdadeira luz e claridade,
Deus poderoso, Senhor, se a vós aprouver
Ao meu companheiro prestai fiel ajuda,
Que eu não o vi depois que a noite chegou,
E logo virá a alba.

Belo companheiro, se dormes ou se velas,
Não mais durmas, suavemente levanta,
Que no oriente vejo ascender a estrela
Que traz o dia, eu bem a reconheci,
E logo virá a alba.

A primeira estrofe é do sentinela; a segunda, do amante, que se alternam. Não ousei rimar nem metrificar, mas o original segue o esquema de pares de versos rimados, que se chamava cobas doblas. 
Acho que ninguém percebeu, mas fiz uma paródia séria desse poema no meu Código negro em homenagem ao "glorioso nada".
Voltando à poesia de verdade, Bornelh é citado por Dante mais de uma vez. Na Divina Comédia, ele é referido não como o melhor poeta de sua época; ele seria mais popular, mas é preterido por Arnaut Daniel, o "miglior fabbro".
Trata-se da passagem que mais gosto na Comédia, o XXVI do Purgatório. No XXVI, temos aqueles cujo pecado foi "hermafrodito", mas se arrependeram e, por isso, não foram para o Inferno. Dante comove-se por ver lá Guido Guinizelli, que ele reconhece como mestre dele e de outros melhores. No entanto, Guinizelli aponta para um outro, superior a ele mesmo: Arnaut Daniel.
Cito essa passagem na tradução de Xavier Pinheiro (http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/divinacomedia.html):

— “O que te indico, irmão” — tornou-me terno
(E seu dedo outra sombra me apontava)
Mais primor teve no falar materno.


“Nos versos, nos romances superava
A todos: stultos só dizer ousaram
Que o Limosim aquele avantajava.

“Pelo rumor verdade desprezaram,
E, como arte e razão desconheceram,
Sem fundamento opinião formaram.

“Assim muitos outrora procederam
Com Guittone e o seu nome hão proclamado;
Mas verdade alfim todos conheceram.

“E pois que o privilégio hás alcançado
De entrar nesse mosteiro portentoso,
Por Cristo, como abade governado,

“Um Pater Noster diz por mim piedoso;
Quanto mister havemos neste mundo,
Onde ato algum não há pecaminoso.” —

“Por dar lugar ao spírito segundo,
Já próximo, no fogo desparece.
Qual peixe, quando imerge de água ao fundo.

Acerquei-me da sombra que aparece,
E disse que ao seu nome apercebia
Meu desejo o lugar que assaz merece.

Logo assim livremente me dizia:
— “Tão cortês vosso rogo é, que escutando,
Me encobrir não quisera ou poderia.

“Arnaldo sou, que choro e vou cantando,
Triste os erros passados meus lamento,
E o fausto dia estou ledo esperando.

“E peço-vos pelo alto valimento,
Que da escada a eminência ora vos guia,
Que em tempo vos lembreis do meu tormento.”

E, após, ao fogo apurador se envia.

O "Limosim" que, embora preferido por muitos, seria inferior a Daniel, era Bornelh, que nascera no castelo do Visconde de Limoges. Dante escreve em provençal a belíssima fala do espírito de Arnaut Daniel (para mim, um dos pontos mais altos da poesia), efeito que é perdido na tradução acima.
Dante à parte, leio no guia Fayard da Música Medieval, organizado por Françoise Ferrand, que Bornelh foi considerado pelos contemporâneos como o "maître des troubadours".
Na Comédia, não sabemos para onde foi Bornelh: Bertran de Born está no Inferno, Guinizelli e Daniel, no Purgatório, e Folquet de Marselha, no Paraíso. Prefiro pensar que ele permaneceu em outra esfera, a da Poesia, onde as fronteiras não são tão armadas como as daquele esquema religioso medieval, e cuja ordem não seja do julgamento, com sua tríade condenação/expiação/absolvição, mas a da beleza e de seus ritmos. 
Também prefiro pensar nestes outros termos, os da poesia, no tocante ao meu casamento.


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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Desarquivando o Brasil CXXXIV: O senador não viu os povos indígenas e os camponeses na ditadura

O senador Ronaldo Caiado ontem, no Senado Federal, segundo a checagem da Agência Pública, levou dados falsos sobre terras indígenas à sabatina de Alexandre de Moraes. Coincidentemente, a falta de correspondência com a realidade que vem ocorrendo nessas terras (grilagem, genocídio, etnocídio) atende a interesses do latifúndio, sempre interessado em tomar áreas dos povos originários e ampliar a devastação ambiental.
O desapego em relação à exatidão dos dados publicamente apresentados, mesmo se para fundamentar algo que deveria ser feito com seriedade e cuidado, como a sabatina de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, não é nada incomum na elite política brasileira. Outro exemplo recentíssimo desse desapego foi dado em coluna do senador na Folha de S.Paulo, publicada em 11 de fevereiro de 2017, "O deficit moral do Estado".
O artigo enuncia que todas as crises do Brasil partem da expressão que ele escolhe para título. Como divulgar dados errados não é, para ele, um problema moral, fala dos mortos em três dias na greve da Polícia Militar no Espírito Santo com esta comparação: "basta lembrar que, segundo números da Comissão da Verdade, morreram, ao longo dos 21 anos do regime militar - e na grande maioria dos casos em enfrentamento armado - 434 pessoas, à média de 21 pessoas por ano".
O que o senador quis dizer com "Comissão da Verdade", já que houve, e ainda há, várias no Brasil? Teria sido a Comissão Nacional da Verdade (CNV)? Impossível, pois:

a) A maioria dos casos não foi de "enfrentamento armado", mas de chacinas e execuções extrajudiciais, ilegais mesmo perante o direito antidemocrático da época; aliás, o relatório da CNV reitera o que se sabe há décadas, e tinha sido comprovado pelo Brasil: Nunca Mais; a ditadura inventava "enfrentamentos" e "suicídios" para encobrir as execuções.
b) O relatório fala de 434 mortos e desaparecidos POLÍTICOS, isto é, pessoas que foram consideradas oponentes do governo, o que inclui pessoas da esquerda armada e membros da resistência pacífica. As OUTRAS VÍTIMAS da ditadura, as que foram assassinadas em razão das políticas dos governos militares, são MUITO MAIS, milhares, segundo o próprio relatório da CNV, que o senador não leu ou não entendeu: "foi possível estimar ao menos 8.350 indígenas mortos no período de investigação da CNV, em decorrência da ação direta de agentes governamentais ou da sua omissão. Essa cifra inclui apenas aqueles casos aqui estudados em relação aos quais foi possível desenhar um estimativa. O número real de indígenas mortos no período deve ser exponencialmente maior" (CNV, Relatório, vol. II, p. 205). No caso dos povos originários, trata-se do extermínio para a colonização de terras, criação de usinas hidrelétricas, abertura de estradas e implantação de outros projetos desenvolvimentistas.

Como dizer que os povos bombardeados com napalm para abertura de estradas não foram vítimas da ditadura? Mesmo depois da condenação do Estado brasileiro por genocídio no Tribunal Bertrand Russell em 1980? A própria CNV afirma que não foi capaz de investigar a fundo e avaliar o número das milhares de vítimas dos genocídios contra os povos indígenas cometidos pela ditadura militar. Ademais, reduzir as vítimas das ditaduras ao número dos mortos e desaparecidos entre os oponentes políticos seria de uma desfaçatez adversária de qualquer critério razoável sobre o significado histórico da ditadura, e amiga dos negacionistas que desejam suavizar ou legitimar os crimes contra a humanidade em que aquele regime se baseou.
O senador, obviamente, não leu o relatório da CNV. Uma vez que o nobre parlamentar trata, habitualmente, dos assuntos do campo, e que os latifundiários não criaram uma comissão da verdade própria (assim como a FIESP e as Organizações Globo também não, embora provavelmente tenham muito a colaborar com documentos sobre a ditadura), teria o nobre parlamentar buscado seus números na Comissão Camponesa da Verdade?
Tampouco, pois o relatório da Comissão Camponesa listou 1196 camponeses e apoiadores mortos. Por sinal, em 2013, livro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Camponeses mortos e desaparecidos: excluídos da justiça de transição, feito a partir de pesquisa de Gilney Amorim Viana, que já trazia a lista dos 1196, mostrando que o governo tutelado pelos militares encabeçado por José Sarney não fez a violência no campo diminuir: "E o que é mais impressionante, o padrão da repressão política no campo, medido pelo indicador de mortes e desaparecimentos forçados de lideranças camponesas, continuou em crescente durante a transição civil, de 1985-1988, atingindo mais de 45% dos 602 casos selecionados".
Qual foi a fonte do senador? Teria sido o Dossiê Ditadura:  Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985) da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos? De forma alguma. O livro, que pode ser lido na sua edição mais atualizada no portal da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo 'Rubens Paiva" (para a edição de 1995, ver o DHNet), apresenta o número de 436 mortos e desaparecidos políticos:
Na versão revista e ampliada do Dossiê que ora apresentamos, estão reunidas as informações coletadas durante as pesquisas, as conversas e a troca de correspondência com parentes, amigos e ex-presos políticos. Passados 30 anos da edição da Lei de Anistia, a soma atinge 396 pessoas no Brasil, sendo 237 mortos e 159 desaparecidos políticos. Desde 1996, novas investigações obtiveram informações de mais 69 pessoas. No exterior, há 30 casos, incluindo os mortos em decorrência de sequelas da tortura ou de acidente no exílio. Além disso, há 10 pessoas que morreram antes do golpe de 1964, totalizando 436 nomes. Esse número pode aumentar, pois não foram esgotadas todas as possibilidades de pesquisa e investigação, tais como as realizadas nos arquivos do antigo SNI, hoje parcialmente disponíveis ao público no Arquivo Nacional.
Alguns desses nomes não foram pesquisados pela CNV a qual, por sua vez, acolhe alguns que não estão nesse Dossiê. Por sinal, quando foi anunciado que a CNV apresentaria apenas 421 casos (depois, houve uma ampliação), a Comissão "Rubens Paiva" protestou em ofício de 7 novembro de 2014 (que pode ser lido no anexo da introdução do Relatório daquela Comissão):
Esclarecemos que nossa discordância se deve ao fato de que, desde 2009, quando houve a publicação do já mencionado Dossiê Ditadura, produzido por esforço e empenho exclusivamente dos familiares de mortos e desaparecidos políticos, sem nenhuma ajuda do Estado, seu conteúdo nunca foi contestado por nenhum órgão estatal ou da sociedade civil e nem sequer por qualquer agente da repressão citado no livro. É inadmissível que caiba à Comissão Nacional da Verdade, criada com o objetivo de esclarecer as graves violações de direitos humanos e colaborar com o processo de reparação às famílias, o papel de ser a primeira a questionar e a descartar, ao invés de investigar profundamente, os casos relatados e descobertos com grandes sacrifícios pelo movimento de familiares em nosso país.
É necessário reiterar que, em reunião com o então coordenador da CNV, Pedro Dallari, foi acordado expressamente tanto com a Comissão de Familiares e quanto com a Comissão “Rubens Paiva” que se partiria do universo de casos do Dossiê dos familiares para aprofundar as investigações e ampliar a categoria de vítimas, com a ressalva de que nenhum caso seria ignorado de forma a não reforçar a recorrente política de esquecimento que o Estado Brasileiro impõe aos mortos e desaparecidos políticos desde o período da ditadura. Esse compromisso foi selado e reafirmado em diversas oportunidades, inclusive quando a Comissão Nacional da Verdade recebeu, em Audiência Pública realizada em São Paulo, na data de 14 de março de 2014, simbolicamente, um exemplar do Dossiê.
Vale mencionar que ainda há casos como o de Gerosina Silva Pereira e o de Ângelo Pezzuti da Silva que já foram reconhecidos pela Comissão de Anistia por estes terem sido executados por agentes do Estado. É um retrocesso questionar a veracidade destes fatos já reconhecidos oficialmente. 
Na introdução do relatório da Comissão "Rubens Paiva", por sinal, temos uma avaliação das possibilidades de quantificação das milhares de vítimas da ditadura militar. Provavelmente, nunca teremos o quadro completo:
Conforme apuração que consta no Dossiê publicado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, as violências atingiram cifras muito elevadas no Brasil: mais de 50 mil presos nos primeiros meses depois do golpe, 436 mortos e desaparecidos políticos no Dossiê de Familiares, uma quantidade não determinada de índios, 10.034 pessoas submetidas a inquérito e 7.376 indiciadas por crimes políticos, 130 banidos, 4.862 cassados, 6.952 militares atingidos, 1.188 camponeses e apoiadores assassinados, 4 condenados à pena de morte (que foi comutada; a ditadura executou vários, mas sempre fora da lei) e milhares de exilados.
Esses números foram ampliados nos últimos anos. Em relação aos povos indígenas, as estimativas apontam para, no mínimo, 8350 mortos e desaparecidos, configurando o crime de genocídio. A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, no estudo Camponeses Mortos e Desaparecidos: Excluídos da Justiça de Transição, apontou o número de 1196 camponeses e apoiadores. Apenas uma pequena minoria das vítimas no campo e dos índios foi oficialmente anistiada.
Apesar de elevados, esses números não oferecem a completa dimensão das violências que foram praticadas pela ditadura militar brasileira, um regime político que sistematizou a prática de crimes contra a humanidade e disso dependia para subsistir. Em primeiro lugar, porque é impossível compreender apenas com estatísticas a gravidade e a herança de violências de um regime autoritário e sua persistência no presente. Em segundo, o próprio caráter arbitrário das ditaduras esconde o número real das violações de direitos humanos, pois muitos casos anônimos não figuram nas listas existentes sobre esse tema.  
Parece-me, portanto, que o senador não se baseou em nenhum estudo sério ou atualizado sobre o assunto, o que é muito decepcionante, levando em consideração as graves atribuições e competências de um senador da república. Além disso, é intrigante que o senador não tenha lido o relatório da CNV, uma vez que ele é citado no documento; por exemplo, aqui:
Liderada pelo médico Ronaldo Caiado, de tradicional família de fazendeiros e políticos de Goiás, e pelo pecuarista Plínio Junqueira Júnior, a UDR foi criada nesse estado a partir da movimentação dos grandes proprietários da região em oposição ao PNRA. Tinham como objetivo inicial prestar auxílio legal a seus associados para evitar a desapropriação de seus imóveis, pela nova legislação. No entanto, a versão divulgada pelos movimentos sociais de trabalhadores rurais dá conta de atividades muito distintas. Eles denunciam o envolvimento de seus sócios com “compra de armas e a formação de milícias privadas para enfrentar, violentamente, as ‘invasões’ de terra”, estratégia adotada pelos trabalhadores rurais após a formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). (CNV, Relatório, vol. II, p. 142).
Talvez lhe interessassem as referências sobre a UDR no Relatório, como esta:
Tal posição do Estado diante dos conflitos pela terra, sempre em apoio aos grileiros e grandes proprietários, criminalizando sistematicamente as tentativas de resistência de posseiros, estende-se até o final do período das investigações atribuídas à CNV: o ano da Constituinte Democrática de 1988. Foi quando a democracia incipiente do governo Sarney, aliado aos governos dos estados de Goiás, do Pará e do Maranhão, deu seu consentimento tácito às ações armadas comandadas pelos membros da UDR (União Democrática Ruralista), criada por fazendeiros de Goiás, mas que logo se expandiu para todo o país. A UDR foi o agente ideológico e o articulador político da violência do latifúndio que, em defesa de suas terras, passou a fomentar de forma sistemática e organizada a violência no campo, promovendo assassinatos de posseiros, sindicalistas e advogados de causas dos camponeses. (CNV, Relatório, vol. II, p. 94).
De qualquer forma, apesar da evidente deficiência teórica do senador nesse assunto, fica algo de inexplicável no seu esquecimento dos camponeses e dos índios entre as vítimas da ditadura (o que eleva o número para a ordem dos milhares, embora não saibamos quanto), tendo em vista o interesse do nobre parlamentar pelas coisas do campo.
Seria de bom alvitre que ele propusesse, em vez de uma investigação contra a Imperatriz Leopoldinense pelo fato de a Escola de Samba estar apoiando os povos do Xingu, que ele propusesse uma CPI sobre o genocídio dos povos indígenas e outras sobre a grilagem de terras no
Cerrado, na Amazônia, no Nordeste...
Creio que essa iniciativa serviria até mesmo para melhorar a imagem do país, recentemente manchada com a criminalização da ciência pelo Congresso Nacional brasileiro. A chamada CPI da Funai e do Incra está mirando a Associação Brasileira de Antropologia, razão pela qual assinei, e convido a assinar, esta petição de apoio à ABA.
Depois de fazer a sugestão ao senador, termino lembrando que o monumental erro que ele cometeu, pretendendo que as vítimas da ditadura foram apenas os oponentes políticos, ignorando o caráter genocida da ditadura militar, já foi feito por vários outros, inclusive especialistas em justiça de transição, mas especialmente a imprensa. Uma pequena lista:

  • "Segundo as estimativas atuais, a ditadura brasileira causou cerca de 358 mortes, enquanto na Argentina, por exemplo, certas estimativas indicam 30 mil mortos e desaparecidos." (MASQUES, Teresa C. S.; ARTURI, Carlos S. O exílio enquanto um mecanismo de exclusão política durante o regime militar no Brasil. In: GALLO, Carlos Artur; RUBERT, Silvania. Entre a memória e o esquecimento: estudos sobre os 50 anos do Golpe Civil-Militar no Brasil. Porto Alegre, Deriva, p. 155-169, 2014, p. 160).
  • "A segunda mentira é a de que a repressão militar levou à morte de milhares de opositores. Entre combatentes da guerrilha, mortes nas prisões ou desaparecimentos, foram 429 os opositores que perderam a vida, conforme Fernão Lara Mesquita mostrou em recente artigo publicado no Estado." (Ives Gandra da Silva Martins. As mentiras 'verdadeiras'. O Estado de S. Paulo, 19 abr. 2014. http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,as-mentiras-verdadeiras-imp-,1155907).
  • "Depois de dois anos e sete meses de trabalho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirmou, em seu relatório final, 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no país. Entre essas pessoas, 210 são desaparecidas." (Agência Brasil. Comissão reconhece 434 mortos e desaparecimentos durante ditadura militar. 10 dez. 2014. http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2014-12/comissao-reconhece-mais-de-200-desaparecidos-politicos-durante)
  • "The 4,400-page publication stands out as among similar efforts in other countries. It names 377 individuals as responsible for 434 political murders and disappearances."  (The Economist. The final reckoning. 13 dez. 2014. http://www.economist.com/news/americas/21636059-investigation-human-rights-abuses-names-culprits-far-too-late-final-reckoning)
  • "In the end, the commission confirmed that the Brazilian state was responsible for at least 191 deaths and 210 disappearances during that period. (It also located the remains of 33 people who had previously been classified as missing.)" (Kathryn Skkink, Bridget Marchesi. Nothing but the Truth. Foreign Affairs. http://www.iri.usp.br/documentos/2015.02.26%20-%20Foreign%20Affairs%20%28EUA%29-%20mat%C3%A9ria%20sobre%20a%20CNV.pdf)
  • "No Brasil, a Comissão da Verdades listou 434 vítimas (apenas mortos e desaparecidos) em seu mais recente relatório, de dezembro de 2014." (Luciana Dyniewicz, Mariana Carneiro. Argentina ainda discute número de vítimas da ditadura militar. Folha de S. Paulo, 1o. fev. 2016. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/02/1735938-argentina-ainda-discute-quantas-foram-as-vitimas-da-ultima-ditadura-militar.shtml)